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II. BÖLÜM

7. ARAŞTIRMA YÖRESİNİN TANITIMI

8.2. İŞÇİLERİN İŞTEKİ DURUMLARI

Teve início em fevereiro de 2012 quando o doutorando se apresentou à coordenadora pedagógica de um Centro de Apoio a pessoa com deficiência visual, que anualmente recebe alunos oriundos do ensino regular para acompanhamento pedagógico, oficinas de português, matemática, computação, além de cursos de

orientação à mobilidade, atendimento psicológico, dentre outros. Após este contato inicial, em que o doutorando apresentou seu problema de pesquisa, foi autorizado a acompanhar as oficinas de matemática da professora Elaine (pseudônimo), como uma forma de se aproximar dos alunos, conhecê-los, na busca por alunos que pudessem contribuir com a pesquisa.

Ao observar os alunos em suas atividades, conversar com eles, o doutorando primeiramente traçou um perfil resumido da turma, composta por 7 alunos, com relação ao nível de deficiência visual e ferramentas que dominavam, conforme podemos acompanhar em sua nota de campo 5.1, de 24 de fevereiro de 2012. Os nomes verdadeiros dos alunos foram omitidos, preservando sua identidade, sendo substituídos por pseudônimos.

Nota de campo 5.1 – 24 de fevereiro, de 2012

José

Tem um pequeno resíduo de visão, entorno de 10%, ainda não sabe o Braille, utiliza “canetão”*. Fez curso de computação.

Vânia Tem baixa visão, utiliza óculos e consegue fazer anotações no caderno.

Osvaldo

Tem baixa visão, utiliza o “canetão”* para fazer anotações no caderno e lupa para usar acessórios como o relógio ou o celular, por exemplo.

Jesiel Tem baixa visão, utiliza caderno com pauta reforçada e mais espaçada. Está cursando Direito. Lisa

Cega, utiliza bem a máquina Braille e o computador. Está cursando o 3º ano do Ensino Médio.

Patrícia

Possui baixa visão, faz uso do computador, mas declarou não ter muita habilidade com este equipamento. Está cursando o 3º ano do Ensino Médio.

Jennifer

Cega, utiliza bem a máquina Braille e o computador. Recentemente foi aprovada para o curso de Licenciatura em Matemática.

(*) O termo “canetão” é utilizado pela professora Elaine para se referir as canetas hidrográficas, geralmente nas cores preta, azul ou vermelha, utilizadas por alguns alunos com baixa visão para escreverem de forma mais legível.

O perfil que buscávamos era o de um(a) aluno(a), cego(a), que estivesse regularmente matriculado em uma instituição pública e cursando disciplinas de Física, quer seja Ensino Médio ou Superior. Nesse caso a aluna Lisa, estudante do 3º ano do Ensino Médio da E.E. Galileu Galilei, se encaixava dentro deste perfil. A mesma fazia uso do computador para suas atividades e conhecia o software “JAWS”. O doutorando decide então se apresentar a escola de Lisa.

Ao se apresentar a direção da escola e a coordenadora de Atendimento Educacional Especializado (AEE), o doutorando pode conhecer o prof. Aurélio

(pseudônimo), professor de Física da turma de Lisa. Na ocasião, prof. Aurélio começou falando de suas angústias como professor (nota de campo 5.2).

Nota de campo 5.2 – 20 de agosto, de 2012

a. O número de alunos da turma, cerca de 40, não condiz com uma turma que recebe uma aluna com deficiência visual;

b. A maioria dos alunos não se interessa por aulas diferenciadas;

c. Ele tem muita boa vontade em ajudar a aluna Lisa, mas esbarra em questões como: tempo de preparação dos materiais e o fato de ela ser aluna, pois segundo ele “qualquer tempo a mais que eu fico com ela, os outros podem falar... o prof. Aurélio tá tendo um caso com a Lisa...”;

d. Queixou-se que o MEC deveria exigir para os editores disponibilizarem os livros didáticos em Braille, o que já iria ajudar muito;

e. A impressora Braille da escola está quebrada;

f. A turma de Lisa não é homogênea, ou seja, entraram alunos novos, o que prejudica o andamento de qualquer trabalho;

As angústias do prof. Aurélio podem estar relacionadas ao fato de ele estar trabalhando com a turma de Lisa desde o 9º ano e não perceber avanços significativos no que se refere ao atendimento às suas necessidades. A Escola possui um computador associado a um ledor de tela que fica na sala de AEE, mas que é pouco explorado. A aluna Lisa utilizava com mais frequência a máquina Braille, mas por causa de seu alto custo de manutenção, quando era necessário consertá-la a aluna ficava sem a mesma por tempo indeterminado. Segundo relato do próprio prof. Aurélio, a escola também possuía uma impressora Braille, mas que se encontrava “quebrada”.

