8. ÖMER SEYFETTİN VE WOFGANG BORCHERT’İN KISA ÖYKÜLERİNİN
8.2.2. Das Holz für morgen
As relações entre os media e aqueles que recebem seus produtos têm sido analisadas dentro de duas tradições: os Estudos dos Efeitos e os Estudos de Recepção. Segundo Gomes, os Estudos de Recepção “[...] propõem-se a analisar as interpretações que o público dá aos textos mediáticos ou, mais amplamente, o consumo ou uso que o público faz dos textos e das tecnologias de comunicação” (GOMES, 2004, p. 174). A grande parte das pesquisas de recepção está voltada para a TV e as conclusões dos estudiosos coincidem com as colocações de Eco (1979) e Certeau (1994); aposta-se em uma audiência ativa,
[...] acredita-se que os telespectadores estabelecem suas próprias significações e constroem sua própria cultura, ao invés de sofrer passivamente os efeitos da presença da TV nas sociedades contemporâneas, em vez de receber passivamente os significados previamente construídos em outros momentos do processo comunicativo (GOMES, 2004, p. 174).
Já os Estudos dos Efeitos são “[...] aqueles que procuram medir o impacto que os meios de comunicação têm sobre a audiência [...]. Em geral, pode-se dizer que tais estudos são guiados pela pergunta: o que os meios de comunicação fazem às pessoas?” (GOMES, 2004, p. 15).
A tradição dos Estudos dos Efeitos engloba várias hipóteses, correntes de investigação e abordagens teóricas, mas este estudo vai se ater à Teoria Crítica. Segundo essa corrente de pensamento, desenvolvida, entre outros, pelos filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer, fundadores da Escola de Frankfurt, o receptor das mensagens midiáticas não escaparia das falsas necessidades da “indústria cultural”, termo criado pelos estudiosos em 1947:
Em geral, os pensadores de Frankfurt entendem a cultura e a comunicação de massa como inseridas no sistema capitalista de produção, obedecendo ao mesmo modelo de gestão, organização e distribuição, à mesma racionalidade técnica, que caracteriza qualquer produto industrializado (GOMES, 2004, p. 66).
Além de obedecer à lógica capitalista, a indústria cultural anularia as consciências dos indivíduos e garantiria uma aceitação da ideologia do sistema social dominante: os meios de comunicação “seriam os veículos propagadores de ideologias próprias às ‘classes dominantes’, impondo-as às classes populares (subalternas) pela persuasão ou pela pura e simples manipulação” (POLISTCHUK; TRINTA, 2003, p. 111, grifo dos autores).
Segundo os fundamentos da Teoria Crítica, “o receptor, relegado à natureza de massa – disforme, alienado – encontra seu mais baixo ponto: já não é mais um ser de vontade e de desejo, e apenas obedece ‘a voz de seu senhor’” (FRANÇA, 2006, p. 64).
Apesar de se ter uma falsa ideia que o interesse pela atividade do receptor só surgiu com os Estudos de Recepção, Gomes (2004) lembra que as investigações sobre os efeitos indicaram muitas pistas sobre aquele que recebe o texto midiático. Pode-se dizer que as noções sobre o consumidor indicadas pelos estudiosos dos efeitos foram reformuladas nos Estudos de Recepção. Essa outra tradição começou a ser desenhada com a emergência dos Estudos Culturais, uma corrente de pesquisa sobre cultura, poder e sociedade surgida na Inglaterra nos anos de 1960. Com o fortalecimento da indústria cultural e o surgimento da televisão, seus investigadores passam a se interessar pelas mensagens midiáticas. No início, os textos dos media eram vistos como exemplos de como a ideologia impunha as ideias dos grupos dominantes à sociedade. Posteriormente, os estudiosos vão superar essa crença e se dedicam a entender “como os sujeitos empíricos negociavam os sentidos ideológicos das mensagens e resistiam aos seus apelos”. (GOMES, 2004, p. 229).
Umberto Eco e Mikhail Bakhtin são dois dos teóricos que auxiliam os pesquisadores dos Estudos Culturais a entenderem a resistência dos receptores. Eco, por apostar numa audiência ativa. Bakhtin, por tratar, em sua obra Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), da polissemia, mas entendida como uma abertura para diferentes interpretações. De acordo com Gomes (2004, p. 231), a contribuição da polissemia para os Estudos Culturais é que se abre uma margem para “que os receptores elaborem uma ‘leitura diferente’, a partir de sua inserção nos contextos sociais mais amplos. Em outros termos, polissemia implica a solicitação da atividade dos receptores”.
