“o que realmente persiste, e fica, é a música-papel.” (Tom Jobim apud MARTINS, 1981, p.44)
Como podemos notar, pela descrição do seu acervo, Tom era um homem plural. Os estudos, textos e documentos que guardou, apontam para variadas áreas de
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interesses: ecologia, poesia, urbanismo, arquitetura, amor e, claro, música. Ele guardou o que produziu, o que conseguiu reunir dos amigos e autores que admirava. Acumulava com fins diversos: para registrar o que estava pronto; para voltar a trabalhar o que ainda não era do seu gosto (verifica-se que o esboço é um tipo de documento facilmente encontrado); para comprovar seus direitos; e também pelo orgulho daquilo que ganhou, fossem prêmios, produção de terceiros ou cartas de fãs.
Entretanto, tal era o cuidado que lhe despertava seu próprio arquivo, que, em 1981, contratou a amiga Vera de Alencar para planejarem juntos uma ordenação de acordo com o uso que então fazia dos documentos, como informado no artigo “Um arquivo muito especial para a obra de Tom Jobim”, da revista Amiga.
O interesse pelo próprio arquivo é comum a outros ilustres colecionadores de sua própria obra. Priscila Fraiz pesquisou o arquivo de Gustavo Capanema, depositado na Fundação Getúlio Vargas, e verificou que, além do volume expressivo (duzentos mil documentos), que revela sua disposição em guardar, o titular deixou uma informação muito específica, que os pesquisadores do Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea (CPDOC) chamaram de meta-arquivo37.
Trata-se de documentos de autoria do titular, referentes ao planejamento e à organização do próprio arquivo e, secundariamente, à classificação adotada para sua biblioteca particular. É raro que um arquivo pessoal chegue a uma instituição de memória com algum arranjo ou ordenamento prévios, determinado pelo próprio titular, por colaboradores ou mesmo por familiares; mais incomum ainda é encontrar um tipo de material que reflita e revele alguma ordem original ou primitiva, que possa nos dizer do arquivo e sobre o arquivo. (FRAIZ, 2002, p.16)
Gustavo Capanema tinha, sem dúvida, um arquivo privilegiado, pois além de ser Ministro da Educação e Saúde, teve amigos igualmente importantes, com quem manteve uma correspondência intensa. Mas, mesmo sendo minoria, há outros exemplos desse tipo de documentação, deixado por quem cuidou do arquivo ainda em vida. Assim, encontram-se alguns planos de como organizar ou como gostariam que fossem organizados seus acervos. Podem ser citados como exemplos dessa prática: Darcy Ribeiro e Luiz Camillo de Oliveira Netto. O arquivo de Darcy Ribeiro, tratado
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na fundação que leva seu nome (Fundar, no bairro de Santa Teresa), possui 80.000 documentos, incluindo aqueles também nomeados de meta-arquivo.
A preocupação com a organização do próprio arquivo aparece também no fundo Luiz Camillo de Oliveira Neto, depositado no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira38, e minunciosamente estudado por sua filha, Maria Luiza Penna. Embora seja o único caso de “arquivo público de arquivista” que eu conheça, ela ainda teve dificuldade com as lacunas e o vaivém das informações, peças de um quebra-cabeças:
Retiro do arquivo de Luiz Camillo de Oliveira Netto muitas cartas, é verdade, mas, ao fazer isso, excluo outras. Revejo fotos. Ouço de novo as entrevistas, leio as transcrições. Trabalho não só com a memória dos outros, decerto já retalhada pelo tempo e pelas vivências, mas também com a minha própria memória. Tamanha inflação de lembranças pode se confundir com um máximo de esquecimento. A amnésia: um paradoxo e um perigo. (PENNA, 2006, p.71)
O trabalho dos arquivistas é, assim, antes de tudo, manter-se atento e respeitar a ordem original do arquivo, impressa pelo titular, ou pela família. Enfim, estar atento ao que subsistiu e também à descrição e à transmutação de um documento, com dada linguagem, em outro (aquele meta-arquivo) com linguagem padronizada e inventariada. Faz-se necessário um estranhamento, que, não obstante saudável, não pode dar espaço a (pré)conceitos e maneirismos, quando do estudo do objeto escolhido. E escolhido o objeto, poder agora remontá-lo de diversas maneiras, se apropriando, em cada momento, de um olhar diferente. Gostaria de salientar que as características de um arquivo pessoal qualquer, embora não estanques, são a originalidade, a unicidade, mas também, as lacunas.
