Até aqui, vimos as análises das traduções dos estudantes PA, PC, PF e PH. Neste tópico, finalizamos nossa investigação com a análise do texto de PI. Começamos pela apresentação do diálogo em francês do filme “Paris, je t’aime” e da tradução em português produzida pelo estudante PI; em seguida, analisamos a tradução.
Quadro 35: Texto da cena e Tradução do estudante PI
VENDEUR VENDEUR
Bonsoir! Boa noite!
LIZ LIZ
Bonsoir! Qu’est-ce que tu veux? Boa noite. Você bebe o quê?
KEN KEN
Un demi. Um chope.
LIZ LIZ
Deux demis, s’il vous plaît! Dois chopes, por favor.
VENDEUR VENDEUR
Oui. Ok.
KEN KEN
Vous faites quoi à Paris? O que você faz em Paris?
LIZ LIZ
J’ai “une” rôle dans “une” film. Eu tenho um papel “numa” filme.
KEN KEN
C’est quoi comme genre de film? Que tipo de filme?
LIZ LIZ
C’est un film d’époque. Um filme de época.
KEN KEN
Tu tournes ce soir? Você vai gravar hoje à noite?
LIZ LIZ
Oui... “tout” la nuit. Sim. “Todo” a noite. Je vais aller là-bas dans une heure. Começo em uma hora.
KEN KEN
Je pourrais y voir? Posso ver?
LIZ LIZ
Si tu veux… Se quiser...
KEN KEN
Bon, je dis... si je viens, je vais pas me faire jeter ?
Quero dizer... Se eu for, não vão me expulsar?
LIZ LIZ
Quoi? Como?
KEN KEN
Si je viens, je vais pas me faire jeter ? Se eu for, não vão me expulsar.
LIZ LIZ
Tu peux m’appeler. Você me liga, então.
KEN KEN
J’ai pas ton numéro. Não tenho o seu número.
VENDEUR VENDEUR
Merci. Obrigado.
LIZ LIZ
On doit faire 001 parce que c’est “une” téléphone “américaine”.
Mas tem que digitar 001, porque é um telefone ‘americana’.
KEN KEN
Prends soin, elle est forte. Cuidado, que essa é forte.
À plus tard. Até mais.
4.8.1 Estratégias de Tradução
Até aqui, investigamos quais estratégias e como elas foram mobilizadas nos textos dos estudantes PA, PC, PF e PH. Coerentemente, damos continuidade à última análise de nosso corpus: o texto traduzido pelo estudante PI.
Já de início, identificamos marcas da estratégia tradução literal nos segmentos analisados no texto de PI. Como já dissemos, a tradução literal é um tipo de procedimento direto, segundo Vinay e Darbelnet (1996[1958]), e caracteriza as traduções que são semelhantes tanto em conteúdo, quanto em expressão, ao texto de partida.
Assim, nos três primeiros exemplos “Boa noite.”, “Um chope.”, “Dois
chopes, por favor.” o estudante PI utilizou a estratégia literal e elaborou o texto em
português semelhante em conteúdo e expressão ao texto em francês.
Para o turno de fala “Vous faites quoi à Paris?” o estudante inverteu a ordem dos elementos na oração e produziu “O que você faz em Paris?”, colocando o pronome interrogativo (o quê) no início, ao invés do pronome pessoal (vous), como no texto em francês. A inversão não ocasionou mudança no sentido da oração, apenas mostrou uma das variações na estrutura que pode ter esse tipo de construção, como vimos nas traduções anteriores, por exemplo, o texto produzido pelo estudante PA: “Fazendo o que em Paris?”.
Em “Eu tenho um papel ‘numa’ filme.”, “Sim. ‘Todo a noite.’” e “Mas tem que digitar 001, porque é um telefone ‘americana’.” o estudante PI priorizou tanto a
forma quanto o conteúdo ao realizar a tradução para o português. Desta forma, conservou no texto de chegada o sentido e os elementos que correspondem aos elementos do texto de partida. Agrupamos esses três exemplos, pois compreendemos que foram produzidos com o objetivo de mostrar os erros de concordância nominal em “numa”, “Todo” e “americana”, erros comuns entre falantes em fase de aprendizagem inicial em FLE.
