5. TEZ KAPAĞI VE ÖZEL SAYFALAR
5.2 İç Kapak Sayfası
Partindo dessa concepção de sujeito interativo, e dos avanços da teoria histórico- cultural em busca de compreender mais profundamente essas relações sujeito – mundo, Vygotsky (2009) se propõe, na década de 1930, a aprofundar os estudos sobre pensamento e linguagem. Molon (2009) afirma que há uma superação no pensamento de Vigotski “da visão instrumentalista da palavra à visão discursiva da linguagem, ao significado e sentido das palavras, à palavra como microcosmo da consciência” (p. 103). O que possibilita a compreensão de que os signos e as palavras não são apenas um meio para, uma escrita ou fala vazia, mas trazem significações construídas a partir das relações sociais. Isto é, a palavra não é simplesmente o substituto da coisa. Ela envolve a concepção daquele sujeito acerca da coisa, o contexto em que está inserido, bem como a quem está sendo dirigida sua mensagem.
Segundo Vigotski (1934/ 2001), as teorias tradicionais que trabalhavam a questão do pensamento e linguagem, concebiam o significado como uma mera associação entre o objeto ou situação e a palavra, em função das reiteradas coincidências. Pensando desta forma, uma vez estabelecida essa associação, não haveria possibilidades de mudança.
No texto “Pensamento e Palavra”, Vigotski (1934/2009) afirma que a chave para o estudo da consciência humana está na relação entre pensamento e linguagem. Para o autor, o vínculo entre tais processos se forja e se transforma no desenvolvimento histórico da consciência. E é nesse momento que ele consolida sua concepção acerca dos sentidos e significados. Para tanto, toma o termo do psicólogo alemão Paulhan, que tinha avançado na construção da relação entre o significado e o sentido da palavra no marco do uso da linguagem.
Apesar da importância desses conceitos para as ideias de Vygostky, constituindo-se como um divisor de águas em sua teoria, Barros et al. (2009), Góes e Cruz (2006) e Molon (2009) concordam que sentido e significado têm sido pouco explorados nas leituras feitas a partir de Vigotski. Daí a necessidade de trazer à luz a essas reflexões do autor, principalmente porque a partir delas, novas possibilidades se abrem nos estudos sobre os processos significação nos sujeitos.
Em primeiro lugar, Vigotski (1934/ 2001) afirma que a relação entre pensamento e palavra não é estática e nem imutável. Segundo ele, o pensamento e a palavra não estão ligados entre si por um vínculo primário, mas por um vínculo que surge, modifica- se e amplia-se no processo do próprio desenvolvimento do pensamento e da palavra. Molon (2009) destaca que a linguagem e o pensamento estão inter-relacionados em um movimento permanente, mas que guardam também cada um suas especificidades e raízes.
Segundo o autor, a mútua constituição entre pensamento e linguagem baseia-se na premissa de que esta “não é um simples reflexo especular da estrutura do pensamento” (Vigotski, 1934/2001, p.412), e de que o pensamento “não se exprime na palavra, mas nela se realiza” (Vigotski, 1934/2001, p. 409). Observa-se então que a palavra não é simplesmente a reprodução do pensamento, mas que, no processo de pôr o pensamento em palavras, há uma ressignificação desse pensamento.
No processo de significação encontra-se uma dupla referência semântica que Vigotski (1934/ 2001) chama de significado e sentido. Para o autor, o significado está no sujeito a partir de suas relações intersubjetivas, sendo o próprio signo; enquanto que o sentido é produto e resultado do significado, sendo caracterizado como dinâmico e fluido. Vigotski ainda afirma que sentido e significado são momentos do processo de construção do real e do sujeito, que não podem ser considerados dicotomicamente, e que cumprem a função de dar visibilidade a uma determinada e importante zona do real.
Sobre o significado o autor destaca que essa unidade reflete da forma mais simples a unidade do pensamento e da linguagem. Isso porque o significado da palavra é uma unidade indecomponível de ambos os processos. Para Vigotski (1934/ 2001, p. 398),
a palavra desprovida de significado não é palavra, é um som vazio. Logo, o significado é um traço constitutivo indispensável da palavra. É a própria palavra vista no seu aspecto interior. Deste modo, parece que temos todo o fundamento para considerá-la como um fenômeno de discurso. Do ponto de vista psicológico o significado da palavra não é senão uma generalização ou conceito. Generalização e significado da palavra são sinônimos.
Dito de outro modo compreende-se os significados como “produções históricas, sociais, relativamente estáveis” que, por serem compartilhados por vários sujeitos ou grupos sociais permitem a comunicação entre os homens, além de serem fundamentais para a constituição do psiquismo (Aguiar et al., 2009, p. 61).
