Também no campo da posse, uso e distribuição do acesso às novas tecnologias, Portugal cumpre o princípio das contradições estruturais.
Impulsionado por fundos europeus, 2005 foi o ano que viu nascer o Plano Tecnológico, que teve como um dos seus projectos o programa Ligar Portugal, lançado em 2006, com uma vertente para a acção sobre a comunidade escolar (Ponte, 2011, p. 2). Um dos resultados deste programa foi a famosa iniciativa e-Escolas e e-Escolinhas, cujo objectivo foi o de fornecer o acesso de um grande número de famílias a portáteis de baixo custo e ligações à internet, mediante acordos com as empresas de telecomunicações e subsídios estatais que variavam de acordo com o escalão socioeconómico das famílias em questão – o programa foi posteriormente alargado para cobrir uma iniciativa de qualificação da força laboral adulta portuguesa (Programa Novas Oportunidades). No total, e de acordo com o site do e-Escola, foram entregues 1.371.698 portáteis em Portugal, até a iniciativa ter sido suspensa em Janeiro de 2011 (Resolução do Conselho de Ministros n.º 12/2011), sendo que, destes, 412.909 foram entregues ao abrigo do e-Escolinha e 476.067 ao abrigo do e-Escola.
Isto faz com que, de acordo com os dados do inquérito europeu realizado em 2010, EU Kids Online, Portugal estivesse à frente na posse de computadores portáteis, tanto pessoais (65%) como partilhados (35%), embora em muitos outros indicadores sociodemográficos e económicos estivesse ao nível dos outros países da Europa do Sul. Aliás, basta olhar para os tempos de acesso para ter uma noção deste desfasamento – os jovens portugueses eram dos que menos tempo passavam na internet, levando inclusivamente a repensar a noção de “uso excessivo da internet” (um indicador onde Portugal se destacava pela negativa, segundo o mesmo estudo (D. Cardoso, 2012)).
Houve, de facto, uma mudança na dinâmica dos espaços de utilização da internet, marcando uma das diferenças mais fortes entre o antes e o depois dessa medida – a alteração do lugar mais frequente de acesso à internet, da escola (63%) para casa, fosse essa a própria casa (87%), ou a de amigos (50%) e familiares (48%) (Ponte, 2012a, p. 26), com o estatuto socioeconómico a criar uma diferenciação entre maior ou menor acesso no espaço da escola. Isto traduz-se, por conseguinte, numa expressão
clara (mas nacionalmente específica) da cultura de quarto (D. Cardoso, 2012; Livingstone, 2002), e de como ela interage, como referido em cima, com uma experiência de juventude cada vez mais individualizante. Dados mais recentes apontam que, a nível nacional, 65% dos portugueses usavam a internet em 2014, registando-se um abrandamento da adopção a partir de 2012, segundo o INE. Os dados da OberCom (G. Cardoso et al., 2014), por outro lado, declaram um menor nível de adopção (57% dos agregados domésticos em 2013).
De acordo com dados do INE, datados de Novembro de 2011, 92,1% dos residentes em Portugal (entre os 16 e os 74 anos) utilizavam telemóvel, sendo que 34,4% desses telemóveis tinham ligação à internet (uma subida de cerca de 10% face a 2007), além de que a taxa de penetração de telemóveis se situava nos 140% (sendo a 4ª maior da Europa) (Ponte, 2011, p. 4). Novos dados do INE, de Março de 2015, dão conta de uma queda no número de equipamentos a partir de 2011, com as informações mais recentes, de 2013, a apontar para os cerca de 19 milhões de equipamentos; 39% dos portugueses usaram a internet no telemóvel nesse mesmo ano (G. Cardoso et al., 2014). Para comparação, e de acordo com a Central Survey Unit da Northern Ireland
Statistics & Research Agency, eram 89% os residentes do Reino Unido que tinham
telemóvel durante 2009-2010.
De facto, segundo o estudo europeu EU Kids Online, o acesso à internet feito por jovens (9-16 anos) no nosso país via telemóvel superava a média europeia, localizando-se nos 32% (Ponte, 2012a, p. 28); porém, e segundo os dados nacionais do projecto Net Children Go Mobile (NCGM), realizado em 2014, 47% dos jovens inquiridos acediam à internet no telemóvel apenas através do uso de redes wireless gratuitas, e não através de um plano de dados móveis (Simões, Ponte, Ferreira, Doretto, & Azevedo, 2014). Os dados da OberCom colocam a utilização de internet, por todos os meios, na faixa etária dos 15 aos 24 anos, nos 94% (G. Cardoso et al., 2014) em 2013, ao passo que o INE apresenta uma percentagem de 97,9% em 2013 para a faixa entre os 16 e os 24 anos, e 98% para 2014.