Apoiados nesses pressupostos, os pesquisadores dos cultural studies passam a considerar que:
Leitor, telespectador, receptor não são aqui sujeitos textuais, mas sujeitos sociais, o que significa, para os Estudos Culturais, sujeitos que têm uma história, vivem numa formação social particular (que deve ser compreendida em relação a fatores sociais tais como classe, gênero, idade, região de origem, etnia, grau de escolaridade) e que são constituídos por uma história cultural complexa que é ao mesmo tempo social e textual (GOMES, 2004, p. 229-230).
Stuart Hall, um dos autores de referência dos cultural studies, considerado por muitos o fundador91
Retomando Eco (1979), os produtores imaginariam um “telespectador-modelo” que, na recepção, se guiaria pelas estratégias ou mapas de leitura usados na codificação. O que se sabe, no entanto, é que os receptores lançam mão de diversas táticas, fazendo emergir outras leituras. Para Hall, os receptores podem assumir três tipos de comportamento: aceitar a dessa corrente de pensamentos, tentou interpretar como esses sujeitos sociais lidavam com o que lhes vinha da mídia, desenvolvendo o modelo “codificação/decodificação”. Com ele, Hall tentou analisar tanto a codificação da mensagem (uma das etapas da produção) quanto a decodificação (consumo/recepção), presumindo que deve haver algum grau de reciprocidade entre os dois momentos: “O trabalho de codificação constrói os limites e parâmetros dentro dos quais a decodificação irá operar, impondo um ‘sentido preferencial’ da mensagem” (GOMES, 2004, p. 167).
91 Os Estudos Culturais organizaram-se institucionalmente em torno do Centre for Contemporary Cultural
Studies (CCCS), da Universidade de Birmingham. Na verdade, foram Richard Hoggart, Raymond Williams e Edward Thompson que assinaram os textos inauguradores dos Estudos Culturais, mas foi sob a direção de Hall, entre 1968 e 1979, que o CCCS teve seu período mais brilhante (GOMES, 2004, p. 103-104).
leitura preferencial indicada pelos produtores, fazer uma negociação com a fonte produtora ou se opor à mensagem. Como fazem notar as pesquisadoras Nilda Jacks e Ana Carolina D. Escosteguy, no modelo de Hall pode haver uma leitura
dominante, quando o sentido da mensagem é decodificado segundo as referências de sua construção; oposicional, quando o receptor entende a proposta dominante da mensagem mas a interpreta seguindo uma estrutura de referência alternativa, isto é, outra visão de mundo; negociada, quando o sentido da mensagem entra ‘em negociação’ com as condições particulares dos receptores, compondo-se de um misto de lógicas contraditórias que contém tanto os valores dominantes quanto argumentos de refutação (JACKS; ESCOSTEGUY, 2005, p. 40).
Hall (2003), no entanto, frisa que a maioria dos sujeitos “nunca está completamente dentro de uma leitura preferencial ou totalmente a contrapelo do texto”. Os receptores movem-se entre as três posições e é o “trabalho empírico que vai dizer, em relação a um texto particular e a uma parcela específica da audiência, quais leituras estão operando” (HALL, 2003, p. 371).
O sociólogo David Morley, em sua pesquisa The Nationwide Audience, foi quem testou empiricamente o modelo de Hall. Realizado entre 1975 e 1979 e publicado em 1980, o estudo analisou a recepção de um noticiário popular da BBC. Morley pesquisou a recepção em vários grupos socioculturais e mapeou quais se encaixavam mais nas leituras dominantes e quais tinham uma leitura negociadora ou contestatória.
O modelo de Hall, segundo o próprio autor, precisa ser aprimorado porque não daria conta de explicar a complexidade dos processos. No entanto, para o desenvolvimento desta pesquisa, a avaliação foi de que seria uma metodologia capaz de subsidiar a análise especialmente da recepção dos quadros de Minha Periferia porque, mesmo com suas limitações, “sugere uma abordagem, abre novas questões, mapeia o terreno” (HALL, 2003, p. 356). Como o foco deste trabalho está no resultado da recepção, para dar atenção ao processo de recepção as contribuições de Martín-Barbero (1997) também serão levadas em conta.