Valentin Calderón era pronapiano e adotava o método de análise segundo as normas científicas desenvolvidas numa publicação nos anos 1970 (MEGGERS; EVANS, 1970), decorrente de um treinamento realizado pelo Smithsonian Institution e pela Universidad Nacional del Centro, Huancayo, nos anos 1967, e que se estendeu também ao Brasil na implantação do PRONAPA. Segundo Betty Meggers e Clifford Evans, os autores desta publicação, este manual teve forte influência, de ordem teórica e prática, de James A. Ford que em 1962 havia publicado um livro intitulado A Quantitative Method for Deriving
Cultural Chronology. Esta publicação decorreu do Seminário de Estudos de Novos Métodos
para Estabelecer Seqüências Cronológicas das Culturas Pré-Colombianas na América, que pretendia divulgar entre os arqueólogos sul-americanos as concepções metodológicas de Ford. Este seminário foi realizado em Barranquilla, Colômbia, em 1961, no qual estavam presentes Betty Meggers e Clifford Evans (apud DIAS, 1995). Ao redimensionar estas publicações, enquanto materialidades textuais que exerceram influência na prática arqueológica, inclusive no campo científico da arqueologia brasileira, Klaus Hilbert (2007a, p. 127) afirma que: “O manual de Betty Meggers e Clifford Evans (1970), Como interpretar
a linguagem da cerâmica, e o manual de Ford se complementavam e formavam um
instrumento prático que influenciou a arqueologia Sul-americana nas décadas de 1960 e 1970”.
Logo no início do prefácio deste “manual para arqueólogos”, há alusão à metodologia, deixando claro que o objetivo daquela escritura era “o método quantitativo para estabelecer cronologias culturais” (MEGGERS; EVANS, 1970, p. i). Em seguida, Betty Meggers e Clifford Evans (1970, p. i) defendem o teor de cientificidade atribuído ao método quantitativo ao afirmarem que: “Por outro lado, na América Latina suas potencialidades estão se tornando largamente apreciadas, especialmente pelos jovens arqueólogos que são atraídos mais pelos aspectos científicos da disciplina do que pelo lado artístico”.
De qual modo os aspectos científicos deste método, quando contrastados com os aspectos artísticos, irão demarcar o empirismo analítico refletido nos próprios textos sobre a Tradição Itaparica, entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1980? Estes preceitos imprimiram o tom na marca da discursividade da Tradição Itaparica? O apelo à objetividade científica parece se instituir marcadamente frente à ausência de subjetividade na escritura do texto arqueológico desta referida tradição cultural-arqueológica, ao serem apresentadas exaustivas descrições acerca do meio ambiente, demarcações cronológicas por meio de datações, levantamentos estatísticos da cultura material, e extensas listagens com denominações da tipologia dos instrumentos. Eis o prenúncio da objetivação material- textual da Tradição Itaparica. Semelhantes construções textuais também foram observadas pelo antropólogo Clifford Geertz em trabalhos etnográficos, onde em alguns predominava o empirismo, possivelmente relacionados a concepções antiquadas no que diz respeito ao modo em que se “estabelecem” os “fatos” nas ciências mais exatas (GEERTZ, 2005). O método quantitativo de análise da cerâmica afirmava, em primeira instância, o procedimento classificatório, em que a argumentação de sua eficácia residia num paralelismo conceitual entre a materialidade cultural e as ciências biológicas, e ainda com alusões a outras ciências exatas, a saber, a Química e a Física. A Biologia exerceu uma maior influência nesta concepção metodológica mediante o reconhecimento das noções de instabilidade/mudança e variabilidade observadas tanto nos seres vivos, quanto na cultura material arqueológica (MEGGERS; EVANS, 1970). Este “estado das coisas culturais”, sujeito à mudança, na perspectiva teórico-metodológica nas ciências sociais, foi percebido por Betty Meggers e Clifford Evans a partir dos modelos evolucionista e difusionista que, de acordo com Hilbert (2007a), tanto se complementam quanto se opõem. Este arqueólogo considera que, por um lado, a complementaridade reside na explicação das mudanças segundo a categoria temporal numa perspectiva diacrônica. Por outro, enquanto o evolucionismo enfatiza o crescimento da complexidade cultural ao longo do tempo, essas mudanças culturais, sob a perspectiva do
difusionismo, são percebidas também na extensão do espaço, em que se demarca uma oposição segundo as categorias de análise espaço e tempo. Diante da variedade da cultura material, onde a cerâmica é especificada, Meggers e Evans (1970, p. 5) apontam algumas dificuldades relacionadas ao procedimento classificatório:
O arqueólogo que tenta classificar cacos de cerâmica enfrenta, também, uma categoria de fenômenos em contínua mudança, variando geograficamente e temporalmente, como um resultado não somente, de diferenças culturais ao que se refere à função, produção e estilo, mas também como conseqüência de inconsistências acidentais em matérias primas, na diferente habilidade dos oleiros, e sua desigual susceptibilidade sob a influência de outros estilos cerâmicos. A dificuldade em se chegar a critérios universalmente aceitáveis71, para dividir esta variação em uma série de tipos, resultou na falta de uniformidade na classificação
da cerâmica72, não somente entre os que trabalham em áreas diferentes, mas,
mesmo entre aqueles que trabalham com material similar. A adoção de regras
universais na classificação arqueológica73 também tem sido dificultada pela falta
de comunicação entre os arqueólogos de formação clássica e os de formação antropológica.