Não se pode esquecer que o trabalho de pesquisa em arquivo é, antes de mais nada, um encontro com a morte, e o arquivo, não apenas um rico estoque, mas também uma coleção marcada pela falta. Essa condição dupla do registro arquival presentifica o ausente e recupera o vivido com o perigo de cristalizá-lo. (PENNA, 2006, p. 70)
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Isso em parte se explica, porque uma pessoa não registra ou acumula como outra. Também há maior ou menor tempo passado entre a morte do titular e a abertura de seu acervo. Mas depende também de quantas pessoas, com toda parcimônia, julgaram as informações naquele arquivo. Pode parecer estranho o pequeno volume da correspondência entre Tom e Vinicius, amizade de quase trinta anos que gerou apenas treze cartas, sendo oito do Vinicius e cinco do Tom, trocadas no período de sete anos, de 1963 a 1970. Embora sejam bissextas, podem nos contar o diálogo entre os amigos e a necessidade de se fazer perto. Elas pontuam o diferente: marcam as datas em que eles estavam longe e não podiam se falar de outra maneira. Durante o ano de 1963, quando Tom partiu com a “rapaziada” da Bossa Nova para os Estados Unidos e Vinicius estava em Petrópolis e depois Roma, trocam quatro cartas. Em 1965, são outras quatro cartas, já que Tom ainda morava em Nova York e Vinicius partia do Rio de Janeiro para a França. Outras três ocorrem em 1966 e a última, isolada, em 1970. O trabalho de pesquisa com fontes primárias pode ser consideravelmente ampliado se considerarmos as faltas. E manter, nos documentos presentes, as devidas precauções relativas à autenticidade do documento e à veracidade dos fatos — mesmo que tenham sido contados pelos próprios autores desses fatos.
É bastante comum, em se tratando de arquivos, que não haja uma ordem muito facilmente rastreável. No caso do arquivo de Tom Jobim, a organização dada em 1981, por ele e por Vera de Alencar, já tinha se perdido em 2001, quando do início do tratamento técnico. Isso porque, durante vinte anos de uso, novas produções e inclusões, feitas por Tom, podem ter alterado a organização feita em conjunto.
Entretanto, o trabalho feito por Tom e Vera de Alencar, há 25 anos, ajudou muito na organização dos documentos, pois era dela a função de guardar todo o papel que ele produzisse, para que não se perdessem: “Eu preciso tomar cuidado com a Verinha, porque todas as vezes que eu faço algo novo ela pega e, quando procuro, já está no arquivo. Quer dizer, ela transforma o presente em passado num piscar de olhos!”, dizia Jobim (JOBIM apud MARTINS, 1981, p.44). Não seria, na verdade, ambos transformando, um através do outro, passado em futuro?
