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Hazirede Yer Alan Kitâbeli ġâhideler (Katalog)

2. BÖLÜM: NASÛHÎ MEHMET EFENDĠ CAMĠĠ HAZÎRESĠ

2.3. Hazirede Yer Alan Kitâbeli ġâhideler (Katalog)

Quando se discute o posicionamento dos poemas no livro, não é incomum a pergunta sobre como Horácio escreveu as Odes133, ou seja: os poemas foram escritos com a

estrutura do livro pré-estabelecida (como dizia João Cabral de Melo Neto sobre seu método de escrita), ou a organização é posterior à composição individual dos poemas? A meu ver, do ponto de vista da crítica, essa pergunta é de todo irrelevante. Se o método de composição do homem Horácio não se apresenta como parte da leitura (por meio, por exemplo, de um metatexto como as entrevistas de Cabral), se não se desvela em algum ponto como ele próprio parte do texto poético, é porque temos de lidar com uma forma que não se entrega, que se esquiva e produz sentido na sua forma material dada, sem origens. Não quero com isso dizer que dá no mesmo, mas que simplesmente está fora do nosso saber; tal pergunta resulta em especulação inócua. É importante, no entanto, não cairmos num ceticismo como o de Gordon Williams:

Otherwise variations or similarities of subject-matter or metre have dictated the order of poems and, while some plausible reasons for particular collocations may be guessed at, it is a waste of time to speculate on a matter of which the poet himself probably had no clear idea and which, in any case, has minimal literary relevance134.

Williams, descrente das possibilidades de interpretação derivadas da complexidade do livro como um todo, cai na falácia autoral, para afirmar que não há nada ali, porque

provavelmente o autor não teria consciência; como conclusão, ele afirma que a

disposição das odes no livro (ele está interessado no livro 3) está regida apenas por um sentido vago de variedade métrica e temática, para defender que estudos que

      

133 Cf. Santirocco, 1987: 185, n. 58, e Dettmer, 1983: 476-7, para ficarmos em apenas dois nomes. 134

“No mais, as variações e similaridades temáticas ou métricas ditaram a ordem dos poemas e, ao passo que algumas razões plausíveis para colocações particulares podem ser imaginadas, é uma perda de tempo especular sobre um assunto do qual o próprio poeta provavelmente não tinha a menor ideia e que, de qualquer modo, tem uma ínfima relevância literária” (1969:23).

procurem mais do que isso têm uma mínima relevância poética. Com isso, ele deixa de relacionar o modelo de composição das Odes com o de outros livros contemporâneos de poesia e assim deixa também de perceber a profunda importância poética da composição do livro, para além de um ajuntado de poemas, pelo menos na poética romana do século I a.C. Por um lado, a procura por uma estrutura inequívoca enrijece a leitura e se funda na intenção autoral; por outro, o ceticismo (em geral também embasado na intenção do autor) vê na disposição do livro uma mera ποικιλία sem valor e, com isso, perde a multiplicidade de relações gerada pelo livro como um todo135. Mais importante, por exemplo, é notar que um princípio de organização do livro a partir da dispositio dos poemas para formar um certo desenho, estava em voga na Roma de Horácio. Temos estudos detalhados sobre como poderiam ser lidos os arranjos dos livros de Tibulo (Bright, 1978), das Bucólicas de Virgílio (Mendes, 1985), Propércio (Janan 2001, sobre o livro 4), Amores de Ovídio (Souza, 2012), sobre o próprio Horácio em suas obras anteriores, como as Sátiras (Rudd, 2010, Oberhelman & Armstrong, 237) e os Epodos (Hasegawa, 2010); além disso, temos ainda estudos sobre estruturas que ultrapassam o uolumen para dar conta da obra como um todo, como é o caso da Eneida de Virgílio (Pereira, 2002)136. No entanto, a ποικιλία métrica e temática em um mesmo livro, tal como aparece em Horácio, é de uma complexidade muito maior do que as formações monométricas e monotemáticas dos livros anteriores da poesia romana137. A elegia (de Tibulo, Propércio e Ovídio) centra-se no tema amoroso, escrita sempre em dísticos elegíacos; as Bucólicas, escritas em hexâmetros, permanecem em ambientes e temas pastoris; e a Eneida é uma épica heroica hexamétrica. Não que o princípio de variação e de cruzamento de gêneros não esteja presente nessas obras; mas, se as compararmos ao feito horaciano dos três primeiros livros de Odes, vemos que sua empreitada parece aprofundar o processo comum de seus contemporâneos, numa ποικιλία impressionante em que a variedade de temas parece se multiplicar pela variedade de metros, além dos

      

135 Seria o caso de se pensar que a ausência de uma tradução polimétrica portuguesa que recrie o

sistema usado por Horácio explicita esse tipo de leitura que vê na variedade de metros apenas um recurso formal desprovido de um sentido mais complexo e de importância literária para além da variedade em si.

