Em 1844, Manuel Ferreira Lagos, então segundo secretário perpétuo do IHGB, após dar notícias sobre a “afouta investigação” efetuada pelo cônego Benigno José de Carvalho, em busca da cidade antiga encravada nos sertões da Bahia (ver 1.1) — que, assim como a Comissão Científica, conhece a glória da expectativa e a condenação pela falta dos resultados esperados — lembra aos consócios a importância de o governo imperial seguir o conselho do naturalista Carl von Martius e apoiar comissões estrangeiras, como as dos “Srs. Conde de Castelnau, Visconde de Osery, I. G. Strain, e D. Pasquele Pacini”179
[grifo meu], fazendo-os inclusive acompanhar de alguns jovens engenheiros e naturalistas nacionais que, uma vez praticando com distintos sábios, colheriam muitos esclarecimentos de que ainda careciam.
Renato Braga caracteriza Lagos, o propositor da Comissão, como “vivo, laborioso, com capacidade de compor e redigir habilmente”, porém pouco afeito a catalogar e publicar seus escritos.180 De fato, a memória sobre a viagem do naturalista Francis de la Porte, conde de Castelnau, às regiões centrais da América do Sul, lida nas sessões do IHGB de 1855 a 1856, que causou tal furor a ponto de colocar em marcha um dos empreendimentos científicos mais vultosos do Império brasileiro, nem chegou a ser publicada. Mas, no discurso proferido na sessão do Instituto de 30 de maio de 1856, Manoel Ferreira Lagos dirige-se ao imperador Pedro II e exorta-o sobre a necessidade de o governo “nomear uma comissão de engenheiros e naturalistas nacionais para explorar algumas das províncias menos conhecidas do Brasil”. E justifica tal necessidade ao questionar exatamente os resultados da viagem de Castelnau, aproveitando para dar conta de um sem número de imprecisões e equívocos cometidos por viajantes e naturalistas estrangeiros que aqui estiveram, censurando-os num tom “ora demasiado sarcástico, ora facêto”. Já era tempo, segundo Lagos, não apenas de desmentir o exame feito por viajantes de má-fé ou levianos. Dever-se-ia mostrar que
179 Relatório dos Trabalhos do Instituto no Sexto Ano Acadêmico, pelo 2º Secretário Perpétuo, Manoel
Ferreira Lagos. In: Revista do IHGB, tomo VI, 1844, p. 20-21.
aqui não nos faltavam pessoas de talento e com as habilitações necessárias para a pesquisa científica.181
O episódio da proposição da viagem ao Ceará é referenciado na História da Comissão Científica de Exploração, de Renato Braga, e nos trabalhos de retomada da Comissão Científica como tema de pesquisa (como foi visto na Introdução), numa espécie de prelúdio da primeira expedição oficialmente promovida pelo Estado brasileiro. Porém, ao analisar a proposição da Científica fora de sua “forma consagrada”, reconhece-se não apenas uma arenga entre avaliações sobre a natureza brasílica (que faz parte do jogo entre intelectuais). Ou um arroubo romântico que lograria aos nossos naturalistas a vantagem de filhos deste solo, e assim saberem mais e melhor das coisas da nossa terra, pois “um país, para ser dono de si, precisava ter fala própria”.182
Diferente de Martius, que atribuía à influência da corte real (e seus desdobramentos no império) o progresso e a civilização do Brasil, Castelnau fez, em seu relato de viagem, duras críticas à herança lusitana e sua influição sobre o caráter social e a forma de conduzir o país. O conde faz notar a burocracia das instituições, a ausência das mulheres no convívio social, o trato brutal em relação aos escravos e o ódio aos estrangeiros como principais fatores do atraso da civilização em nossas plagas. A extrema indolência, segundo ele, contamina até os patrícios que aqui permanecem por mais tempo, como um francês de nome Guilherme, “antigo militar, grande literato e admirador entusiasta das doutrinas de Fourier, [...] que havia resolvido, segundo dizia, a partir de então, levar uma vida exclusivamente intelectual, embora condescendesse às vezes em passar a escova em cavalos ou mulas”.183
Nem mesmo o cônego Januário da Cunha Barbosa, um dos fundadores do IHGB, “que passa por ser um dos homens mais instruídos do Brasil”, escapou à crítica mordaz do naturalista.184
Um possível fator para essa inversão de postura de Lagos é que os 15 volumes do relato de Castelnau só vieram a lume a partir de 1850, seis anos antes da avaliação publicada na Revista do IHGB. Mas o que se depreende dessa reação é que a Comissão Científica de Exploração foi formada, antes de tudo, como uma afirmação da
181 BRAGA, Renato. História da Comissão Científica de Exploração. Fortaleza: Imprensa Universitária
do Ceará, 1962, p. 16-17.
