6. YAPAY SİNİR AĞLARI İLE EKSİK PARAMETRELERİN TAHMİNİ
6.1. Biyolojik Sinir Sistemi Yapısı
A articulação para trazer africanos para Pernambuco na primeira metade do século XVIII envolvia diferentes agentes existentes na América portuguesa e na África. O tráfico foi feito a partir de comerciantes independentes ou vinculados à coroa portuguesa, que atuavam de forma articulada com nobres africanos. Na maior parte dos casos, as pessoas que foram trazidas para a América portuguesa como escravas, estavam em uma situação de subalternidade na África, pois eram prisioneiros de guerra ou criminosos aprisionados sob o poder de um líder (soba) ou rei.76
A princípio alguns limites não foram ultrapassados pelos traficantes. Pois o comércio das gentes envolvia exclusivamente aqueles que já estavam subjugados em função de guerras ou crimes no continente. Os traficantes respeitavam os líderes de certos Estados ou nações africanos. Porém, posteriormente a escravidão se abateria sobre todos os segmentos sociais, estando, entre as pessoas reduzidas à escravidão, também membros da nobreza. Foi o que ocorreu com o Congo no século XVI, e marcou os desencontros entre os congoleses e os lusos. Este foi um dos fatores da crise do Congo no século XVII que motivou a batalha de
Mbwila, entre forças portuguesas e congolesas, das quais os primeiros saíram vitoriosos.77 Observando os documentos administrativos vinculados ao Conselho Ultramarino relativos à Capitania de Pernambuco no século XVIII, presentes no catálogo do “Projeto Resgate” 78, notamos que Angola e Costa da Mina, apesar de não serem os únicos locais
75 SOARES, Mariza de Carvalho. Op. cit., p. 104. 76 SOUZA, Marina de Mello e. Op. cit., p. 100
77 Ibidem, p. 74. O reino do Congo foi derrotado, e um longo período de guerras civis em seu interior foi iniciado marcando a decadência de sua unidade política.
citados, aparecem constantemente como áreas da África recorrentes, na escolha dos traficantes.
Antes do ano de 1756, segundo certa descrição da Capitania de Pernambuco, enviavam-se à Angola, a partir do porto do Recife, os seguintes produtos: “aguardente de cana, fábrica de farinha da terra, arroz, tabaco, doces, chinelas e botas”. E de lá vinha: “panos, marfim, esteiras, cachimbos, paus de redes, cera e escravos.” 79 (grifo nosso) Da Costa da Mina vinha: “ouro em pó, marfim e escravos”.80 (grifo nosso) E para lá, remetia-se: “tabaco, aguardente de cana, açúcar, ouro lavrado e em pó”.81 Destacamos entre os produtos que vinham destes locais para a Capitania de Pernambuco, os escravos.
Dos principais produtos que eram remetidos dos portos da América portuguesa, que serviriam como moeda de troca no continente africano por escravos, estava o tabaco, gênero que também era produzido em Goiana para esta finalidade.82 A Câmara de Goiana no início do século XVIII se organizou para solicitar ao rei, D. João V, o direito de enviar embarcações para Angola e Costa da Mina a fim de trazer escravos para a vila e áreas adjacentes da Capitania real da qual ela estava ligada, Itamaracá. Argumentava a Câmara que havia grande “carestia” de escravos e, por isso desejava ela própria conduzir o comércio.83
Porém, tal solicitação não foi bem recebida pelos governadores da Capitania vizinha de Pernambuco, pois ia de encontro aos interesses administrativos dela. Buscaram os “homens bons” de Goiana fazer articulações com os funcionários da fazenda régia e alfândega no sentido de conseguirem o seu pleito, tirando da discussão as autoridades locais de Pernambuco, ao que obtiveram êxito.84
Durante o processo, que foi mediado por cartas e pareceres, destacamos algumas passagens. Uma delas é a que pontua claramente o que desejavam os “moradores” da vila de Goiana. João do Rêgo Barros em carta escrita no Recife afirma qual era o interesse da Câmara de Goiana da Capitania de Itamaracá:
... pedem a V.Magestade que os governadores desta Capitania (Pernambuco) se não intrometão nos ditos despachos, e que só os officiais da Fazenda de VMagestade, a quem ocorre, naquella Capitania (Itamaracá), o fação. E que Liberalmente possão as ditas Embarcações navegar para
