• Sonuç bulunamadı

Não há, nesses cadernos, muitas reflexões de foro íntimo, nem mesmo “retratos” minuciosos de sua vida diária ou de grandes acontecimentos — do que também sentiu falta Celso Castro quando pesquisou os diários de Bernardina Constant de Magalhães Serejo (CASTRO, 2004, p. 231). Mas ainda assim, são documentos

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biográficos fundamentais da vida pessoal do homem público que era o maestro Jobim. E vale lembrar também que toda escrita representada nesses cadernos foi feita por Tom para ele mesmo. Normalmente, nesse tipo de escrita, equivalente ao journal dos franceses, o texto não é destinado a outros leitores. (MIRAUX, 1996, p. 13).

Muitos documentos não puderam ser mais detalhadamente relacionados, porque não era tarefa para a equipe de indexação, mas para os pesquisadores da vida do titular, com conhecimentos específicos e mais profundos. Ou seja, é o caso de uma seqüência de listas de instrumentos, no caderno 4, que não se pode afirmar terem sido feitas para a gravação da “Sinfonia da Alvorada”, embora seja um dos poucos momentos em que Tom esteve à frente de uma orquestra.

As tipologias mais comuns nos cadernos são: letras de música, inclusive algumas inéditas, e versões (43,37%), listas de, entre outras, compras de supermercados, de músicas gravadas e a gravar, de partituras emprestadas, de tarefas domésticas ou de consertos nas casas e carros (19,46%), artigos (2,71%), contas matemáticas (3,04%), poemas (2,93%), desenhos (12,5%) das casas que construiu (Poço Fundo e Sara Vilela), ou de seus filhos e arquitetos, sendo muitas vezes precedidos das contas matemáticas. Além desses, encontram-se ainda: contracapas (1,08%), como a que fez para o famoso disco Chega de saudade, bilhetes e rascunhos de cartas (1,84%), algumas assinaturas e frases onde Tom treinava a escrita com a mão esquerda, com duas canetas e ao contrário (1,56%), algumas recomendações médicas (0,54%), roteiros para seu breve programa de TV O bom Tom (0,54%), relatos de sonhos de Paulo Jobim (1,31%), melodias com a grade desenhada à mão livre (0,98%), recibos de pagamentos de funcionários, feitos por Tom ou por quem recebia (0,2%), notas (6,75%) de contatos e direções e lembretes esparsos (1,19%). Não entrou na porcentagem o único testamento encontrado nos cadernos, mas pelo tom jocoso, merece a citação. Tom afirma seu desejo de que tudo o que a ele pertencia deveria ficar para sua esposa (na época, Thereza Hermanny).

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Figura 4 – Percentual dos tipos de documentos encontrados nos 32 cadernos

É interessante observar que essa tipologia também é uma tarefa complicada pois, numa mesma folha, facilmente havia mais de um tipo de documento. Nesses casos, houve necessidade de priorizar o que estivesse mais completo ou que mais se destacava. Por exemplo, Tom podia começar com uma letra, inserir um lembrete, fazer contas e voltar à letra. Ou, escrever numa direção um texto, tombar a página e escrever outro assunto em outra direção. Também era comum que essas anotações, registradas numa mesma folha, fossem escritas em datas diferentes. Mesmo que a grande maioria esteja sem data, é possível perceber como os assuntos foram separados através tempo. Outras vezes, o registro iniciado numa página, continuava em outras vinte páginas à frente. Uma observação cabe aqui: as páginas do intervalo são invariavelmente preenchidas antes e/ou depois desse registro saltado, forçando a memória do indexador. O que importa ressaltar é que Tom tinha total liberdade de “bagunçar” seus rascunhos; afinal, ele os compreendia e sempre os encontrava quando precisava.

A seguir, uma das tantas páginas semelhantes, que contém um exemplo dessa licença que todo autor tem sobre seus escritos:

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Figura 5 – Vários tipos documentais numa mesma página. Caderno 4, Pi 1423, p. 3 Figura 6 – Lista de temas para o filme Crônica da casa assassinada. Caderno 25, Pi

1180 p. 4

103 3.3 REFÚGIOS DO EU

Nome: Antonio Carlos Jobim Naturalidade: Carioca

Data de nascimento: Tenho 31 anos de Ipanema porém nasci na Tijuca (rua Conde de Bonfim) a 25 de janeiro de 1927

Filiação: Pai gaúcho, falecido (o poeta Jorge Jobim) e mãe carioca (nascida Brasileiro de Almeida)

Profissão: Músico Há músicos na família?

