2.3. LTA Modelinin Tanımı
2.3.2. Hermann‟ın Liderlik Tipi
Quando se pensa na tutela do direito à alimentação, devemos recorre ao mesmo cabedal normativo já indicado no item 3.1.1, supra, inclusive no referente às considerações sobre a força vinculante de tais normas, ainda que a sua aplicação não seja imediata, mas se dê de forma progressiva.
A DUDH trata do direito à alimentação como algo inerente ao direito à saúde e bem- estar, ao prever, no artigo XXV, que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação (...)”.
Ao seu turno, o PIDESC prevê o direito à alimentação no artigo 11, prescrevendo que a alimentação é conditio sine qua non para que uma pessoa tenha nível de vida adequado, o
105 Disponível em http://nutricao.saude.gov.br/docs/geral/pnan.pdf, acesso em 08/03/13.
106“Do combate à fome, à segurança alimentar e nutricional: o direito à alimentação adequada”. In VALENTE,
Flávio Luiz Schieck. Direito humano à alimentação: desafios e conquistas, São Paulo: Cortez, 2002, p. 37.
107 Ana Elizabeth Lapa Wanderley Cavalcanti, O impacto da rotulagem dos alimentos transgênicos no direito da
personalidade e na sadia qualidade de vida, Tese (Doutorado) - Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
38 que abrange o dever de os Estados-partes adotarem medidas para melhorar os métodos de produção, conservação e distribuição de gêneros alimentícios, dentre outras questões, pela plena utilização dos conhecimentos técnicos e científicos e pela difusão de princípios de educação nutricional, o que guarda estreita relação com a proposta aqui apresentada.
No âmbito do Protocolo de São Salvador, o tema é tutelado no artigo 12, o qual estatui que “toda pessoa tem direito a nutrição adequada, que lhe assegure a possibilidade de gozar do mais alto nível de desenvolvimento físico, emocional e intelectual”.
De acordo com o entendimento atual acerca do tema, presente no Comentário Geral n. 12 do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU, o direito à alimentação abrange três elementos, a saber: (i) disponibilidade; (ii) adequação; e (iii) acessibilidade108.
A disponibilidade se relaciona à existência de quantidade suficiente de alimento para a população mundial de hoje e provisão para alimentar as gerações futuras.
A adequação está atrelada à observância das necessidades dietéticas de cada indivíduo, não apenas no referente aos nutrientes, mas também no que tange às necessidades culturais e outras específicas de cada consumidor.
Por fim, a acessibilidade se subdivide em duas categorias: (i) econômica, pela qual o custo para aquisição de alimentos não pode resultar na impossibilidade de realização de outros direitos, como a moradia, saúde e educação; e (ii) física, que abarca a consideração das pessoas fisicamente vulneráveis, incluindo crianças, adolescentes, idosos, pessoas com dificuldades de locomoção e, ainda, pessoas com problemas médicos persistentes.
Neste ponto, vale explorar as diretrizes indicadas no comentário n. 12 feito pelo Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU, em 1999109, que versa especificamente sobre o direito à alimentação, relacionando-o com a dignidade humana, sendo indispensável, de acordo com o comentário em questão, para o exercício de outros direitos.
De acordo com o que se depreende da leitura do comentário 12, o que se busca é garantir o acesso à alimentação adequada, a qual seria mais do que um pacote de calorias, proteínas e outros nutrientes, ou, como menciona Flávio Luiz Shieck Valente, “ração básica nutricionalmente balanceada”110 (item 6), sendo indispensável considerar-se não apenas a
quantidade de alimento, mas a sua qualidade, a fim de se garantir as necessidades dietéticas de
108 Comentário n. 12 feito pelo Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU em 1999, disponível
em http://www.unhchr.ch/tbs/doc.nsf/0/3d02758c707031d58025677f003b73b9, acesso em 03/01/13.
109 Disponível em http://www.unhchr.ch/tbs/doc.nsf/0/3d02758c707031d58025677f003b73b9, acesso em
03/01/13.
