3. GENEL JEOLOJİ
4.7 Hoek Brown Yenilme Kriteri
A demanda de saúde mental relacionada ao uso abusivo de drogas emerge na verbalização dos familiares, tendo em vista que não se identificou, nessa situação, casos de busca espontânea pelo serviço. Entretanto, foram mencionadas circunstâncias em que os filhos explicitam a necessidade de intervenção dos pais para tratamento, por admitirem o risco de não sobrevivência ou insanidade. Ficam evidenciados aspectos de vulnerabilidade e de
riscos para os usuários, envolvimento em atos de vandalismo e infrações, situação de abandono da casa dos pais e recusa de tratamento ambulatorial. Ressalta-se que há casos em que a demanda de uso abusivo de drogas coexiste com outros quadros de transtornos mentais. Nessa categoria, a existência descrita como dependente surge como sendo intermediada, controlada, tutelada por instâncias institucionais e autoridades.
Existência dependente
As condições existenciais relacionadas ao consumo e a dependência química; as condições de vida na casa e na rua; e as alternativas encontradas para a aquisição da droga.
A dependência e as condições de vida:
“Quando o médico perguntava, quando passava psicóloga ou assistente social e perguntava qual era a droga, ele falava assim, oh, eu sou clínico geral, tudo que vim eu pego mesmo, o meu ponto forte é o crack” (Messias - Tim).
“O Leandro ainda se enrolava mais com pouca coisa, assim, vamos supor, era uma, duas, três pedra. Agora o Tim chegou um momento que ele falou, pai, se tiver um caminhão eu queimo tudo” (Messias-Tim-Leandro).
“Tá limpa, faz uns quatro, faz três anos que ela tá limpa. Ela usou bebida alcoólica primeiro, cocaína e maconha, segundo ela” (Socorro – Linda).
“A primeira coisa, as coisa de casa não podia facilitar, some tudo se deixasse. E a porquice!! É, no quarto fede! De um dia pro outro. Cheio de papel, tranqueirada, cachimbo. E eu catava e jogava tudo no mato. Bituca de cigarro, palito de fósforo, latinha amassada. Que infelizmente acabava fumando dentro do quarto!” (Messias – Leandro).
“Ele começou a infiltrar no mundo das drogas mesmo. Aí foi onde ele começou a fumar, como é que chama aquela que é pó? Cocaína! Sumiu. Uma vez ele ficou dois, três dias sumido. Aí eu descobri que tinha passado pro crack, já. E tomando os medicamentos forte e fumando, consumindo droga. Começou a consumir a droga abusivamente, né? Começou a perder o discernimento do que é certo e do que é errado juntamente com aquela patologia, que eu falei, moderada, que é uma doença mental (esquizofrenia)” (Salvador-Júnior).
“Chegou ao ponto de eu trancá-lo dentro de casa. Mas eu vi que eu não conseguia! Ficou um mês assim, um mês com ele trancado dentro de casa. Não acorrentando ele, eu trancava as portas!” (Salvador- Júnior).
As formas de aquisição:
“Piscô o zoio, deixou dinheiro em casa, cinco reais, dez reais, mais de cinquenta nunca catou, mas cinco, dez, quinze! Celular, rádio, ferro de passar, pacotinho de arroz, litro de óleo. Essas coisas era só trancado no quarto, não podia bobiar” (Messias - Leandro).
“Ele saia de tênis, todo arrumado. E voltava de bermuda velha e chinelo de dedo, que não era nem dele. Você saiu com uma blusa boa, uma jaqueta boa, uma calça boa, um tênis bom... desapareceu? Era droga! Vendi pra droga! Quer dizer... Ele usava a droga, dava a roupa do corpo por droga porque a droga já tinha feito dele um dependente dela feito um robô, porque a droga faz um robô dela! Zumbi! Principalmente o crack...” (Salvador-Júnior).
Existência infracional
Relatos de comportamentos infracionais e de conflitos com a lei.
