• Sonuç bulunamadı

2.3. BÖLÜM KENT KÜLTÜRÜ VE YEREL YÖNETĠMLER

3.1.2. Hipotezler

Descrever meu trajeto negro escolar, universitário e profissional, permite revelar como a intervenção do(a) educador(a) é capaz de reverter a carga de sentidos pejorativos investidos na psique das crianças, jovens e adultos afrodescendentes. Oriundo de escolas públicas, saldei um preço alto ao chegar à Universidade e me deparar com um universo científico rigoroso, um terreno isento de dubiedade e enfermado, onde a cartografia, assim como muitas escolas, é como o campo de futebol, funcionando com regras de métrica e rima, uma forma de controle e, ao mesmo tempo, um mecanismo regido pelas(os) burocratas ocidentais, de uma insensibilidade racial condolente, cuja essência é a dominação e o exercício injusto do poder.

Espaços em que as(os) sujeitas(os) gritam intercedendo que quebrem os freios sociais (determinismos biológicos, fundamentalismos religiosos, tabus sexuais, padrões fenótipos cêntricos, “proibições éticas” e constrangimentos filosóficos).

A educação brasileira, tanto o processo de escolarização como o academicismo historicista, ainda não permite narrarmos nossas próprias histórias, sermos porta-vozes das(os) nossas(os) antepassadas(os) que foram silenciados. Ademais, notadamente a universidade, sobretudo os programas de pós-graduação, são espaços de muitas ausências negras, não sabem de vidas acontecendo em silêncios (EVARISTO, 2017). Desse modo, uma escola e/ou universidade que nega a participação e a história dos seus sujeitos, é anti-pedagógica, anti-

educativa, anti-ancestral e constrangedora de identidades. E, constrangendo suas identidades, não compreende as singularidades dos sujeitos para entender as reais necessidades delas/es.

Abrir espaços e ceder tempo para o lugar de fala e escuta na sala de aula, é crucial para a política do conhecimento de si em comunicação com o outro. Não recordo de momentos em que meus professores da Educação Básica e Ensino Médio, tenham cedido tempo e espaço pedagógico para a política do conhecimento de si em comunicação comigo e meus colegas. Em vez de nos libertar, por vezes, contribuíram para o nosso encarceramento. Não descortinaram nossas identidades e isso me impediu assim como impede muitas gerações, reencontrar a ancestralidade africana, se posicionar no mundo e ressignificar o quotidiano racista que marca a vida da população negra.

Nesse sentido, o conhecimento ancorado à sabedoria foram instrumentos indubitavelmente fundamentais para eu lutar contra silenciamento perpetrado no meu percurso escolar, re-pensar e reescrever a história que a autoridade colonial criminosamente tentou apagar. Teias de sabedorias solidificadas no seio familiar e conhecimentos construídos/as na universidade a partir da disciplina Educação e Cultura Afrodescendente, componente curricular obrigatória do curso de Pedagogia da Universidade Regional do Cariri – URCA.

Foi nesse local onde ganhei liberdade para voar, sem preocupar-me com qualquer atitude racista, uma vez que os estudos adquiridos na citada componente me possibilitaram perceber que o racismo manifestado por parte de muitas pessoas, ainda é resultado do processo de escravização que o nosso país sofreu e da disseminação de concepções racistas em relação à população negra.

Nesse sentido, contribuir para combater o racismo que imprime estigmas indeléveis, a formação étnica do ser negro possibilitou-me duas pesquisas monográficas de final de curso, que trataram da educação para relações étnico-raciais nos sistemas de ensino na cidade de Crato. Ambas orientadas pela professora Cicera Nunes (URCA), coordenadora do NEGRER – Núcleo de Estudos em Educação, Gênero e Relações Étnico-Raciais/URCA. Mulher, negra, professora, pesquisadora e intelectual a qual presto meu respeito e gratidão por ter trazido para a URCA o primeiro NEAB – Núcleo de estudo afro-brasileiro, onde seguimos nos qualificando.

Estudos que nos auxiliam na compreensão das interpretações de nós mesmos, povo negro caririense. Espaço de reflexões e valorização do ser e pensamento negro. O meu encontro com Cicera, com a citada componente curricular e com o grupo de estudo, foi

fundante para reatar o tecido ancestral quebrado com a escola, reunificar a nação esfacelada com os conteúdos étnicos-raciais, avanços e conquistas os quais serão apresentados no decorrer do trabalho. Em linhas gerais, muito mais do que uma orientadora, Cícera foi a educadora capaz de reverter a carga racista investida na minha psique.

