2. GENEL BİLGİLER
2.4. HEPATOSELLÜLER KANSERİN EPİDEMİYOLOJİSİ VE
Era a última semana de aula e o clima da escola estava bastante agitado; um clima de férias. Alguns alunos que tinham aceitado participar da entrevista faltaram neste dia e um dos alunos que estava presente desistiu de participar pois a entrevista seria realizada no horário de aula e ele não queria perder o jogo da educação física (aula que teria naquele momento). Assim, ao todo participaram 8 alunos, sendo que, entre estes, 4 tinham sido mais assíduos às oficinas e apenas 2 participaram das duas oficinas de literatura marginal e da oficina de grafite até o fim.68
Os alunos participantes foram: Lukim, Nilo-vtv, Aline Knup Acrata,69 Gérson, DGS, Baby Check, Curinga e GTV. Estes nomes foram escolhidos por eles ao final da entrevista, quando pedi que atrás de seus crachás escrevessem um nome (um pseudônimo como fazem os escritores) pelo qual gostariam de ser referidos no presente trabalho.70
Iniciamos o encontro com a confecção de crachás. Deixei sobre uma mesa folhas, barbante e canetinha e conforme os alunos chegavam, pedia que escrevessem seus nomes e pendurassem os crachás para facilitar nossa comunicação. Essa atividade tinha como objetivo descontrair e acalmar os alunos, que chegavam agitados na sala.
68 A oficina de grafite ocorria no período da tarde e teve pouca adesão dos alunos no final do semestre.
Apenas 5 alunos participaram até o fim.
69 Aline escolheu este nome seguido do pseudônimo utilizado pelo educador no bairro. A fim de manter o
sigilo em relação a ele, utilizamos para o “sobrenome” de Aline o nome ao qual nos referimos ao educador nesta pesquisa: Knup Acrata. Assim, Aline passou a ser chamada na pesquisa de “Aline Knup Acrata”.
70 Encontram-se em negrito as intervenções da pesquisadora ao longo da entrevista, explicitando, desta
Momento inicial da entrevista: confecção de crachás
Enquanto desenhavam, conversavam bastante. Alguns alunos provocavam Aline Knup Acrata, única menina que participou do encontro. Perguntaram sobre Knup Acrata, e expliquei-lhes que ele estava fazendo um trabalho na sala de computação. Perguntaram o que ele fazia e um dos alunos respondeu que ele é professor. Nilo-vtv e DGS pediram para sair para entregar um trabalho na aula de matemática. Deixei que fossem e pedi que retornassem logo. Senti um certo desconforto por parte dos alunos por estarem perdendo aula. Por outro lado, junto com a coordenadora pensamos que seria melhor fazer a entrevista no horário letivo para facilitar o encontro.
Finalizada a confecção dos crachás, retomei com eles o objetivo da minha presença nas oficinas, expliquei sobre a pesquisa e a importância de escutá-los sobre a experiência que haviam tido na oficina de literatura e no grafite. Pedi que me ajudassem a lembrar tudo o que haviam feito nestas oficinas ou, pelo menos, que me contassem, de tudo o que fizeram, aquilo que eles lembravam. Esta atividade serviu de aquecimento para entrarmos no assunto das oficinas.
Baby Check começou dizendo que não lembrava de nada. Aline Knup Acrata contou que fizeram poemas e escreveram textos. Conforme eles falavam, eu registrava na lousa as atividades em forma de itens. Baby Check, em tom irônico, pediu que eu escrevesse poema + poema = poema. Pergunto se não lembravam de mais nada e Nilo-vtv conta que eles cantaram também. Baby Check insiste: Poema, tia!.
Aline Knup Acrata diz que eles escreveram um livro. Pergunto aos outros que estavam quietos se não lembram de mais nada e Curinga lembra que participaram de um sarau. Aline Knup Acrata interrompe dizendo que Teve gente que não veio... e Gérson complementa afirmando que metade dos alunos haviam comparecido. Curinga diz que só ele e mais um menino estiveram no sarau e Baby Check reclama perguntando se ele não tinha vindo recitar poema. Baby Check e Curinga discutem sobre a presença de Baby Check no sarau e ele generaliza a conversa para mostrar sua participação nas oficinas. Diz que grafitou o muro, que foi ele quem fez a parte de cima do desenho. Ficam disputando para ver quem participou mais. Baby Check procura se defender da afirmação de Curinga de que os alunos que realmente participaram da oficina de literatura marginal e grafite até o fim foram Lukim, ele e mais três alunos que não estavam presentes.
DGS interrompe dizendo que eles também tinham feito uma excursão para o arquivo do Estado. Nilo-vtv conta que participaram da “Passeata da Paz” e que ainda bem que ele tinha ficado na parte de trás porque teve um empurra, empurra.