Durante a entrevista de explicitação, o estudante PI falou sobre a escolha em manter o erro no texto em português, vejamos o fragmento 1:
Fragmento 1
PI - Como o “rôle” é uma palavra terminada em “e”, poderia causar esse problema de discernimento entre feminino e masculino. Dizer “une rôle”, “une téléphone” eu penso que é algo compreensível, porque a maioria das palavras terminadas em “e” é feminina. Então pra não ficar tão artificial, colocando “‘Uma’ papel ‘numa’ filme”, eu coloquei assim, “Eu tenho um papel ‘numa’ filme”, acho que mudar o gênero do filme como aqui está mudado, está bom.
Em outro trecho da entrevista, o estudante especificou sua escolha tradutória:
Fragmento 2
PI - Eu acho que colocar “‘uma’ papel ‘numa’ filme” ia ficar muito caricato, então eu preferi colocar “um papel ‘numa’ filme”. Eu acho que você mudando o gênero de “um”, antes de “filme”, já dá uma dica do registro, do erro que ela (personagem) cometeu, pois é um erro de gênero. A palavra termina com “e”, então ela (a personagem) poderia achar que é feminino, porque ela (a personagem) não é francesa, é americana!
M - E você conservou isso em todo o texto?
PI - Não, só quando realmente tinha um erro. Por exemplo, “Tu peux m’appeler”, eu acho que é uma estrutura muito simples, quando você é iniciante, você faz normalmente. Assim como “Si tu veux...”, não é? E você vê que ela (a personagem) não é tão iniciante assim, ela (personagem) deve ser, talvez, A257, ela já sabe mais ou menos. Então, você vê que ela não é tã:::o débutante.
Para o estudante foi importante que o diálogo no texto de chegada transmitisse a mesma naturalidade que o diálogo no texto de partida transmitiu. Podemos ver, então, que o estudante PI mobilizou a estratégia literal, tendo com base, por exemplo, conhecimentos linguístico-discursivos e contextuais em LE e em LM58.
57
Um dos níveis que um utilizador de LE deve ter, conforme o quadro europeu. De acordo com esse nível, o aluno “é capaz de compreender frases isoladas e expressões frequentes relacionadas com áreas de prioridade imediata (p. ex.: informações pessoais e familiares simples, compras, meio circundante). É capaz de comunicar em tarefas simples e em rotinas que exigem apenas uma troca de informação simples e direta sobre assuntos que lhe são familiares e habituais. Pode descrever de modo simples a sua formação, o meio circundante e, ainda, referir assuntos relacionados com necessidades imediatas”. 58 Por isso, foi importante analisar o texto, de forma descendente, indo desde as observações do contexto
às categorias de estratégias, capacidades de linguagem e repertórios. Estas últimas nos deram uma visão mais singular às ações linguageiras dos estudantes, já que só um campo de conhecimento, no caso das
Ao utilizar a estratégia, o estudante conservou o erro (na forma) e a ideia do erro cometido pela estrangeira (no conteúdo), como o fizeram os estudantes PA e PC.
No exemplo “Mas tem que digitar 001, porque é um telefone ‘americana’” além de ser literal, temos o termo “mas”, como um marcador textual presente em gêneros orais, como o diálogo do filme selecionado para esta pesquisa. Assim, podemos compreender que o marcador “mas” não exclui a semelhança com o texto em francês, apenas confirma a ideia de naturalidade produzida pelo estudante PI no texto em português.
Observamos outros exemplos em que houve a ocorrência da estratégia tradução literal, a saber: “Que tipo de filme?”, “Quero dizer... Se eu for, não vão me
expulsar?”, “Obrigado.”. O primeiro exemplo “Que tipo de filme?” trouxe o uso do
termo “tipo” ao invés de gênero, pois, em língua portuguesa, o termo é mais utilizado e convencionado com esse sentido de “gênero”, ou seja, fala-se mais “tipo” do que “gênero”.
No segundo exemplo “Quero dizer... Se eu for, não vão me expulsar?” o estudante PI buscou semelhanças na forma e no conteúdo do texto de chegada; a expressão “je vais pas me faire jeter” foi traduzida de maneira que o verbo “jeter” não se distanciou da forma nominal, pois permaneceu no infinitivo “expulsar”. No entanto, o estudante não se limitou ao texto em francês e (re)criou o texto, conforme as produções textuais que realiza em LM. O terceiro exemplo de tradução literal “Obrigado” nos permitiu observar que o estudante não modificou o agradecimento, que, em francês, foi expresso pelo termo “merci”.
