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Acabamos de acompanhar as análises do texto de PC. Agora, partimos para a leitura do diálogo em francês da cena e da respectiva tradução em português do estudante PF, cuja produção é a base de nossa análise neste tópico.

Vejamos o quadro,

Quadro 22: Texto da cena e Tradução do estudante PF

VENDEUR VENDEUR

Bonsoir! Boa noite.

LIZ LIZ

Bonsoir! Qu’est-ce que tu veux? Boa. Que você deseja?

KEN KEN

Un demi. Uma dose.

LIZ LIZ

Deux demis, s’il vous plaît! Duas doses, por favor.

VENDEUR VENDEUR

Oui. Ok.

KEN KEN

Vous faites quoi à Paris? O que você faz em Paris?

LIZ LIZ

J’ai “une” rôle dans “une” film. Tô participando de um filme

KEN KEN

C’est quoi comme genre de film? Que tipo de filme?

LIZ LIZ

C’est un film d’époque. Um filme de época.

KEN KEN

Tu tournes ce soir? Você vai filmar essa noite?

LIZ LIZ

Oui... “tout” la nuit. Sim, a noite toda.

Je vais aller là-bas dans une heure. Eu vou daqui a uma hora.

KEN KEN

Je pourrais y voir? Eu posso ver?

Si tu veux… Se tu quiser.

KEN KEN

Bon, je dis... si je viens, je vais pas me faire jeter ?

Bem, quer dizer... Se eu for, vão me expulsar?

LIZ LIZ

Quoi? Quê?

KEN KEN

Si je viens, je vais pas me faire jeter ? Se eu for, vão me expulsar?

LIZ LIZ

Tu peux m’appeler. Tu pode me ligar.

KEN KEN

J’ai pas ton numéro. Eu não tenho teu número.

VENDEUR VENDEUR

Merci. Valeu!

LIZ LIZ

On doit faire 001 parce que c’est “une” téléphone “américaine”.

Tu tem que usar o “001” porque é um número americano.

KEN KEN

Prends soin, elle est forte. Tome cuidado, tá? É muito forte.

À plus tard. Até mais!

4.6.1 Estratégias de Tradução

Durante a leitura da tradução do estudante PF, constatamos a ocorrência da estratégia de tradução literal. Relembramos que a estratégia de tradução literal é utilizada quando o texto de chegada está semelhante ao texto de partida em conteúdo e em expressão.

Como exemplos retirados do texto do estudante PF, temos, inicialmente, “Boa noite.”, “Que você deseja?”, “O que você faz em Paris?” e “Que tipo de filme?”, que trazem em sua estrutura itens semelhantes em ordem, função e conteúdo ao texto em francês. Nesses exemplos, o aluno PF explica, em entrevista, como procedeu ao utilizar a tradução literal:

Fragmento 1

PF – Coloquei no caso “Qu’est-ce que tu veux?”, por exemplo, “ Que você deseja?”, porque eu acho que é o que a gente usa, não encontrei nada aproximado assim.

M - “A gente”, aqui, em português?

PF - É, “a gente, aqui, em português” usa “o que é que tu quer?”, mas ainda botei “o que você deseja?”, que foi mais formal, eu acho! “S’il vous plaît”, “por favor”, normal; “Vous faites quoi à Paris?” foi mesmo uma tradução literal, “o que você faz em Paris”, foi bem ao pé da letra mesmo...

Para o estudante PF, a tradução literal foi utilizada para dar ao texto um caráter mais próximo ao português, que usamos em conversas informais. Em “Que você

deseja?”, PF afirma que a escolha lexical pelo verbo “desejar” tornou a pergunta mais

formal; se atentarmos ao registro da língua, o verbo “desejar” é usado em situações mais polidas, em que as pessoas, geralmente, não se conhecem. Por outro lado, se atentarmos à acepção do verbo “vouloir” (na frase do texto em francês “tu veux”) em francês, temos o significado “querer” e “desejar” para o português, ou seja, uma forma para designar várias significações. Já em português temos dois verbos distintos, que usamos segundo a formalidade da situação, como sinalizou o estudante PF.

Nos trechos em francês “Oui... ‘tout’ la nuit” e “On doit faire 001 parce que

c’est ‘une’ téléphone ‘américaine’”, o estudante também utilizou a tradução literal: “Sim, a noite toda.” e “Tu tem que usar o “001” porque é um número americano.”.