Meu lado materno está cheio de gente musical e q praticava música mas, até onde sei, nenhum se profissionalizou. Minha avó tocando piano, tios tocando violão, mamãe cantando e tudo mais...

Desde que me lembro de mim gosto de música. Minhas primeiras lembranças me levam às cantigas de ninar q. minha mãe cantava. Depois à calçada e às cantigas de roda. A família era grande e morávamos num casarão de 2 andares ligados por aquela escada de madeira que range. Lembro-me dos meus tios tocando violão e de minha tia cantando. Vinham os choros, as valsas, os espanhóis, Bach e tudo mais até que me mandavam para (a) cama. Subia a escada, com medo do escuro, e ia me deitar. Na cama eu me consolava ouvindo os sons meio distantes do violão, doces, lá embaixo na sala e tudo se apagava.

Dia de sábado chegavam outras pessoas que tocavam e cantavam em contracanto. Eu ficava bobo achando todo mundo craque. Depois veio a juventude, o estudo e, o pavor do estudo (acho que isto diz tudo).

O professor queria as escalas mas eu achava a praia muito mais bonita – ia vivendo. Soprava numa gaita as musiquinhas que ia ouvindo, arranhava o violão e batucava misticamente (ergue os olhos para cima) o piano até o desespero da vizinhança.

Nunca pensei em música como profissão. A música, se bem que objeto de minha paixão, era um prêmio que as horas de folga oferecem.

Depois do futebol na praia, depois dos estudos, que eram as obrigações, só de música eu me ocupava. Me lembro da minha falta de gosto, da minha saúde, da minha violência, aos 16 anos, quando tocava aquele piano ininterrupto que era o desespero do quarteirão, numa obsessão inconsciente, obsessão na qual quem tocava não sabia que estava tocando. (Acervo ACJ, Pi1093)

Percorri esse texto por entre 18 folhas, lançadas no caderno 2, espremido entre letras de músicas, bilhetes e várias anotações como se fosse um prêmio que as horas de trabalho ofereciam. Ao que parece, foi uma tentativa de currículo profissional,

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quando sua carreira começou a despontar, pois ele pedia que fosse colocada uma foto acima, antes do seu nome.

Essas anotações ajudam Tom, em início de carreira, a se mostrar para a imprensa. Tudo indica que foram suportes para formar os roteiros para seu programa de televisão – que ficou menos de um ano no ar – chamado Bom Tom, mostrado na TV Tupi, no final dos anos 1950. Para lidar com essa rotina, ele criou textos igualmente rotineiros. No mesmo caderno 2, páginas à frente (p.52), ele começa a pensar sobre o mercado fonográfico, em plena expansão após o boom da Bossa Nova: “Com a melhoria do padrão do disco brasileiro (música, letra, orquestração, técnica de gravação) muita gente que só comprava música americana passou a comprar também música brasileira”(Acervo ACJ, Pi1093)9. Depois, ocupou várias páginas com letras de músicas inéditas que então preparava com Aloysio de Oliveira (“Dindi”, “Samba de uma nota só” e “Olha pro céu”). Há ainda várias notas sobre o que deveria ser mencionado em seu show na TV, croquis do palco e, na página 74, a descrição de um dia de gravação:

Prefixo Comercial

Prefixo – sem ritmo – vem Aluisio que é amigo e parceiro e q. se apresenta aqui, atrás desta barba. Aluizio pede e apresenta

1) Esquecendo você.

2) Demais Aluizio [sic.] e eu cantamos entra a Orq. e vem Sylvia com copos e cigarros e terminamos juntos.

Sylvia pede para cantar: 3) De você eu gosto

Comercial Nós pedimos a Sylvia

4) Dindi 5) Fotografia

6) Prefixo (AcervoACJ, Pi1193)

Não há registros conhecidos desse programa ou show, além dos que estão nos caderninhos de Tom.

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Curioso é perceber, ao folhear tais cadernos, que um registro poderia reafirmar outro ou modificá-lo, estivesse no mesmo caderno ou não. Na página 3 do caderno 3, Tom anota que precisa evitar demoras na viagem Montevidéu - Rio de Janeiro, e tirar visto de turista. Nas páginas seguintes encontram-se rascunhos de versos para “Eu preciso de você”. E, na página 8 do mesmo caderno, ele misturou os dois assuntos, num dos versos da música: “O turista tem seu passaporte / E eu preciso de v. / nossa produção pede transporte / E eu pr. de v.” (Acervo ACJ, Pi1078).