Proponho então retomarmos tudo o que havia sido dito e ver se lembravam de mais alguma coisa. Leio em voz alta a lista das coisas escritas na lousa: cantaram, escreveram poema, escreveram um livro, fizeram sarau, leram livro, foram no arquivo do Estado conhecer a história do bairro e participaram da Passeata da Paz. DGS complementa: E grafitamos o muro da escola!
Retomo com eles que eram duas oficinas e Curinga complementa dizendo que sim, que era o grafite e a literatura. Pergunto se participaram das duas e como tinha sido e Gérson explica que ele começou participando da literatura, mas que uma parte dos alunos ia para a literatura e outra parte para o grafite. Conta que havia alunos que queriam fazer o grafite mas acabaram indo também para a literatura.
Retomo para ver se havia compreendido e pergunto se todos os alunos tinham participado da literatura. Digo que o que compreendi foi que tinha um grupo interessado na literatura e alguns queriam o grafite. Curinga me interrompe para explicar e diz que era isso. Conta que quando falaram que teria grafite o pessoal pensou
que ia chegar e já pegar na lata e grafitar. Gérson continua dizendo que primeiro tinha que participar da literatura para depois pegar na lata. Conta que, com isso, o pessoal foi saindo do grafite e só ficaram três alunos. Curinga lembra que ele também continuou.
A conversa continuou e os alunos falavam da oficina de literatura e do grafite sem distingui-los. Proponho então falarmos primeiro da literatura e depois do grafite. (Isto aconteceu também durante uma oficina onde um dos alunos perguntou sobre o uso de guache e KA respondeu que esta seria uma boa pergunta na oficina de grafite. Pelo que os alunos me relataram na entrevista, a junção da literatura e do grafite foi proposta pela escola e na cabeça deles era uma oficina só. Acabei tendo a mesma postura de KA de pedir que separassem algo que para eles estava unido ou tinha sido proposto em conjunto pela escola. Pedi que separassem porque estava confuso compreender. Talvez tão confuso quanto estava para eles também e, no início, para a escola e Knup Acrata que iniciavam uma primeira experiência de articulação e foram configurando as oficinas na prática, ao longo do tempo).
Digo que havia compreendido que cada um podia se inscrever na oficina que quisesse. Pergunto, então, o que eles queriam quando se inscreveram na oficina de literatura marginal. Baby Check conta que queria pegar na lata. Pergunto se ele achava que isso seria a oficina de literatura e ele diz que não, que não estava falando da literatura. Pergunto se ele havia se inscrito na oficina de literatura marginal e Curinga interrompe dizendo que vai me explicar. Peço a Curinga que deixe Baby Check contar.
Baby Check afirma que não havia se inscrito na literatura. Diz que primeiro se inscreveu no cinema porque não sabia que ia ter grafite. Então, quando soube do grafite, pediu para mudar. Pergunto sobre a oficina de literatura e ele diz que não imaginava que tivesse esta oficina. Retomo então que seu interesse era pelo grafite e que o que ele queria era grafitar o muro e ele confirma.
Dirijo-me então ao grupo e pergunto quem mais gostaria de falar sobre o que queria com a oficina de literatura marginal. Gérson afirma que queria ler mesmo e Baby Check, em tom irônico, de espanto pergunta: Ele queria ler?! Gérson responde que sim
e que ele estava falando da oficina de literatura marginal, que ele queria treinar, ler melhor.
Pergunto a Aline Knup Acrata e ela diz que queria escrever poemas. Baby Check ri de sua resposta e os dois começam um bate-boca. Peço silêncio para escutarmos os outros alunos. Nilo-vtv conta que veio para a oficina de literatura para aprender a ler e aprender outros tipos de leitura também, coisas que eles não sabiam. Pergunto que tipo de leitura e Gérson responde que era literatura suburbana.
Curinga retoma o início das oficinas e a questão da escolha dos alunos. Conta que, quando anunciaram o grafite, falaram que era grafite, só que ia ter oficina de literatura marginal também e o que o pessoal só tinha entendido a parte do grafite. Gérson confirma que foi isso mesmo que aconteceu, que todo mundo se inscreveu pensando que era só grafite. Curinga continua dizendo que quando Alice passou para eles assinarem a lista, ela anunciou que era grafite e oficina de literatura. Conta que por isso o grafite estava cheio de gente no início e depois foi diminuindo à medida que o pessoal foi vendo que era aquilo (ou seja, oficina de literatura marginal). Apesar disso, Curinga diz que ele gostou porque eles foram vendo coisas sobre a comunidade e sobre a periferia.
Baby Check retoma dizendo que Knup Acrata só deixou ir pra parede quem estava frequentando a oficina de literatura marginal. Gérson diz que a sala encheu e acha que o
povo começou a desistir porque começaram a falar da comunidade, da pobreza, da periferia.
