• Sonuç bulunamadı

É impossível separar o humano do seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo.[...] As imagens, as palavras, as construções de linguagem entranham-se nas almas humanas, fornecem meios e razões de viver aos homens e suas instituições e são recicladas por grupos organizados e instrumentalizados, como também por circuitos de comunicação e memórias artificiais. (Pierre Lévy)

Conforme vimos, a Internet tem alcance e abrangência ímpares, que nenhuma outra mídia eletrônica (TV, rádio) ou impressa (jornais, revistas e correios) contempla: uma

informação pode ser acessada de qualquer lugar do mundo, a qualquer hora e por qualquer pessoa que tenha acesso a um computador devidamente equipado. Como atualmente podemos encontrar computadores ligados à Internet em praticamente todos os lugares (empresas, lares, escolas, universidades, clubes, igrejas, etc.) e como a Internet tem usos os mais diversos: localização de pessoas, empresas e assuntos (pesquisa); troca de informações (comunicação); ministração de cursos (educação); apresentação de produtos e serviços (marketing); comercialização de produtos e serviços (vendas); uso de jogos, vídeos, sons e diversos passatempos (entretenimento), entre outros, podemos dizer que ela tem trazido implicações fundamentais no modo de pensar e de viver das pessoas, como nunca visto. Conforme nos lembra Guareschi (2003), ela está, por exemplo, modificando as formas como as pessoas se relacionam, como aprendem, como se divertem, como compram, como consultam um médico e, até mesmo, como fazem sexo. Dessa forma, parafraseando Bourdieu (1997, p. 29) sobre a televisão, podemos dizer que o mundo social, atualmente, é descrito e prescrito pela Internet.

Por outro lado, vimos também que este sistema midiático não somente é mais aberto e participativo do que as outras mídias, já que qualquer um pode ser emissor e receptor de informações, como também vem romper com a identidade do sentido, o fechamento semântico e com o monopólio das informações. Dentro desse contexto, podemos dizer que a Internet se configura como um lugar estratégico de produção do real, de atribuição de sentidos a este e de constituição de subjetividades e práticas sociais.

Levy (2000), em seu livro A cibercultura, mostra que a Internet, assim como as outras tecnologias da comunicação, inaugura um novo regime de circulação de informações e, conseqüentemente, um novo regime de metamorfose das representações e dos conhecimentos. Em contrapartida, inaugura também uma nova forma de posicionamento em relação à realidade.

Sobre o assunto, Ramal (2000, p. 25) aborda que a nova forma de escrita oriunda deste novo modelo comunicacional, o hipertexto, se configura como um instrumento de mediação para a produção, a recepção e a significação do conhecimento:

Sua linguagem é uma tecnologia intelectual que tem influência na estruturação dos nossos modos de expressão e na maneira de organizarmos o pensamento, substituindo os sistemas conceituais fundados nas idéias de margens, hierarquia, linearidade por outros de multilinearidade, nós, links e redes.

A concepção que predomina é a de descentramento, na qual uma infinidade de termos e pontos se encontram em contínua (re)produção e negociação de informações e sentidos, gerando novos discursos, sem regras fixas e sempre aberta a construções diferentes. Esta autora explica que na Internet cada site é um hipertexto, à medida que cada uma das páginas é construída por vários autores e que cada percurso textual é realizado de maneira original e única pelo leitor cibernético que, através do mouse, poderá no momento em que desejar invadir seu campo, reescrever seus caminhos, optar por outras vias. A autora chama- nos atenção, ainda, para a materialidade e a maleabilidade física deste novo modelo comunicacional que, segundo ela, geram provisoriedade e plasticidade nas informações, afetando substancialmente a nossa forma de construir conhecimentos, de captar o mundo, de atribuir-lhe sentido e de agir sobre ele.

Através da hipertextualidade, escrevemos e lemos abrindo janelas, fazendo links que vão nos associar a outros textos, outros fragmentos, outras idéias. Navegamos não mais em páginas fixas e imóveis, mas em múltiplas vias e dimensões superpostas que se interpenetram e que podem ser compostas e recompostas pelo internauta a cada leitura. Exatamente por isso, Ramal (2000) considera o hipertexto como reunião de vozes e olhares

construído na soma de muitas mãos e aberto para todos os links e sentidos possíveis. É um tipo de comunicação que se caracteriza pela polifonia, “uma verdadeira polifonia que Bakhtin buscava e, portanto, uma possibilidade para o diálogo entre as diferentes vozes para a negociação dos sentidos, para a construção coletiva do pensamento”. (RAMAL, 2000, p. 23).

A este respeito Pereira, (2000) considera o hipertexto como exercício cognitivo/comunicacional fundador e compatível com as demandas de conhecimento e de comunicação da atualidade. Segundo ele, o hipertexto fortalece um cenário no qual o excesso de informações e a ausência de hierarquias entre elas, se por um lado, favorecem os cruzamentos entre campos jamais sonhados, por outro lado, propiciam uma experiência de estranhamento e de desorientação diante da gigantesca onda de informação que se apresenta ao lidar com um hipertexto. Na verdade, o navegador sente-se inseguro para decidir por quais caminhos seguir. Ele precisa saber lidar com o diferente, o não-codificado, o contraditório. “Assim, a experiência global que o hipertexto parece suscitar é o comparecimento intenso de zonas significantes complexas, nas quais os antigos instrumentos de navegação propostos pela ciência moderna não ajudam muito”. (PEREIRA, 2000, p. 165). O hipertexto estaria possibilitando uma experiência de navegação estranha, toda vez que faz emergir mares polissêmicos, nos quais a produção de significados não encontre esteio, exigindo do navegador competências múltiplas e contraditórias, visto que a prática hipertextual, proposta pela Internet, promove descentramento que funciona como equívocos de um saber instituído, permitindo o comparecimento de outras formas de conhecer e de saber o mundo e o humano, ao tempo em que mantém zonas significantes familiares, antigas ou contemporâneas, nas quais a navegação elementar é cada vez mais corriqueira.

Partindo do pressuposto de que as representações sociais, conforme defendera Moscovici (1978, 2003), Guareschi (2003), Jodelet (2001), entre outros, são uma forma de conhecimento do senso comum, socialmente construído e partilhado, presentes tanto nas

mentes das pessoas como na mídia, nos bares e nas esquinas, nos comentários das rádios e TVs, podemos dizer que a sua presença também se estende a Internet, já que ela se constitui como uma nova mídia, um novo espaço de acesso a informações e de produção e negociação de sentidos. Considerando, ainda, que as representações sociais originam-se do estranho, do não familiar e que esta nova mídia nos coloca constantemente em situações estranhas, novas, contraditórias, dado o seu caráter interativo, dinâmico e versátil, ratificamos o quanto a Internet se configura como um excelente campo de produção e veiculação das representações sociais. Sendo fórum de apresentação e discussão de temas, de questões e das produções relevantes do país, seja no âmbito político, econômico, cultural e pedagógico, acreditamos que ela tem-se tornado um amplo espaço de produção e recepção das formas simbólicas e dos usos destas formas para estabelecer determinadas relações e práticas sociais, ao tempo em que detectamos a necessidade de estudos a respeito e justificamos a pesquisa ora relatada.

Benzer Belgeler