Observamos que o aluno PF não conservou em seu texto os erros de concordâncias nominal que a personagem produziu no texto em francês. Ao ser perguntado sobre essa ação, ele responde:

Fragmento 2

PF - Eu acho que... é muito difícil, quando a gente vai falar na nossa língua, colocar um erro como esse de concordância, principalmente esse “a noite toda” que é muito óbvio pra nós, né? “A noite todo”, que ela fala, “uma telefone americana”. A gente fala “um número americano”. M - Então você não consideraria esses erros na tradução?

PF - Não, não sei se faria diferença no texto, mas não consideraria.

Diferentemente dos alunos PA e PC, o estudante PF preferiu não traduzir o erro em língua francesa para o texto em língua portuguesa. Significamos essa atitude como uma ação de estilo do autor do texto, mas que não desqualifica a estratégia literal.

No texto de chegada, “Se tu quiser.” e “Tu pode me ligar.”, o estudante também priorizou a tradução literal, respeitando a ordem sintagmática dos elementos na oração sem prejudicar o conteúdo e a compreensão do leitor. Mesmo que não tenha conjugado os verbos, conforme as desinências do pronome “tu”, o sentido do texto não foi alterado. Da mesma forma, nos trechos “Quê?” e “Eu não tenho teu número.” foi utilizada a estratégia de tradução literal.

O exemplo em francês “Bon, je dis... si je viens, je vais pas me faire jeter?” o estudante traduziu por “Bem, quer dizer... Se eu for, vão me expulsar?”, que nos possibilita afirmar que se trata, também, de estratégia literal.

Primeiro, o estudante PF construiu a tradução, utilizando recursos da língua portuguesa que se aproximam e se apresentam literalmente em forma e em conteúdo ao texto em francês. Segundo, no caso do trecho “Si je viens”, se fosse palavra-por-palavra, em português, teríamos “Se eu venho”, mas PF traduziu para o português por “Se eu

for”, utilizando o futuro do subjuntivo, como é usado esse tipo de construção, de fato.

Como podemos ver, para afirmar que foi utilizada a estratégia de tradução literal, o texto traduzido deve funcionar conforme as regras e/ou convenções de uso que regem a língua, na qual ele se apresenta. Por último, o estudante PF selecionou em sua bagagem lexical, o termo “expulsar” que corresponde semanticamente à locução verbal do texto em francês “me faire jeter” (no infinito “se faire jeter”). O quadro a seguir mostra uma síntese da estratégia de tradução literal utilizada pelo estudante PF:

Quadro 23: Exemplos de estratégia tradução literal do estudante PF Boa noite.

Que você deseja? O que você faz em Paris?

Que tipo de filme? Sim, a noite toda.

Tu tem que usar o “001” porque é um número americano. Se tu quiser.

Tu pode me ligar. Quê?

Eu não tenho teu número.

Bem, quer dizer... Se eu for, vão me expulsar?

A tradução do estudante PF também apresentou outra estratégia: a omissão. Ela consiste na exclusão de algum elemento desnecessário ou repetitivo no texto de chegada (BARBOSA, 2004). Como exemplos, temos: “Boa.”, “Eu vou daqui a uma

hora”, “Eu posso ver?” e “Até mais!”.

No primeiro exemplo, “Boa.”, o aluno PF omitiu o termo “noite”. É comum esse tipo de omissão acontecer em resposta a saudações como essa, em que o destinatário-enunciador pode responder simplesmente dizendo “Boa” ao invés de “Boa

noite.”, dando um caráter mais informal ao texto oral.

Tradução Literal

No segundo exemplo, temos a tradução do trecho em francês “Je vais aller

là-bas dans une heure.” para o português “Eu vou daqui a uma hora.”. No texto de

chegada, o aluno PF omitiu os termos “aller” e “là-bas” em francês, respectivamente “ir” e “lá” em português. Tal omissão não gerou incompreensão por parte do leitor, além disso, o verbo “ir”, em língua portuguesa, não é comumente usado como auxiliar dele mesmo, por exemplo, “Eu vou ir”.

No terceiro trecho “Um filme de época.” há a omissão do verbo “é” (É um filme de época), ao contrário da estrutura do texto em francês “C’est un film d’époque.” em que foi utilizado o demonstrativo “ce” e o verbo “être” (“C’est”).