Não obstante este acesso generalizado e individualizado ou privado, “Portugal foi um dos países com mais baixa incidência declarada de risco entre os países estudados” pelo inquérito EU Kids Online (Jorge, 2012, p. 94). Parte dos itens avaliados como comportamentos de risco tinham uma componente sexual, algo que interessa
especificamente à investigação aqui a ser desenvolvida, na medida que diz respeito aos
usos sexualizados dos novos media.
Um dos primeiros pontos a ressalvar é precisamente o quão secundária a internet parece ser para o acesso a pornografia, por exemplo: 24% dos jovens portugueses da faixa etária estudada disseram ter visto imagens de cariz sexual, fosse na internet ou não (voluntariamente ou não), e destes, só metade as tinha visto na internet. Os mais jovens foram quem mais reportou um acesso acidental a estas imagens (via pop-ups), sendo que, a partir dos 13 anos, a procura voluntária de material pornográfico começa a sobrepor-se aos acessos acidentais ou não-voluntários (Jorge, 2012, p. 95). Este resultado vai de encontro à noção que o que a internet vem mudar, no que toca à pornografia, é o risco de acesso involuntário (Mitchell et al., 2003, p. 332) ao invés de ser legítimo afirmar que a internet é um meio inerentemente mais sexualizado, pejada de pornografia acessível de forma barata e anónima (Peter & Valkenburg, 2006, p. 178). Cerca de um quarto dos jovens que tomaram contacto com estas imagens (3% do total da amostra) sentiram-se incomodados com a experiência (o que poderá, teoricamente, estar relacionado com o elevado acesso não-voluntário), com predominância para os mais novos e para as raparigas (Jorge, 2012, p. 96).
O relatório do NCGM aponta, no caso da visualização de imagens sexuais na internet, um ligeiro aumento face aos dados de 2010 do EU Kids Online, mas apresentando as mesmas tendências gerais: 27% dos jovens dizem ter visto imagens sexuais, tanto online como offline, a maioria (16%) através de televisão e filmes45 e, em segundo lugar, através de redes sociais (9%); a esmagadora maioria dos jovens disse não ter ficado incomodado pelo que viu. Por outro lado, o impacto dos pop-ups parece estar em queda: apenas 1% dos jovens o apontou como situação onde tinha visto imagens sexuais. No caso das redes sociais torna-se mais complexo compreender, sem uma exploração qualitativa mais profunda, qual o contexto: existem muitas dinâmicas diferentes em redes sociais, e a realidade estará, certamente, numa mistura de situações de exposição acidental com exposição propositada. A complementar esta informação, e partindo do estudo Saúde e Sexualidade de 2007, pode referir-se que os jovens rapazes
45
Os dados recolhidos por Pedro Moura Ferreira et alii (2010d, p. 134) parecem apontar para uma manutenção desta tendência de acesso primariamente feito através dos media não-digitais em toda a população portuguesa, independentemente da idade, já que esta investigação aponta vídeos pornográficos como sendo a resposta de 38% dos inquiridos, revistas com 20,7% e, só em terceiro lugar, 14,9% para
entre os 18 e os 24 anos acedem, em média, a um maior número de fontes de material erótico ou sexual, tanto na internet como fora dela, do que as raparigas (respectivamente 2,80 e 1,93) (Ferreira, 2010d).
Segundo os dados disponibilizados pela Pornhub (cf. Capítulo III.1), 25% dos seus utilizadores portugueses têm entre 18-24 anos, menos seis porcento que a média mundial. Talvez reflexo desta menor adesão pela camada mais jovem, uma elevada percentagem dos acessos (63%) é feito por computador ou portátil (média mundial de 44%). Relembra-se também que as visitantes do sexo feminino em Portugal são em maior percentagem que a nível mundial (25% versus 23%) (Aguiar, 2015).