No quadro seguinte, esquematizamos os exemplos de tradução literal retirados do diálogo traduzido pelo estudante PI:
Quadro 36: Exemplos de estratégia tradução literal do estudante PI Boa noite.
Um chope. Dois chopes, por favor! O que você faz em Paris? Eu tenho um papel “numa” filme.
Que tipo de filme?
teorias da tradução, não explicaria as escolhas contextuais, que vão além da escolha estilística de cada estudante. Reafirmamos que as três categorias selecionadas interagem em algum momento da análise, pois para reconhecer uma precisamos resgatar a outra.
Tradução Literal
Sim. “Todo” a noite.
Quero dizer... Se eu for, não vão me expulsar? Obrigado.
Mas tem que digitar 001, porque é um telefone “americana”.
Os exemplos “Um filme de época.”, “Se quiser...”, “Não tenho o seu
número.”, “Posso ver?” e “Até mais.” foram identificados no grupo da estratégia omissão. Tal estratégia é validada, quando termos da língua de partida são omitidos no
texto da língua de chegada, sem que isso comprometa o sentido textual.
Em “Um filme de época.” o estudante PI omitiu o verbo “ser” que, no texto de partida, precedia todo o turno de fala, por exemplo, “C’est un film d’époque” poderia ser “É um filme de época”. Da mesma forma, em “Se quiser...”, o estudante omitiu o pronome “você” que viria entre “Se” e “quiser”, ou seja, em francês tínhamos “Si tu
veux...” e em português, poderíamos ter “Se você quiser”.
Continuando, temos “Não tenho o seu número.”, tradução de “J’ai pas ton
numéro”, no texto em português o estudante PI optou por fazer a omissão do sujeito
“eu”, ficando oculto. No caso, em francês, o pronome é obrigatório, já em português muitas vezes o sujeito é identificado através da desinência número pessoal do verbo.
No exemplo “Posso ver?” o estudante PI omitiu o pronome “Eu” e o dêitico “lá” que estavam no texto em francês, assim destacados: “Je pourrais y voir”. E em “Até mais” temos a omissão de “tarde”, que em francês estava presente no termo “tard”, mais especificamente na construção “À plus tard”. A respeito de como agiu, o estudante PI expõe:
Fragmento 3
PI – Em “Je pourrais y voir?”, no caso, “Posso ver a gravação?” ou de repente “Eu posso ir ver a gravação?”, bom, eu não colocaria “Posso vê-la”, porque eu acho que não faz parte do registro coloquial, por causa da situação em que eles estão. Talvez eu colocasse “Posso ir ver?”, mas talvez por influência do falar de Fortaleza, considerando uma tradução para um filme com português brasileiro, eu prefiro deixar assim. Até porque eles falam baixo, rápido, tem uma conversa meio velada.
M - Você considerou o contexto do filme?
PI - Sim, tentei considerar o contexto deles dois, achei uma relação informal, no contexto do filme, no caso, ela sendo uma estrangeira que se droga e está em Paris. Mas não pense que teve
mu::ita reflexão acerca do contexto. A questão dele (personagem) usar “vous” e “tu”, eu preferiria usar o “você”, direto, porque mesmo ele usando o “vous”, você vê que não é uma relação tão formal, ele pede pra ir ver ela, então eles já se conhecem.
A recorrência de omissões em português é comum, principalmente, quando lidamos com gêneros orais, como o diálogo, em que, frequentemente, os interlocutores podem ter uma relação mais informal. Para ilustrar os exemplos que tivemos na tradução do estudante PI, fizemos o seguinte quadro com os termos “omitidos” entre parênteses:
Quadro 37: Exemplos de estratégia omissão do estudante PI
(É) Um filme de época. Se (você) quiser... (Eu) Não tenho o seu número.
(Eu) Posso ver (lá)? Até mais (tarde)!
Caso todos os termos omitidos (os que estão em negrito) estivessem no texto do estudante PI, poderíamos encontrar traços da estratégia literal, pois teríamos os elementos linguísticos no texto de chegada teriam as mesmas formas e funções que aqueles do texto de partida. No entanto, como notamos a ausência de alguns recursos da língua, é a omissão a estratégia que melhor se adequa à tradução do estudante.
Partindo para outra estratégia, identificamos a explicitação nos exemplos
“Você vai gravar hoje à noite.”, “Você me liga, então.”, “Cuidado, que essa é forte.”.