No quarto exemplo, “Eu posso ver?”, há a omissão do advérbio “lá”, diferente do texto em francês que apresenta o termo após o verbo “pourrais” “Je

pourrais y voir?”. No quinto exemplo “Até mais!” também reconhecemos a estratégia

omissão; na frase, o estudante PF omitiu o termo “tarde”, podendo a construção em português ter ficado como “Até mais tarde!”. Mais uma vez, tal ação de linguagem é frequente em gêneros orais, como uma conversa, diálogo entre amigos, como já apontamos durante as análises.

A seguir, vemos exemplos dos elementos que foram omitidos entre parênteses:

Quadro 24: Exemplos de estratégia omissão do estudante PF

Boa (noite).

Eu vou (ir lá) daqui a uma hora. (É) Um filme de época.

Eu posso ver (lá)? Até mais (tarde)!

Em outros trechos, encontramos a estratégia de explicitação. Esta acontece quando há o acréscimo de recursos linguísticos no texto de chegada, como em “Tu

tournes ce soir”. Neste exemplo, o estudante PF traduziu por “Você vai filmar essa noite?”, acrescentando o verbo “ir” (“vai”) à oração em português.

Por exemplo, em francês, temos a construção “Prends soin. Elle est forte”, e, em português, o estudante PF acrescentou os termos “tá” e “muito”, “Tome cuidado,

tá? É muito forte”, que dá ênfase à ação de ter cautela ao usar o entorpecente e, também,

dá ênfase ao próprio entorpecente que Ken vende na cena para Liz. O quadro seguinte resume a estratégia:

Quadro 25: Exemplo de estratégia explicitação do estudante PF

Tu tournes ce soir Você vai filmar essa noite?

Prends soin. Elle est forte.  Tome cuidado, tá? É muito forte.

Tivemos ainda dois casos de modulação que consiste na mudança do foco do texto de partida, conforme a visão que os indivíduos têm do foco no texto de chegada. Como exemplo, o estudante PF traduziu “Un demi” e “Deux demis” por “Uma

dose” e “Duas doses”, respectivamente. Temos aí um caso de mudança de foco: o

estudante visualizou a bebida, mas selecionou em sua bagagem lexical o termo “dose”, que significa, no contexto do diálogo em questão, “porção de bebida que se toma ou se serve de uma vez”, segundo o dicionário Aurélio (2010)52.

Esse caso também pode ser interpretado sob uma visão intercultural, no momento em que há uma interferência da cultura regional do estudante, provavelmente, daquilo que ele vivencia, na tradução linguística da cultura do outro, que seria o texto em francês. No quadro a seguir, temos o resumo dos casos de modulação:

Quadro 26: Exemplo de estratégia modulação do estudante PF

Un demi. Uma dose. Deux demis. Duas doses.

Identificamos a estratégia transposição que acontece quando mudamos a categoria gramatical dos termos traduzidos. Em “Tô participando de um filme”, o estudante PF usou o verbo “participar” no gerúndio ao invés do substantivo “um papel”. Além disso, diferente dos textos analisados dos outros estudantes, PF não conservou o erro de concordância nominal produzido pela personagem Liz, como vimos em outra

52 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Míni Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. Coordenação de Marina Baird Ferreira. 8.ed. Curitiba: Positivo, 2010.

Explicitação

Modulação

passagem do texto traduzido por ele. Vejamos o quadro com o exemplo que caracteriza a transposição:

Quadro 27: Exemplo de estratégia transposição do estudante PF

J’ai ‘une’ rôle dans ‘une’ film.  Tô participando de um filme.

Outro procedimento realizado pelo estudante PF foi a equivalência. Ela é utilizada quando duas línguas dão conta da mesma situação através de recursos estilísticos e estruturais diferentes, como no caso da expressão que encontramos no texto de PF: “Valeu!”. Tal recurso foi usado ao invés de “obrigada” (“merci”), refletindo um texto bem mais informal que o texto de partida.

Quadro 28: Exemplo de estratégia equivalência do estudante PF

Merci.  Valeu!

Até aqui, fizemos a identificação e a análise de estratégias tradutórias utilizadas pelo estudante PF. É importante destacar que, em alguns trechos, poderíamos ter reconhecido mais de uma estratégia; por exemplo, o trecho “É muito forte”, tradução de “Elle est forte”, classificamos como explicitação, por conta da inserção do “muito”, mas poderíamos ter analisado como omissão, pois foi omitido o pronome “ela” no texto em português. Optamos por essa forma de análise, porque foca em cada uma das estratégias.

