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Os Comitês Brasileiros de Anistia (CBAs) abrem 1979 - que virá a ser o Ano I da anistia parcial - mantendo e intensificando a ofensiva a partir da implementação do eixo político aprovado no I Congresso Nacional pela Anistia (São Paulo, Novembro/1978), traduzido da seguinte forma na avaliação de conjuntura da 2a Reunião da Comissão Executiva Nacional, realizada em Belém do Pará nos dias 27 e 28 de janeiro:

“Avaliou-se que o quadro político que atravessamos é de instalação do projeto de ‘ditadura reformada’ lançado pelo governo Geisel. Em sua essência mantém-se o caráter autoritário repressivo do regime, apesar da aparente abertura, necessária à recomposição de bases de sustentação e apoio. Assim é que, além da nova Lei de Segurança Nacional e da queda do banimento, esse projeto chega hoje a propor formas de anistia parcial, numa investida direta no sentido de enfraquecer a proposta da ANISTIA AMPLA GERAL E IRRESTRITA. Diante dessa avaliação, a CEN entende que o eixo político do movimento pela Anistia deve centrar todo nosso esforço na denúncia dessa manobra e na reafirmação e popularização da luta pela ANIS TIA AMPLA GERAL E IRRESTRITA “.272

O conteúdo das discussões desta reunião mostra claramente o objetivo de concretizar o que ficou designado como “as duas faces da anistia”273:

• a primeira, relativa às questões vinculadas àqueles que já haviam sido atingidos pela repressão, prioridade exclusiva do movimento até o I Congresso Nacional pela Anistia;

• a segunda, nova diretriz então firmada, voltada para a popularização da luta e a defesa intransigente “dos que hoje estão lutando”,274 com ênfase no movimento operário e popular , principal alvo da ditadura nesta conjuntura de retomada das greves e dos organismos de base .

2 7 2 Relatório da 2a Reunião da Comissão Executiva Nacional, Belém do Pará, 27 e 29 de janeiro de 1979, p.4. 2 7 3 Carta do Con gresso Nacional pela Anistia, São Paulo, 5 de novembro de 1978, (v. anexo); Em tempo, 37, 13 a 19 de novembro de 1978, p.4.

Diz a Carta de Belém do Pará – “Repúdio à mais nova farsa da ditadura”:

“(...) A anistia tem dois significados fundamentais: primeiro – permitir que retornem à vida social e política todos, presos, condenados, cassados, exilados, demitidos, aposentados, enfim, perseguidos que lutaram contra o regime de arbítrio instalado no país em 1964; segundo – permitir que o povo brasileiro tenha o direit o de se organizar, de se expressar, de se manifestar, sem ser vítima de violências e repressões. Todavia, diante do avanço das lutas populares - greves operárias, a luta dos camponeses pela terra, o rompimento da censura pela imprensa, o avanço do movimento contra o custo de vida, enfim toda a luta que o povo brasileiro desenvolve por melhores condições de vida e pelas liberdades políticas, o regime busca trocar de roupa. O aceno de uma anistia parcial é apenas mais uma manobra do regime para tentar se eternizar no Brasil. (...) O povo brasileiro, contudo, não se deixa mais enganar” exige ANISTIA AMPLA GERAL E IRRESTRITA. Exige o desmantelamento de todo aparelho repressivo que a tantos matou, torturou, trucidou nos últimos 15 anos. Exige a apuração das torturas, e que todos os torturadores sejam devida e legalmente responsabilizados. Exige liberdade e melhores condições de vida.” 275

A popularização da luta pela anistia coloca-se, assim, como questão de princípio para os CBAs. A sua implementação apresenta, no entanto, dificuldades que serão enfrentadas com certa perplexidade e muita ansiedade ao longo de todo o percurso do movimento daí em diante. Quanto ao apoio imediato, de “curto prazo”276 ao movimento operário e popular, problema algum é colocado, ele vem instantâneo e incondicional, com especial atenção para a defesa dos metalúrgicos do ABC paulista, cujos sindicatos se encontram sob intervenção: o movimento se lança em campanha nacional contra esta intervenção , pelo direito de greve e pela liberdade sindical, que inclui participação no Fundo Nacional de Greve, contato com outras entidades para ampliação do apoio e manifestações públicas.277

2 7 5 2a Reunião da Comissão Executiva Nacional, Carta de Belém – Repúdio à mais nova farsa da ditadura , Belém do Pará , 28 de janeiro de 1979 ( anexo).

2 7 6 Relatório da 4a Reunião da Comissão Executiva Nacional, Campo Grande-MS, 5 e 6 de maio de 1979, p.2. 2 7 7 Idem ibidem.

As dificuldades se apresentam no que se refere às questões consideradas de “médio prazo”278 - a concepção e estratégia de popularização. Levantamento feito na 4a Reunião da Comissão Executiva Nacional (Campo Grande- MS, maio de 1979) das afirmações e indagações mais recorrentes sobre a matéria no interior do movimento revela o teor da discussão:

“Afirmações características ou relevantes sobre Popularização:

a- Estando boa parte das organizações populares no nível de lutas reivindicatórias é difícil fazê- las assumir bandeiras mais explicitamente políticas;

b- Uma dificuldade para o avanço dos movimentos de anistia é a de relacionar a anistia com reivindicações populares;

c- A questão é política e não técnica; divulgação é um meio, mas o fundamental é que setores populares tomem a luta como sua

d- Anistia deve ser vista como luta pelos direitos humanos e contra a repressão, inclusive ao nível cotidiano. A população precisaria perceber a função política da repressão policial – manter o povo no seu ‘lugar’;

e- A importância de apoiar a luta operária evitando o seu isolamento;

f- A importância de, além das vanguardas atingis e incorporar massas de setores médios (...)

i- Deve-se manter a especificidade da luta, mas ter consciência de que o crescimento da luta pela anistia depende do crescimento do movimento popular.”279

Os diversos núcleos passam a mobilizar energia e esforços na tentativa de superar estas limitações e franquear o caminho para a tão almejada popularização. Dois exemplos ilustrativos são fornecidos pelo CBA e MFPA -MG: interessante publicação em quadrinhos, de dezembro de 1978, com arte do Grupo Mineiro de Desenho (GMD), buscando traduzir na linguagem do gibi a bandeira da Anistia Ampla Geral e Irrestrita a partir de roteiro ambientado em fictícia comunidade operária ;280e a proposta - não menos interessante, mas talvez um pouco mirabolante– de criação do Pronto Socorro

dos Direitos Humanos281 que, na verdade, não chega a se consolidar. Ele seria órgão de defesa e

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