Quanto ao NEGRER, o grupo, assim como outros núcleos de estudos afro- brasileiros, para além dos textos, filmes, documentários, aulas de campo, participações em eventos, produções acadêmicas, pesquisas científicas, momentos de diálogos, reflexões e construções coletivas mútuas, tem enegrecido a URCA. O grupo tem cobrado ações afirmativas e conquistado direitos que precisam ser garantidos à população negra. Embora, ainda falte muito a conquistar, o núcleo tem caminhado em articulação com o Movimento Social Negro Caririense, especialmente o GRUNEC, juntos reivindicando pautas urgentes e importantíssimas para a população afrodescendente e quilombola da região.

O grupo tem denunciado e levado ao poder judiciário denúncias de casos de racismo, cobrando, tanto da Universidade como das Secretarias Municipais de Educação, políticas públicas e formação da temática étnico-racial para os professores que estão e irão atuar na rede de ensino. Atualmente, temos integrantes do NEGRER espalhados na rede municipal e privada de ensino, professores universitários, mestrandos e doutorandos, todos envolvidos e irmanados nesse emaranhado. Estamos construindo referenciais enegrecedores que são /serão pontes para outros estudos e servirão de arcabouço pedagógico na (re)construção da história da população afrodescendente caririense.

No grupo de estudos fui tendo a oportunidade de aprofundar, cada vez mais, os conhecimentos sobre a temática racial, para tanto, a partir das reflexões feitas sobre pedagogias pluriétnicas e as formas de combate a produção das desigualdades raciais através da educação, desenvolvi um trabalho na Educar SESC Unidade Crato, entre os anos de 2010 e 2011, que trouxe propostas pedagógicas de ensino para a implementação da Lei 10.639/2003 no 5º e 2º ano do Ensino Fundamental I. Experiências significativas realizadas através de dois projetos educativos, quando lecionei na instituição por razão dos estágios que me foram oportunizados através da URCA. As experiências vivenciadas nos projetos me direcionaram a duas pesquisas monográficas e tecem o meu ser e fazer pedagógico nas escolas até os dias atuais.

Destaco o primeiro TCC produzido do grupo de estudo e a primeira monografia a ser defendida no curso de Pedagogia, após a mudança curricular do curso, especialmente por ter sido uma pesquisa de minha autoria sob orientação da professora citada. A monografia foi

a ponte ancestral para o caminho que estou percorrendo, um trabalho que teve a avaliação da professora Joselina da Silva (UFRRJ), a qual sou grato pelo incentivo, pelas valiosas contribuições nas análises e, de modo especial, por me convidar a sonhar com o mestrado. Um mestrado, que sonhado e realizado, será conquistado não só por mim, mas também pela minha família e todas(os) as(os) alunas(os) da escola de 08 de Março que se foram, os que são e que estão por vir. Louvo ao baobá também este sonho e esta realização.

Refletimos, no referido TCC, acerca do olhar afro-pedagógico das/os educadoras/es na construção da identidade negra das/os alunas/os. O segundo trabalho monográfico, no âmbito da gestão escolar no curso de especialização na mesma instituição, teve a avaliação da professora Piedade Lino Videira (UNIFAP), que além das riquíssimas contribuições na apreciação da pesquisa, me disse palavras formalmente doces as quais guardo até hoje e espero estar fazendo valer. Dentre elas, me concedeu um valiosíssimo conselho: Que eu era um homem de muitas raízes, mas que precisava fincá-las no meu movimento de vida. A monografia refletiu acerca do papel do núcleo gestor na implementação da Lei nº 10.639/2003, intentando compreender os/as principais desafios e dificuldades encontradas/os no processo de implantação da citada lei na matriz curricular da escola.

Realço, consecutivamente, que foi na URCA, através da citada componente curricular e grupo de estudo, que assumi minha negritude, potencializei meu pertencimento afro, me reaproximei da minha linhagem étnica e conheci o Artefatos da Cultura Negra e Memórias de Baobá, eventos que se configuram importantes espaços de formação nas temáticas das Africanidades, Afrodescendências e cosmovisão africana. Ambos acontecem no estado do Ceará, um na região do Cariri (Artefatos) e o outro (Memórias), na capital, Fortaleza.