Como podemos observar, em quase toda tradução de PF encontramos uma maior recorrência da estratégia tradução literal em relação às outras: omissão, explicitação, transposição e modulação, que também foram recorrentes. Em cada um dos trechos analisados, observamos elementos linguísticos que se relacionam e que mantêm a coerência temática e pragmática do texto. Esses elementos são mobilizados

Transposição

conforme as ações de linguagem do aluno PF realizadas em situação de interação. No tópico seguinte, analisamos como esse processo de mobilização aconteceu no texto traduzido.

4.6.2 Capacidade Linguístico-Discursiva

Neste tópico, analisamos como o estudante PF mobilizou sua capacidade linguístico-discursiva para produzir o texto traduzido. Tal capacidade, segundo Dolz e Schneuwly (2004), tem relação com a arquitetura interna dos textos, mais particularmente com as operações linguísticas decorrentes de sua produção. As operações são de textualização e de vozes enunciativas. O agente-produtor reconhece e utiliza o valor das unidades linguístico-discursivas inerentes a cada gênero para construir o significado global do texto.

Como operadores de textualização, temos pronomes, verbos e conjunções, que podemos classificar no grupo da coesão nominal, da coesão verbal e da conexão, respectivamente. Como operadores enunciativos, temos as vozes e as modalizações.

No texto traduzimos, identificamos no trecho “Boa. Que você deseja?” a

introdução do personagem Ken por pronome de 2ª pessoa “você”; nesse caso, o estudante PF mobilizou a coesão nominal. Em seguida, mobilizou a coesão verbal, ao usar o verbo “desejar” no presente do indicativo para sinalizar que o momento do processo está em relação de simultaneidade ao momento de produção de fala, o personagem deseja algo enquanto produz seu turno de fala no diálogo.

No trecho seguinte, o estudante PF elabora a resposta de Ken: “Uma dose”, confirmada, após, pela fala de Liz: “Duas doses, por favor.” As duas frases contemplam a coesão nominal: a introdução de um subtema por um SN definido pelo numeral “um” e a retomada desse subtema por um SN definido pelo numeral “dois” em concordância com o gênero da palavra “dose”. Além da coesão, identificamos a mobilização da voz do autor do texto que produziu a ação de linguagem conforme suas experiências no mundo (por exemplo, o termo “dose” é utilizado quando se fala em certa quantidade/porção de bebida).

Já a construção “O que você faz em Paris?” realiza, de fato, o início do diálogo; nesse trecho temos o início do assunto que será tratado no texto. Há a introdução do personagem Liz por pronome de 2ª pessoa “você”, há, também, o uso do presente do verbo “fazer” expressando uma relação simultânea entre o processo do

“fazer” e a fala do personagem que responde a pergunta. Há, ainda, a localização espacial dos personagens; eles estão situados no momento da conversa “em Paris”, articulando o que a personagem “faz” ao lugar onde está inserido. Os três operadores da língua que destacamos, “você”, “fazer” e “em Paris” caracterizam, em sequência, a coesão nominal, a coesão verbal e a conexão.

Temos coesão verbal e nominal no exemplo “Tô participando de um filme”; nele o estudante escolheu, ao invés de “estou”, a forma contraída “tô” utilizada frequentemente em conversas informais. A locução “tô participando” revela, através da forma nominal de gerúndio, que a produção de fala está sendo desenvolvida no mesmo tempo em que o processo de “participar”. Antes da locução verbal “Ø tô participando”, podemos identificar a existência de um pronome de 1ª pessoa “eu” que retoma a personagem Liz, através de elipse. O trecho poderia ficar “Eu tô participando de um filme”, mas não nos traria a mesma informalidade que propõe o estudante PF em sua tradução. Finalizando a oração, o SN indefinido “um filme” introduz o tema que é discutido durante o diálogo.

O exemplo “Um filme de época.” traz uma retomada do tema pelo SN indefinido “um filme” que dá ao texto uma continuidade temática através da mobilização da coesão nominal.