136

Não tenho qualquer intuito de exaustão com essa lista, e os estudos indicados estão escolhidos mais por sua disponibilidade (ou pelo critério preferencial de estarem em português).

137 Com exceção aos Epodos do próprio Horácio que, como defende Hasegawa, além de apresentarem

elocuções diversas que possam dar conta das várias situações apresentadas a cada poema. Vejamos como o poeta relacionava metros e temas, na Arte poética vv. 73-87:

Res gestae regumque ducumque et tristia bella quo scribi possent numero, monstrauit Homerus; uersibus inpariter iunctis querimonia primum, post etiam inclusa est uoti sententia compos; quis tamen exiguos elegos emiserit auctor, grammatici certant et adhuc sub iudice lis est; Archilochum proprio rabies armauit iambo; hunc socci cepere pedem grandesque cothurni, alternis aptum sermonibus et popularis uincentem strepitus et natum rebus agendis; Musa dedit fidibus diuos puerosque deorum et pugilem uictorem et equum certamine primum et iuuenum curas et libera uina referre:

descriptas seruare uices operumque colores cur ego si nequeo ignoroque poeta salutor? Feitos de reis e generais e tristes guerras, e o metro de escrevê-los mostrou-nos Homero; em versos desiguais primeiro era o lamento, depois incluiu a fala de um voto cumprido; mas quem seria o autor da mísera elegia, isso os gramáticos discutem, sem consenso; a raiva armou Arquíloco com o próprio jambo; tamancos e coturnos tomaram um pé

hábil nas falas alternadas e em vencer o estrondo popular, nascido para a cena; a Musa deu à lira os deuses e seus filhos o vencedor na luta, o primeiro em cavalos, as aflições dos jovens e os vinhos libertos: se conservar os modos e as cores das obras não sei nem posso, como me chamam poeta?

Estão claras nessa passagem as relações entre um metro e um tema (cf. Pseudo-Acrão,

ad loc.): para Horácio, os feitos bélicos (míticos de reis, históricos de generais) devem

ser cantados no hexâmetro datílico. Com o dístico elegíaco, serão cantados o lamento e o cumprimento de votos (epigrama); a poesia invectiva utilizará o jambo; a tragédia e a comédia usam versos jâmbicos próximos à fala. Mas a lírica é mais complexa, por ser variada em seus temas. Como observa Oliva Neto (2013: 50):

Horácio em três versos descreve com aquela torturante brevidade cinco espécies líricas:

→ lírica hínica no cantar deuses (referre diuos, v. 83) mediante hinos;

→ lírica laudatória ou encomiástica no cantar filhos de deuses, isto é, reis, príncipes ou heróis (referre pueros deorum, v. 83) mediante encômios.

→ epinícia no cantar os vencedores (pugilem uictorem et equom certamine primum, v. 84), isto é, mediante epinícios;

→ lírica erótica no cantar os cuidados de amor juvenil (iuuenum curas, v. 85), mediante odes;

→ lírica convivial ou simpótica no cantar o prazer dos banquetes e o refrigério de males que é o vinho (libera uina, v. 85) mediante escólios138.

Em comparação com a épica, a elegia, o epigrama, o jambo e o drama, a lírica apresenta mais temas imediatamente acessíveis; mas essa não é a única questão em jogo: mais importante é notar que Horácio nem sequer menciona os metros específicos do gênero lírico, por serem muitos. Ele talvez assuma de seu leitor ao menos a experiência prévia do próprio poeta nas Odes, onde apareceram 13 sistemas diversos que desenvolvem temas também variados numa complexidade única na Antiguidade, ao menos no que podemos confirmar por exemplares que nos chegaram. A complexidade que se exigiria para comentar a lírica tal como ele havia comentado os outros gêneros impediria a brevidade (“torturante” ou não) necessária ao trecho, o que explica por que o poeta não passa a relacionar cada metro a um tema. Mas esse vazio descritivo de Horácio, somado aos dois versos finais que definem a configuração de um poeta (v. 87, cur [...] poeta salutor?), indicam uma profunda consciência do problema, para talvez chamar a atenção do leitor para as Odes segundo essas categorizações. Nesse momento, poderíamos imaginar que a ποικιλία que aqui aparece como inerente ao gênero lírico139, uma vez ampliada pelo gosto helenístico do cruzamento de gêneros140, teria sido radicalizada no experimento específico das Odes. Francisco Achcar (1994: 32) já nos lembrava da costumeira relação entre a lírica e o pavão descrito por Tertuliano em De Pallio 3.1:

