A dificuldade, quando quer-se propor uma definição de “investimento internacional”, vem da multiplicidade de abordagens desse assunto. Essa multiplicidade gera um aumento de fontes.
No esforço de bem elucidar as características do objeto sob análise, conforme leciona Paulo de Barros Carvalho,85 o cientista deverá substituir as locuções carregadas de imprecisão significativa por termos, na medida do possível, unívocos e suficientemente aptos para indicar, com exatidão, os fenômenos descritos, pois, ao proceder à depuração da linguagem empregada, evita as confusões significativas e assegura a coerência sistemática do campo científico sobre o qual trabalha, mantendo-o separado dos outros áreas do conhecimento.
É necessário que a linguagem científica afaste-se ao máximo da linguagem natural, entendida aquela que “espontaneamente desenvolvida, não encontra limitações rígidas, vindo fortemente acompanhada de outros sistemas de significação coadjuvantes”,86 a qual, “em face da latitude de indeterminações semânticas que
provoca, ao lado da flexibilidade excessiva na construção sintática de suas proposições, jamais atenderia ao caráter analítico-descritivo do saber científico, que requer fórmulas minudentes, precisas, capazes de relatar a sutileza e a finura dos fenômenos que constituem seu objeto”.87
85
CARVALHO, Paulo de. Direito tributário – linguagem e método, 2ª ed. São Paulo: Noeses, p. 59.
86
Idem, ibidem, p. 56.
87
54
A vaguidade, segundo Guibourg, Ghigliani e Guarinone,88 consiste na “falta de precisión en el significado (designación) de una palabra”, ocorrendo “en la medida en que hay casos (reales o imaginarios, poco importa) en los que su aplicabilidad es dudosa”. Paralelamente, é como ocorre no clássico exemplo citado pelos autores da luz projetada numa superfície. Haverá uma parte claramente iluminada no centro e um manto de escuridão no entorno. Porém, entre a claridade total e a escuridão completa, haverá uma zona de penumbra em que o objeto ainda será visível, ainda que sem a mesma nitidez.
Da mesma forma ocorre com as palavras. Existe uma série de casos em que um certo nome encaixa-se sem dificuldades às situações ou objetos do mundo, pelo que se habitua a se aplicar tais vocábulos a tais situações. Como na zona de escuridão total, há casos em que o nome efetivamente não se aplica sem que a coerência semântica seja sacrificada. Porém, há que ser considerado, ainda, o território da vaguidade, representado pela zona de penumbra, “donde nuestros criterios resultan insuficientes y los casos no pueden resolverse sin criterios adicionales más precisos”.89
A ambigüidade, por sua vez, é a polissemia, ou seja, pluralidade de significados que determinada palavra poderá ter dentro de determinada língua.
Conforme observado pelos autores argentinos,90“todas las palabras son vagas y muchas son ambiguas (todas, al menos potencialmente ambiguas)” [destaque no original].91
O termo aqui analisado também sofre dessa “enfermidad incurable”, nos termos de Genaro Carrió.92 Tanto é que Antônio Houaiss, Mauro de Salles Villar e Francisco
88
GUIBOURG, Ricardo A.; GHIGLIANI, Ricardo M.; GUARINONI, Ricardo V. Introducción al
conocimiento cientifico, Buenos Aires: Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1985, p. 48.
89
Idem, ibidem, p. 49
90
Idem, ibidem, p. 51.
91 No mesmo sentido, consulte-se Genaro Carrió, que, in verbis, afirma: “todas las palabras que usamos para
hablar del mundo que nos rodea, y de nosotros mismos son, al menos, potencialmente vagas. Sus condiciones de aplicación no están determinadas en todas las direcciones posibles; siempre podemos imaginar casos, supuestos o circunstancias frente a los cuales el uso no dicta la aplicación ni la no aplicación del término”. CARRIÓ, Genaro. Notas sobre derecho y Lenguaje, Buenos Aires: Abeledo Perrot, 1994, p. 34.
92
55
Manoel de Mello Franco93 registram nada menos que vinte sinônimos para o verbo “investir”, de que o substantivo “investimento” é derivado, divididos em seis sentidos diferentes: “aplicar”, “atacar”, “conferir”, “empossar”, “empregar” e “sagrar”, comprovando a imensa polissemia que acomete o termo.
Evidentemente, para os fins propostos neste trabalho, interessa somente a concepção do termo cunhada no campo direito interno, bem como pelo direito internacional dos investimentos.94
Conforme adverte Luiz Olavo Baptista,95 “a noção econômica, entretanto, embasará a visão jurídica, pois o investimento é um ato econômico”. Um ato econômico dentro do mundo infinito de fatos da vida social a que o direito “já atribuiu determinadas consequencias, configurando-o e tipificando-o objetivamente”, na precisa colocação de Miguel Reale96 ao definir “fato jurídico em sentido amplo”. O investimento internacional, portanto, é um elemento do sistema econômico que, internalizado pelo direito – por meio de seus próprios códigos97 –, passou a corresponder ao modelo de comportamento ou de organização configurado por normas jurídicas.98 Ao assunto voltar-se-á mais tarde ao se tratar de investimento internacional como modalidade de negócio jurídico.
Faz-se necessário o estudo prévio do termo “investimento internacional” na doutrina econômica, para, então, analisar-se com mais firmeza o sentido jurídico da palavra a seguir.
93
HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles, FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário
Houaiss de sinônimos e antônimos, Verbete: “investir”, 1ª ed., Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 394.
94
SORNARAJAH, M. The International law on foreign investment, 2ª ed., Cambridge: Cambridge Press, 2004, passim.
95
BAPTISTA, Luiz Olavo. Os investimentos estrangeiros no direito comparado e brasileiro, Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998, p. 23.
96
REALE, Miguel. Lições preliminares de direito, 24ª ed., São Paulo: Saraiva, 1999, p. 200.
97
NEVES, Marcelo. A constitucionalização simbólica, São Paulo: Martins Fontes, 2007, passim.
98
56
2.2 Acepção jurídica do investimento no direito internacional