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Bakhtin foi um filósofo e pensador russo que representou uma das figuras mais fascinantes e críticas da cultura européia de meados do século XX, segundo Todorov13. Bakhtin e seu Círculo, ressalta Ponzio (2009), partem da carência do marxismo no que se refere ao estudo da consciência, da linguagem e da formação de ideologias concretas para fundamentar suas teorias.
O Círculo de Bakhtin se debruçou sobre todos os campos da atividade humana, incursionando pela ética, pela estética e pela cognição. Mantiveram diálogo polêmico com autores de sua época e elaboraram algumas categorias analíticas potentes como caminhos possíveis e não como método de fazermos análises sobre os fenômenos humanos (que para eles sempre se materializam em enunciados concretos - textos – por meio de um ser que fala com outros). Os membros do Círculo Bakhtin se preocupavam com as relações entre linguagem e sociedade, colocando as relações dos signos sob um enfoque materialista dialógico14 para poder valorizar a específica natureza histórico- social dos processos psíquicos humanos fundamentais (PONZIO, 2009, p.73). Logo, se confrontaram com os estudos das ideologias, da linguagem verbal e dos signos humanos em geral.
Como sua reflexão direciona-se sobre a linguagem e sobre as relações dialógicas dos atos de palavra, dos textos, da vida, Bakhtin inicia seu caminho para sustentar sua teoria criticando as correntes vigentes da época, tomando como exemplo para essa discussão a esfera na qual estava inserido, isto é, dos estudos da linguagem.
Contudo, Bakhtin chama a própria análise de filosófica:
A nossa análise pode ser definida filosófica antes de tudo com base nas considerações de caráter negativo: não é de fato uma análise (uma
13 Prefácio à edição francesa de “Estética da Criação Verbal”.
14 Bakhtin estabelece uma relação com a leitura marxista da época para embasar sua crítica. Foi
construindo a partir das relações dialéticas, o dialogismo, a dialogicidade como fundante aos excessos do estruturalismo, pois considera e valoriza a fala, a enunciação, o signo, afirmando sua natureza social e não individual e neutro. “A fala está indissoluvelmente ligada às condições da comunicação, que, por sua vez, estão sempre ligadas às estruturas sociais” (BAKHTIN, 2006, p.14). Logo, elege o dialógico – da esfera das relações – abrindo as portas da alteridade como o caminho constitutivo e revolucionário de sua teoria.
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pesquisa) lingüística nem uma análise filológica, nem uma análise crítico-literária, nem algum outro tipo de análise especializada. Em caráter positivo dizemos somente que a nossa análise se divide em esferas próximas, ou seja, ao longo das fronteiras de todas as disciplinas citadas, sobre os seus pontos de contato e de interação. (BAKHTIN, 1959-61 apud PONZIO, 2013, p.15).
Ao caracterizar sua análise como filosófica, Bakhtin (2003 )propõe ultrapassar as fronteiras disciplinares para a construção de um epistemologia, escapando de uma narrativa única e universal como forma de responder às transformações sociais com as quais nos deparamos em diversos contextos da contemporaneidade. Para tanto, o autor russo problematiza a relação entre construção do conhecimento e produção da verdade. Primeiramente, a análise recai sobre essas duas linhas mestras do pensamento filosófico e científico dos tempos atuais, colocando-as em diálogo, apresentando suas limitações e posteriormente conduz para uma renovação na compreensão de outra ciência, recriando uma filosofia da linguagem que consiste no deslocamento do eixo da arquitetônica da comunicação no mundo humano da lógica da identidade em direção à lógica da alteridade quanto na reconsideração de outros elementos como signo, linguagem, enunciado, texto, ideologia..
A primeira orientação é caracterizada por Bakhtin (2006) como objetivismo abstrato, retrata especificamente sua crítica a uma tendência que valoriza a ordem do sistema de regras ou códigos, isto é, que considera a língua como um sistema fixo, imutável das formas linguísticas submetidas a uma norma imóvel que domina a consciência individual. As leis da língua são reguladas no interior de um sistema fechado, objetivo. Seu centro organizador é o sistema em que o objeto é constituído de formas fonéticas, mórficas, lexicais ou sintáticas.
As origens e os representantes dessa tendência podem ser encontradas no racionalismo dos séculos XII e XVIII, mergulhadas no solo fértil do cartesianismo, encontrando a sua máxima formulação com Ferdinand Saussure, da escola de Genebra (BAKHTIN, 2006, p.85).
Bakhtin (2006) ressalta que para essa orientação, o fato mais significativo é o fosso que separa a história do sistema linguístico em questão da abordagem não histórica, sincrônica. Entre a lógica que governa o sistema de formas linguísticas em um determinado momento da história e a lógica da evolução histórica dessas formas, nada pode haver em comum. São duas lógicas diferentes. Essas ideias sobre a história são bem características do espírito racionalista que existe até hoje e para o qual a história é
41 um domínio irracional que corrompe a pureza lógica dos sistemas de uma ciência específica.
O objetivismo abstrato é uma lógica que sustenta o objeto em si, resultado de um processo de abstração, sem mediação, que fala como o mundo é e pode ser. A língua, no seu uso prático, é separada de seu conteúdo ideológico ou vivencial. Dessa forma, encontraremos sinais linguísticos e não signos da linguagem, isto é, aqueles que carregam um conteúdo ou um sentido ideológico ou vivencial (concernente à vida), logo, isolados de prática viva de comunicação social.