Retomo novamente perguntando se a maioria deles tinha se inscrito para o grafite, querendo pintar e Nilo-vtv diz que não, que todo mundo se inscreveu pensando que já
ia pra parede. Gérson confirma dizendo que não era para a literatura e sim para o grafite.
Pergunto se o que eles esperavam aconteceu, ou seja, se o Baby Check grafitou, se o Gérson melhorou a leitura, etc. Pergunto se, passado esse tempo, eles poderiam dizer que tiveram o que queriam.
Baby Check diz que não teve o que ele esperava, mas que acabou gostando. Pergunto do que ele gostou e ele responde que gostou dos poemas e de fazer rap. Conta que no início não ía muito na oficina de literatura marginal, mas que no final passou a ir, foi umas cinco, seis vezes e KA deixou ele participar do grafite.
Curinga afirma que achou legal o fato da oficina não ter sido apenas para eles. Conta que também convidaram a comunidade para o sarau, fizeram o livro, e que até na internet eles estiveram. Conta que colocaram na internet foto deles na sala.
Retomo o que havia sido dito na tentativa de organizar o discurso e conferir se minha compreensão era condizente com o sentido por eles atribuído àquela situação : Vocês se inscreveram achando que era o grafite e quando chegaram aqui
tinha oficina de literatura marginal também. Alguns estavam procurando a leitura, poemas e conhecer outro tipo de literatura. Outros queriam o grafite mas acabaram gostando, é isso?
Gérson responde que sim, que alguns dos que estavam inscritos no grafite quiseram continuar, mesmo sabendo da oficina de literatura marginal. Pergunto então o que eles tiveram de novo na oficina de literatura marginal e Baby Check responde que tiveram um monte de coisa. Peço que ele me dê um exemplo e ele conta que não gostava muito de poemas mas que aprendeu a gostar. Conta que leu até um livro conhecido que Knup Acrata lhe havia emprestado, de um dos coletivos do bairro. Gérson complementa dizendo que eles aprenderam muito sobre a periferia, que aprenderam que podem usar o conhecimento como arma contra a reflexão.71 Nilo-vtv afirma que aprendeu que grafite é diferente de pichação. Conta que no grafite você aprende a fazer um tipo de letra, aprende a fazer desenho e que pichação é você ficar lá
escrevendo na casa dos outros.
Pergunto sobre o canto, pois eles haviam dito que cantaram e Curinga diz que quem cantou foi KA e que Gerson e mais dois outros alunos fizeram um rap. Pergunto a Gerson se ele gostaria de cantar o rap e ele diz que depois. Peço então que antes de finalizarmos, eles falem o que acharam mais importante, ou o que gostaram mais.
71 Embora ele tenha usado a palavra “contra” a reflexão, percebi que não era esse o sentido. Acabei não
Curinga afirma que gostou de conhecer sobre a periferia, de ver que a gente é
trabalhador, a gente é sofredor sim, só que não é bandido. Acha que alguns fugiram um pouco do caminho, mas nem todos são assim.
Pergunto se ele acha que mudou o seu jeito de ver a periferia e ele diz que sim e que os grafites que eles fizeram têm como objetivo mudar a visão que as pessoas têm da periferia. Acha que os ricos na zona sul veem a periferia assim, ou seja, um lugar de bandidos. Pergunto como ele via a periferia antes de participar da oficina de literatura marginal e do grafite e ele diz que também via dessa maneira porque passa no jornal que estão roubando, matando. Mas depois viu que é diferente. Baby Check continua, dizendo que no jornal eles só mostram as coisas ruins que acontecem ali. E afirma: Uma coisa boa tipo um mercado que eles fazem ou as escolas.. tipo essa escola
aqui, alguém veio filmar pra falar que tem uma escola? Mas alguém veio filmar um cara que morreu ali.
Pergunto se então podemos dizer que na oficina de literatura marginal eles passaram a ter um novo olhar sobre a periferia, enxergando as coisas boas e Baby Check responde que sim, que do outro lado da ponte os caras acham que aqui só tem
vagabundo, aqui só tem ladrão. Complementa dizendo que muitos jogadores de futebol vieram da favela. Gérson também confirma essa mudança de olhar ao afirmar que eles aprenderam a ver o lado bom da periferia e a usar o conhecimento para perceber, por exemplo, que o fato da televisão e do jornal mostrarem as coisas ruins não significa que isso seja verdade.