Além de lembretes, existem nos caderninhos de Tom bilhetes ou pequenas cartas para ele mesmo – como nos lembra Foucault: uma memória material das coisas pensadas, vividas, por viver etc. Mas, essa prática não era nada comum. Ela aparece apenas em dois lugares em todo o acervo do maestro: uma delas no caderno 21, na página 165 (Pi1160) e outra, na série Correspondência Pessoal (Cp003).

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É muito gostoso e surpreendente, para um pesquisador, folhear os cadernos. Por isso, para facilitar sua leitura e pesquisa, foi decidido pela equipe do Instituto Antonio Carlos Jobim que haveria planilhas eletrônicas no banco de dados DSpace para cada um deles, como um todo.

Em algumas páginas, de seus cadernos pessoais, ele tinha extrema liberdade para brincar com suas assinaturas e com alguns pseudônimos, talvez exercendo heterônimos que gostaria de ter. Na página 98 do caderno 17, Tom assina como David Zingg; na página 240 do mesmo caderno, assina como Anatão y João. Em uma carta a Paulo Jobim, na série Correspondência Familiar (Cf851), Tom assina como João. Em outras séries também aparecem outros pseudônimos curiosos, como Tom Joba, Tony Brazil, Walter Glauber e Tom-Tom. As páginas dos cadernos vão se estendendo para o dia-a-dia, revelando algumas brincadeiras que fazia com seus filhos: “O Papai é bom / O Papaizinho é muito bonzinho / O Papai gosta muito da Mamãe / A Mamãe gosta muito do Papai / O Papai gosta muito dos filhinhos / Gosta do Paulinho e da Betinha”. (Acervo ACJ, Pi1216, p.10). E ainda, recentemente, mostrando a atualidade do arquivo, a página 47 do caderno 17, assim como quase todo o caderno 29, ajudou a família Jobim a provar, judicialmente, a co-autoria das versões que Tom fez com Norman Gimble (Acervo ACJ, Pi1146).

Principalmente usados para seu ofício de compositor, os caderninhos de anotações de Tom Jobim estão entre os mais preciosos documentos de seu acervo. Não apenas por constituírem uma explícita escrita de si dentro do arquivo, mas porque eram companheiros diários, sendo instrumentos de trabalho para o maestro. Por isso mesmo, estão ali vários pensamentos, fragmentos de músicas ou esboços de desenhos. Porém, tais inscrições são múltiplas e concisas. Os textos dos cadernos contêm quase todos os tipos documentais do arquivo, abrigando, portanto, imensa diversidade, toda ela num mesmo lugar e com uma mesma capa.

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Figura 8 – Lista de consertos necessários no carro. Caderno 25, Pi 1180, p. 14

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Figura 9 – Lista de acessórios para levar em caçada. Caderno 28, Pi 1158, p. 12

3.4AS CASAS DE TOM

O endereço de uma pessoa não é importante. Sobretudo depois de uma certa idade.

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Tom sempre se mudou muito. Na infância, morou na Tijuca, em Copacabana e Ipanema. Desde que pôde sair da casa dos pais (na verdade, mãe e padrasto), morou com Thereza Hermanny e os filhos Elizabeth e Paulo, na rua Nascimento Silva (Ipanema), na rua Codajás (Leblon) e na rua Peri (Jardim Botânico). Depois, com a família de Ana Beatriz e os filhos João Francisco e Maria Luiza, permaneceu na rua Peri até a casa da rua Sara Vilela (Jardim Botânico) ficar pronta. Claro, acrescentem- se nessas contas, o apartamento próprio em Nova York, o sítio Poço Fundo e o apartamento alugado em Los Angeles, no início dos anos 1970.

Embora tenha cursado apenas por um ano a Faculdade de Arquitetura, Tom participou ativamente do planejamento e reformas das duas casas que construiu: a casa no sítio chamado Poço Fundo, no município de São José do Vale do Rio Preto, e a casa na rua Sara Vilela, no Jardim Botânico. Os cadernos abrigam muitos rascunhos, desenhos e cálculos para as obras nas quais Tom participou. Embora em grande quantidade, são itens pouco precisos e sobre a maioria dos desenhos não se pode afirmar à qual casa se refere.

