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2. GEREÇ VE YÖNTEM

2.6. Histolojik Çalışma

Destacaremos três aparecimentos da relação entre tato e visão, de acordo com a cronologia dos fatos: no primeiro, há relação de harmonia, como desigualdade, através da preservação das especificidades e das diferenças mediante hierarquia e subordinação, e relação de confronto, como comando e exclusão; no segundo, há relação de harmonia, como desigualdade, através do respeito à especificidade e à diferença; e, no terceiro, há relação de harmonia, como desigualdade, mediante hierarquia e subordinação, e relação de conflito, através de comando e exclusão.

Antes, um esclarecimento prévio. Existem pelo menos sete aparecimentos da relação entre tato e visão no contexto da relação entre visível e audível, e como a relação entre audição e visão é a mais fundamental dentre todos os sentidos, então analisaremos estas sete emergências do contato entre tato e visão justamente quando tratarmos das complexas relações entre visível e audível58.

57 O discurso da visão será analisado especialmente no próximo capítulo, “Epistemologia da percepção: relação

entre visível e invisível”.

58 Ver infra o segundo, o quarto, o sexto, o nono, o décimo, o décimo-segundo e o décimo-terceiro aparecimento

O primeiro aparecimento da relação entre tato e visão está localizado no vigésimo- terceiro parágrafo da “Introdução” de A arqueologia do saber. Seu contexto é a exposição das características peculiares do livro em relação à obra anterior (ver AS, p. 19-20).

Há uma constatação inicial sobre a visão da “clareza do desenho” proporcionada pelas críticas aos livros precedentes: “... sem as questões que me foram colocadas, sem as dificuldades levantadas, sem as objeções, eu, sem dúvida, não teria visto desenhar-se tão clara a empresa à qual, quer queira quer não, me encontro ligado de agora em diante.” (AS, p. 19-20, grifo nosso) Mas esta visão da clareza do desenho não é total, por isso existe um tatear cego:

Daí, a maneira precavida, claudicante deste texto: a cada instante, ele se distancia, estabelece suas medidas de um lado e de outro, tateia em direção a seus limites, se choca com o que não quer dizer, cava fossos para definir seu próprio caminho. A cada instante, denuncia a confusão possível. Declina sua identidade, não sem dizer previamente: não sou isto nem aquilo. (AS, p. 20, grifo nosso)59

O tatear é um ato de incerteza na tentativa de definição do espaço da fala: “... [trata-se de] tentar definir esse espaço branco de onde falo, e que toma forma, lentamente, em um discurso que sinto como tão precário, tão incerto ainda.” (AS, p. 20)60

O tato aparece como tatear cego, ou tato invisível, já que representa uma condição de invisibilidade provisória no caminho em direção à visão total. A visão proporciona a clareza do desenho do espaço da fala (ou do escrito), portanto quando a clareza for absoluta (e a brancura do espaço for totalmente desenhada, “colorida”), não haverá necessidade do tato. Neste movimento do tato invisível à visão absoluta há uma relação de harmonia, como desigualdade, já que são preservadas as especificidades e as diferenças de cada sentido, mediante hierarquia e subordinação, visto que a visão é superior ao tato (o tato “serve” à visão), e há uma relação de conflito, como comando e exclusão, já que a visão, superior, descartará o tato quando seu “serviço” estiver alcançado o escopo desejado61.

O segundo aparecimento da relação entre tato e visão está situado no quinto parágrafo do quarto capítulo, “A formação das modalidades enunciativas”, da segunda parte, “As regularidades discursivas”, de A arqueologia do saber. Seu contexto é a descrição da

59 Notemos que há um uso metafórico do tato que, entretanto, não exclui, mas faz parte de sua função discursiva. 60 Notemos que a audição (fala) aparece numa relação de igualdade com a visão (escrito), mediante um processo

de indistinção ou indiferenciação, já que o discurso precário, incerto é um livro, A arqueologia do saber, que evidentemente pode ser lido (fala) com a condição de que haja o escrito (visível).

61 Esta relação de conflito entre o tato e a visão faz parte da estratégia de guerra representada pela “definição da

singularidade através da exterioridade das vizinhanças”: o tato é o choque com a exterioridade das vizinhanças em direção à visão da singularidade. Ver AS, p. 19-20.

definição das posições do sujeito segundo sua relação com os diversos domínios ou grupos de objetos (ver AS, p. 59-60)62.

A definição das posições do sujeito de acordo com sua relação com a diversidade de objetos contribui para a formação de um sistema de relações que configura as modalidades de enunciação:

(...) [a configuração das modalidades de enunciação deve ser] considerada como o relacionamento, no discurso (...), de um certo número de elementos distintos, dos quais uns se referiam ao status (...) [dos indivíduos], outros ao lugar institucional e técnico de onde falavam, outros à sua posição como sujeitos que percebem, observam, descrevem, ensinam, etc. (AS, p. 60, sublinhado nosso)

Justamente nesta atenção à multiplicidade relacionada é possível definir a especificidade da percepção do tato e da visão: “... no discurso clínico, o médico é sucessivamente (...) o olho que observa, o dedo que toca...” (AS, p. 59, grifo nosso)

Existe uma relação de harmonia, como desigualdade entre o tato e a visão, decorrente do respeito à especificidade de cada sentido. E há uma necessidade de apego à multiplicidade específica derivada da existência da diferença. A diferença como multiplicidade é a origem do respeito à especificidade que gera a relação de harmonia como desigualdade entre o tato e a visão.

O terceiro aparecimento da relação entre tato e visão está presente no vigésimo parágrafo da “Conclusão” de A arqueologia do saber. Seu contexto é um diálogo consigo mesmo como estratégia de guerra (ver AS, p. 238-9).

O interlocutor imaginário, inimigo discursivo, lamenta o fim da vida no discurso como esquecimento do tato e complacência da visão destituída de memória:

Como! Tantas palavras acumuladas, tantas marcas depositadas em tantas folhas de papel e oferecidas a inúmeros olhares, um zelo tão grande para mantê-las além do gesto que as articula, uma piedade tão profunda destinada a conservá-las e inscrevê-las na memória dos homens – tudo isso para que não reste nada da pobre mão que as traçou, da inquietude que nelas procurava acalmar-se, e da vida acabada que só tem a elas, daqui por diante, para sobreviver? (AS, p. 238-9, grifo nosso)

Na verdade, o tato esquecido e a visão complacente significam o lamento pela perda do invisível representado pelo poder da consciência do autor: “... suprimo toda interioridade [consciência] nesse exterior [discurso] que é tão indiferente à minha vida e tão neutro que não estabelece diferença entre minha vida e minha morte?” (AS, p. 239)

O tato, como fabricação do discurso, e a visão, como contemplação do discurso e remissão à memória (da ação do tato), estão a serviço da lembrança do invisível, como

62 Neste contexto, Foucault analisa o exemplo do discurso clínico cujo surgimento abordou em Nascimento da

interioridade ou consciência. Há uma relação de harmonia, como desigualdade, mediante hierarquia e subordinação, já que o tato e a visão são “inferiores” ao invisível. Nesta lógica de funcionamento do discurso como rastro (ver AS, p. 238-9), o invisível comanda o tato, que oferece à visão a necessidade de remissão ou de lembrança do invisível originário63. Mas quando acontece a exclusão, como esquecimento do invisível, e permanece apenas a visão solitária, surge uma relação de conflito: a crítica ao modo de ação do interlocutor inimigo, que ocorre através da constatação do governo da visão soberana, a exterioridade que não remete a nenhuma interioridade, o discurso que ignora a vida e a morte do autor64.

Benzer Belgeler