A vida destinada aos homens e mulheres escravizados em Pernambuco era obviamente dura e a trama social a qual eles estavam envolvidos, apresentava-se totalmente inclinada, do ponto de vista ideológico, a mantê-los como grupo subalterno conformado a esta condição. Antes, porém, aquelas pessoas tinham que literalmente sobreviver à travessia do Atlântico. Isso porque as condições da viagem eram as piores97. Navios abarrotados de escravos, devido à ganância de contratadores inescrupulosos, levavam muitos africanos à morte durante a travessia. Por isso a coroa portuguesa, no século XVII, resolveu criar um ambiente jurídico estabelecendo limites e indicando como se deveriam transportar escravos da África para a América nas embarcações, era a Lei das Arqueações.98
95 ALBUQUERQUE, Débora de Souza Leão. VERGOLINO, José Raimundo Oliveira. VERSIANI, Flávio Rabelo. Financiamento e Organização do Tráfico de Escravos Para Pernambuco no Século XIX. Disponível em: <http://www.anpec.org.br/revista/aprovados/Escravos.pdf>. Acesso em: 15/05/2014.
96 Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Arq. 1. 2. 11. Conselho Ultramarino. OFÍCIOS das Câmaras (Olinda e Recife), p. 26, 26V, 27, 27V, 28 e 28V. 1780. Representação junto à rainha D. Maria I que fala do deplorável estado que os moradores das vilas de Recife e Olinda se encontravam desde a fundação da Companhia de Comércio de Pernambuco e da Paraíba, e que, entre outras acusações, atribui a dita Companhia o fornecimento de escravos sem competência, pois enviava para o Rio de Janeiro os melhores deixando os doentes e os “de refugo” para os lavradores e fabricantes de Pernambuco.
97 ALENCASTRO, Luis Felipe de. Op. cit., p. 85.
98 AHU_ACL_CU_015, Cx 94, D. 7456. OFÍCIO do governador de Pernambuco ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. 14/01/1761. O documento cita a Lei das Arqueações.
Um exemplo foi o que ocorreu com a corveta Nossa Senhora de Guadalupe, cujo capitão era Francisco Xavier de Carvalho. De acordo com o relato do governador de Pernambuco, Luís Diogo Lobo da Silva, em 20 de Outubro de 1757, aquela corveta que deveria transportar cerca de 356 escravos no máximo, teve em Angola o embarque de 395 africanos adultos e mais 9 crianças, dos quais durante a viagem 43 morreram. Dois anos depois, mais uma vez a corveta estava na costa africana onde embarcou em Angola cerca de 234 pessoas, um número abaixo do que a lei estabelecia para embarcações de seu porte, tendo como destino provável a vila do Recife. Chegando em 11 de Outubro de 1759 com menos 14 pessoas, que faleceram na travessia, isto é, um número bem menor de baixas.99
O exemplo da corveta Nossa Senhora de Guadalupe, se repetiu em outras embarcações oriundas da África que aportaram em Pernambuco. Pois, onde se observara ou se calhara, ter- se o número de embarcados dentro do limite estabelecido pela lei, a mortalidade era menor. Entretanto, em todos os cinco casos de navios descritos por Luís Diogo Lobo da Silva, com o histórico de duas viagens cada, que partiram da África com destino a Pernambuco, sempre ocorreu a morte de pelo menos dois indivíduos. Isto é, mesmo se a referida Lei das Arqueações fosse cumprida pelos traficantes, não conseguiria reduzir a zero o número de vítimas nas travessias.100
O índice de mortalidade elevado na travessia atlântica, provavelmente não representava menores lucros para os traficantes. Não era o bastante para que os contratadores e negociantes de escravos mudassem o seu comportamento no que se refere a superlotação dos navios. Ao que parece, quanto mais escravos pudessem ser embarcados, ainda que houvesse vítimas durante a travessia, o número absoluto dos que sobreviviam, ainda era alto o suficiente para que os traficantes obtivessem lucros elevados. Pensando novamente na Corveta Nossa Senhora de Guadalupe, que embarcou 395 adultos quando a Lei da Arqueação estabelecia que, pelo seu porte, só poderia ter embarcado 356, vejamos a conta. Com as 43 pessoas que morreram na travessia, chegaram ao Recife cerca de 352 indivíduos vivos, fora as 9 crianças que também foram embarcadas em Angola. Ou seja, na conta do contratador havia o total de 361 pessoas que podiam ser comercializadas, cinco a mais do que a lei permitia. Veja-se o que continua dizendo o governador de Pernambuco em sua carta ao Secretário da Marinha e Ultramar:
99AHU_ACL_CU_015, Cx 94, D. 7456. OFÍCIO do governador de Pernambuco ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. 14/01/176.
