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Aproveitando a sua estadia em Itália, desde meados de 1426 até Agosto de 1427, Afonso Nogueira obteve a primeira aprovação oficial necessária ao desenvolvimento da congregação de Vilar de Frades, recorrendo à influência e aos conhecimentos de D. Gomes, abade de Florença. Só assim se explica que entrasse em contacto com a congregação de S. Jorge de Alga em Veneza, uma instituição recente pouco conhecida em Portugal e que, mesmo em Itália, dava ainda os primeiros passos.
As origens da congregação de Alga remontavam aos finais do século XIV, quando, em Veneza, um pequeno grupo de leigos e clérigos, alguns já sacerdotes, se reunia informalmente, para rezar e trocar ideias sobre a renovação da vida cristã. Ocuparam primeiro o mosteiro de S. Nicolau de Lido, abandonado no seguimento de conflitos armados na zona onde estava sediado. Depois, a pedido de Luís Barbo, transferiram-se para o mosteiro agostinho de S. Jorge de Alga, na altura também quase desabitado. Em 1404 o grupo foi erigido canonicamente e foi-lhe confiada a igreja e o mosteiro de S. Jorge. Os traços característicos do novo movimento eram a prática da solidão e da oração pública e privada, a meditação da vida de Cristo, a vida em comum
33 Como se referia na primeira súplica apresentada ao papa por Afonso Nogueira em 1427 (cfr.
Monumenta portugaliae vaticana, vol. 4, Súplicas do Pontificado de Martinho V (Anos 8 a 14), pp. 222- 223).
e a pobreza, numa tentativa de síntese entre o ideal clássico de vida comum dos clérigos seculares e o rigor da mais perfeita disciplina claustral e, por outro lado, entre a ausência de votos religiosos e a mais exigente vida em comum. Os superiores eram eleitos anualmente e não gozavam de nenhuma dignidade especial ou honra prelatícia34. A ascensão de Gabriel Condulmer ao pontificado romano e de Lourenço Justiniano ao patriarcado de Veneza contribuiu para aumentar a visibilidade e o prestígio dos cónegos da congregação de S. Jorge.
D. Gomes Anes era, desde 1419, abade de Santa Maria de Florença, um dos mais importantes mosteiros da congregação beneditina de Santa Justina, que com o impulso de Luís Barbo se estendera por toda a Itália, a partir de 1409. Anteriormente, Luis Barbo fora abade comendatário do mosteiro de S. Jorge de Alga em Veneza, e aí recebera o incentivo e a preparação necessária para se lançar ao empreendimento reformador de Santa Justina35. A reforma do primeiro mosteiro da congregação fora feita com a ajuda de alguns cónegos de S. Jorge de Alga. Para além desta colaboração directa, o influxo da congregação veneziana fez-se sentir também na estrutura organizacional que Barbo estabeleceu na congregação beneditina, nomeadamente na preferência dada a comunidades pouco numerosas, autoridade do capítulo geral, cargos anuais, etc.36. Havia, portanto, uma relação bastante próxima entre os cónegos de Alga e os beneditinos de Santa Justina, a que também Paulo de Portalegre se referia no seu Memorial: “quedou tam grande amor e cõversaçam antre elles e nós que nõ há deferença senõ en o abito somẽte. E asi se am hũs em as casas dos outros, como nas suas propias”37. Esta era, aliás, uma característica das ordens reformadas que se aproximavam umas das outras, independentemente da regra ou espiritualidade que seguiam38.
Assim, com a ajuda do abade Gomes, depois de várias tentativas e de alguma insistência, Afonso Nogueira obteve, entre os meses de Agosto e Novembro de 1426, uma cópia dos privilégios dos cónegos de S. Jorge de Alga39. Privilégios, memorial,
34 Síntese a partir de S. Tramontin, “Canonici Secolari di San Giorgio in Alga” in Dizionário degli Istituti
di Perfezione, vol. 2, Roma, 1975, col. 154-158.
35 Cfr. Silvio Tramontin “Ludovico Barbo e la Riforma di S. Giorgio in Alga”, pp. 98-102. 36 Cfr. Silvio Tramontin “Ludovico Barbo e la Riforma di S. Giorgio in Alga”, p. 104. 37 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 73.
38 Assunto já referido no Cap. I. 3.
constituições ou regra40 foram as diferentes designações registadas na documentação para se referirem os textos que Afonso Nogueira trouxe de S. Jorge de Alga. A variedade terminológica parece remeter, no entanto, para uma mesma realidade, isto é, um texto genérico, não muito longo, que resumia a ideia fundamental do instituto e que se articulava, nas disposições práticas, com outros documentos mais específicos, redigidos normalmente num segundo momento, designados por estatutos, regulamentos, etc.41.
Esta documentação seria um passo importante para conseguir a primeira aprovação pontifícia da forma de vida dos cónegos de Vilar, alcançada a 26 de Abril de 1427. O documento consistiu na anuência de Martinho V a uma súplica de sacerdotes e clérigos do reino de Portugal para viverem segundo usos e costumes de S. Jorge de Alga, em Veneza; confirmava a concessão do mosteiro de Vilar de Frades que o arcebispo de Braga lhes tinha feito e concedia indulgência plenária em artigo de morte aos clérigos da congregação42. Poucas semanas depois, a 1 de Junho do mesmo ano, um novo documento do papa concedia-lhes a faculdade de receberem igrejas paroquiais do direito de padroado de alguns fiéis, e deputarem para o seu governo sacerdotes da congregação com a possibilidade atribuída ao prior de absolver todos os pecados43. A suma autoridade da Igreja reconhecia e aprovava assim esta nova forma de vida religiosa praticada pelos clérigos do mosteiro de Vilar de Frades que se propunham prosseguir na “vida apostólica” à semelhança dos cónegos seculares de S. Jorge de Alga em Veneza.