182 RAMOS, Francisco Régis Lopes. O fato e a fábula... Op. cit., p. 10.
183 CASTELNAU, Conde de [Francis de la Porte]. Expedição às regiões centrais da América do Sul. Belo
Horizonte e Rio de Janeiro: Itatiaia, 2000, p. 61.
legitimidade do poder imperial e de um tipo de historiografia engendrado no seio do Instituto Histórico. Ao lado de um amadurecimento do poder imperial, percebe-se um forte apelo romântico ao associar a viagem científica à busca simbólica de uma singularidade nacional, entendida como a essência de cada povo. Algo particularmente sensível para uma elite letrada,185 que, visando a alcançar economicamente as nações do Velho Mundo e da América do Norte em plena expansão imperialista, volta-se para a criação de uma brasilidade enviando seus sábios para as regiões inexploradas do sertão.
Ao defender o escrutínio do país de si para si, sem a mediação de doutos estrangeiros, o zoólogo entende que cabe à nossa “elite letrada” a tarefa de formar “um sentimento de patriotismo, de nacionalismo, de um espírito brasileiro, de um caráter nacional, de unanimidade de sentimentos, de unidade territorial, de um sentimento de independência, de opinião pública, de uma sociedade coesa”.186
Procedimento afinado também com a historiografia de matriz romântica, em que o conhecimento verdadeiro só é possível quando o pesquisador coloca-se literalmente em campo, perscrutando aquilo que era negligenciado pela fria análise econômica e estatística, considerada insuficiente e parcial. “Para os românticos da virada do século XVIII e início do século XIX, viajar é uma experiência intelectual imprescindível. O deslocamento no espaço os auxilia a pensar sobre um conjunto de materiais novos e, principalmente, diferentes”.187 Somente o contato direto e profundo com o objeto de pesquisa, apoiado pelo olhar armado do homem de saber em movimento de “estranho em terra estranha”, permite ver além da exterioridade, tornando o mundo plenamente cognoscível.
Assim, para além dos “erros” ou “acertos” das observações feitas pelos exploradores de fora, importa-nos na fala de Lagos o fato de o zoólogo privilegiar um olhar e um discurso produzidos “de dentro”, suscitando a necessidade de o Brasil se equiparar às demais nações civilizadas no tocante à produção de conhecimento e mesmo de autoconhecimento. A imprecação de Lagos, membro de uma sociedade científica que
185Adoto aqui o conceito de elite formulado por José Murilo de Carvalho, ao falar “de certos grupos
especiais de elite, marcados por características que os distinguem tanto das massas quanto de outros grupos de elite”. Tendo a homogeneidade ideológica e de treinamento, bem como a atuação em várias esferas da política e da burocracia estatal como traços marcantes, esse grupo foi responsável pela adoção da monarquia na transição do Brasil de colônia para império como solução de continuidade, reduzindo os conflitos intra-elite e garantindo a unidade territorial do país. CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro de sombras: a política imperial. 6. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 14-15.
186 LISBOA, Karen Macknow. A Nova Atlântida de Spix e Martius... Op. cit., p. 278.
187 CEZAR, Temístocles. “Entre antigos e modernos: a escrita da história em Chateaubriand. Ensaio sobre
se dedicava ao estabelecimento de marcos fundadores e de uma história nacional, pode ser entendida na medida em que “[...] o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”.188
Não é de se estranhar, portanto, que algumas tópicas encontradas no relato de Castelnau, tendo sua viagem ocorrido 15 anos antes da Comissão Científica, assemelhem-se às encontradas no diário de viagem de Francisco Freire Alemão: a indolência das gentes, a desconfiança ou mesmo a hostilidade aberta em relação aos “estrangeiros”, as críticas desferidas entre os habitantes de províncias vizinhas, as condições precárias dos pousos. As desventuras de Castelnau ainda na preparação da viagem, ao descobrir que as 20 mulas, pelas quais pagara 60$000 cada, recusavam a bagagem, corcoveando ou caindo ao seu peso porque “nunca tinham transportado carga alguma”,189
em muito se assemelhavam aos problemas enfrentados na tentativa de aclimatação de camelos trazidos da Argélia para o transporte dos naturalistas e seus haveres.
