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4.14 Bilgi Tabanının Oluşturulması

4.14.2 Hesaplamalar

(...) não tem dó no peito, não tem jeito, não tem ninguém que mereça, não tem oração que esqueça, não tem pé, não tem cabeça, não dá pé não é direito, não foi nada, eu não fiz nada, eu não fiz nada disso, e você fez um bicho de 7 cabeças, bichos de 7 cabeças.

(Zé Ramalho/Geraldo Azevedo/Renato Rocha).

De instituição destinada à reeducação de meninos infratores, o Centro Educacional - CEDUC/Pitimbu se transformou em uma prisão para adolescentes em conflito com a lei. E, talvez por isso mesmo, não cumpra o objetivo a que se propõe: o de promover um espaço de reflexão para estes jovens e adolescentes repensarem sua posição na sociedade e projetarem um futuro baseado na dignidade e inserção social.

Quando esses meninos são apanhados em seus delitos e levados para o CEDUC, possuem uma concepção de quem são ou gostariam de ser no mundo externo, geralmente a infração, especialmente na adolescência, reflete questões e posicionamentos internos de quem passou por inúmeras privações estruturais, sociais, emocionais e quer tomar, mesmo que a força, da sociedade aquilo que lhe foi negado.

Essa concepção de si construída no mundo externo, em uma instituição total, como a FEBEM (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) de todos lugares, é constantemente exposta às práticas institucionais de rebaixamento, degradação,

Para GOFFMAN (1996), as instituições totais se constituem em uma grave ameaça ao eu. Nelas o indivíduo é despido de sua identidade e de sua individualidade, compondo uma massa de iguais. No meio externo, o indivíduo possui territórios e objetos que se ligam aos seus sentimentos e atitudes de conservação do eu, como seu corpo, pensamentos, bens e ações, dos quais é desapropriado quando adentra a uma instituição como a FEBEM.

A rotina da instituição CEDUC/Pitimbu, já relatada no primeiro capítulo, não só com referência à vida diária, como também às relações entre os internos, os educadores e superiores, é formalmente administrada, cheia de regras impostas e regulamentadas, o que pode ocasionar a perda de intimidade do indivíduo. Esses meninos são constantemente expostos a práticas institucionais violentas de rebaixamento e humilhação, que os obriga a uma mutilação da consciência que possuem de si. A tensão psicológica desta rotina exige do indivíduo uma reorganização de seu eu, na verdade exige uma adaptação à instituição para que ele possa sobreviver, sem a constante ameaça de ser aniquilado.

Nas instituições é qualquer fala de funcionário que certamente focalizará, em primeiro plano, a vivência intensiva de abandono, com toda sua carga de significações traduzidas em inúmeras demandas, como se refere Paulon: mais funcionários, mais

horas extras, mais cursos etc. como se a experiência de desamparo se constituísse no cimento do tecido social, que une mais trabalhadores (2001, p.203).

Outra coisa interessante é o relato de um funcionário do CEDUC: quando a

gente chega e os meninos infratores estão todos em silêncio, quietos...Olha, ai vem

coisa, dá até um frio na espinha. Segundo esse funcionário - educador do

Vamos virar! Vamos virar! Virou! Virou! Um pavilhão grita aqui, outro dali, outro ecoa ali, em pouco tempo já é o inferno. É uma gritaria que ninguém ouve mais nada, porque nós educadores, gritamos também e tentamos gritar mais alto que eles. Já era! Já era! Acabou! Senta! Senta! É uma competição de gritos para ver qual ordem que predomina. Mas nessa hora já está voando estilete, os meninos estão já com pau, pedaço de ferro e o que podem adquirir na hora a luta é grande para se negociar, eles não escutam nada na loucura de fugirem, e as vezes levam tiros, aqueles mais ousados, mais destemido de tudo, só conhece um dia de rebelião quem trabalha com esses meninos, primeiro não se pode confiar (Educador do CEDUC, 35 anos)).