Já para a segunda orientação caracterizada como subjetivismo idealista, Bakhtin (2006) ressalta em sua crítica que essa tendência por denominar o ato de fala, da criação individual como fundamento da língua (no sentido de toda a atividade de linguagem sem exceção) constitui o psiquismo individual como a materialização e fonte da língua para essa perspectiva Logo, as leis da criação linguística correspondem as leis da psicologia individual. Nessa tendência, o maior expoente foi Wilhelm Humboldt. O núcleo fundador das idéias humboldtianas constitui a expressão mais forte das tendências da primeira escola e, em período mais recente, foi retomada e alargada pela escola de Vossler, que trata de discutir as principais tendências no estudo da linguagem, ressaltando o estilístico sobre o gramatical. Essa escola de pensamento viu-se consideravelmente enfraquecida, particularmente pelo fato de sua assimilação a um modo de pensamento positivista e superficialmente empirista e por levar em consideração apenas o ato de fala como individual sendo explicado pelas condições da vida psíquica individual do sujeito falante, desconsiderando a natureza social da enunciação.
Verificamos que na distinção proposta por Bakhtin (2006) entre as principais tendências do pensamento filosófico linguístico ocidental no começo do século XX, considerar a língua como sistema de formas normativamente idênticas, representa o resultado de um processo de abstração que é funcional ao estudo de uma língua escrita e morta. É necessária que a língua esteja em um contínuo processo de transformação (objetivamente) e considerada subjetivamente em função do ponto de vista do falante- ouvinte, aquilo que faz compreender um signo verbal em seu uso concreto, em uma situação concreta, isto é, compreender sua novidade, sua capacidade de mutação, sua adaptabilidade a contextos situacionais sempre diversos e não simplesmente reconhecer sua identidade.
42 Outra importante crítica que Bakhtin (2006) faz às duas tendências se refere à relação individual-social. A língua e o indivíduo que a usa não são duas entidades separadas, como pretendia Saussure, que concebe a língua como um sistema de signos arbitrários que se relacionam entre si no interior do próprio sistema. Em outras palavras, língua e sujeito estão separados, uma dicotomia na reflexão de Saussure.
Bakhtin (2006) procurou considerar todo o problema da linguagem não fechando-se no interior de um campo disciplinar, em uma “ontologia regional ou geral”, no mundo já pronto, já feito, assumido como o ser das coisas como, na contemporaneidade, isso se apresenta. O autor percorre um movimento não se circunscreve no interior das sistematizações e classificações das ciências humanas em geral e, para isso, expõe a necessidade de uma abordagem marxista da filosofia da linguagem, concebendo a “atividade” (base do pensamento idealista de Humboldt) como atividade social e não individual e, concebendo o “sistema” (base do pensamento objetivista) não como sistema formal, autônomo e governado por leis internas, mas em relação à essa atividade social e não social. Por fim, concebe o sistema como vivo e em movimento.
Essa aproximação com as ideias marxistas não abarcava o nível de aplicá-las na linguagem. Ao contrário, pretendia preencher uma grave lacuna do marxismo colocando em discussão o próprio modo segundo o qual o marxismo vinha sendo compreendido, “porque nesse instalaram-se categorias mecanicistas”, características de um materialismo mecanicista pré-dialético, mecânico, imutável(PONZIO, 2009, p.243). como afirma o próprio Bakhtin (2006):
Todos os domínios da ciência das ideologias acham-se, atualmente, ainda dominados pela categoria da causalidade mecanicista. Além disso, persiste ainda a concepção positivista do empirismo, que se inclina diante do “fato”, entendido não dialeticamente, mas como algo intangível e imutável(BAKTHIN, 2006, p.25).
Bakhtin (2006) aproxima da perspectiva de social de Marx15, mas vai além de sua dialética estruturalista de causa e efeito, isto é, o filósofo russo considera que todo processo é humano e o jogo de relações desse processo é que vai construindo e concebendo o mundo. Bakhtin (2006), por sua vez, também vai transformando nosso
15 Para Bubnova (2013), Bakhtin reconhece que o materialismo histórico, com todos os seus limites e suas
lacunas, atrai uma consciência participante pelo fato de que procura construir o seu mundo de tal modo que um ato determinado concretamente, histórico e real encontre um lugar nele. Logo, Bakhtin aprecia o materialismo histórico como uma espécie de filosofia participativa.
43 modo de pensar. Logo, esse jogo ideológico e social de forças (de mesma direção e contrárias) se dá por um movimento dialógico (relação de dois ou mais centros de valores) e não dialético.
Nesse sentido para começar a entender alguns pressupostos de seus estudos, focalizamos a seguir como a teoria bakhtiniana vai desconstruindo e questionando uma noção de verdade abstrata, única, generalizante, principalmente no processo de produção do conhecimento das ciências humanas; para ir concebendo uma verdade que faz compreender os eventos singulares, a natureza fluida e movente dos acontecimentos e do sujeito contemporâneo, em suas relações com o mundo e com os outros.