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3.1. Hizmet Kalitesi Modelleri

3.1.2. Hizmet Kalitesi Fark Modeli (Beş Fark Modeli)

“A luta pela anistia – a nossa maior batalha...” D. Paulo Evaristo Arns231

Com o ascenso vertiginoso do movimento a partir do salto de qualidade promovido pela atuação dos Comitês Brasileiros de Anistia (CBAs) e pelo avanço político e organizativo trazido pela criação da Comissão Executiva Nacional (CEN), no I Congresso Nacional pela Anistia (São Paulo, novembro/1978), o movimento ganha definitivamente as ruas e fica incontornável a inclusão do tema na pauta da mídia e das discussões polít icas e institucionais. Aí tem início o aprofundamento de processo que vai acabar revelando e colocando à prova, de forma exemplar, os limites e contradições do projeto de institucionalização do regime, então em andamento - a autodenominada

distensão/abertura lenta, gradual e segura – e também as vicissitudes da luta pela anistia.

Na lógica do consenso básico articulado pelo general Geisel, a anistia não é considerada 232 e, se mencionada, é para ser imediatamente descartada e/ou contestada. Sobretudo ao longo de 1977-78, quando são urdidos os pacotes de reformas e as salvaguardas eficazes, acena-se, no máximo, com uma possível “revisão de punições caso a caso”, que teria que vir cercada das maiores precauções, bem ajustada àquela perspectiva de enredamento dos setores cooptáveis ou

dialogáveis, os únicos que seriam contemplados por eventual aplicação do dispositivo. Não é por

acaso que a discussão vai girar em torno de apenas duas alternativas : a alteração da Lei das Inelegibilidades, sob a forma da possibilidade de revogação do Artigo 185 da Constituição,233

2 3 1 Entrevista em NACLA Report on the Americas,XX5, set -dez 1986, p. 67. Citada por: SKIDMORE, T., op. cit, p.423.

2 3 2 Jornal do Brasil,31/1/78, “Petrônio diz que anistia não fará parte das reformas”; O Estado de São Paulo, 16 de fevereiro de 1978, “Para o governo anistia é arriscada e temerária”(Antônio Carbone); O Estado de São Paulo,22 de fevereiro de 1978, “Governo nega que haja estudo sobre a anistia”, p.14; O Estado de São Paulo, 25de fevereiro de 1978, “Governo rejeita Constituinte e anistia”, p.4; Jornal do Brasil, 23 de fevereiro de 1978 , “Anistia mas para o futuro”(Coluna do Castelo), p. 2.

2 3 3 A Lei das Inelegibilidades faz parte de conjunto de dispositivos que regulamentam o artigo 185 da Constituição, aquele que tornou perpétuas as cassações de mandatos e as punições com base no AI-5, complemento do artigo 181, que exclui da apreciação judicial as punições aplicadas pela ditadura com base nos atos institucionais. Ela reforça a cassação permanente e a estende aos cônjuges dos cassados. A Lei Orgânica dos partidos veda a filiação partidária dos atingidos pelos atos institucionais. Há ainda a Lei Complementar no. 15, que estabelece impedimentos aos punidos com base nos atos institucionais 1, 2, 5, 10 e 13, no Decreto-lei 477 e ainda para aqueles que foram destituídos de mandatos por decisão das assembléias legislativas. O artigo

buscando meios que garantissem restauração mais completa dos direitos daqueles que já teriam cumprido os dez anos de punição estipulados pela legislação de exceção (cassação de mandatos e/ou suspensão de direitos políticos); e a perspectiva de encaminhamento pelo governo federal a algum tribunal superior, certamente o Superior Tribunal Militar, de listas de punidos considerados em condições de ter seus processos revisados234, o que imprimiria confortável caráter internista e até intimista à medida.

Mesmo estas duas hipóteses só passam a ser abordadas de forma mais ostensiva a partir de 1978, exatamente quando a luta pela anistia ganha amplitude, praticamente no dia seguinte ao ato de lançamento, em grande estilo, do primeiro Comitê Brasileiro de Anistia, a seção do Rio de Janeiro (14/fevereiro). Este conta com a presença de cerca de quinhentas pessoas e tem como convidado especial o general Peri Bevilacqua, antigo comandante do II Exército, chefe do Estado Maior das Forças Armadas até 1965, nomeado para o Superior Tribunal Militar e aposentado pelo AI- 5 em 1968. É o seguinte o teor de seu pronunciamento:

“A anistia política deverá ser ampla, geral e irrestrita, para que produza todos os benefícios de que é capaz.(...) A anistia virá viabilizar a redenção democrática”.

O general embasa toda a sua argumentação na necessidade de reparação da punição aplicada em 1969, também com base no AI-5 , ao capitão aviador Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, o Sérgio Macaco, membro e fundador do Parasar, o qual, nas palavras do general, “impediu que sua unidade, destinada a fins humanitários, fosse transformada em esquadrão da morte política.”235 Em seguida, ele defende a reciprocidade - verdadeiro anátema para o movimento pela

147 da Constituição veda o alistamento eleitoral dos que “estiveram privados, temporária ou parcialmente, de seus direitos políticos”; e o artigo 150 torna inelegíveis os inalistáveis.

V: O Estado de São Paulo, 15 de fevereiro de 1978, “Revisão de punições vai limitar-se ao artigo 185” (Vilas Boas Correia); O Estado de São Paulo, 25 de fevereiro de 1978 , ‘”Governo rejeita Constituinte e anistia” (Antônio Carbone); O Estado de São Paulo, 19 de fevereiro de 1978 , “Reformas já têm linhas básicas”. 2 3 4 Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1978, “Magalhães prefere revisão em Corte”; Jornal do Brasil, 26 de dezembro de 1977, “Krieger prega revisão de cassados”; O Estado de São Paulo, 24 de dezembro de 1977, “Lembo defende criação de um conselho para rever punições.