Figura 10 – Esboço para a construção da casa em Sara Vilela. Pi 1095, p. 20 Figura 11 – Esboço para a construção da casa em Sara Vilela. Pi 1247, p. 49

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A primeira casa construída foi o sítio em Poço Fundo, por volta de 1972. Na verdade, é uma reserva particular da Mata Atlântica, localizada em São José do Vale do Rio Preto, que fica entre Petrópolis e Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro. Tom pôde comprar um grande terreno, bastante irregular, quando retornou ao Brasil, em fins da década de 1960. Tinha conseguido juntar dinheiro suficiente por conta de seus trabalhos nos Estados Unidos e queria aplicá-lo. Contou com a ajuda da sua mãe, Nilza Brasileiro de Almeida, e destinou uma parte do terreno para a casa de Helena, sua irmã, e outra para Elizabeth, sua filha. Quando começaram as obras de terraplanagem do terreno e as da casa, Tom fez vários rabiscos nos cadernos e muitos pedidos ao arquiteto Wilfred Cordeiro, seu amigo de infância, pois gostava de exercitar suas idéias. Ana Jobim comenta em seu filme, A casa do Tom:

O sol da manhã deveria bater nas janelas dos quartos; a parede sul devia ser cega, por causa dos ventos e das chuvas de verão; os quartos isolados do chão, para evitar umidade; telhas coloniais grandes em teto sem forro; pé-direito de sete metros de altura; degraus nas portas de entrada, para evitar cobras. Tom era obcecado pela arquitetura de morar, cuidava de cada detalhe, não dos detalhes do interior, mas da luz, da posição do sol, de dormir com a cabeça voltada para o Norte absoluto, da vista, da paisagem que gostava de contemplar. (JOBIM, 2007, folheto, p. 12).

Foi nessa época, e em pleno canteiro de obras, que teve inspiração para a música “Águas de março”, durante uma caminhada/inspeção matinal. Além dessa, tantos outros sucessos de sua carreira foram inspirados pela natureza do lugar, como “Dindi” (nome derivado do “Caminho do Dirindi”, que passa pela propriedade de Tom) e “Chovendo na roseira” (devido aos roseirais à beira da janela do seu quarto).

Esse era o refúgio da família Jobim e eram comuns almoços festivos, comemorações e cantoria. Tom gostava da mata ao redor, e apelidou de “vento redondo”, o que circulava pela propriedade. Passeava por lá, piando passarinhos, observando os urubus (muito importantes na sua obra), conversando com os mateiros e as pessoas simples da região. Recentemente, foi publicada no DVD A casa de Tom, uma cena gravada por Ana Jobim e Luiz Eduardo Lerina, na qual Tom conversa com Narciso Silva, caseiro de Poço Fundo. Nela, Narciso contava, eriçado, seu encontro com o lobisomem. E Tom balançava a cabeça concordando com tudo.

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O apartamento em Manhattan foi comprado por causa da vista. Ana tinha escolhido um apartamento, no sexto andar, com o dobro do tamanho e a metade do preço do que acabaram adquirindo, no 22º andar. Todos tentaram demovê-lo da idéia de comprar esse apartamento, incluindo seu contador, mas Tom disse à Ana: “Eu quero esse. Eu vou comprar esse apartamento”. Ele era completamente indevassável, com vista de boa parte da cidade: “a view with the room”. Depois, o contador, disse “Ah, ele tinha razão, vai ver eu gosto mais de dinheiro do que ele” (JOBIM, 2007).

A outra casa ficava na rua Sara Vilela, no alto Jardim Botânico, no “sovaco do Cristo”, apelido que ele consolidou10. Esse projeto começou em 1979 e durou quatro anos: até 1982. Ana Jobim lembra que o poema “Chapadão” (transcrito integralmente no Anexo C) começou junto com a obra, mas levou oito anos para ser terminado, tendo sido publicado no livro Ensaio poético¸ dela e de Tom Jobim, em 1986.

Os arquitetos foram Paulo Jobim e Maria Elisa Costa11, mas não sem os vários retoques de Tom – cliente exigente e “criativo”. Paulo narra à jornalista Camila Pires, como começou a obra:

Eu fiz o projeto da casa junto com a Maria Elisa Costa. Eu trabalhei por muitos anos com ela e alguns projetos tinham consultoria do Lucio Costa, uma figura maravilhosa. A casa era separada do chão para não entrar umidade e para poder passar vento embaixo. Havia toda uma preocupação com o sol e as telhas eram de vidro para a luz entrar. A posição da casa acabou ficando totalmente norte, sul, leste, oeste.