Vai se delineando uma cena infernal: fogo nos colchões e roupas produzindo densas nuvens de fumaças que podem ser vistas à distância e mobilizam a atenção externa, um barulho ensurdecedor de ferro batendo, paredes sendo demolidas, gritos dos meninos infratores e funcionários, sirene dos camburões policiais e das ambulâncias que chegam para retaguarda, tiros de alerta dados pela guarda externa. De forma desorganizada e eufórica, funcionários correm de um lado para outro, contando quem falta, juntando pertences, telefonando para a equipe dirigente ou para seus familiares.

Com uma certa freqüência esse tipo de episódio é comum nas instituições e as equipes de educadores sequer esboçam resistência, tratando de botar cadeado e escapar o mais rápido possível com medo de serem pegos como reféns e, com isto, deixando o local totalmente liberado para os jovens e adolescentes. Viu no que dá esta

conversa de direitos humanos? Ironizam certos funcionários, dirigindo seu sarcasmo também para alguns colegas mais comprometidos com um projeto pedagógico de respeito aos meninos infratores.

Não é de hoje que temos assistido ao show bárbaro de rebeliões, fugas, mortes e crimes de todos os tipos. As FEBENS (espaços de reeducação para meninos

infratores), principalmente das grandes cidades mostram isso o tempo todo, sem soluções para esses jovens e adolescentes confinados e para a própria sociedade. Os funcionários que tentam fazer movimento de resistência geralmente adoecem ou são demitidos por não aderirem à crueldade imposta como prática pedagógica.

Contudo, a reforma de pensamento governamental sobre como tratar jovens e adolescentes tem de se voltar para a formação que eles precisam. Quando as escolas, as comunidades, a sociedade ou os governos proporcionam a esses meninos pobres das periferias e favelas acesso a criação cultural, estão lhe devolvendo e ao mesmo tempo oferecendo, um campo em que podem exercitar a própria subjetividade e expressividade, mostrando-se, inventando-se como pessoas, com respeito, com outro olhar que os valorizam pela mera atenção que eles tanto querem. Esta atenção valoriza quem se sente ninguém, quem se sente invisível.

Socialmente quando invisível, o maior desejo do ser humano, é o desejo do acolhimento, afeto, reconhecimento. Pressionado por este desejo profundo, os jovens e adolescentes recorrem aos expedientes acessíveis, dentre eles a violência. Claro que a realidade é bem mais complexa e que há sempre muitos outros fatores em ação. Mas a tese da invisibilidade é forte o suficiente para justificar algumas propostas que fazemos à sociedade e aos governos.

Acredito que uma atividade desta natureza é necessária por trabalhar uma questão básica que é o resgate da confiança em si e nos outros, sem o qual qualquer ação de inclusão social pode se tornar inócua e até mesmo paternalista, concorrendo para a menor autonomia, ou seja, para a infantilização desses jovens e adolescentes. Com certeza estamos trabalhando com algo que está marcado muito fortemente no imaginário social e no próprio corpo desses meninos.

Portanto, por esse motivo, também é fundamental discutir a cultura da violência, quer dizer, pesquisar seus meios de difusão, suas características, sua lógica moral, para investir nos eventos culturais, nos quais se destaca a cultura própria deles. O problema de comportamento violento e da disseminação do ódio como linguagem, postura e valor, não se enfrenta apenas com a polícia, ações socioeconômicas e uma vaga e genérica educação para a legalidade. Enfrenta-se com a difusão alternativa que promova paz e seus valores, numa linguagem jovem e em diálogos com o imaginário da juventude pobre.

O esforço metódico que empreendemos nesse tipo de estudo é valioso, sem dúvida, mas há um preço a pagar, pois há sempre perdas nas escolhas que fazemos de interrogar, questionar, ouvir e entender um menino envolvido com homicídios, roubos, crimes, drogas e estupros. A perda talvez seja grande demais, porque, nesse estudo existe uma compreensão mais profunda das experiências humanas, de uma violência sem limite desses jovens e adolescentes, que sempre estamos procurando desvendar.

Benzer Belgeler