“Vamos supor, chuta lata, bate nos poste, nos poste de placa, saía querendo entortar plaquinha, vandalismo na rua. Os guardinha parou, os dois teve um desentendimento, desacato, então foi processo. Ele ficou muito tempo respondendo esse processo. Ia em casa lá o oficial de justiça e falou, oh, pra poder quitar isso aqui tem duas cesta básica aqui, Leandro, pra você poder pagar. Enrolou, enrolou. Infelizmente por bondade, por froxura da justiça, vamos se dizer assim, tava liberado. Tá respondendo outro (processo), sexta-feira agora tem que levar um papel lá, já tá avisado lá. Acho que já faz um ano e ainda tá assinando, mas o outro cara foi preso, né? Invasão de domicílio. O outro cara era meio violento, ele tava drogado e tá respondendo esse processo” (Messias- Leandro).
“E nóis veio ajudar aqui na igreja, no armoço. Quando eu cheguei em casa, até que arruma mesa, arruma cadeira, eu cheguei em casa umas três hora, três e pouco. Tirei só o sapato e encostei no sofá pra descansar, bate parma. Saí, era a viatura com meu filho dentro, ele era de menor. A mãe deles (netos) e o meu filho dentro da viatura. A família dela tudo envolvida com droga, os irmão, eles vendia. E aí, pegou!” (Messias-Tim).
“Eu sei que bicicretas, alguma coisa assim, pra ele se manter na droga, ele falou que roubou muitas” (Messias- Tim).
“Ela chegou a roubar, ficou presa, acho que ficou dez dias presa. Acho que devolveu o dinheiro. Ah, teve muitas situações... muitas ...” (Socorro-Linda).
“Aí, ele saiu da clínica, na mesma semana sumiu e começou a usar descontroladamente, pior do que tava! Pior do que tava. Tanto que ele começou a roubar, a furtar e aí num desses furtos ele foi preso. Ele saiu dia 20 de junho, dia 25 de julho do outro mês seguinte ele foi preso por roubar pra consumir a droga. O outro elemento nunca achou, ninguém sabe onde que tá, mas ele acabou levando toda a culpa, porque ele simulou que estava armado. Mentira, meu filho nunca usou porcaria de arma, é por causa da droga, a droga faz a pessoa ficar, né? Perder toda a razão de ser. Aí ele, ele está lá até hoje” (Salvador – Júnior).
Existência ameaçada
Foram identificadas situações em que o consumo abusivo ameaçava as condições de existência; riscos de suicídio; falta de cuidados pessoais e nutricionais; situações de riscos por envolvimento em brigas; vulnerabilidade em situação de rua e de exposição em área rural.
“Ele já tava assim, andando que nem um louco, né? Tava falando em suicídio, que ele não queria mais, que ele queria acabar com a vida dele, que não tinha mais jeito e tatatá” (Messias - Tim).
“Ele chegou pra mim e falou, pai, infelizmente eu tô viciado no crack. Ele falou pra mim chorando eu não consigo largar! Se o pai me ama, me dá um dinheiro pra mim comprar, pai? Senão eu não sei o que vai acontecer... chorando [...] Aí ele sumiu! Sumiu de ficar uma semana fora, de pessoas ligarem pra mim e avisar que ele tava não sei aonde, no meio do mato” (Salvador-Júnior).
“Quando ele trouxe a carta do médico, o médico deu uma carta bem mais sofisticada [...] porque o caso dele tava muito pior. O médico ficou preocupado, falô que se não internasse imediatamente, eu vou dar um prazo de vida pra vocês, seis mêis. Ele tava, fazia dois mêis que ele tinha passado no médico, ele esmagreceu 12 kg” (Messias - Tim).
“Eu já cheguei a pegar a Linda morta, de ter que passar sonda gástrica porque ela tava desnutrida, pra não morrer. É que não era a hora” (Socorro – Linda).
“Aí dispois ele quase morreu, os cara pegou ele na rua, os cara bateu tanto que a camisa dele sanguento tudo. Aí ele ficou meio alongado pro mato e aí... Eu já pedi pra Deus que não quero vê ele sofrendo. Se chegar e falar assim, morreu, foi matado, pra mim... qualquer hoje pra mim passa isso... o mais que passa em mim é o medo de ficar sofrendo, então... é muito, muito, muito difícil” (Messias – Tim).
Existência tutelada
Referências a diferentes instituições e/ou autoridades acionadas para tutelar a existência das pessoas com demandas de saúde mental. Tutela, nesse contexto, está sendo entendida como as diferentes intervenções envolvendo terceiros para interceder diante das demandas de saúde mental.