Embora não tenha sido encontrado, no arquivo de Tom, um plano desse arranjo original, descritivo e padronizado, encontrou-se, ao menos, um único registro
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da interferência do titular. Vê-se, então, que a documentação foi assim dividida, segundo Vera de Alencar:
[…] um arquivo inteiro de quatro gavetas só com música. Partituras, arranjos, edições. Tudo sobre música, melodia. Outro arquivo, também de quatro gavetas, está assim dividido: duas gavetas só com as letras. As letras em português e inglês (caso haja), esboços, estudos, textos de músicas que foram trocados, manuscritos dele ou de parceiros. A parte dos autores eruditos está numa terceira gaveta juntamente com uns álbuns que foram editados com músicas dele sozinho ou com outros autores. A quarta gaveta do arquivo está reservada para a parte de correspondência, que estou classificando em: família, amigos, fãs e outros. (ALENCAR apud MARTINS, 1981, p.44)
A passagem nos comunica a maneira como o titular, primeiro usuário de seu arquivo pessoal, precisava da ordenação das gavetas e dos macro-assuntos, cabendo, nessa descrição, apenas uma consideração sobre o uso dos documentos que ele mais requisitava. Em seu arquivo pessoal, suas músicas, principal fonte de trabalho, de renda e de inspiração mereciam lugar de destaque. E, diga-se de passagem, mesmo aquelas sete gavetas não comportavam, confortavelmente, as 1700 grossas partituras e oitocentas letras de seu acervo musical. Neste ponto fica evidenciada a relação que Tom tinha com seus autores referenciais, quando ele mesmo copiava ou escrevia os arranjos de uma música importante de um outro autor39. Havia, pelo menos, dois móveis para acomodar o arquivo e acessar uma memória mais imediata, usada no cotidiano, fazendo consultas durante o trabalho e provando autorias. Existia concomitantemente, em relação ao conjunto, uma memória menos imediata, menos perceptível ao usuário, mas que completava seu acervo, agregando outras informações, constituindo seu legado artístico.
O seu método de trabalho envolvia guardar seus escritos para voltar a trabalhar mais tarde em alguns, pois sempre repetia que, “segundo Stravinsky, o trabalho de composição é feito de 5% inspiração e 95% transpiração”. Ao mesmo tempo, arquivava o que já estava “pronto”, fosse para evitar erros de execução, fosse para garantir seu legado. O que fica claro é o desejo de Tom de “compor seu acervo”: ele acumulou, com ou sem ajuda, um conjunto de documentos porque sabia que apenas
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assim — fazendo obra dentro da obra — teria um acervo capaz de garantir uma memória sobre seu trabalho musical. Assim, Tom selecionava o que lhe era mais caro, acentuando esse ou aquele aspecto, dando ênfase mais a um do que a outro assunto. Tom também lastimava haverem-se perdido tantos documentos de outros autores, inclusive pela ausência de arquivamento dos mesmos. Isso ocorria, em boa parte, conforme atesta Paulo Jobim, porque era praxe, na década de 1950, os autores entregarem seus originais às gravadoras, intérpretes e orquestras. Faziam isso quando da execução de suas músicas e depois, em grande maioria, não conseguiam reavê-los. Eis uma boa explicação de por que os registros do início da carreira musical de Tom são raros. Mas, quando ele começou a ter a certeza de sua vocação e firmou sua intenção de ser um compositor, passou a guardar sua documentação, com cuidado e sistematicidade. Na gravação Documento para a posteridade, entrevista concedida a, entre outros, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Dori Caymmi, Tom ressaltou a importância de se mostrar publicamente:
O brasileiro não assume o mundo. Ele dá uma fugida lá, pega o avião e volta. E isso é grave. Você tem que toda semana estar na televisão, pelo menos uma vez num grande show, seja o Andy Williams, seja o Dany Case… você não pode fazer como Alpert [Herb Alpert, vocalista do grupo Tijuana Brass]: aparece uma vez no ano e fica num quarto de hotel. Você não pode fazer um grande sucesso — “Garota”, “Desafinado” — desaparecer e [ir] pra Barra da Tjuca pegar anchova. (MIS, 1967, K7-127)
Eis, portanto, como o rapaz tímido40 sabia da necessidade de uma pessoa famosa se manter em evidência para a posteridade. Por isso, enfatizamos quão interessante é perceber a lógica da acumulação do arquivo de Tom Jobim, como uma forma de aproximação da identidade que ele queria construir para si, através da guarda de seus papéis e suas músicas. Os números expressivos do volume de documentos dizem muito do homem trabalhador, e convencido da importância de guardar, mas não são suficientes para revelar os seus textos curiosos, a irreverência de seus comentários e, principalmente, a beleza de suas composições — acessíveis através da consulta de seus documentos.
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Em várias passagens de sua vida, Tom se declarou tímido, perdendo, inclusive, oportunidades de reger orquestras, fazer shows e viajar antes dos 36 anos para o exterior.
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