Eventos acadêmicos que foram divisores de água na minha formação pessoal e profissional, sobretudo no que diz respeito ao re-ligamento as minhas raízes africanas na ambiência escolar, em especial o Memórias de Baobá, que será apresentado posteriormente, inspiração ao me reencontrar com a escola pública da rede municipal do Crato, onde desvendei a floresta baopedagógica silenciada na instituição de ensino.

Estou falando de muitos sentidos e significados que esses grupos de estudos produziram na vida de muitas pessoas no estado do Ceará e na região Cariri. Em especial na vida das/os negras/os universitárias/os, que ganharam forças para se fortalecerem e se consolidarem nos diversos espaços de atuação. Todo esse movimento dos NEAB’S nas

universidades implica-nos uma reflexão íntima e um apanhado histórico, algo que ainda não foi feito com o rigor necessário e que um único trabalho não dá conta de preencher.

Cursando a ordem das ideias, o reencontro com a escola em fevereiro de 2012, após a aprovação no concurso público, foi um desses espaços em que pude articular um diálogo com a universidade e estabelecer, mais uma vez, parceria com o NEGRER, para somar forças ao trabalho que aspirava realizar. Retornar à escola pública teve um sentido muito especial por ser o lugar de onde vim. O espelho onde pude me refletir e questionar-me: O que estou fazendo aqui? Que papel eu tenho nesse habitat intelectual com a formação, a maneira de discutir e colocar a questão da África e suas heranças? Afinal, era um ambiente que precisava fazer algo para que as(os) afrodescendentes não permanecessem saindo da escola sem conhecer / viver / sentir a história da África legada a cultural local.

Retornar à escola, na missão de educador, foi a oportunidade de reescrever a história da África e toda sua cultura tantas vezes carregada de inverdades, imprimida nos livros didáticos e reproduzida por muitos professores. Tomo como inspiração as palavras da escritora Moçambicana, Paulina Chiziane8, ao pronunciar numa palestra em passagem pelo

Brasil, que aprendeu a desdizer a história formal a partir daquilo que o povo diz, o povo tem sempre a sua maneira de ver e escrever também a história africana.

Ao concluir este trabalho, estou convencido que meu retorno à rede municipal de ensino foi uma missão das/os nossas/os ancestrais negras(os) para que eu apontasse a educação do Crato a partir do projeto Memórias de Baobá, por conseguinte a pesquisa do mestrado, ações educativas que possibilitam remontar à unidade primordial da magia africana e nossas heranças ancestrais.

Senti necessidade, por meio do mestrado, de buscar uma proposta educativa que fizesse valer para além do plano do discurso e ações educativas do projeto, as expressões da cultura afrocratense na práxis educacional e relevasse outro espaço de sociabilidade para o alunado negro, diferente do que foi posto a essas/es sujeitos na escola através de uma educação eurocentrada e colonizadora.Precisava oferecer à escola o que ela me negou: A minha história / a nossa história.

Remodelar a escola a partir das histórias de vidas das(os) sujeitas(os) que nela estanciam, compreende introduzir a história das pessoas e a importância delas(es), na requalificação da sociedade e na atuação para um mundo melhor. Principalmente por causa do racismo que impõe também a deslegitimização dos indivíduos negras(os) e do grupo

8 Palestra proferida em 16/04/2017 na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Eventos do

afrodescendente, assim, sua história individual e coletiva perde importância para a sociedade e faz crer a estas(es) sujeitas(os)sociais que elas(es) não têm importância na história do Ceará, do Cariri cearense e, se tratando deste estudo, da cidade do Crato, até porque esta história os invisibiliza (SOUSA, 2015). Assim como o Baobá, eu tenho minha história, você tem a sua e nossas(os) alunas(os) têm a delas/es guardada nas memórias ancestrais. Precisamos incidir em ações valorativas que levem nossas(os) educandas(os) a revisitarem suas histórias para redesenharem outras narrativas.

Na intenção de concluir, busquei, por meio deste capítulo, apresentar uma compreensão identitária do eu negro e meus eus ancestrais fincados na minha travessia pessoal, escolar, acadêmica e, por último, profissional. Não foi propósito deste capítulo apresentar minha biografia e sim um relato quase autobiográfico, sem tornar o texto uma apologia a mim mesmo. São apenas pedaços de mim, feitos a partir de fragmentos que pude juntar de elos ancestrais. Convido a escola a desenvolver essa ação pedagógica, possibilitar ao alunado juntar pedaços de si, a partir dos seus elos ancestrais e, assim, ser porta vozes das suas autonarrativas nas salas de aulas.

2.4 Uma plantação, vários enraizamentos e o movimento para florescer: Escola 08 de