110 “Do combate à fome, à segurança alimentar e nutricional: o direito à alimentação adequada”. In VALENTE,
Flávio Luiz Schieck. Direito humano à alimentação: desafios e conquistas, São Paulo: Cortez, 2002, p. 37. Noutro texto, o mesmo autor sustenta que “o conceito do direito humano à alimentação e nutrição no Brasil é holístico e incorpora os componentes nutricionais, culturais, fisiológicos, familiares, comunitários, espirituais e religiosos do ato de alimentar-se e alimentar” (“Legislação orgânica de segurança alimentar e nutricional no estado de Alagoas e outros estados do Brasil”. In VALENTE, Flavio Luiz Schieck. Direito humano à
39 uma dada população (item 8), pelo que propugna pela adoção de medidas que visem manter, adaptar e reforçar as diversidades dietéticas (item 9). O alimento disponibilizado deve, ainda, estar livre de substâncias adversas, inclusive daquelas decorrentes do manejo inapropriado durante a cadeia produtiva (item 10) e ser adequado às pessoas vulneráveis (item 13), cabendo aos Estados-parte tomarem as medidas necessárias para respeitar, proteger e implementar o direito à alimentação (item 15), sendo certo que a omissão em regular tal direito de forma efetiva é vista como violação à DUDH (item 19).
Especificamente no referente à segurança alimentar, importa considerar o movimento surgido após a 2ª Guerra Mundial, que culminou com a criação, em 16 de outubro 1945, da FAO111 e, em 7 de abril 1948, da Organização Mundial da Saúde (“OMS”)112.
Em 1963, a FAO e a OMS criaram a Secretaria do Programa de Padrões de Alimentos, que aprovou um conjunto de normas que serve de pauta para a solução de disputas sobre segurança alimentar e proteção do consumidor, o Codex Alimentarius113, o qual objetivou uniformizar a rotulagem de produtos alimentícios “principalmente como forma de possibilitar a relação comercial entre países que importam e exportam produtos para consumo humano”114.
Posteriormente, a Secretaria foi transformada no Comitê do Codex Alimentarius, formado por representantes de 165 países, cuja atribuição é a de implementar o Programa Conjunto da FAO/OMS de Padrões de Alimentos, constantemente atualizado115.
Objetivando salvaguardar a saúde do consumidor e garantir harmonia nas regras aplicáveis ao comércio de alimentos, o Codex Alimentarius previu regras de padrões alimentares para produtos alimentares individuais, rotulagem de alimentos, recomendações sobre resíduos de pesticidas, níveis de aditivos e contaminantes de alimentos, códigos de práticas higiênicas, entre outros aspectos da qualidade e segurança dos alimentos, que devem ser adotadas pelos países membros da organização, entre eles, o Brasil.
Vale frisar que as normas previstas no Codex Alimentarius não são cogentes, e, por serem consideradas como recomendações, pelo que facultam aos Estados-partes adotarem regras distintas, fundamentando-se em padrões científicos diversos.
Em 2004, foram adotadas, pelo Conselho da FAO, diretrizes voluntárias para viabilizar a progressiva implementação do direito à alimentação adequada116, incluindo o estímulo para a tomada de medidas que objetivassem proteger os consumidores de erro ou
111 http://www.fao.org/docrep/009/p4228e/p4228e00.htm, acesso em 6/11/12. 112 http://www.who.int/about/definition/en/print.html, acesso em 6/11/12.
113 Disponível em: http://www.codexalimentarius.org/standards/en/, acesso em 10/07/12.
114 Ana Elizabeth Lapa Wanderley Cavalcanti, O impacto da rotulagem dos alimentos transgênicos no direito da
personalidade e na sadia qualidade de vida, Tese (Doutorado) - Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
2006, p. 235. 115 Sobre o tema v. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/marco_legal_organismos_geneticamente_modificados.pdf, acesso em 10/07/12 e http://www.anvisa.gov.br/divulga/public/alimentos/codex_alimentarius.pdf, acesso em 10/07/12. 116 Disponível em ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/meeting/009/y9825e/y9825e.pdf e http://www.abrandh.org.br/download/20100815224512.pdf, acesso em 03/01/13.
40 equívoco em relação à embalagem, rótulo, propaganda e venda de alimentos, além da facilitação da escolha por parte dos consumidores, ao garantir informação apropriada nos produtos ofertados (item 9.7117).
Ademais, encorajou-se os Estados a adotarem normas sobre a segurança dos alimentos com uma base científica, e, em consequência, a estabelecerem normas relativas à embalagem, etiquetagem e publicidade dos alimentos, levando em conta as normas alimentícias internacionalmente aceitas (Codex Alimentarius) e a estarem em conformidade com o Acordo sobre a Aplicação de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (Acordo MSF) da OMC. Este Acordo MSF prevê a adoção de medidas para prevenir a contaminação por contaminantes industriais e de outros tipos na produção, elaboração, armazenagem, transporte, distribuição, manipulação e venda dos alimentos (item 9.3118).
No item a seguir, avaliaremos em que medida as obrigações e as diretrizes acima indicadas foram transportadas para o plano normativo interno brasileiro.