Meu pai gostou do negócio de pegar a bússola e calcular a posição do sol. Então, a gente descobriu como fazer a conta de que horas era realmente meio-dia (porque o meio-dia do relógio não é a hora exata em que o sol passa verticalmente em cima de nossas cabeças). Parece que é quando o sol passa meio-dia em Ubatuba. E a gente fez essa conta para saber a hora em que o sol estaria passando reto no terreno. O sujeito lá da obra colocou um fio de prumo pendurado numa madeirinha (aquele chumbinho pendurado com uma corda) e, quando chegou meio-dia e dezesseis ou dezesseis para o meio-dia, a gente riscou a sombra do sol, que fica exatamente ao norte. A gente riscou no chão e a casa toda ficou marcada. Isso era uma curtição maluca. (PIRES, 2007)

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“Suvaco [sic.] do Cristo” é o nome de um dos mais famosos blocos de Carnaval da Zona Sul carioca. Um de seus fundadores, o médico João Carlos Avelleira, contou à autora que ele batizou o bloco quando leu uma entrevista em que Tom falava que morava no “sovaco do Cristo”. Também no poema “Chapadão” (Anexo C), Tom menciona o “sovaco cristão”.

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Filha de Lucio Costa e Julieta Guimarães Costa. Dirigiu o IPHAN de 2004 a 2006 e, atualmente, mantém a Casa Lucio Costa, no Jardim Botânico, em parceria com sua única filha, Julieta Sobral.

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Como já mencionado, os caderninhos de anotações serviram para várias reuniões, contendo desenhos de todos os lados e cálculos de vigas, paredes e telhado. Mesmo com tantos ajustes, depois de terminada a casa, os novos moradores tiveram uma infeliz surpresa: o segundo andar ficou com o pé-direito muito curto, provocando em Tom, uma enorme angústia. Por isso, com bom-humor, ele escreveu uma carta ao seu filho-arquiteto datada de 2 de setembro de 1983, em que comenta cada defeito (Cf 807). Essa longa carta virou um artigo em tom irônico e engraçado: “O baixo rebaixado”, Pi921:

Todos os aposentos são baixos. O pior é que além das lajes serem baixas, elas sofrem incríveis rebaixamentos. [...] Pular, num dia frio, embaixo do chuveiro, nem pensar! Quebraria a cabeça. [...] Felizmente já botei o banheiro abaixo. Para q. servem as lajes próximas e rebaixadas? Não sei. Acho q. morrerei sem saber. [...] Serve para q. tudo fique escuro. Quanto mais se aproxima o chão do teto, mais escuro fica o aposento, mesmo q. todas as paredes sejam de vidro! [...]

Na minha casa nova toda a vez q. eu tento tirar o rebaixo para tentar me adaptar à baixa laje encontro mil coisas ocultas pelo rebaixo, os esgotos passam sempre sobre nossas cabeças. [...] O quarto tem 2,50m de pé-direito e no lugar do ex-corredor tem menos, aprox. 2,42; e isto depois q. arrancamos o rebaixo e botamos os canos por cima da laje e as vigas também passamos porque antes o ex-banheiro tinha a altura de +- 2,10m. (Me lembra o Hotel Marina, opresso, opressor, oprimente). [...] O telhado também não tem pé direito nem espaço entre o telhado e a laje q. permitisse arejamento do sótão. [...]

O Sergio Dourado tem suas razões para diminuir a altura, the height of

the room, sus intenciones son bien conocidas $ mas nós, tínhamos sobre nossas

cabeças o céu e as estrelas! Podíamos ter feito a igreja, a gaiola do jereba, mas não, fizemos os buracos das gavetas. [...] La Cave.

Perguntei ao Jopper12 pelas máquinas, para suspender, erguer, separar as lajes, ele disse q é impossível. Sugeri quebrar, ele me diz q é melhor fazer outra casa, despesa etc... Mas entre essas lajes vou ter q. viver eu!

Talvez o q. tenha levado o Paulim a tais baixezas tenham sido motivos estéticos. Mas ele se esquece q. a fachada, q. ele viu na prancheta, ninguém vê. Só de helicóptero, sobre a lagoa, de binóculos, assim mesmo só com aquela suspensão q. os americanos usam para filmar sem trepidação. [...]

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113 Esta casa era pra ser uma casa de verão carioca. [...] ou vendê-la para o

Nelson Ned13. Ele poderia, montado num poney, empunhando o espadim, ou o espeto do churrasco, ou a faca da cozinha dar vivas à República. E tirar o suéter.

Tentarei o q. puder para melhorar, minorar as condições. Telhas de respiração, cobrir a laje de isopor etc... mas na minha experiência o q. resolve é pé direito, muito melhor do q. ar condicionado versus laje.

Tenho dito

Tom Joba

Rio, 28.set.83 [...]

P.S14. O parapeito é um parapinto.

P.P.S. Em música, quando a gente erra, a gente apaga e escreve certo; se está gravado, a gente regrava, grava de novo mas, no caso, o meu problema é

Benzer Belgeler