40 Paulo de Portalegre chama-lhe “constituições daqueles padres”, (cfr. Paulo de Portalegre, Novo
Memorial, p. 91); o abade de S. Jorge Maior de Veneza nas cartas que escreveu a D. Gomes referia-se aos “Privilegii et Novo Memorialis Fratrum S. Giorgii de Alga” que Afonso Nogueira desejava consultar (cfr. Eduardo Nunes, Dom Frey Gomez, pp. 355-356) e o texto dos Statutos e constituyções chama-lhe simplesmente regra (fl. 7). Mais tarde, Jorge de S. Paulo registará na sua crónica setecentista que nesta ocasião Afonso Nogueira trouxe de Itália as constituições e estatutos por onde se governavam os padres de Veneza dados por Angelo Corazio, em virtude da bula da comissão do Papa Bonifácio IX, e outros estatutos que tinham ordenado até 1428, vinte e quatro anos depois da sua fundação (cfr. Jorge de S. Paulo, Epilogo e compendio, p. 177). A indicação dada por Jorge de S. Paulo coincide com os textos publicados em 1540 na versão impressa dos Statutos e constituyções, nos capitulos iniciais intitulados “Começasse ho modo da criaçam da congregaçam de sam Jorge em Alga da cidade de Veneza. Capitulo primeyro” e “De como esta congregação e maneira e vida apostolica foy reformada e confirmada em ho moesteiro de san Jorge Dalga em Veneza: per o reuerendo Senhor dom Angelo bispo castelanensi per huua comissão do papa Bonifacio (...) Capitulo ij” (Statutos e constituyções, fls. 1-4).
41Cfr. Giancarlo Rocca “Regola. I. Visione generale filologico-storica delle r. e costituzioni religiose” in
Dizionario degli istituti di perfezione, vol. 7, Roma, 1983, col. 1410-1451.
42 Publicado em Monumenta portugaliae vaticana, vol. 4, Súplicas do Pontificado de Martinho V (Anos 8
a 14), pp. 222-223.
43 Cfr. Monumenta portugaliae vaticana, vol. 4, Súplicas do Pontificado de Martinho V (Anos 8 a 14), pp.
Até esta altura, não encontrámos nenhuma referência a um regra religiosa específica nem a nenhum outro tipo de princípios formulados ou reunidos por João Vicente para orientarem a vida religiosa adoptada em Vilar de Frades. Aliás, a própria designação de clérigos ou cónegos seculares opunha-se, pelo menos teoricamente, ao seguimento de uma regra, ou regula, que necessariamente os tornaria regulares.
Mas a tradição pontifícia requeria para a aprovação de uma nova ordem a sua classificação dentro de uma grande família ou forma de vida religiosa que normalmente se determinava pela regra que seguia. O IV Concílio de Latrão (1215-1216) tinha travado a fundação de novas ordens, obrigando a adoptar uma regra ou forma de vida de outras religiões já aprovadas. Na prática, mais do que uma proibição absoluta, tratava-se de uma reserva de aprovação das religiões ao Romano Pontífice que, de facto, continuava a dar a sua vénia às instituições que o solicitavam44. Uma forma simples de contornar as disposições de Latrão era pedir a aprovação ad modum, usum et consuetudinem de um instituto já autorizado, com a faculdade de posteriormente se estabelecerem estatutos adaptados à realidade local. Parece ter sido esta a opção de Afonso Nogueira que regressou a Portugal, em Agosto de 1427, munido dos privilégios e regra de S. Jorge de Alga e com a promessa de dois importantes documentos pontifícios para a congregação. É certo que a morosidade no processo de emissão de bulas própria da cúria romana fez com que, alguns meses mais tarde, em Janeiro de 1428, Afonso Nogueira ainda não tivesse recebido os documentos e recorresse uma vez mais ao Abade Gomes para que intercedesse no sentido de acelerar a sua emissão45. Sem eles, dificilmente se poderia prosseguir no processo de oficialização da forma de vida comunitária dos cónegos de Vilar.
Não sabemos se as bulas chegaram ou não. De todas as formas, antes ou depois desta data, Afonso Nogueira comunicou os resultados obtidos a João Vicente e aos outros companheiros. Falar-lhes-ia, certamente, das aprovações e privilégios obtidos na cúria e das experiências que recolhera junto da congregação de S. Jorge de Alga. O Novo Memorial relata que, ao regressar a Portugal, Afonso Nogueira foi a Vilar de Frades, onde se encontravam Mestre João, Martim Lourenço, João Rodrigues e alguns outros, e levou-lhes o hábito, a capa azul e as constituições que trouxera dos irmãos de
44 Cfr. J. Torres, “Documenti pontifici di Approvazione. III. La riserva dell’approvazione delle religioni al
Pontefice e l’ approvazione delle nuove forme di vita religiosa”, in Dizionario degli istituti di perfezione, vol. 3, Roma, 1976, col. 754.
Itália46. Este episódio é associado, na cronística, ao momento em que Afonso Nogueira tomou a decisão de entregar à congregação os morgadios pertencentes à sua família47. No breve resumo histórico que inicia o livro dos Statutos e constituyções, e que segue de perto o Novo Memorial, faz-se a mesma associação48. Como os religiosos se negassem a aceitar esse património, para evitar o peso da sua administração, “por paz de suas conciencias”, Afonso Nogueira retornou ao mundo, vivendo sempre vida honesta e exemplar49. A sua saída da congregação poderá ter ocorrido em 143250. Encerrava-se assim a sua colaboração directa na fundação dos lóios. Não deixou no entanto de os proteger e favorecer em várias ocasiões, até à sua morte em 146451.