multicolor et discolor et uersicolor, numquam ipsa, semper alia, etsi semper ipsa quando alia, totiens denique mutanda quotiens mouenda

      

138

K-H, ad loc., anteriormente haviam feito a divisão em cinco partes. Rosado Fernandes faz divisão similar (2012: 117, n. 83), porém une encômios e epinícios, o que resulta numa quadripartição, no que segue a leitura de Brink. Convém ainda notar, com Brink, que “palavras como hinos e encômios são evitadas, bem como a maior parte da terminologia, na Ars” (Brink, ad loc.).

139 Proclo, em sua Crestomatia, chama atenção para a poesia mélica como a mais rica em

subcategorias: Περὶ δὲ µελικῆς ποιήσεώς φησιν ὡς πολυµερεστάτη τε καὶ διαφόρους ἔχει τοµάς — “Sobre a poesia mélica, diz que é a mais diversificada e comporta diferentes divisões” (trad. de Ícaro Franceso Gatti, 2012: 115). Isso que explicaria seus diversos usos religiosos, seculares e mistos. Se confiarmos que o texto de Proclo (provavelmente do séc. II a.C.) seria derivado da obra de Dídimo Calcêntero (séc. I a.C.); o que se reforça pela similaridade estrutural em comparação com Horácio: “Semelhantemente ao critério da Crestomatia, Horácio vai do sacro ao profano ou secular, aludindo a exemplos semelhantes ao que, no texto de Proclo, serão três dos grandes grupos em que a poesia mélica aparecerá agrupada” (Gatti, 2012: 96).

140 Na verdade, como observa Rossi em dois momentos diferentes (1971: 78 e 2000: 78) aponta para

uma decadência da lírica nos períodos clássicos e helenístico, dada a dificuldade dos metros, que já não eram praticados na vida social como no período arcaico. Se confiarmos em Rossi, poderíamos ver uma radicalidade ainda maior no experimento horaciano, que sistematizava uma gama de metros que mesmo os leitores mais eruditos teriam dificuldades de entender.

multicolor e discolor e versicolor, nunca a mesma, sempre outra, e embora sempre a mesma enquanto outra, pois cada vez que se move ela se muda.

Diante dessa variedade inerente o gênero, não é de se espantar que nos falte uma teoria da lírica entre os antigos, “nada encontramos que nos sugira a existência de uma teoria da lírica na Antiguidade”. Daí nosso problema maior: é preciso analisar em Horácio uma radicalização daquilo que nem foi teorizado pelos antigos e, portanto, cabe a nós elaborar. Face à extrema variação organizacional das odes, sinto- me convencido de que os procedimentos utilizados para analisar as estruturas dos outros livros contemporâneos das Odes não pode ser a mesma para analisar essa poética de mosaicos de que venho tratando141. Não quero com isso dizer que Horácio criou ex nihilo uma forma completamente nova de poesia, ou mais especificamente de livro de poesia, na Antiguidade: como se sabe, a organização sistemática de livros em variedades misturadas de metros e temas é certamente de origem alexandrina142. Isso talvez tenha se dado pelas edições alexandrinas dos poetas gregos arcaicos: como bem lembra Pighi (1958: 38), no caso de Safo, tudo nos leva a crer que cada um dos livros de µέλη comportaria apenas um sistema métrico (o livro 1, por exemplo, apresentava apenas estrofes sáficas), enquanto nos µέλη de Alceu haveria uma maior mistura métrica (havia sáficos em livros diversos, e a abertura do livro 1 seria com respectivamente um poema em estrofe alcaica seguido por outro em estrofe sáfica). Mas nesses casos, estamos diante de edições muito posteriores aos autores e que, portanto, obedeciam a um projeto e a um gosto helenístico, por isso talvez seja melhor buscar influências nas criações do período. Além disso, como observa Santirocco (1986: 11), temos nos fragmentos dos Jambos de Calímaco um exemplar no mínimo interessante sobre a composição do livro helenístico, que deve ter servido de modelo para a criação de Horácio nos Epodos e Odes, pois ali vemos uma composição de metros e temas variados, numa dispositio no livro, que nos leva a considerar que ela