Os significados, portanto, se constituem como a forma pela qual um homem assimila a experiência humana. Por isso, possuem um caráter social, em virtude de serem produzidos pela sociedade, no desenvolvimento da linguagem e das formas de consciência social; mas também possuem um caráter individual, pois estão presentes nos processos da atividade e consciência de indivíduos específicos, mas que ainda assim, não perdem sua natureza sócio-histórica.
Identifica-se desta forma que o significado é convencionado socialmente a partir das relações e condições históricas, e é um dos elementos constituintes da relação social. Para Vigotski, contudo, esse não é o grande diferencial de seu pensamento. O que lhe pareceu extraordinário foi a descoberta da mudança dos significados das palavras e do seu desenvolvimento, fato que possibilitou superar definitivamente o
postulado da constância e da imutabilidade do significado da palavra, que servira de base a todas as teorias anteriores do pensamento e da linguagem.
Nesse cenário foram se estabelecendo enfoques que afirmavam que a palavra não introduzia nenhuma mudança na natureza do pensamento, e por isso, acreditava-se na independência deste em relação à linguagem. Essa era a concepção majoritária na época, de que uma vez elaborado, o significado da palavra continuava imutável e constante. Dessa maneira, quando havia a conclusão da formação do significado da palavra, o caminho de seu desenvolvimento estava concluído.
Assim, para Vygotsky (2009) duas correntes teóricas podiam ser observadas. Uma que promulgava a fusão absoluta entre pensamento e linguagem, acreditando que ambos os processos são a mesma coisa, e que por isso, não era possível o surgimento de nenhuma relação entre eles. Outra que tentava estabelecer uma completa separação entre ambos. Nessa segunda concepção, os teóricos buscavam estudar as propriedades puras do pensamento, independentemente da linguagem; e a linguagem independentemente do pensamento. E interpretavam a relação entre eles como uma dependência mecânica, puramente externa entre dois processos diversos.
Para a segunda perspectiva, o método de estudo empregado deveria ser o da decomposição das totalidades psicológicas complexas em elementos. Eles acreditavam que se fossem observados os elementos de cada um dos processos, seria possível explicar as propriedades do todo. O que não se confirmou, pois, de acordo com Vygotsky (2009), tal método na verdade, inviabiliza o estudo das relações internas entre pensamento e palavra.
Foi a partir dessas lacunas que Vigotski se propôs a buscar compreender pensamento e palavra como processos distintos, mas completamente articulados. Atentou para o fato de que a palavra representa a unidade viva do significado, mas que,
se fosse separada da ideia, perderia todas as suas propriedades específicas. Além do mais, o significado da palavra tem na sua generalização um ato de pensamento.
Vygotsky (2009) atentou para o fato de que as formas superiores de comunicação psicológica só são possíveis porque no pensamento o homem reflete a realidade de modo generalizado. Todavia, apesar da estabilidade do significado, o autor observou que há uma dimensão das palavras que pode ser modificada de acordo com o contexto em que aparece. Assim suas idéias revolucionam as concepções da época quando revelam que diferentes contextos possibilitam a construção de diferentes sentidos para uma palavra, tendo em vista que o sentido constitui-se na dinâmica dialógica, modificando-se de acordo com as situações e com as pessoas que o atribuem.
Nesse sentido, a partir do momento que se compreende que o significado da palavra pode modificar-se em sua natureza interior, modifica-se também a relação do pensamento com a palavra. Como defende Vigotski (1934/ 2001, p. 412),
por sua estrutura, a linguagem não é um simples reflexo especular da estrutura do pensamento, razão por que não pode esperar que o pensamento seja uma veste pronta. A linguagem não serve como expressão de um pensamento pronto. Ao transformar-se em linguagem, o pensamento se reestrutura e se modifica.
Assim, o sentido seria o conjunto de todos os fatos psicológicos que surgem em nossa consciência social. Até mesmo porque, para Vygotsky (2009), o sentido pessoal não representa uma consciência individual oposta à consciência social (significados), mas sim uma consciência quase social.
O sentido é sempre urna formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade. O significado constitui-se como sendo apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, além disso,
configura-se como uma zona mais estável, uniforme e exata. Pois, como se sabe, em contextos diferentes a palavra muda facilmente de sentido.
Vigotski (1934/ 2001, p. 464) teoriza que o sentido constitui-se como sendo mais abrangente que o significado, tendo em vista que a generalização, o significado formal e mais utilizado socialmente consiste em apenas uma das dimensões de todas as possibilidades de sentido que uma palavra possui, assumindo aquele que fala, de que lugar social fala e para quem se destina a sua fala.