A estratégia explicitação ocorre quando acrescentamos no texto de chegada elementos além daqueles que se apresentam no texto de partida, mas que não modificam o sentido.
Assim, na versão “Tu tournes ce soir?” do filme que corresponde ao turno de fala em português, “Você vai gravar hoje à noite”, identificamos que o estudante PI acrescentou “hoje” ao texto. Na verdade, todo o sintagma “ce soir” foi (re)elaborado para “hoje à noite”, que se trata de uma locução adverbial. Poderíamos, também, afirmar que tal exemplo pode ser visto como uma transposição, já que o demonstrativo mudou para advérbio. Todavia, acreditamos que o acréscimo de outros termos à
tradução, mesmo havendo modificação de categorias gramaticais, caracteriza a explicitação.
Na tradução de “Tu peux m’appeler” para o português, o estudante PI escreveu “Você me liga, então.”, construção ampliada pelo termo “então”. Da mesma forma, a construção em francês “Prends soin, elle est forte.”, ao ser traduzida para o português pelo estudante PI como “Cuidado, que essa é forte.”, teve o acréscimo de “que”. Os dois termos “então” e “que”, tanto alongam o texto de chegada, quanto podem ser vistos como articuladores e/ou marcadores na fala, como veremos na análise da capacidade linguístico-discursiva.
No quadro seguinte, temos a síntese dos casos de explicitação no texto do estudante PI:
Quadro 38: Exemplo de estratégia explicitação do estudante PI
Tu tournes ce soir? Você vai gravar hoje à noite. Tu peux m’appeler Você me liga, então. Prends soin, elle est forte Cuidado, que essa é forte.
Partimos para as traduções de “Você bebe o quê?”, “Começo em uma
hora.” cujas características correspondem à estratégia modulação. Essa estratégia é
utilizada quando temos um ponto de vista que pode variar, de acordo com o modo como os sujeitos da língua de chegada interpretam a experiência do real.
Desta forma, reconhecemos no texto em português “Você bebe o quê?”, tradução do francês “Qu’est-ce que tu veux?”. A modulação, nesse caso, foi apontada, quando notamos que o estudante PI transferiu o foco do verbo “vouloir” (“tu veux”) em francês para o verbo “beber” em português. A estratégia foi utilizada em função da imagem da cena, pois os personagens estavam em um bar e tiveram de dizer o que iriam beber. Sobre essa questão da imagem, o estudante PI falou:
Fragmento 4
M - A imagem te ajudou em alguma coisa?
PI - Sim, ajudou, na questão do chope e quando eu vi no dicionário “garrafas com meio litro”, ajudou, a imagem me ajudou. E a questão da droga também, apesar de não ter identificado o
que é, só sei que é uma coisa que se fuma, então eu dispensei cocaína, pode ser crack... M – Mas como você percebeu?
PI – Nas cenas subsequentes. Mesmo em “demi”, a figura e o dicionário ajudaram. Era só questão de ter observado melhor a imagem, com atenção. O difícil é que são dois estrangeiros, se fossem dois nativos teria sido mais fácil. Mas por conta dos erros dela (personagem), você não sabe como fazer.
Vejamos que além da imagem, o dicionário também auxiliou o estudante na tradução, por conta da dificuldade que teve em reconhecer a nova palavra.
Em “Começo em uma hora.” a mudança de ponto de vista ocorreu quando o estudante PI utilizou o verbo “começar” para se referir à tradução de “Je vais aller là-
bas dans une heure”. Ou seja, ao invés de dizer “Eu vou lá”, que corresponderia,
literalmente, ao texto em francês, “Je vais aller là-bas”, o estudante optou pela construção “Começo” (no caso, “Eu começo em uma hora”), sem comprometer ou alterar a progressão temática textual.
No quadro seguinte, ilustramos os exemplos em que analisamos a modulação:
Quadro 39: Exemplos de estratégia modulação do estudante PI
Qu’est-ce que tu veux? Você bebe o quê?
Je vais aller là-bas dans une heure Começo em uma hora.