79 Biblioteca Nacional. 10, 03, 018. DESCRIÇÃO da Capitania de Pernambuco. Século XVIII. 80 Idem.
81 Idem.
82 AHU_ACL_CU_015, Cx. 28, D. 2564. CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. João V. 03/07/1719. 83 Idem.
todas as partes com as mercadorias daquella Capitania (Itamaracá), izentas da subjeição dos governadores desta (Pernambuco). 85 (grifos nossos) O pedido era para que os governadores de Pernambuco não se intrometessem nos despachos de mercadorias de Goiana, e que os moradores de Goiana tivessem liberdade para mandar suas embarcações de seu porto diretamente para “todas as partes”, isto é, África, sem nenhuma sujeição ou prestação de contas ao governo de Pernambuco, que, por sua vez, através do relato do mesmo João do Rêgo Barros, se posiciona de forma contrária as pretensões da Câmara de Goiana conforme o trecho abaixo:
Comtudo he sem duvida, que a dita Villa de Goyana não tem Porto que permita franqueza para Liberal negoçio, e como fica em distância de doze legoas desta praça [ ] vem sem nenhum empedimento em todo o tempo do anno, os gêneros que lá se cultivão; E como os moradores daquella Capitania querem, como a VMagestade pedem que he quem só pode darlhes Licença para que Liberalmente possão navegar para todas as partes as mercadorias, izentos dos governadores desta praça, sem nenhuã destinação ou declaração, esta deve ser a cauza porque os governadores (de
Pernambuco) lho não concentem, atendendo pois ao bem público, que a particullar conviniençia daquelles moradores.86 (Grifo nosso)
Além disso, estava posto na carta de João do Rêgo Barros que, a alegada falta de escravos para trabalho em Goiana ou na Capitania de Itamaracá, também se sentia em Pernambuco e adjacências, pois, naquela época os traficantes estavam preferindo direcionar os escravizados que traziam da África para o Rio de janeiro, de onde seriam utilizados na mineração. E desta forma, procurava Rego Barros, diminuir a relevância do pedido de Goiana junto ao rei.87
Por provisão real, e a despeito das autoridades em Pernambuco, Goiana ganhou direito de mandar navios diretamente para Angola e Costa da Mina, sem serem obrigados a ter no porto do Recife, intermediários neste negócio. A autorização teria validade de 6 anos. O rei ainda determinou que quando os navios fossem sair com destino à África, o provedor geral da Capitania da Paraíba deveria inspecionar-lhe a carga de tabaco que se remete à África no negócio do tráfico negreiro.88 Neste episódio evidencia-se a intenção da coroa em desviar de Pernambuco, pelo menos naquela ocasião, a responsabilidade de inspecionar às cargas de
85 AHU_ACL_CU_015, Cx. 28, D. 2564. CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. João V. 03/07/1719. 86 Idem.
87 Idem. “Sendo certo que a carestia dos Escravos não procede da falta de navegação naquela Capitania, pois, o mesmo se exprimenta nesta, e em todas as conquistas, depois que os Escravos tiverão milhor saída, e mais avantajado preço nas Minas do Rio de Janeiro.” (Trecho da carta de João do Rego Barros na Consulta ao Conselho Ultramarino)
Goiana, promovendo a Capitania da Paraíba para aquela função. Goiana conquistou o seu pleito, porém este tema também era relevante para a vila do Recife e o seu comércio em geral. A Câmara do Recife em 1747 escreveu ao rei D. João V sobre um problema que os moradores daquela vila estavam enfrentando em torno da questão do tráfico negreiro. Esta carta apontava, em primeiro lugar, a rentabilidade da atividade do tráfico para os donos de navios que traziam os escravos, e como lucravam, igualmente, ao preparar as embarcações, carregando-as com produtos que seriam comercializados lá. Nesta questão se estabeleceu conflito.
A queixa era de que, contrariando os costumes correntes, os donos dos navios só estariam alocando cargas próprias nas embarcações, tirando a oportunidade dos “moradores” embarcarem suas mercadorias. Havia uma dependência dos produtores em relação aos donos dos navios para escoarem os seus produtos. Porém, ao que parece, alguns proprietários de navios eram também produtores ou tinham alianças econômicas com certos fazendeiros, e, em suas embarcações, só se carregavam produtos deles próprios ou de seus aliados. A Câmara municipal do Recife então sugeriu que o rei interviesse e determinasse pelo menos que a lotação dos navios fosse preenchida em 50% com produtos dos “moradores”, e os outros 50% com os produtos dos donos dos navios.89 Esta situação revela indícios das possíveis alianças entre traficantes e alguns produtores em Pernambuco, prejudicando aqueles produtores que não tinham nenhuma sociedade com os donos de navios.