O autor destaca que os sentidos de cada palavra são determinados por toda a riqueza dos momentos existentes na consciência e relacionados àquilo que está expresso por uma determinada palavra. O que significa que o sentido nunca se esgota, e que nunca é possível apreender os sentidos construídos por um sujeito, porque ele não está subjacente aguardando que alguém o alcance, o descubra. Ele é construído a todo momento, a partir do que se desvela ao sujeito. Como ressalta Vigotski (1934/ 2001, p. 466),
nunca sabemos o sentido completo seja lá do que for e, consequentemente, o sentido pleno de nenhuma palavra. A palavra é a fonte inesgotável de novos problemas. O sentido de uma palavra nunca é completo. Baseia-se, em suma, na 'compreensão do mundo e no conjunto da estrutura interior do individuo.
Pautando-se nestas infinitas e potenciais relações entre pensamento e palavra, observa-se que Vigotski, com sua teoria busca trazer à tona uma dimensão não considerada por uma série de outras abordagens da época: a dimensão histórica. Para o autor, só uma psicologia histórica é capaz de trazer luz à compreensão correta dessas complexas relações. E isso se dá a partir do pressuposto de que a relação entre pensamento e palavra é um processo vivo, de nascimento do pensamento na palavra.
Palavra esta que, se desprovida de pensamento é, antes de mais nada, palavra morta, sem possibilidades de interação social.
A partir da busca de sentido, pode-se compreender o movimento de constituição de cada sujeito, sem isolá-lo da sua singularidade e dos processos sociais e históricos. Deste modo, sentido e significado se complementam em um processo de constituição das subjetividades individuais, tendo em vista que os significados sociais compartilhados, mas estáveis, mediadores dos processos de comunicação e das relações sociais, são convertidos, a partir da apropriação subjetiva individual, em sentidos históricos, em que a vivência cognitiva e afetiva do sujeito é reorganizada diante dos eventos sociais. A partir do momento em que esses sentidos são expressos, de forma transformada, passam a compor também o mundo dos significados (Vigotski, 1934/ 2001).
Um aspecto importante é que o sentido não se esgota ou não se resume à palavra, tendo em vista que para além da palavra, Vigotski destaca que é preciso que sejam consideradas as expressões dos objetivos e os motivos; os afetos e as emoções. Pois, se assim não fosse, a análise do problema de “Pensamento e Linguagem” fica incompleto.
Em nosso estudo, a intenção é de compreender os significados de vários atores sociais em torno da formação e inserção profissionais de jovens egressos do Programa Jovem Aprendiz. Desse modo, buscamos os significados sociais desses sujeitos, mas sabemos que cada um nos fala a partir de seus sentidos, de suas vivências subjetivas, de seu lugar histórico-cultural, de seu lugar dentro do mercado de trabalho, do seu lugar na sociedade e das relações aí constituídas.
Sabemos que o jovem fala a partir de sua necessidade e expectativa em torno de se capacitar para o trabalho, de encontrar emprego, o que vai muito além do salário; que os gerentes se posicionam em torno do discurso de qualificação profissional dos
contratados, de empregabilidade, da intensa competitividade. Tudo isso está relacionado à conjuntura sócio-histórica atual.
As concepções de Vigotski acerca dos sentidos e significados nos levam a refletir sobre a importância da articulação entre as relações sociais e os processos psicológicos. É preciso que estas relações sejam compreendidas a partir de sua constituição dialética, e não como uma relação de determinação causal do “social”, vistas unicamente como influência externa, sobre o indivíduo.
Também se compreende que o estudo dos sentidos e significados não está relacionado a uma busca daquilo que não está dado, do que está subjacente. Vigotski deixa claro em seus escritos que os sentidos não estão acabados e prontos para serem exteriorizados pela linguagem. Estão em processo de construção, de elaboração em todo tempo, e inclusive, a própria interação sujeito – pesquisador, no processo de investigação psicológica, suscita a dinâmica e composição dos sentidos.
Partindo das concepções de significado e sentido, identifica-se que, para Vygotsky (1929/ 2000), a constituição do sujeito se dá por meio das relações interpsicológicas, o que consiste, segundo ele, na essência do desenvolvimento cultural. Desse modo, qualquer função psicológica superior foi antes externa, foi social. Antes de se tornar função intrapsicológica, ela foi uma relação social entre pessoas. A natureza psicológica da pessoa é o conjunto das relações sociais, transferidas para dentro, por meio de processos de significação do sujeito.