      

141

Essa é, por exemplo, a proposta de Helena Dettmer (1983), que chega a formular um sistema completamente simétrico (!) para a estrutura dos três livros das Odes em suas dezenas de poemas (cf. o padrão estrutural expresso na imagem da p. 526). Na p. 473 ela chega a afirmar que “Horácio leva a estrutura ao limite do possível”, de modo similar a alguns estudos mais rígidos apresentados por João Pedro Mendes (1985) a respeito das Bucólicas. Apesar do impressionante trabalho de leitura contrastiva e das diversas propostas muito interessantes de interpretação, eu poderia indicar este trabalho sobre composição como o contrário do que pretendo em meu trabalho; mas como possibilidade assumida pelos pressupostos teóricos que apresentado.

142

Com a devida ressalva: “Poikilía e polyéideia não são invenção helenística e, assim, não são exclusivas do Helenismo, mas este foi o período em que elas foram de modo evidente mais apreciadas”(Oliva Neto, 2013: 27).

também dotada de sentido143. Dee L. Clayman, por exemplo, vê na variedade calimaqueana um “effect of a taxis ataktos, an ever interesting and seemingly casual

variety or poikilia controlled by the artist to create an aesthetically pleasing whole”

(1980: 48). É provável que outros livros do período helenístico tivessem um mesmo tipo de construção, como a Guirlanda de Meléagro; mas em todos os casos temos apenas fragmentos que nos vetam qualquer interpretação que não seja muito conjetural144. Em Roma, poderíamos nos perguntar sobre como se organizariam alguns livros anteriores a Horácio, como as Sátiras de Ênio, ou de Lucílio, ou mesmo a obra do predecessor lírico de Horácio, Lévio; mas novamente lidamos apenas com fragmentos. As obras supérstites mais próximas da variedade apresentada nas Odes seriam, a meu ver, O livro de Catulo e a Priapeia (ambos estudados e traduzidos por Oliva Neto, 1996, 2006), mas nos dois casos temos problemas quanto à interpretação da unidade do livro tal como nos chegou145. Nas palavras de Stephen Harrison (2007b: 267):

Horace’s own Odes outdo Catullus’ lyric poems in their thoroughgoing use of the complex Aeolic metres only occasionally ventured by his predecessor: where Horace claims to be the first to produce Lesbian lyric in Latin, what he means is that he is the first to do it consistently in a whole collection146.

No entanto, é preciso insistir no fato de que, tal como parecem ter sido uma empreitada radical de Horácio na história da poesia romana anterior a ele, as Odes permaneceram um caso único por séculos: “Pelo que podemos saber, nenhum escritor latino dos próximos 400 anos compôs um corpus de poesia lírica comparável às

      

143 O mesmo pensa Barchiesi (2007: 149). No entanto, há problemas para interpretar seu sentido

possível nos Jambos de Calímaco por dois motivos: o estado fragmentário, e também uma construção com 13 ou 17 poemas (quatro µέλη que talvez não façam parte do livro), o que interfere bastante nas possibilidades interpretativas.

144 Sobre a caracterização de romano X grego e suas possíveis implicações na literatura, penso que as

palavras de West resolvem o problema: “Rome in the age of Horace was a Hellenistic city, interpenetrated by all forms of Greek culture. To ask whether a poem or part of a poem is Hellenistic or Augustan is a waste of time. The Augustan includes the Hellenistic” (1995: 39).

145 No caso de Catulo, há um longo debate sobre a organização do livro ser ou não póstuma (cf. um

sumário em Thomson, 1998: 6-11, que aponta para a possibilidade de três livros catulianos, bem como Oliva Neto, no prelo, e Skinner, 2003 e 2007); na Priapeia latina nem sequer temos a garantia de um autor único. Não obstante, nada impediria que encontrássemos padrões de arranjo nos dois livros, seja por um editor posterior das obras, seja por nossa capacidade humana de perceber padrões em tudo.