“Ele ficava, oh pai, e lá (DPESP) pai? Não me chamaram (processo de internação compulsória)? Pelo amor de Deus pai, se tiver que ir amarrado eu vou! Se tiver que ir amarrado e algemado com a polícia eu vou! Eu vou morrer, pai! Nossa!!! Aquilo era de... aí, foi que deu certo, e graças a Deus tá bem. No dia, ficou fora a noite toda. Fumou, fumou, chegou o SAMU ele tava desmaiado no sofá (Messias – Tim).
Foi demorado (o processo de interdição), foi triste, não vou te falar que é triste! Tentar convencer ele de interditar ele foi difícil. Que nem eu falo pra ele assim, a única coisa que ele não pode fazer é casar sem a minha autorização, o resto ele pode fazer tudo, não é?” (Irma-Getúlio).
“A partir de agora eu vou ficar só com a responsabilidade que a senhora (psiquiatra) está me delegando, não vou negar, mas as coisas vão mudar, porque ela tem condições, ela tem raciocínio. Medicada ela tem condições de ter uma vida normal. Falei pra ela, pra ver se a gente chacoalha” (Socorro – Linda).
“Saiu no corredor, tava fumando, saiu fumando, apagou o cigarro e jogou o cigarro fora e foi embora (com a ambulância do SAMU para internação compulsória)”
(Messias – Leandro).
“Não podia falar, senão ele desaparecia e cabou! Ah, não, filho, fica tranquilo. Ele ai, tinha uma rede na área e ele ficava... ah, pai, deixa eu sair! Deixa eu sair! Deixa eu sair... tem que ver como que fica... deixa eu sair, por favor? Ele não agredia, ele nunca me agrediu. Deixa?[...] Fica tranquilo, fica calmo! Aí, de repente, 7h30 chega o SAMU pra levar ele” (Salvador – Júnior).
“As crianças foram recolhidas em orfanato, é muita história! Ficaram um ano. O juiz acho que tentando ver que rumo ela tomava, porque até então, não dava pra você diagnosticar. A droga acho que mascarava” (Socorro-Linda).
“Aí quando eu peguei (guarda dos netos) foi definitivo, ela perdeu o pátrio poder, ela não saía daqui (DPESP). Ela não entendia o que era isso. Hoje ela não tira mais, o mais velho, também, não tem nem como. Mas o pequeno ela não leva pra onde ela quer. [...] A vida dela se resumia lá na Vara da Infância e da Juventude, Delegacia da mulher, Orfanato, Vara da Infância e Defensoria. Eu quero meus filhos de volta!” (Socorro – Linda).
A análise das características de existência das pessoas que buscam a Defensoria Pública no Estado de São Paulo com demandas de sofrimento e/ou de transtornos mentais evidencia histórias de vida de grande complexidade de privações, violência e violação de direitos. Condições de existência em que não apenas a dignidade humana encontra-se ameaçada, mas a própria vida.
No início da análise, as alusões ao estranhamento e à busca de compreensão do linguajar da área médica remetem ao desconforto vivenciado pela dificuldade de entendimento sobre si e as tentativas de procurar nomear, a partir do repertório linguístico do outro, suas próprias circunstâncias de vida (ou a de seus familiares): um desconhecimento, uma alienação, uma existência de difícil compreensão. Pessoas que vivenciam o sofrimento constante proveniente dos mais diferentes tipos de violência, tanto em ambiente doméstico como em situação de rua, endereço que as pessoas em sofrimento podem buscar, mesmo em casos que familiares se fazem presentes. Relatos de existências permeadas de riscos para a própria sobrevivência seja por exposição a situações de violência, por falta de alimentos e submetendo-se às adversidades, ou ao consumo de drogas. Existências incompreensíveis, violentadas, ameaçadas ou “não existências”, mas que de alguma maneira se mostraram presentes na DPESP, ou por busca espontânea ou por familiares que procuram alternativas para existências caracterizadas pelo sofrimento mental.
Tendo sido abordadas as características de existências da demanda de saúde mental que chega à DPESP, o estudo prosseguirá com a análise dos trajetos já percorridos por esses participantes em busca de acesso aos seus direitos, considerando-se, inicialmente, as referências à busca pelos serviços do Sistema de Saúde e, posteriormente, pelo Sistema de Justiça. As referências específicas aos serviços da Defensoria serão analisadas separadamente.