A carta da Câmara do Recife menciona o destino do navio: Costa da Mina. Para a Câmara o número ideal de navios, que possibilitaria se dinamizar o comércio com a África, seria oito por ano. Entretanto, queixava-se de que apenas três ou quatro cumpriam esta carreira, encerrando em duplo prejuízo. Primeiramente chegariam menos escravos para atender as necessidades econômicas. E, em segundo lugar, o fato do tabaco produzido (pela falta de transporte) correr o risco de estragar antes de ser embarcado.90
Angola e Costa da Mina foram, no século XVIII, locais de onde partiu grande parte da população negra presente em Recife, Olinda e Goiana.91 Estes documentos vistos confirmam
89 AHU_ACL_CU_015, Cx 66, D. 5588. CARTA dos oficiais da Câmara do Recife ao rei D. João V. 08/07/1747.
90 Idem. “Senhor, foy V. Magestade servido mandar que os navios que fossem para Costa da Mina, ao negocio de escravos, sahisse por sortes com numero determinado, do que tem rezultado perjuizo aos povos, por que os senhores dos navios, e interessados, somente os carregão a sua custa, feyxando o negocio para sy e não admitindo carregações dos povos, sendosó elles os que particularmente se utilizam do negocio. Pelo que suplicams a V. Magestade se dugne mandar por negocio franco como de antes se praticava, ou ao menos que lotada a carga do navio, a metade carregue o senhorio e a metade os povos; porque se he bom esse negocio seja para todos. E que ao menos sejam oyto navios por anno...”
91 SOARES, Mariza de Carvalho. Op. cit., p. 51. A autora afirma que os reinos do Congo/Angola e Costa da Mina, tornaram-se as principais áreas do tráfico já no início do século XVII.
isso. Porém, de Angola veio para a Capitania de Pernambuco um número de pessoas muito superior em relação à Costa da Mina, como afirma Quintão, ao citar o estudo de José Carlos Venâncio:
Entre 1742 e 1760 foram feitas 121 viagens entre Pernambuco e Angola (...) Provenientes da Costa da Mina no mesmo período (...) vieram 64 embarcações. (...) De Angola veio a maior parte dos escravos, representando mais de 85% do total (...). A Costa da Mina e Angola com seus três portos, Congo, Luanda e Benguela, são as duas regiões de que procedia a quase totalidade dos africanos vindos para o Brasil. 92
Indivíduos eram embarcados naqueles portos africanos e desembarcados no porto de Goiana (Itamaracá), e, principalmente, no de Recife. Apesar do porto do Recife ser muito importante, pois lá, os navios tinham a chance de obter mais mantimentos para uma nova travessia, ele não era exclusivo no desembarque dos escravos, conforme vimos o caso de Goiana em 1719. Além disso, outros pontos do litoral de Pernambuco tinham competência física para receber os navios do tráfico. No século XIX, em um contexto de proibição do tráfico, a partir de 1831, os traficantes desviavam suas embarcações com escravos para outros portos da costa de Pernambuco, a fim de burlarem a fiscalização no porto do Recife.93 Acreditamos que alguns destes portos já existiam no século XVIII.
Em levantamento feito por Débora Albuquerque, Flávio Versiani e José Vergolino, que fizemos referência nas páginas 19 e 20, constatou-se o número aproximado de africanos que foram trazidos para Pernambuco entre do século XVI até o XIX. Os autores tomaram como referência os navios que chegavam ao porto do Recife vindos da África. Assim, em média, no século XVIII, foram desembarcados no Recife cerca de 3.300 indivíduos por ano. A média do século XVII foi menor, em torno de 2.500 por ano. Entretanto, entre 1801 e 1856, a média subiu para cerca de 5.000 africanos desembarcados por ano.94
As dificuldades do período do século XVII, como as disputas com os holandeses na Bahia e em Pernambuco, bem como as que ocorreram no continente africano pelo controle dos portos, talvez expliquem a menor média apresentada no século XVII. No caso do século XIX, mesmo em se tratando de um período menor (não foi contabilizado o século como um
92 Apud QUINTÃO, Antonia Aparecida. Op. cit., p.173-174. 93 CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade..., p. 103-104.
94 ALBUQUERQUE, Débora de Souza Leão. VERGOLINO, José Raimundo Oliveira. VERSIANI, