apontados como meio que um casal modelo, um casal que é visível, que é o T e o E, isso sempre me deu um pouco de medo, porque acho que nós precisamos ter a nossa intimidade, precisamos ter o nosso espaço. É um peso quando alguém falava: “Vocês são modelos”, é
um peso que está colocando aí porque temos que ter o espaço para errar, precisamos ter espaço para não ser modelo pra ninguém.
[...] Mas colocam uma responsabilidade que não é legal, não é legal, porque a gente precisa ter o nosso tempo e também agora temos cinco anos que pelos padrões de lá (Bélgica) é pouco tempo de duas pessoas estarem juntas.
[...] Então acho que isso é uma coisa que a gente tem que viver com isso, mas também tentar haver um distanciamento disso pra não se deixar envolver de uma forma que seja difícil de levar para nós.
Por outro lado, a questão de ser um sujeito político, para mim, vai muito no sentido daquilo que estava falando com os vizinhos, ou agora eu me lembrei de um exemplo que é o que acontece direto de ir na locadora para me cadastrar e cadastrar o nome do E e colocar na ficha a relação, qual é a relação com essa pessoa, eu coloco companheiro, aí a pessoa, quando está digitando no computador, fala: “Ah, eu coloco como amigo?” “Não, coloca companheiro”, que é aquilo que está escrito ali, então você tem que insistir, você tem que lutar! Isso acho que não tem nada de ser modelo, não ser modelo, isso faz parte da
necessidade de ocupar o nosso espaço e acho que é necessário insistir porque é por lealdade para conosco e aí se torna ato político, porque está na sociedade, está nas relações com as pessoas, e você precisa colocar isso para, exatamente, exigir um respeito básico, porque se não você começa com uma coisa pequena, parece que não é nada: “Pode colocar amigo ali”, e não traduz a verdade, e você está deixando que as pessoas não respeitem essa construção [...].
A visibilidade do casal enquanto militantes contribui para que sejam freqüentemente apontados como modelos e chamados a contar a experiência de vida na mídia. Isso traz certo desconforto, pois os mesmos desejam ter espaço suficiente para desfrutar de sua intimidade, bem como para vivenciar acertos e erros, o que é constituinte do processo de construção da vida a dois. Além disso, consideram que o tempo que possuem de união é pouco – cinco anos – para que sejam tidos como referência para outros. Este é um momento único e indivisível.
T continua) Eu acho que nós temos uma situação que é a situação que também construímos para a nossa vida, uma situação relativamente privilegiada. Porque nas nossas atividades, no trabalho que fazemos, nossos estudos, temos condição de sermos assumidos em tudo que fazemos, temos, de certa forma, a força, a maturidade de nos assumirmos em diversas situações, então acaba criando uma situação que é mais difícil ser atingido por esse tipo de sofrimento. Eu acho que, por exemplo, aquilo que o E mencionou do hotel é algo importantíssimo. Por exemplo, você e seu marido irem ao hotel e pegarem um quarto duplo com camas separadas porque não tem condição de pleitear uma cama de casal [...] só porque não conseguem colocar essa exigência de uma forma clara, com poder suficiente [...] de certa forma, não tem aquela tranqüilidade: eu fiz minha reserva, vou chegar no hotel e vai estar tudo tranqüilo, você tem que estar firme, não precisa brigar, não precisa, não tem situações extremas, mas tem aquela coisa que você sabe que tem que estar firme, é um
enfrentamento de alguma forma, mesmo que você já tenha uma
eu acho que isso você poderia dizer que é um sofrimento ético-político, porque é uma coisa que não precisava ter, em determinados
momentos você tem que estar com todos os sentidos acordados para enfrentar a situação.
As colocações de E são complementadas por T quanto às considerações de se sentir sujeito político, apontando inclusive situações corriqueiras do cotidiano, que são: garantir na locadora que esteja descrito que o vínculo é de casal; garantir que ao se hospedarem nos hotéis possam solicitar o quarto de casal, sem que haja constrangimento ou que precisem fazer uma exigência, afinal T considera que explicitar a relação trata-se de garantir a honestidade consigo mesmo e exercer o papel de sujeito político, exigindo o que considera seu direito e o respeito das pessoas.
Complementando os apontamentos de T, Sader (1988, p.29) afirma que: “a luta social aparece sob a forma de pequenos movimentos que, num dado momento, convergem fazendo emergir um sujeito coletivo com visibilidade pública.”
Não existe, porém, a ilusão de que o posicionamento descrito pelo casal seja uma tarefa fácil e conte com a habilidade da maioria, tanto dos casais como das próprias pessoas que trabalham nos diversos serviços, pois é possível que estes últimos nem sempre estejam preparados para atuarem profissionalmente de forma a eliminar, pelo menos, expressões que indiquem alguma forma de estranheza, caso não possuam uma aceitação pessoal em relação à orientação sexual dos que utilizam os serviços, evitando ou diminuindo situações embaraçosas e de enfrentamento pelos casais.
Para T é nítido que a condição de militantes e, portanto, assumidos, garanta uma posição privilegiada, como ele mesmo já colocou. A consciência quanto ao posicionamento político e a questão da maturidade são outros indicadores de força para enfrentamento de diversas situações, e, assim, acredita que estão mais distantes da possibilidade de serem atingidos por alguma forma de discriminação nestas circunstâncias, mas crê ser verdadeiro o enfrentamento em situações como
as exemplificadas, que exigem maior disposição para sua solução, o que é menos confortável e menos fácil do que deixar como está.
Conclui-se que aqueles que, porventura não sejam militantes ou não possuem tanta segurança, se depararão com inúmeras possibilidades de ocorrências, como as que foram expostas, precisando de maior disposição para o enfrentamento.
P) Isso acontece em inúmeras situações, como compras,