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4.1. Hayvan Materyali, DNA Kalitesi, Mikrosatellit Markörler ve PZR
De um modo geral, os burocratas de nível de rua desfrutam de autonomia relativa, porque esses agentes não são supervisionados o tempo todo por um superior e muitas vezes possuem conhecimentos técnicos, o que torna difícil a aplicação de procedimentos de controle, já que o gestor não tem o conhecimento necessário para interferir. Além disso, ignora-se, por exemplo, a possibilidade que os burocratas de nível de rua discordem dos objetivos e metas estabelecidos, o que incentiva comportamentos autônomos (LISPKY, 1980; EVANS e HARRIS, 2004).
A capacidade dos burocratas de nível de rua de formularem políticas públicas se desenvolve em um contexto muito específico, que acaba moldando a forma como as decisões são tomadas. Este ambiente é caracterizado por demanda sempre crescente38 e escassez de recursos, o que faz com que as burocracias nunca estejam realmente livres de constrangimentos.
Além disso, os clientes são tipicamente não voluntários, já que na maior parte das vezes não podem escolher os serviços públicos a que vão se submeter e muitas vezes não são vistos como um grupo de referência para os burocratas39. No setor privado, por exemplo, os clientes não vão frequentar locais onde são mal atendidos, o que funciona como um incentivo para o monitoramento e implementação de ações que buscam melhorias. Mas o mesmo não ocorre no setor público, que possui menos incentivos naturais para qualificar seus serviços (LIPSKY, 1980).
Como forma de lidar com esse ambiente, as burocracias de nível de rua tentam, mesmo que de maneira não intencional, criar mecanismos que busquem limitar essa demanda até um nível em que seja possível atendê-la. Para isso, criam barreiras, que podem ser de dois tipos: (1) impondo custos ou fixando a quantidade de serviços e (2) alocando serviços públicos de forma diferenciada para as “classes” de clientes40
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Barreiras pela imposição de custos ou fixação da quantidade de serviços
No primeiro caso, restrições de horários, imposições de custos financeiros, necessidade de tempo de espera, a existência de filas, a necessidade de transporte e mesmo de informações são exemplos de barreiras impostas. Obviamente existem custos em se procurar serviços. Mesmo que sejam gratuitos, existe o custo de oportunidade
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Nas burocracias de nível de rua, a demanda por serviços tende sempre a aumentar para encontrar a oferta. Diferentemente do setor privado, onde a demanda encoraja a oferta, nos serviços públicos a “demanda é uma função não apenas da expressão das preferências de um cliente, mas também do esforço do governo em oferecer serviços e/ou ter conhecimento das respostas dos clientes. (...) A percepção da disponibilidade de serviços puxa a demanda, e não o contrário” (LIPSKY, 1980, 35).
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Como veremos, ser cliente é uma construção social, e muitas vezes os burocratas de nível de rua não se sentem prestadores de serviços a clientes, tendo assim que garantir qualidade de atendimento, como aconteceria, por exemplo na iniciativa privada. Antes, a figura de pacientes em um hospital, alunos em uma escola, ou cidadãos em uma delegacia é mais forte do que a de um cliente para muitos desses burocratas.
40 Como veremos, também nesse sentido os dois casos analisados neste trabalho, Brasil e Estados Unidos,
se diferenciam. Enquanto o Brasil, que possui políticas universalistas na área da saúde, impõe mais barreiras do primeiro tipo, ou seja, pela imposição de custos ou fixação da quantidade de serviços, nos EUA limita-se o número de clientes, na maior parte das vezes, por meio da diferenciação dos clientes, em geral por faixa de renda. Apenas aqueles que comprovam que possuem renda abaixo de um dado nível de pobreza federal (Federal Poverty level) conseguem ter acesso a programas governamentais que subsidiam os serviços de saúde.
para o cliente41, como por exemplo, a necessidade de faltar o trabalho para frequentar dado serviço. Isso é especialmente relevante para os trabalhadores informais e autônomos, o caso da maior parte dos imigrantes. Não trabalhar um dia para ir ao médico representa deixar de receber a remuneração do trabalho naquele dia.
Além disso, custos psicológicos podem ser impostos a partir de procedimentos que inibam a presença de certos grupos numa agência (LIPSKY, 1980). A imposição de uma questão sobre status legal de um imigrante no preenchimento de uma ficha de atendimento pode afastar esses clientes do serviço público. Outras barreiras, como filas longas ou tempo de espera podem alimentar um sentimento de desrespeito na relação entre o Estado e seu cidadão e são extremamente desencorajadores (LIPSKY, 1980).
Ainda que na lei qualquer tipo de exclusão possa ser proibida, na prática a exclusão acontece como decorrência de procedimentos mal formulados, desencorajando potenciais clientes a buscar acesso aos serviços públicos ou até proibindo-os de fazê-lo. A falta de informações pode fazer com que clientes tenham uma percepção errônea de que determinado serviço não está disponível para eles. Conforme Lipsky (1980) afirma, “a necessidade começa a se manifestar quando a instituição que pode providenciar assistência envia sinais que está pronta a assistir” (LIPSKY, 1980: 91).
Os muitos casos citados são em geral limitações implícitas (caso das filas, dos custos psicológicos, e da dificuldade em acessar informações). Mas também existem muitas barreiras que são criadas quando, por exemplo, se reduz financiamento público e as agências são obrigadas a reestruturar os serviços. Redução de tempo de abertura, fechamento de agências na periferia, limite de serviços pela mudança de procedimentos ligados a características pessoais dos usuários, como por exemplo diminuir o nível de renda necessário para acessar benefícios governamentais são exemplos de barreiras explícitas impostas pelo governo ao acesso do público aos serviços ofertados.
Barreiras impostas pela alocação de serviços públicos de forma diferenciada para classes de clientes
No segundo caso, as barreiras são impostas pela alocação de serviços de forma diferenciada para “classes” de clientes. Apesar de a maior parte dos serviços públicos estarem ancorados na ideia de igualdade, muitos precisam realizar processos de
41 Custo de oportunidade é um conceito da economia para indicar o custo de algo em termos de uma
diferenciação e/ou seleção de grupos de forma a processar o trabalho de maneira mais eficiente (LIPSKY, 1980).
Assim, é importante perceber que a discricionariedade dos agentes públicos pode resultar em práticas viesadas (bias42). Por mais que os critérios de elegibilidade, culpabilidade ou adequabilidade sejam estabelecidos pela legislação e protocolos oficiais, é muito difícil limitar-se a eles. São os burocratas de nível de rua que determinam quem tem direito a dado programa, podendo beneficiar alguns grupos em detrimento de outros de acordo com seus valores culturais, morais43 e preconceitos raciais e étnicos (LIPSKY,1980).
Segundo Lipsky (1980), o ideal de igualdade/universalidade que permeia os serviços públicos acaba atuando nesse sentido, já que atitudes discriminatórias não são assumidas pelos burocratas que, muitas vezes, nem percebem este tipo de comportamento. Em alguns casos, “profecias que se auto realizam” contribuem para a persistência de viés. Por exemplo, uma maior vigilância dos negros vai fazer com que um maior de número deles seja observado cometendo crimes, o que reforça a ideia de que negros são mais perigosos.