Pergunto como eles usam esse conhecimento e Gerson diz que o utilizam para não serem enganados. Curinga confirma. Conta que fez um poema onde fala que no livro eles aprenderam a adquirir conhecimento e que quando estiverem perto de alguém que
mora do outro lado da ponte, vão saber falar, saberão responder suas perguntas. Afirma que o conhecimento serve para eles mostrarem que não são burros, que sabem o que querem. Gerson completa dizendo que serve para mostrar o que eles podem
Aline Knup Acrata interrompe dizendo que Lukim não havia falado ainda e pergunto se ele gostaria de dizer alguma coisa mas ele fica quieto. Retomo então as falas
dizendo que aquilo que eles aprenderam de diferente, que talvez vocês não estivessem esperando foi ter um outro olhar sobre a periferia. Aprenderam que na periferia não existem só coisas ruins, mas também coisas boas, e que com o conhecimento eles conseguem mudar. Gérson concorda e Curinga completa dizendo que os armamentos da periferia não são somente as armas, as balas. Acredita que o armamento são os livros também, e aquilo que eles conseguem aprender. Gerson afirma: Nossa arma é o conhecimento.
Volto-me novamente para Lukim e para Nilo-vtv, que estavam mais quietos e pergunto o que eles mais gostaram. Curinga interrompe dizendo que Lukim não tinha participado muito, mas insisto dizendo que ele pode dizer o que mais gostou daquilo que participou. Lukim responde que gostou dos poemas e Nilo-vtv disse que gostou de conhecer os amigos de Knup Acrata. Baby Check se anima e entra na conversa. Pergunta o que KA era e respondo que é punk. Ele conta que, antes, achava que punk era meio bicha, e que, depois que conheceu KA, viu que não, que ele é legal; que punk vê as coisas de um outro jeito, imagina um outro mundo. Acha que é bom ser punk porque você aprende mais.
Comento que, além de mudar o olhar deles sobre a periferia, mudou também o olhar em relação ao que é ser punk. Curinga afirma que também gostou de conhecer pessoas legais. Cita uma das educadoras do grafite, o pessoal de uma ONG do bairro e a pesquisadora.
Pergunto a DGS se ele quer falar alguma coisa e ele diz que gostou de escrever poema. Pergunto se ele já tinha escrito um poema antes e como tinha sido essa experiência. Ele afirma que não e que havia sido difícil. Baby Check conta que para ele foi legal, que uma vez escreveu sobre quem ele era. Ele diz: Eu escrevi assim: eu sou
eu, eu sou desse jeito, não adianta querer me mudar porque eu sou assim. Em seguida afirma: Você vai se abrindo. Você, sei lá, você flutua, você viaja na maionese. DGS comenta que depois que começa, vai saindo tudo de uma vez.
Pergunto se com o tempo ficou mais fácil ou igual fazer poemas e DGS diz que foi ficando mais fácil. Baby Check fala animado sobre como a rima ia saindo. Conta que
Knup Acrata pedia para ele falar uma palavra e depois tentar falar uma outra que rimasse com aquela. Curinga diz que fizeram poemas sem rima também.
Digo que estamos finalizando o encontro e pergunto se querem falar alguma coisa sobre o grafite. Curinga explica que os educadores começaram a fazer um desenho na lousa e não dava para saber o que ia sair. Eles fizeram vários traços e depois apagaram alguns e virou um rosto. Aline Knup Acrata vai na lousa para explicar como era feita a construção do desenho do rosto.
Pergunto o que eles mais haviam gostado do grafite e Curinga afirma que foi o fato de terem primeiro que avançar a ideia para depois desenhar. Pergunto qual o sentido do que eles haviam desenhado no muro da escola e ele conta que o primeiro desenho era a periferia e que o outro era a ideia de que a arma é o conhecimento.
A essa altura os alunos pareciam cansados, estavam dispersos, saindo para beber água e conversando entre eles. Resolvi então finalizar o encontro. Pergunto se alguém queria falar mais alguma coisa e ninguém se manifesta. Retomo com eles minha pesquisa e digo que contaria o que havíamos conversado, sem, no entanto, identificá-los. Houve protestos nesse sentido alegando que eles queriam ser identificados. Pergunto se eles já haviam reparado que alguns poetas usam um outro nome para assinar seus poemas e Baby Check lembra de KA, que é conhecido pelo seu pseudônimo, mais do que pelo nome próprio. Peço que eles escrevam atrás de seus crachás um nome pelo qual gostariam de ser tratados na presente pesquisa. Alguns resistem mas acabam escolhendo um nome. Baby Check pergunta se eu conheço algum nome que signifique rua ou periferia, mas ao final ele mesmo encontra outro sentido para o identificar, o basquete. Conforme acabam de escrever os crachás vão retornando para suas salas. Baby Check e DGS pedem para cantar o rap que haviam feito. Baby Check pega o atabaque e ambos cantam:
“O grafite é uma oficina que você vem para aprender Depois de um tempo você vai aprender
O grafite tá na veia e também no coração Um abraço pra todos meus irmãos”.