Um estudo (Neves, 2009) que recorre a um modelo patologizante e ligado à teoria da pornografia como criadora de vício feito com uma amostra de conveniência de alunos da Universidade de Aveiro, e com um total de 200 respondentes ao inquérito por questionário, aponta para uma taxa superior a 50% de acesso a pornografia a iniciar-se entre os 13 e os 16 anos, principalmente através de revistas, filmes e televisão. Porém, quando questionados sobre o seu consumo actual, a esmagadora maioria dos respondentes (92%) disse fazê-lo através da internet, apontando assim para uma alteração dos perfis de consumo ao longo da vida. Por entre as razões mais citadas para o fazer, encontram-se a curiosidade (55%) e a motivação sexual (50%), e o meio de acesso mais frequente é através de motores de busca. De todos os que consumiram pornografia, apenas 6% reportou alguma consequência negativa a nível familiar, amoroso ou profissional.
Além disso, contrariando a ideia de que o acesso à pornografia é agora mais facilitado do que antes da democratização da internet em Portugal, um estudo de 1985 (com jovens dos 15 aos 24 anos) mostra como a maioria dos rapazes e uma elevada percentagem de raparigas já tinha lido “literatura pornográfica” ou visto “filmes pornográficos” (Pais, 1985) (recorde-se também o estudo norte-americano pré-internet no Capítulo II.2).
O sexting, ou troca de mensagens de cariz sexual (inicialmente apenas por SMS, mas agora abrangendo todo o tipo de comunicação síncrona ou assíncrona), é um tema ainda sub-explorado em Portugal, mas foi um dos elementos que o EU Kids Online abordou, embora tenha auscultado apenas os jovens a partir dos 11 anos sobre este tema. De acordo com as respostas, só 3% dos jovens portugueses tinha enviado alguma mensagem de tipo sexual, e apenas 15% as tinha recebido – valores que estão dentro da
média europeia (Jorge, 2012, p. 97), mas que não coincidem com os do estudo HBSC de 2010. Neste último, 15,9% dos jovens já tinham estado de alguma forma envolvidos em situações de provocação através das novas tecnologias, sendo que em 30,3% desses casos, a provocação tinha sido de tipo sexual (Matos, Simões, et al., 2011, pp. 62, 64). Os dados do NCGM, mais recentes, apontam para uma descida do sexting em Portugal: apenas 5% dos jovens (11-16 anos) dizem ter passado por essa experiência, e só 3% dizem ter ficado incomodados (Simões et al., 2014, p. 31). É, no entanto, importante lembrar que, em respostas que têm que ver com comportamentos sexuais, existe um viés de desejabilidade social elevado.
Outro elemento de que convém dar conta, e que é uma particularidade portuguesa associada ao discurso sobre a sexualidade, é a discrepância entre o que filhos e pais reportaram no estudo realizado pelo EU Kids Online, no que toca a comportamentos sexualizados com os media: se 13% dos jovens admitiu ver imagens sexuais na internet, apenas 4% dos pais deram a mesma resposta sobre os seus filhos, sobreavaliando a exposição no caso de rapazes, e subavaliando-a no caso de raparigas (Jorge, 2012, p. 96), numa clara extensão do duplo padrão sexual.
Abordando a questão de forma mais qualitativa, Machado Pais aponta para as várias transformações que os media vieram introduzir nas vidas dos jovens.
Por um lado, e perante o recuo dos discursos moralistas de ordem religiosa, a televisão torna-se uma fonte de modelos de referência mais facilmente acessível, a par das revistas e da internet, permitindo a incorporação de diferentes espaços morais no mesmo contexto de experiência dos jovens, que desenvolvem uma “sensibilidade tecnossocial” (Pais, 2012, p. 102), mas também suscitando o receio, por parte dos pais, de que o computador (no quarto, frequentemente, como se viu acima) constitua uma “ameaça à integridade moral dos filhos” (2012, p. 105).
Por outro lado, o telemóvel e a internet permitem aos jovens negociar uma maior autonomia e liberdade de deslocação física, e criar espaços de intimidade e de comunicações privadas, independentemente do sítio físico onde se encontram num dado momento, mas também pode ser usado pelos pais como forma de controlo, sabendo onde os filhos estão, ou usando as mensalidades ou a remoção do próprio aparelho como possíveis punições. Junto com estes novos meios de comunicação vêm novas exigências performativas de estatuto social: do número de amigos nas redes sociais ao número de mensagens que se recebem; e novos perigos também: o direito à privacidade
das SMS e das chamadas no contexto do namoro já faz parte das mensagens institucionais anti-violência.