O doutorando então expõe suas intenções com a pesquisa, a metodologia a ser empregada, a questão do sigilo das informações, e o prof. Aurélio, após ter aceitado colaborar com a pesquisa, assinou o termo de livre consentimento (apêndice E), permitindo que o doutorando acompanhasse suas aulas e consequentemente a rotina de Lisa em sala de aula.

As observações em sala de aula foram feitas de agosto a outubro de 2012, sendo interrompidas por motivo de saúde na família do doutorando. Neste caso, não foi possível introduzir a linguagem LaTeX na rotina de leitura e resolução de problemas da aluna Lisa, concentrando nossa análise nos “saberes docentes” que favoreceram ou dificultaram o processo de inclusão escolar nas aulas de Física, com base em Camargo (2012).

Para o período analisado, o tema das aulas foi Eletromagnetismo. A nota de campo 5.3 mostra um momento em que o prof. Aurélio se dirigiu diretamente a aluna para esclarecer suas dúvidas com relação a um exercício que estava resolvendo na lousa.

Nota de campo 5.3 – 27 de agosto, de 2012

7:23 Lisa perguntou ao prof. Aurélio o que significa “coplanar” e “concêntrico”.

[Lisa] – Espero que não precise disso para passar no vestibular.

7:28 No exercício os alunos tinham que determinar se o campo estava “saindo” ou “entrando” para resolvê- lo. A aluna Lisa teve que perguntar para uma colega ao lado o que significava. Prof. Aurélio então perguntou diretamente para ela. A colega afirma que Lisa não estava entendendo.

Prof. Aurélio foi até a carteira de Lisa e mostrou em sua mão como fazer para determinar se o campo, em relação ao plano do papel, estava “entrando” ou “saindo”.

Embora o fenômeno Campo Magnético seja invisível, portanto um conceito visual independente, sua representação baseada no modelo de “linhas de campo” passa a ter uma vinculação visual. Para o caso registrado na nota de campo 5.3, em que para determinar se o campo estava “entrando” ou “saindo”, em relação ao plano do papel ou da lousa, o professor ensina a aluna Lisa a “regra da mão direita”, percebemos dois saberes envolvidos. O primeiro deles diz respeito ao “saber que significados vinculados às representações visuais sempre poderão ser registrados e vinculados a outro tipo de percepção” (CAMARGO, 2012, p. 250). Esta regra foi ensinada pelo prof. Aurélio a todos os alunos da sala, revelando outro saber, o “saber realizar atividades comuns aos alunos com e sem deficiência visual (CAMARGO, 2012, p. 261).

Devido ao próprio estilo de suas aulas, de modo geral o prof. Aurélio demonstrou ausência do “saber construir de forma sobreposta registros táteis e visuais de comportamento/ fenômenos físicos de significados vinculados às representações visuais” (CAMARGO, 2012, p. 259). No item “c” da nota de campo 5.2, o prof. Aurélio demonstra interesse em ajudar Lisa, mas segundo ele, falta tempo para preparar os materiais. No entanto em suas exposições tomava sempre o cuidado de falar enquanto escrevia ou resolvia um problema, para que Lisa pudesse acompanhar suas explicações, como mostra a nota de campo 5.4.

Nota de campo 5.4 – 03 de setembro, de 2012

10:56 Ao colocar alguns exemplos na lousa, Lisa tentava reproduzir em sua carteira a “regra da mão direita”. Como o prof. Aurélio soletra a resolução do exemplo, Lisa participa normalmente.

Prof. Aurélio lança um desafio, que foi o caso em que você tem dois fios paralelos e o ponto “p” esteja entre eles. Lisa falou:

[Lisa] – Você calcula separadamente e depois você soma...

[prof. Aurélio] – Aí é que está o meu medo.

[Lisa] – Tem que ver se o campo está entrando ou saindo.

[prof. Aurélio] – ah! Agora você tocou no ponto.

Essa característica percebida nas aulas do prof. Aurélio revelam outros dois saberes: “saber trabalhar com linguagem matemática” e “saber explorar as potencialidades comunicacionais das linguagens constituídas de estruturas empíricas de acesso visualmente independente”, no caso a estrutura “fundamental auditiva e auditiva e visual independentes” (CAMARGO, 2012, p. 260 e 261). Assim percebe-se que incluir um aluno com deficiência visual em sala de aula vai muito além de disponibilizar instrumentos, envolve um conjunto de saberes que tanto professores quanto todo o corpo escolar, incluindo os alunos, deve possuir para acolher esse aluno como parte da comunidade escolar.