146 “As Odes de Horácio superam os poemas líricos de Catulo pelo seu uso persistente dos complexos

metros líricos eólicos que foram apenas ocasionalmente realizados por seu predecessor: quando Horácio afirma ser o primeiro a produzir lírica lésbia em latim, o que ele indica é que foi o primeiro a fazê-lo de modo consistente numa coleção inteira” (2007b: 267); embora sempre devamos lembrar da tópica do primus entre romanos.

Odes” (Tarrant, 2007: 279). Esse grau de complexidade não deve ser deixado de lado

numa interpretação ou tradução dos poemas.

Na proposta de leitura que venho desenvolvendo, o conceito de estrutura fechada, ou de uma leitura da dispositio do livro que nos leve a um significado unívoco encerraria o processo proposto. Antes pretendo demonstrar como a organização do(s) livro(s) das Odes tende antes para uma organização de temas e metros recorrentes, que vão estabelecendo diálogos possíveis por correlação; porém, como os níveis ficam muito complexos (temas, metros, fraseologias147, contextos, reminiscências de outras obras etc.), uma vez iniciada a máquina intertextual interna do livro, seu potencial é praticamente ilimitado, como afirmei no prefácio. Como já disse, a leitura total dessas séries heterogêneas resultaria em puro ruído ou puro silêncio. Não quero, entretanto, propor um “vale tudo” de leitura paras as Odes, e o que tentarei delimitar a seguir são alguns efeitos identificáveis, para apresentar modos de como podem ser lidos. Penso, portanto, num crescimento de níveis que mantém parte do modo de funcionamento, tal como Santirocco (1986: 175):

In a sense, what critics as diverse as Nietzsche and Petronius have found to admire in the individual ode applies equally well to the larger collection, its resemblance to an intricate mosaic and its incomparable curiosa felicitas148.

Assim, se voltarmos aos conceitos de iunctura e series para determinarmos como funciona a dispositio dos livros, poderíamos apresentar uma resposta rápida, sobretudo para series. Por dedução, a series é a sequência de poemas tal como nos é apresentada no decorrer dos livros; enquanto a iunctura são as possibilidades

sintáticas de relacionamento entre poemas. Essas possibilidades sintáticas são várias

(mais abertas do que no caso da frase, onde a morfologia reduz as possibilidades de leitura), que se complementam por meio do olhar do leitor que – tal como num mosaico – pode ver em peças distantes a realização de um desenho maior. O que tentarei demonstrar agora é como esse movimento é complexo em sua duplicidade:

      

147 Um exemplo claro está na repetição integral do verso Mater saeua Cupidinum, de 1.19.1, em 4.1.5;

que produz um jogo que, inclusive, extrapola o limite mais básico dos 3 primeiros livros, para interligar o livro 4 ao conjunto anterior de odes.

148

“De certo modo, o que críticos tão diversos quanto Nietzsche e Petrônio julgaram admirável na ode individual aplica-se convenientemente também à coleção mais ampla, sua semelhança com um mosaico intricado e sua incomparável curiosa felicitas”.

por um lado, forma agrupamentos de odes149, ou relações a longa distância, por outro

torna muito vago o limite de interpretação sobre como acontecem essas relações.

1.4.1. Metro

Comecemos pelo metro: nenhum dos estudiosos das Odes parece discordar que os poemas ofereciam um notável tour de force inaudito para o público romano. É o que o próprio Horácio defende na epístola 19.32-3:

Hunc quoque, non alio dictum prius ore, Latinus uulgaui fidicen. Iuuat immemorata ferentem ingenuis oculisque legi manibusque teneri.

A este [Alceu], que ninguém nunca cantou, qual lírico latino eu divulguei. Adoro o imemorável

adoro estar no olhar, na mão dos homens livres. (grifo meu)

A imitação de Alceu e da estrofe alcaica, para Horácio, é um ponto para a inovação sem modéstia, não apenas por ser o primeiro a buscar nessa fonte sua poesia; há algo de inaudito nas Odes (iuuat immemorata ferentem), o que se reforça ainda mais pelo possível neologismo de immemorata a partir do grego ἀµνηµόνευτος (cf. Mayer ad

loc.). Mas sabemos que ele imitou muitos poetas mais, nos temas e nos metros. Não é

por acaso que Ovídio descreve nosso poeta como numerosus Horatius (Tristia

Benzer Belgeler