As concepções de religião e de tempo no universo de tr adição banto con-fundem- se, pois manifestam-se na dimensão da palavra-enunciada. Na cultura banto, o enunciado ocorre numa esfera espaço-temporal , dando-lhe vigência, existência. Segundo Kagame,
É pr eciso acr escent ar que os Bant u dist inguem claramente o espaço e o t empo, o pr imeir o par a sit uar os Exist ent es e o segundo par a medi r a dur ação. São r eações nor mais na vida comum, poi s nest e nível os homens se cont ent am muit as vezes com noções analógi cas. Mas, no nível do pensament o pr ofundo, que a est r ut ur a dos t er mos locat ivos permit e ent r ever, as duas ent idades se fundamentam numa só, cor r espondendo à i déia de “localizador ”. Uma vez que os Bant u t inham e ainda t êm uma cult ur a sem escr ita, essa concepção é pur ament e empíri ca.184
O ser e o existente distinguem-se na cultura banto pela prefixação que indica o seu tempo-lugar, o seu ser aí. O radical ntu, por exemplo, traduzido como ‘homem’ ou ‘ser-humano’, possui um sentido profundo que é a essência do ser, independente de seu
181 ALTUNA. Cult ur a t r adi ci onal bant u, p. 32. 182 BÂ. A tradição viva, p. 181.
183Ibidem, p. 181.
125 existir. Procede-se a partir daí à utilização dos prefixos nominais que ir ão indicar o lugar, o número, o tempo e a forma daquilo que existe.
Para Kagame, na filosofia banto dividem-se todas as coisas existentes em quatro categorias: o ser-de-inteligência (mu-ntu), o ser sem inteligência (ki-ntu), o ser localizador (ha-ntu) e o ser-modal (acidentalidade, ou modificação do ser). Kagame complementa que “a quarta categoria engloba todas as entidades radicalmente incapazes de existir em si mesmas, mas que requerem um ser-substância ao qual elas ader em, como a quantidade, a qualidade; ou então aquela cuja essência é uma relação entre dois Seres (relação, posse, posição, etc.)”,185 e que o Ser Pré-Existente (Deus) está para além das quatro categorias.
Na cultura banto, segundo o autor, “o verbo ser jamais pode traduzir a idéia de existir, nem por conseguinte a palavra ente a de existente”;186 a relação mais preci sa seria a de existir com viver. Os ser es que estão vivos são expr essos pela palavra liho, que significa ‘existir não ainda morto’, sendo o homem e os animais seres que vivem e existem. Após a morte, os ser es perdem sua anima e passam a ser expressos pelo ter mo baho, que se refere apenas ao existir da inteligência, que permanece enquanto presença na memória, pela or alidade. E é nas artes onde esta presença se manifesta. J. Marcus afirma que na cultura banto “a sua arte, sua música, sua dança são variações do tema de sua religião; em menhuma parte da ter ra a religião impregna a vida social tão profundamente como na comunidade africana”.187
A importância da vigência, na cultura banto, aponta uma concepção de tempo concreta e substantiva, pois necessita-se da marca do tempo-lugar. A marca do tempo banto é, pois, dada pelos acontecimentos. Kagame afir ma que
Ent r e os Bant u [...] não exi st e subst ant ivo t eór ico par a indicar o t empo como nas línguas da cult ur a eur opeu-americana. Ent r e os Bantu, o que i mpor t a é o t empo disso ou daquil o, o t empo pr opíci o par a isso e aquilo. O t empo assim mar cado, indi viduali zado pelo event o, pode ser muit o cur t o ou muit o longo, segundo a dur ação do event o que o indivi dualiza.188
185 Ibidem, p. 103. 186Ibidem, p. 109.
187 MARCUS apud ALTUNA. Cult ur a t r adicional bant u, p. 370.
126 Na r eligião banto, o tempo é, pois, o contínuo onde “os ancestrais são intermediários entre Deus e os viventes”.189 No contínuo, os acontecimentos permanecem no fluxo do movimento temporal e são pr esentificados a partir da voz.
Leda Martins afir ma que a compr eensão linear do tempo não cor responde ao modo de pensar da cultura africana. Na tr adição africana, o tempo presente é aquele que faz acontecer o passado e o futuro. O tempo africano seria melhor repr esentado, portanto a partir de um movimento espiralar:
Esse pr ocesso pendular ent r e a t r adição e a sua t ransmissão, instit ui um moviment o cur vilíneo, r eativador e prospectivo que int egr a si ncr onicament e, na at ualidade do at o performado, o pr esent e do pr et ér it o e do fut ur o. Como um logos em movi ment o do ancest r ao ao perfor mer e dest e ao ancest r e e ao infans, cada per formance r it ual r ecr i a, r est it ui e r evi sa um cír ulo fenomenol ógico no qual pul sa, na mesma cont empor aneidade, a ação de um pr et érit o cont ínuo, sincr onizada em uma t empor ali dade pr esent e que at r ai par a si o passado e o fut ur o e neles t ambém se esparge, aboli ndo não o t empo, mas a sua concepção linear e consecutiva. 190
A experiênci a da enunciação fundamenta a temporalidade dos seres existentes, uma vez que homem e palavra são uma e a mesma coisa. A cultura banto utiliza os elementos mágicos da palavra enunciada, sob a forma de canto, para narr ar os acontecimentos, através dos ritos. A palavra é, portanto, a raiz que une os mundos. Os seres que estão vivos, pela palavra, tornam presentes a ancestr alidade e aqui se manifesta a ideia de contínuo:
a soci edade bant o for ma uma continuidade vit al, solidár ia, de vivos e ant epassados e de vivos ent r e si. É um cir cuit o de comunicações vitais incessant e. A or dem social, a r eli gi ão e a vi da comunit ária fundament am-se em idêntica cor r ent e vi t al que une, sem possibilidades de separ ação, os doi s mundos.191
A comunicação do contínuo ocorre, pois, através da palavra, pela língua, enquanto voz.