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O intercâmbio entre os pesquisadores de diversos países, bem como a velocidade com que vem circulando a produção do conhecimento no campo dos estudos do lazer, do ócio, de la recreación e do tempo livre, conforme entendimento de cada país, tem desafiado aqueles que tinham no modelo de conhecimento Grécia-Roma-Europa, parâmetro e ponto inicial para explicar as práticas culturais de lazer das sociedades contemporâneas.

Recentemente o pesquisador Ricardo Ricci Uvinha40, afirmou que o sociólogo Francês Joffre Dumazedier, que é um dos pesquisadores que mais contribuíram e influenciaram o campo de estudos convencionalmente chamado de sociologia do Lazer no Brasil, quase não é citado por seus pares de língua Inglesa com publicações importantes em países como Reino Unido, Austrália e Estados Unidos da América. Este fato desafia e estimula os pesquisadores brasileiros a (re) pensarem novas possibilidades teóricas para o campo de estudos do lazer.

Em Minas Gerais, pesquisadores do grupo de pesquisa Otium/UFMG, tem problematizado a visão eurocêntrica da produção do conhecimento, que colonizou

37 KANITZ, R. Capoeira de Angola na Favela: Juventudes, sentidos e redes sociais. 2011.

38 MALHEIROS, Juventudes, bares e Escola: Um Estudo das Relações dos Alunos do CEFET – MG

e Espaços de Lazer. 2011. 39

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os estudos do lazer em toda a América Latina. Segundo eles “a colonialidade do saber é uma das formas mais perversas e eficientes de garantir a perpetuação do jogo de poder que mantém as desigualdades socioeconômicas e geopolíticas verificadas em nosso planeta” (GOMES; ELIZALDE, 2012, p. 88)

Destacamos inclusive que a cidade de Belo Horizonte é fruto deste colonialismo do saber de inspiração europeia, conforme apresentamos no capítulo 3. Assim, antes de pensar o lazer como uma problemática urbana, conforme sugere Marcellino (2008), é importante levar em consideração as ponderações anteriores, para que possamos avançar na produção do conhecimento e não ficar na retórica/repetição do que foi produzido por autores em outros contextos sociais, políticos, históricos, ambientais e culturais.

Marcellino (2008), afirma que os estudos do lazer, no mundo ocidental moderno, nasceram e ganharam impulso com o processo de urbanização, e que o lazer, tal como o conhecemos hoje, é uma problemática tipicamente urbana.

O lazer é uma problemática tipicamente urbana, característica das grandes cidades, porém ultrapassa suas “fronteiras”, uma vez que grandes centros urbanos levam essa problemática com as mesmas características, por meio da mídia, para outras regiões do país, nem tão grandes nem tão urbanizadas (MARCELLINO, 2008, p. 133)

A questão do lazer ultrapassando as fronteiras da cidade, indo aos lugares mais longínquos nos remete ao que MONTE-MOR (2006) chamou de urbanização extensiva. Ou seja, dificilmente na contemporaneidade existem sociedades que não são influenciadas pelo modo de vida urbano.

Nelson Carvalho Marcellino é um dos autores brasileiros que mais produziu conhecimento sobre o campo de estudos do lazer, conceitua-o como cultura vivenciada no tempo disponível em busca da satisfação.

“Cultura - compreendida no seu sentido mais amplo, vivenciada (praticada ou fruída) no “tempo disponível”. É fundamental como um traço definidor o caráter “desinteressado” dessa vivência. Não se busca, pelo menos basicamente, outra recompensa além da satisfação provocada pela situação. A disponibilidade de tempo significa possibilidade de opção pela atividade prática ou contemplativa” (MARCELLINO, 2008, p. 133)

surge inicialmente em contraposição ao trabalho, mas seu surgimento vem com a nova divisão dos tempos sociais provocados pela Revolução Industrial, onde os povos foram arrancados de seus modos vivendis tradicional antes “ditadas pelos ciclos da natureza, e legitimada por um calendário religioso que marcava o tempo através das festas e rituais” (MAGNANI, 2000, p. 30).