2 3 5 Jornal do Brasil, 14 de fevereiro de 1978, ´General faz lançamento público de Comitê para Anistia”, p. 8;

Folha de São Paulo, 15 de fevereiro de 1978, “O general Peri Bevilacqua lança no Rio o Comitê Brasileiro pela

Anistia – ‘Anistia virá viabilizar a redenção democrática’” ; O Estado de São Paulo, 15 de fevereiro de 1978, “Peri pede anistia ampla e critica AI-5”; Jornal do Brasil, 15/2/78, “Pery Bevilacqua pede anistia ampla, geral e irrestrita”, p.4.

O caso Para -Sar é dos mais escabrosos em matéria de provocação articulada pelas Forças Armadas no Brasil: data de abril/1968 e configura tentativa de levar a cabo plano terrorista em larga escala. O capitão Sérgio frustrou este plano se recusando a obedecer ordens do brigadeiro João Paulo Burnier, então chefe da GM-2, Seção de Informações do Gabinete do ministro da Aeronáutica, Márcio de Souza e Mello, que determinavam que a tropa do Para -Sar – Primeira Esquadrilha Aeroterrestre de Salvamento – executasse manifestantes de rua, além de 50 políticos e militares notáveis, e explodisse o gasômetro do Rio, atribuindo a responsabilidade a organizações de esquerda. GORENDER, Jacob. Combate nas trevas, p. 151-152.

anistia - , mas, ao fazê-lo, reconhece, sem meias palavras, a realidade da prática de torturas e os assassinatos perpetrados pelo regime:

“Para haver equidade a anistia deverá abranger todos os crimes políticos praticados por pessoas de ambos os lados. Assim, os torturadores de presos políticos, por exemplo, deverão ser abrangidos pela anistia, mesmo que as consequências do seu procedimento criminoso tenham sido a morte de suas vítimas.(...)".236

Evidentemente declarações como estas, partindo de oficial da mais alta patente do Exército, ainda que cassado, provocam enorme consternação nas Forças Armadas e ampla cobertura da imprensa. O fato político criado pelo CBA- RJ cumpre bem o papel de potencializar a repercussão e a visibilidade da luta pela anistia.

Resta ao governo buscar retomar o controle da situação. Vilas Boas Correia, então analista político do Estadão, escreve em sua coluna do dia 16 de fevereiro:

“O governo não conta apenas em abafar o imp ulso crescente da campanha pela anistia, mas em receber o apoio significativo de algumas centenas de cassados com a iniciativa que virá no embrulho do projeto alternativo de reformas políticas do senador Petrônio Portella de propor a revogação do artigo 185. (...) Ora, o debate em favor da anistia e que vem ganhando terreno pela própria evidência da insustentabilidade de situações, como a dos fulminados por castigos inexpiáveis, esbarra na inviabilidade evidente de uma medida inspirada na generosidade mas que perdoe a todos e agora. (...) Desde o primeiro instante ficou evidente que, para bloquear a anistia ampla e irrestrita, era preciso encontrar um canal paralelo que aliviasse a pressão, acudindo à necessidade de reparo das injustiças mais chocantes.”237

É em contexto de resistência geral que são travadas as discussões nos meios institucionais e militares. Pesquisa informal realizada entre oficiais das três armas pelo Estado de São Paulo, em janeiro de 1978, demonstra rejeição visceral à tese da anistia. Diz a matéria:

“- Anistia não, nem de brincadeira.’ Esta frase foi ontem proferida dezenas de vezes por oficiais superiores das três Forças Armadas que nela colocaram muita ênfase. A

2 3 6 O Estado de São Paulo, 15/2/78.

anistia, segundo analistas militares, representaria um procedimento político inconcebível. (...) “Anistiar determinadas pessoas significaria cometer uma heresia contra a própria Revolução. Não podemos fazer isto.’ Se a anistia é impossível para os meios militares, já a idéia da ‘revisão’ das cassações com base no AI-5 é plenamente aceita e vista como medida justa...”238

São típicas as colocações do brigadeiro Délio Jardim de Matos, ministro do Superior Tribunal Militar, no início de 1978:

“[As punições foram] necessárias para a época, como a de 1968, quando o país se viu sacudido por uma onda muito grande de violência e agitação.(...) Já é o momento de se criar um mecanismo legal para estudar a revisão das punições, que devem ser analisadas caso a caso.(...) Para o bem do Brasil, o processo de revisão não pode ser acompanhado de pressões revanchistas. (...) A anistia não serve porque ela beneficiaria os terroristas, os que assaltam bancos, que não são presos políticos, mas criminosos comuns.”239

O discurso do civil Aureliano Chaves, então governador de Minas Gerais, é ainda mais radical. Eis o que ele diz, em entrevista concedida em dezembro de 1977, às vésperas de ser anunciado como candidato a vice-presidente pela chapa oficial, do general Figueiredo:

“Anistia geral no quadro em que vivemos é impossível. Uma anistia parcial é possível e podemos evoluir para ela. (...). Não podemos conciliar com quem não quer conciliar. Não podemos conciliar com o terrorismo. Espero que haja desarmamento geral dos espíritos, tanto de quem está com o poder, quanto de quem foi atingido. Espero que estes não queiram o revanchismo. (...) Não é fácil a posição de equilíbrio. E o equilíbrio estável é que é o mais importante”. 240

Benzer Belgeler