As coincidências entre os dois relatos não remetem apenas a uma retórica do sacrifício, que comovia e excitava os leitores de narrativas de viagem — ansiosos por sentir o perigo a uma distância segura — ou para a inexperiência de neófitos que envolvia tanto a viagem de Castelnau como a expedição brasileira. Refiro-me aos descaminhos a que os empreendimentos científicos não estão imunes, sejam os de ordem prática que se deslindam no transcurso da expedição, como também ingerências das esferas política e econômica, alheias (mas não tanto) ao labor do naturalista.
A proposta da Comissão Científica de Exploração foi acolhida oficialmente pelo imperador na sessão de 13 de junho do IHGB, segundo Renato Braga, “numa atitude pouco comum, quebrando a sua peculiar discreção [sic] no que se referia aos negócios públicos” — sem, no entanto, lembrar que a expedição ao Sincorá também teve uma aprovação célere, o que poderia indicar uma postura somente de arranque em relação a estes empreendimentos. No mês seguinte, em comunicado lido na sessão de 11 de julho, o ministro do Império, Conselheiro Luís Pedreira de Couto Ferraz, participa a anuência da proposta e pede ao Instituto a indicação dos nomes a serem encarregados da Comissão.190 A Científica foi dividida em cinco seções: Botânica, a cargo de Francisco
188 FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Op. cit., p. 10.
189 CASTELNAU, conde de [Francis de la Porte]. Expedição às regiões... Op. cit., p. 62. 190 BRAGA, Renato. História da Comissão Científica... Op. cit., p. 19.
Freire Alemão (que também era o presidente da Comissão); Geológica e Mineralógica, chefiada pelo engenheiro Guilherme Schüch de Capanema;191 Zoológica, destinada ao naturalista Manuel Ferreira Lagos (propositor da viagem exploratória); Astronômica e Geográfica, confiada ao matemático Giacomo Raja Gabaglia; e Etnográfica e Narrativa de Viagem, encarregada ao escritor e historiador Antonio Gonçalves Dias.192 Além dos adjuntos, mateiros e outros ajudantes, acompanhava a expedição o pintor José dos Reis Carvalho, ex-aluno de Debret e professor de desenho da Escola Imperial da Marinha. Apesar de Gonçalves Dias ser o mais comumente lembrado pela posteridade por sua atividade literária, todos os membros da Comissão compunham a elite intelectual brasileira, ocupando cargos e funções importantes na estrutura do Império e também afinados ideologicamente às prerrogativas de um Estado centralizador. Além de sócios do IHGB, havia uma estreita ligação profissional e, em alguns casos, pessoal entre os científicos e diversas instituições e membros do governo imperial.
Ao observarmos, porém, o caso da Comissão Científica de Exploração, percebe-se que esse afinamento ideológico era envolvido em tensões no campo prático. Na perspectiva de Braga, tanto o governo imperial quanto o Instituto delegavam aos chefes de seção autonomia técnica e científica quanto aos rumos da expedição, cabendo ao governo apenas o aporte financeiro. Cita como evidências a rápida tramitação do projeto — menos de ano depois de proposta, a Comissão já tinha dotação orçamentária e as instruções redigidas — e as vultosas despesas empregadas na compra de instrumental adequado.
Esse desacerto pode ser vislumbrado num dos pontos mais debatidos sobre a Comissão Científica: a escolha do Ceará como ponto de partida, e posteriormente a única província a ser totalmente percorrida pelos comissionados. Capanema arrolou entre os objetos comprados para a execução da viagem “uma canoa portátil de goma elástica” importada dos Estados Unidos para o exame de rios e lagoas nos lugares onde
191 Guilherme Schüch, Barão de Capanema (1824-1908). Naturalista e engenheiro. Filho de Rochus
Schüch, bibliotecário particular da arquiduquesa Leopoldina que a acompanhou na sua vinda ao Brasil. Formou-se no curso técnico da Escola Politécnica de Viena e na Academia de Minas de Freiberg, em 1847, e posteriormente doutorou-se em matemática e ciência pela Escola Militar do Rio de Janeiro. Comandou a instalação das primeiras redes telegráficas do Brasil e fundou o Telégrafo Nacional, em 1852.