Magnani (2000) entende o lazer como um conjunto de atividades individuais ou coletivas voltadas para a satisfação de uma série de interesses, no plano da criação, formação e aprimoramento pessoal, entretenimento, descanso, etc., realizados no tempo liberado das obrigações impostas pelo trabalho profissional e por outras responsabilidades sociais.

Para a pesquisadora da UFMG, coordenadora do Grupo de Pesquisa Otium, Christianne Luce Gomes (2011), o lazer é uma necessidade humana e dimensão da cultura caracterizada pela vivência lúdica de manifestações culturais no tempo/espaço social.

Assim, o lazer é constituído na articulação de três elementos fundamentais: a ludicidade, as manifestações culturais e o tempo/espaço social. Juntos, esses elementos configuram as condições materiais e simbólicas, subjetivas e objetivas que podem – ou não – fazer do lazer um potente aliado no processo de transformação de nossas sociedades, tornando-as mais humanas e inclusivas. (GOMES, 2011, p. 82)

Para Gomes, tempo corresponde ao usufruto do momento presente e não se limita aos períodos institucionais para o lazer (final de semana, férias etc.), ou seja, aos tempos sociais fora do trabalho conquistados pelos trabalhadores. Espaço- Lugar vai além do espaço físico e as Manifestações Culturais são os conteúdos vivenciados para fruição da cultura, seja como possibilidade de diversão, de descanso ou de desenvolvimento.

Nosso objetivo aqui não é fazer um resgate epistemológico do conceito de lazer muito menos de problematizar encontros e desencontros entre os autores destacados, já que segundo Marcellino (2004), não existe consenso entre os estudiosos do assunto. Mas sim de apresentá-los como inspiradores de possíveis reflexões da relação da juventude urbana contemporânea com o lazer.

fenômeno, e sim uma representação da realidade que se pretende designar. Assim, as análises sobre os conceitos e as teorias do lazer não podem ter a pretensão e serem universais e globalizantes.

Discutir o lazer da juventude é remeter a processos de sociabilidade, de alegria, de interação, de “zoação” e de construção de identidades, frequentes nesta fase da vida. É também se lembrar da tensão provocada entre o trabalho e o tempo livre ou, se preferir, disponível, já que para a maioria dos jovens urbanos é nesta fase da vida que se experimenta a primeira experiência com o mundo do trabalho.

Carrano (1999), ao investigar os espaços de lazer e sociabilidade de grupos de jovens nos espaços públicos de Angra dos Reis, afirmou que as práticas de lazer da juventude se afirmam como redes relacionais decisivas para elaboração de identidades urbanas da juventude.

Os fenômenos relacionados com as atividades de lazer estão no centro dos processos de formação da subjetividade e dos valores sociais nas sociedades contemporâneas. Para os jovens particularmente, as atividades de lazer se constituem num espaço/tempo privilegiado de elaboração da identidade pessoas e coletiva (CARRANO, 1999, p. 138).

Carrano (1999) considera que os processos sociais desenvolvidos nos espaços e tempos de lazer se apresentam significativos para o quadro global de formação dos sujeitos, particularmente aqueles que se dão no movimento da sociabilidade que é gerada nos grupos da juventude.

Neste sentido, Dayrel (2005) afirma que os jovens buscam em seus pares o estilo ao qual aderem e que irá fazer o papel de socialização e formação destes sujeitos, que são sujeitos sociais com uma determinada origem familiar, inseridos em determinadas relações sociais” (DAYRELL, 2005, p. 176)

Assim, acreditamos que as relações sociais irão determinar as práticas de lazer das juventudes contemporâneas em contextos construídos historicamente. Tempo/espaço serão condicionantes para determinar as práticas, que podem ser constantemente (re) significadas e (re) inventadas a partir do grau de coleguismo, de amizade, no pedaço, no bairro, nos espaços praticados e de vizinhança. Discutiremos melhor a relação dos jovens e suas práticas de lazer ao longo do capítulo Fala Juventude, onde apresentamos os resultados dos grupos focais.

Benzer Belgeler