A última estratégia observada no texto do estudante PI foi a transposição no turno de fala “Como?”. Notamos que na tradução de “Quoi?”, em francês, para o português “Como?”, o estudante PI utilizou ao invés do pronome interrogativo um advérbio de modo, mas que, pelo sentido e pelo contexto dado no texto, pode ser usado assim. O “como”, nesse caso, foi usado da mesma forma que nas construções “Como
você disse?” ou “Como você falou?”, quando o interlocutor não compreende o que o
outro disse. Para destacar o exemplo de transposição, temos o quadro, a seguir, com a tradução:
Quadro 40: Exemplo de estratégia transposição do estudante PI
Quoi? Como?
Vimos, desde o começo das análises das estratégias, que o estudante PI mobilizou diversas estratégias de Vinay e Darbelnet (1996 [1958]), literal, omissão, explicitação, modulação e transposição. O estudante PI utilizou estruturas mais próximas do português, embora tenha utilizado a estratégia literal com maior frequência, em relação as outras estratégias.
Isso significa que utilizar a estratégia literal não que dizer que o tradutor esteja copiando o texto de partida, mas desenvolvendo o texto de chegada de forma mais semelhante que ele possa ser para os leitores nativos que o recebem. O literal pode ter a ver com aquilo que realmente acontece na língua de chegada, o respeito à forma de dizer ou falar naquela língua para a qual traduzimos, segundo as situações sociocomunicativas.
A seleção do registro é uma consequência da seleção e do reconhecimento do gênero textual, através do qual os elementos linguísticos são verbalizados. Essas ações acontecem quando o agente-produtor mobiliza capacidades de linguagem; no caso, para efetuar escolhas linguísticas o falante faz uso da capacidade linguístico- discursiva, como veremos a seguir.
4.8.2 Capacidade Linguístico-Discursiva
Na análise anterior, observamos e interpretamos a utilização das estratégias de tradução no texto do estudante PI. Agora, partindo do mesmo texto, analisamos como esse estudante mobilizou elementos linguísticos, por exemplo, de retomadas ou de substituições.
De uma forma geral, tais retomadas e substituições acontecem quando o estudante mobiliza capacidades de linguagem necessárias à gerência de um gênero textual. Segundo a fundamentação teórica de nossa pesquisa (DOLZ e SCHNEUWLY, 2004), retomadas e substituições são operações da capacidade linguístico-discursiva,
chamadas de coesão nominal. Há outros aspectos da língua que envolvem essa capacidade, como articulações entre fases do conteúdo temático do texto e organização temporal dos processos do texto, caracterizando a conexão e a coesão verbal, respectivamente. Nos parágrafos, a seguir, exploramos esses elementos, como dissemos, na tradução do estudante PI.
No exemplo “Você bebe o quê?” o estudante PI selecionou elementos de coesão nominal, como o pronome de 2ª pessoa “você”, para que a personagem Liz se endereçasse ao personagem Ken, introduzindo-o no diálogo. Concordando com essa coesão nominal, temos a coesão verbal representada pelo verbo “beber” conjugado no presente. Nesse caso, o momento de produção de fala é anterior ao momento do processo, que se concretiza na ação de “beber”.
Da mesma forma, o estudante mobilizou tanto a coesão nominal, quanto a coesão verbal em “O que você faz em Paris?”. Podemos ver a coesão nominal em “você”, pronome de 2ª pessoa, que retoma a personagem Liz que já havia se manifestado no diálogo. A coesão verbal aparece no verbo “faz”, conjugado também no presente, contudo, diferentemente do exemplo anterior, o verbo, nesse caso, indica que o momento de produção do diálogo é simultâneo ao momento do processo, este representado pela ação de “fazer” algo em Paris. Se lembrarmos dos textos traduzidos pelos estudantes, veremos que, assim como PF e PH, o estudante PI escreveu “O que
você faz em Paris?”.
Temos na transação seguinte “Eu tenho um papel ‘numa’ filme.”. Neste exemplo, o estudante PI optou por exibir o pronome de 1ª pessoa “eu”, ao invés de ocultá-lo, como o fez o estudante PC (“Estou interpretando um ‘uma’ papel em ‘uma’ filme”). Compreendemos que essa forma de expressão de PI foi utilizada em virtude da influência do texto em língua estrangeira, confirmando, como vimos na análise das estratégias, o uso da tradução literal. Em francês, como sabemos, é necessária a utilização dos pronomes, já em português, esse recurso da língua é usado de maneira diferente, podendo ser mais ocultado do que manifestado, e quando é oculto identificamos a pessoa do discurso na desinência de número pessoal do verbo.
No caso desse trecho, o pronome, elemento da coesão nominal, aparece e,