192 Antonio Gonçalves Dias (1823-1864). Formado em Direito pela Universidade de Coimbra (1840),
destacou-se, no entanto, pela atuação como jornalista, poeta, etnógrafo e teatrólogo. Um dos grandes expoentes do Romantismo brasileiro, é autor dos consagrados poemas Canção do Exílio (1843) e I-Juca-
Pirama (1851). Antes da Comissão Científica, encontrava-se na Europa como oficial da Secretaria dos
Negócios Estrangeiros, estudando formas de aperfeiçoar a instrução pública. Morreu durante o naufrágio do navio que o trazia da Europa, onde procurara sem sucesso tratamento para a tuberculose. É patrono da cadeira nº 15 da Academia Brasileira de Letras.
não houvesse embarcações,193 o que denota a possibilidade de haver um outro roteiro. Dentre as províncias do Norte (correspondente hoje ao Norte e Nordeste brasileiros) palmilhadas por viajantes estrangeiros, a preferência pelas regiões amazônicas era então candente pela profusão de espécies visíveis quanto por tudo que as densas matas poderiam encobrir, desde tribos edênicas até monumentos de civilizações antigas, que até nossos dias são encontrados sob camadas de vegetação, em escavações ou mesmo submersos. A proposta de Lagos e o relatório de Capanema (1857) informando o Instituto Histórico sobre o andamento dos preparativos da viagem194 referem-se às “províncias menos conhecidas” como destino da expedição, assim como as cartas trocadas entre Capanema, Raja Gabaglia e Gonçalves Dias, que discutem as dificuldades de ir ao “interior” ou ao “sertão”. Antonio José da Serra Gomes, adido do Brasil em Lisboa, indaga a Dias se “a comissão do Amazonas contará o meu amigo entre os seus”, 195
o que evidencia as incertezas em torno do destino dos comissionados e uma atração imediata que as matas amazônicas exerciam.
Na documentação sobre a expedição, Renato Braga cita um relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa em princípios de 1857 pelo então secretário de Estado dos Negócios do Império, Luís Pedreira de Couto Ferraz, entusiasta da empreitada, apontando o Ceará como ponto inicial dos trabalhos, mas sem indicações do que teria motivado tal escolha.196 Raja Gabaglia, tecendo considerações sobre o período mais “calmoso” para iniciar a expedição sem interrupções por conta de chuva ou seca prolongadas, comenta: “vós conheceis o Norte do Império melhor do que eu, e em tal época do ano — Norte, Sul e Centro, são fornos”197 — o que pode indicar uma incerteza pelo menos entre os comissionados. A primeira alusão específica ao Ceará entre os naturalistas é feita em 3 de setembro de 1857,198 o que ainda assim parece deveras vago para um empreendimento que pretendia arrolar tantas descobertas e primazias. A alusão é feita quando Gonçalves Dias, como era seu costume, pede notícias da filha e da esposa de Capanema. “Como vão a minha afilhada e a Comadre?
193 Relatório do Sr. Dr. Capanema lido pelo Sr. A. A. P. Coruja. Revista do IHGB, tomo XX, 1857, p. 570-
571, p. 65.
194 Relatório do Sr. Dr. Capanema lido pelo Sr. A. A. P. Coruja. Revista do IHGB, tomo XX, 1857, p. 570-
571, p. 63.
195 Carta de [Antonio José da] Serra Gomes a Antonio Gonçalves Dias, Lisboa, 28/01/1857. In: Anais da Biblioteca Nacional (Correspondência passiva de Gonçalves Dias), v. 91, 1971, p. 102.
196 BRAGA, Renato. História da Comissão Científica... Op. cit., p. 36.
197 Carta de Giacomo Raja Gabaglia a Antonio Gonçalves Dias, Londres, 08/03/1857. In: Anais da Biblioteca Nacional (Correspondência passiva de Gonçalves Dias), v. 91, 1971, p. 106.
198 Carta de Antonio Gonçalves Dias a Guilherme Capanema, Paris, 03/09/1857. In Anais da Biblioteca Nacional (Correspondência ativa de Gonçalves Dias), v. 84, 1964, p. 228.