... praticaram os contratadores e negociantes a fraude que dezejavam, obrigando quando lhe defendia todo o excesso pellas clauzulas que nella se expressa a trazerem as embarcações, tal quantidade de Escravos, além dos que podem admitir a seus bordos... 101
E acrescenta ainda sobre um navio de guerra, a “Galera” Nossa Senhora da Conceição da Ponte:
... que tendo hido lotada na antecedente viagem em trezentas e trinta e três cabeças, e não metendo além destas, mais de oito crias, entrou nesta praça com sette mortas, que pode ser não experimentasse a não lhe introduzir as ditas crias,... e vindo na última viagem pella arqueação que lhe fizerão em Angola, de quatrocentas e noventa e nove, e quinze crias, chegou a este porto com oitenta e seis mortos, de que se deve não ser a mortandade procedida de terem enchido estes mizeraveis o tempo que a providencia lhe destinou de vida, mas sim da crueldade com que os apertam, sem atenção [a área] necessária para se deitarem, ar preciso para respirarem e lugar competente as águas e mantimentos, que lhe são indispensáveis, e não poderem acomodar os limitados porões e payos destas Embarcações...102 Quase 17% de mortalidade na viagem da galé Nossa Senhora da Conceição que partiu de Angola com cerca de 499 africanos adultos e 15 crianças com destino a praça do Recife. Este é um número elevado de mortes de onde se depreende que as condições da travessia, obviamente, eram extremamente precárias, inclusive do ponto de vista do governador Luís Diogo Lobo da Silva.
Os sobreviventes muitas vezes desembarcavam doentes. Além disso, em terra, estes doentes poderiam não recobrar a saúde, chegando rapidamente à morte, aumentando as estatísticas de mortalidade. Luis Diogo Lobo da Silva, apesar de ser uma autoridade que buscava manter o sistema escravista funcionando em Pernambuco, portanto longe de ser um abolicionista ou alguém a favor dos negros, ressente-se do comportamento dos contratadores e negociantes de escravos.103
Em sua carta fala-se em “dano espiritual” das “almas” que jaziam em função da prática contumaz de se encher os navios vindos da África com africanos escravizados. O governador usa a cosmovisão católica para condenar a prática dos traficantes junto ao Secretário de Estado e Ultramar em 14 de Janeiro de 1761.104
101 AHU_ACL_CU_015, Cx 94, D. 7456. OFÍCIO do governador de Pernambuco ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. 14/01/1761.
102 Idem. 103 Idem. 104 Idem.
A travessia poderia durar quase 1 mês. Nas condições descritas no trecho da carta que colocamos acima, a morte para alguns era certa. Dezenove anos depois, em 1780, pouca coisa ou nada havia mudado com relação a esta questão. Chegara a Pernambuco, vindo de Angola, uma corveta com 360 escravos. Em verdade foram embarcados na África 400. Portanto, durante a viagem que durou 27 dias, 40 cativos morreram.105
No último ano do século XVIII, mais um conflito estabelecido no espaço social de Pernambuco veio à tona. O problema em questão era a necessidade de se fazer a quarentena sobre os escravos que chegassem à Capitania vindos da “Costa de África”. Através de uma correspondência entre o bispo, D. José da Cunha Azeredo Coutinho e o Secretário de Estado Marinha e Ultramar, Rodrigo de Sousa Coutinho temos acesso aos termos. Percebemos que o conflito envolvia o governo da Capitania e os negociantes de escravos da mesma.106 A raiz daquele conflito não buscamos levantar neste trabalho com exatidão, mas, acreditamos que possa ser que remonte aos problemas entre os produtores e os mascates da capitania e suas redes de relacionamento existentes nos séculos XVII e início do XVIII.107 Pois, se a quarentena fosse realizada, os senhores de engenho teriam tempo de chegar ao Recife para poderem concorrer com os outros interessados por escravos, em condições iguais.
O bispo de Pernambuco escreveu ao secretário pondo o problema de uma forma didática, usando da eloqüência, que desenvolveu a partir de sua experiência como padre. Este documento expõe mais uma vez as condições terríveis as quais os negros escravizados eram submetidos na travessia e nos primeiros momentos na Capitania.
E os negros da Costa da África o menor mal que eles trazem é a sarna, a bexiga, as bobas, o mal de Loanda, e outros próprios de um país impestado e doentio, ou provenientes da imundície, e falta de aceio, e de limpeza dos navios: cada armazém onde se recolhem taes escravos é um Hospital, uma enxovia, uma casa de imundície... espalhar estez armazéns pelo meio desta Povoação é espalhar o mal por toda a parte. 108
105 AHU_ACL_CU_015, Cx. 136, D. 10171 OFÍCIO do governador de Pernambuco ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. AHU_ACL_CU_015, Cx. 136, D. 10171. 07/05/1780.