No exemplo seguinte, “Você vai filmar essa noite?”, o termo “você” retoma a personagem Liz por pronome de 2ª pessoa e o SN demonstrativo “essa noite” introduz o momento em que se localizará o processo de gravação do filme, designando o uso da coesão nominal. Na mesma oração, encontramos a utilização do futuro perifrástico “vai filmar”, marcando o momento do processo em relação de posteridade ao momento da produção de fala do personagem; ou seja, a filmagem acontece depois da conversa; para isso o estudante utilizou o operador linguístico referente à coesão verbal.

Em “Eu vou daqui a uma hora”, encontramos a retomada da personagem

Liz por pronome de 1ª pessoa “eu”, caracterizando a coesão nominal. A coesão verbal, nessa construção, acontece através do verbo “ir” que está conjugado no presente. No entanto, a relação estabelecida entre o momento do processo e o momento da fala no texto é de futuro, demonstrando que o valor temporal do verbo, nesse contexto, é de posteridade.

Em seguida, temos a oração “Eu posso ver?”, na qual há operadores da coesão nominal e verbal. Quanto à coesão nominal, o estudante PF utiliza o pronome de 1ª pessoa “eu” para retomar o personagem Ken. Quanto à coesão verbal, o estudante usa o presente do verbo “poder" para se referir a uma ação que acontece posteriormente à fala do personagem. Assim, embora o verbo esteja conjugado no presente do indicativo, a construção transmite um valor temporal futuro, de ação ainda não realizada.

Após, o exemplo “Se tu quiser” é iniciado pela conjunção de condição “se” que é responsável pela articulação entre o turno de fala anterior “Eu posso ver” e o turno de fala posterior “Bem, quer dizer... Se eu for, vão me expulsar?”, unindo as fases da sequência dialogal. Esse caso caracteriza a conexão. Em seguida, no mesmo exemplo, há a retomada do personagem Ken por pronome de 2ª pessoa “tu”, marcando a coesão nominal. E, marcando a coesão verbal, temos o verbo “querer” conjugado no futuro do subjuntivo, embora a desinência não esteja em acordo com a 2ª pessoa do singular, o que confirma a ação de linguagem ser de caráter oral.

A próxima oração apresenta uma omissão: “Se eu for, Ø vão me expulsar?”, que podemos resgatar através do pronome de 3ª pessoa do plural “eles”. Reconhecemos a utilização desse sujeito “eles” como uma voz de personagens indeterminados que possivelmente não permitiriam a entrada de Ken no local onde Liz grava a sequência fílmica. Além de designar uma voz ativa “eles vão” que, por sua vez, expulsa alguém, sendo o personagem Ken aquele que sofre a ação. Essa voz caracteriza o mecanismo enunciativo. A coesão verbal é realizada na marcação do futuro do subjuntivo do verbo “ir”, no caso, “for” e do futuro perifrástico “vão expulsar”. Nesse sentido, podemos compreender que o momento do processo é posterior ao momento de produção de fala. Os pronomes de 1ª pessoa “eu” e “me” retomam o personagem Ken, estabelecendo a coesão nominal no texto.

Da mesma forma, o estabelecimento da coesão nominal acontece no exemplo “Tu pode me ligar” na retomada do personagem Ken por pronome de 2ª pessoa “tu” e na retomada da personagem Liz por pronome de 1ª pessoa “me”. Já a coesão verbal é vista na utilização do verbo “poder” conjugado no presente, mas expressando relação de futuro, ou seja, o valor de futuro do verbo demonstra que o momento do processo é posterior ao momento de produção do diálogo.

Em “Eu não tenho teu número” há a ocorrência do pronome de 1ª pessoa, “eu”, que retoma Ken no texto; há outra retomada, mas do subtema por SN possessivo “teu número”; esse SN possessivo também define que o número de telefone pertence a Liz. Os dois casos se referem à coesão nominal. O verbo “ter” no presente marca uma relação de simultaneidade entre o processo e o diálogo, estabelecendo a coesão verbal no trecho.

No exemplo “Tu tem que usar o ‘001’ porque é um número americano”, o estudante PF mobilizou o pronome de 2ª pessoa “tu” para retomar a personagem Liz. A construção “um número americano” retoma o subtema por SN indefinido, enfatizando o fato de ser um telefone estrangeiro, generalizando, ao contrário de dizer “teu número”, como vimos no exemplo anterior. Além desses dois casos de coesão nominal, ainda

Benzer Belgeler