A expectativa de “uniformidade” e “universalização” se constituía nos tons mais expressivos na escala de orquestração do habitus científico, ao ser empregado o método de classificação da cultura material. Betty Meggers e Clifford Evans, enquanto agentes no campo da arqueologia brasileira, afirmavam estes princípios metodológicos quando do treinamento da geração de arqueólogos que atuavam no PRONAPA e ainda, influenciavam outros arqueólogos que não participavam diretamente deste programa de pesquisa. De algum modo, diante da variedade dos vestígios cerâmicos, a classificação arqueológica a partir do emprego de critérios universais poderia contribuir para a sistematização dos dados/objetos nos termos de uniformidade, numa linguagem comum que permitisse lê-los e situá-los ordenadamente! Se a palavra se inscreve na nominação da cultura material, ao mesmo tempo ela está circunscrita aos procedimentos analítico-metodológicos que classificam e descrevem as coisas74. A descrição, por meio das palavras, tem o potencial de preencher/substituir até mesmo a ausência da cultura material arqueológica, a qual o pesquisador não tenha acesso diretamente, na medida em que: “A descrição deve permitir a identificação do tipo cerâmico por outro investigador que não tem acesso aos espécimes
71 Grifo meu. 72 Grifo meu. 73 Grifo meu. 74
No capítulo 5 também será considerado o procedimento analítico denominado cadeia operatória, posteriormente empregada em instrumentos líticos pertencentes à Tradição Itaparica.
correspondentes do tipo, a terminologia deve ser clara e precisa. Sempre que possível devem ser usadas medidas para definir adjetivos ambíguos” (MEGGERS; EVANS, 1970, p. 42).
Embora a descrição terminológica fosse ressaltada no procedimento de identificação da cultura material, havia um apelo à quantificação que, de certo modo, poderia imprimir maior objetividade ao universo das palavras que pudessem conter ambigüidades, e ainda, tornar mais preciso ou mensurável o mundo das descrições qualitativas dos vestígios cerâmicos. Na configuração de uma cultura, mediante os processos evolutivos ou graus de complexidade pelos quais tivesse passado, não era suficiente apenas descrever, mas, sobretudo, comparar! Na Idade Clássica, em princípios do século XVII, a semelhança é excluída do pensamento enquanto experiência fundamental e forma primeira de saber, e se busca analisar o que parece um misto confuso, em termos de identidade e de diferença, a partir da comparação (FOUCAULT, 1999). Nos anos 1958, Betty Meggers e Clifford Evans haviam publicado um artigo intitulado “O Emprego do Método Comparativo na Interpretação Arqueológica” onde afirmavam que “ao examinar a coordenada horizontal ou geográfica, isto é, a sua distribuição, o arqueólogo, como o etnólogo, tem de recorrer principalmente ao método comparativo” (MEGGERS; EVANS, 1958, p. 400). O filósofo francês Gaston Bachelard considera que a descrição e a comparação são dois momentos no processo de conhecimento. Primeiramente, a descrição se constitui numa “definição provisória” que contribui para fixar o objeto de estudo e elucidar a passagem do conhecimento vulgar/popular para o conhecimento científico. Em seguida, os métodos de comparação e de localização, a partir de um maior refinamento e precisão, irão imprimir maior cientificidade ao processo de conhecimento. Este filósofo afirma ainda que, apesar das comparações quantitativas proporcionarem maior exatidão frente às comparações qualitativas, isto não impede que em ambos os casos o procedimento seja a comparação, proveniente de uma mesma ordem de pensamento que tem como princípio enumerar as semelhanças e diferenças. Diante das recomendações de Meggers e Evans (1970) para serem usadas medidas, tendo em vista a superação das ambigüidades das palavras qualitativas no ato da descrição dos vestígios cerâmicos, reside a expectativa de promover melhores condições para a comparação, visto que “a medida traz simplesmente consigo a facilidade de comparação, que ela extrai da linguagem matemática na qual se expressa” (BACHELARD, 2004, p. 54).
4.3 O “PRONAPIANO” VALENTIN CALDERÓN E A INDÚSTRIA “SEM PONTAS DE