A última sem dúvida satisfeita em ir até ao Ceará [sic]”. O trivial da circunstância pode indicar pouco caso em relação ao local, ou que esta fosse uma escolha a ser revertida, se nos fiarmos na posição de que Capanema pretendia aliciar Dias a fazer uma “Comissãozinha paralela”.199
Mas para isso teríamos que colocar igualmente em suspeição nosso austero e impoluto Conselheiro, que um dia antes de embarcar no vapor Tocantins, escreve a Carl von Martius, dizendo: “Parece que a primeira província a explorar-se será o Ceará” [grifo meu].200 Como alguém que, em suas próprias palavras, está prestes a empreender uma grande viagem exploratória não sabe (ou não quer dizer) seu itinerário? Três meses depois, Capanema faz um comentário que antecipa as contradições que os membros da Comissão iriam enfrentar em relação a expectativas científicas e leigas na província escolhida: “Quanto à glória, nosso papalvo me chamará de homem imenso por ter feito um caminho de ferro, enquanto se eu descobrir no Ceará que a formação cretácea é mais antiga que a carbonífera o que poria o Instituto de França de pernas pro ar, aqui me chamariam de toleirão”.201
Talvez por isso as instruções de viagem das seções Botânica, Geológica, Zoológica e Narrativa de Viagem tenham um caráter mais generalista, na medida em que aquelas orientações de prospecção poderiam ser aplicadas a qualquer região do país. As instruções da Seção Astronômica são as únicas que se referem nomeadamente ao Ceará. Cândido Batista de Oliveira e Manuel de Araújo Porto Alegre redigiram as instruções da Seção Astronômica e Geográfica e da Seção Etnográfica e Narrativa de Viagem, respectivamente, enquanto seus chefes estavam na Europa em busca de materiais para a viagem. Já no proêmio dos Trabalhos da Comissão Científica de Exploração, Gonçalves Dias relata que, embora tendo sido logo escolhidos os chefes das cinco seções, não foram designadas que províncias seriam percorridas e de onde partiria a expedição, a ponto de ele e Gabaglia terem encomendado equipamentos para a dupla eventualidade de uma expedição por terra e por água.
Percebe-se também um clima de expectativa se formando na comunidade internacional, diante da possibilidade de uma expedição ao interior, desafiadora mas rica em possibilidades. Em carta a Capanema, de 5 de maio de 1857, Gonçalves Dias,
199 BRAGA, Renato. História da Comissão Científica... Op. cit., p. 51.
200 Carta ao Doutor Martius, em 25 de janeiro de 1859. In: DAMASCENO, Darcy; CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de
Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 151.
201 Carta de Guilherme Capanema a Antonio Gonçalves Dias, Praia Grande, 12/01/1858. In: Anais da Biblioteca Nacional (Correspondência passiva de Gonçalves Dias), v. 91, 1971, p. 174.
que se encontrava em Dresden na preparação da compra dos materiais da Comissão, comenta:
Só te devo dizer que o Sturtz com o seu costumado abelhudismo, pediu uns apontamentos relativos à tua comissão ao Dr. Gustav Ienzsch, de Dresde, que neste momento acabo de ler. Não sei que valor tem isso, mas o moço fez o que lhe pediu o Sturtz, e um pouco vexado de semelhante incumbência.202
Gonçalves Dias faz referência na carta a João Diogo Sturz,203 cônsul geral do Brasil na Prússia. O círculo de amizades que Dias buscava cultivar na Europa permitiu-lhe tomar conhecimento das indagações de Sturz sobre a Comissão, que, entretanto, estavam longe de um mero “abelhudismo”. Sturz encabeçava um grupo de empresários que tentava obter, desde 1837, a concessão para explorar a navegação a vapor nos rios Amazonas, Tocantins, Solimões, Negro e seus afluentes. O projeto apresentado à Câmara dos Deputados previa a introdução de linhas regulares de vapores na região, solicitando em contrapartida uma série de vantagens, como o privilégio de exclusividade da navegação por 40 anos, isenção de impostos de importação sobre quaisquer compras realizadas fora do País para manutenção da atividade e “a doação de
todas as minas de carvão ou qualquer outro mineral que fossem descobertos nos primeiros anos de atividade”.204
Mesmo com a incerteza em relação ao projeto, que levaria mais de duas décadas para ser finalmente rejeitado pelo Senado, em 1864, fica clara a intenção de