106 De acordo com o levantamento citado anteriormente, sobre o tráfico de escravos para Pernambuco nos séculos XVII, XVIII e XIX, a maioria das embarcações, carregadas de escravos, que chegaram à Capitania pernambucana haviam partido de Pernambuco, isto é, iniciaram a viagem em Pernambuco com destino à África e daquele continente retornaram à Pernambuco. No período descrito foram 1364 embarcações que adentraram em Pernambuco, de onde cerca de 1189, haviam partido desta capitania com destino à África e retornaram com escravos. Este dado, segundo os autores, sugere que a organização e o financiamento daquelas viagens era feito por pessoas que moravam em Pernambuco. Corroborando com esta tese lembramos-nos da Câmara de Goiana que teve permissão para que os moradores da vila, durante seis anos pudessem ir livremente à Angola e Costa da Mina buscar escravos.
107 BARBALHO, Luciana de Carvalho. Op.cit., especialmente o capítulo 4.
108 AHU_ACL_CU_015, Cx. 216, D. 14657. OFÍCIO do Bispo de Pernambuco ao Secretário de Estado Marinha e Ultramar. 06/06/1800.
Muitos africanos chegavam doentes, depois de sobreviverem à travessia atlântica, conforme verificamos antes. Aqui o bispo lista algumas destas doenças e indica a razão delas terem se disseminado entre os negros. Por esta passagem se percebe que após desembarcarem em solo da Capitania, os africanos eram deslocados para galpões existentes na vila. Estes foram caracterizados pelo bispo como sendo verdadeiros hospitais, onde as condições higiênicas eram inexistentes, e, portanto, em seu interior as doenças teriam um terreno fértil para se proliferar. Portanto, tais galpões ou “armazéns” eram uma ameaça a saúde de toda a povoação. Este argumento foi utilizado por ele para justificar a necessidade de se proceder a realização de quarentena.
Assim o bispo acusa os negociantes de negligenciarem esta orientação pois “aos negociantes desta praça só importa o seu dinheiro e não importa a saúde destes povos.”109 Ao passo que, segundo o mesmo religioso, os negociantes acusavam o governo de Pernambuco, em suas exigências relativas à quarentena, como estando a abusar de sua autoridade pois disseram “que este governo excedeu todos os limites da sua jurisdição, quando sem dar parte, ou receber as reais ordens, tomou sobre si o abraçar e fazer executar a quarentena dos escravos da Costa da África.”110
Na defesa da quarentena diante do Secretário da Marinha e Ultramar, o bispo, enquanto emissário do governo de Pernambuco, afirma que ela seria duplamente útil. Em primeiro lugar para se averiguar a existência ou não de algum tipo de peste ou doença contagiosa entre os escravos, e, em segundo lugar, dar-se tempo para que os senhores de engenho conseguissem chegar a cidade do Recife a fim de terem a oportunidade de adquirir escravos sem o monopólio e as fraudes dos negociantes.111
Em relação a esta segunda utilidade da quarentena, acusa o bispo uma prática fraudulenta praticada pelos negociantes que traz sérios prejuízos aos senhores de engenho que precisam de tempo para se deslocar de suas localidades até a praça do Recife, para comprarem escravos recém-chegados. Com diz:
fingem vendidos os escravos em prasa publica por um preso geral em grandes lotes de 200 e 300 escravoz aos seus Caixeiros e amigos, para assim darem as contas aos seus correspondentes, como fez José Fernades da Cunha ao seu Caixeiro João Paulino e outros, para depois os revenderem
109 AHU_ACL_CU_015, Cx. 216, D. 14657. OFÍCIO do Bispo de Pernambuco ao Secretário de Estado Marinha e Ultramar. 06/06/1800.
110 Idem. 111 Idem.
por duas e três vezes mais caroz aos pobres Lavradores e Senhores de Engenho, que não tem outro remédio;... 112
Por trás destes conflitos que envolvia pessoas que faziam parte de grupos com posses em Pernambuco, por mais que o bispo tenha chamado de “pobres” os lavradores que vinham ao Recife adquirir escravos, estava o público alvo da questão, os africanos. Aqueles homens e mulheres, recém-chegados, ainda trilhariam um tortuoso caminho de adaptação, conhecimento do novo espaço, conhecimento da dinâmica social, e dos códigos de sobrevivência no escravismo. Conhecer as brechas ou “criar fissuras onde não havia brechas”.113 Conhecer ou reconhecer outros de ascendência africana, enfim construir uma identidade diaspórica. Neste processo como veremos, terão nas irmandades negras, como a de
Nossa Senhora do Rosário, um importante aliado.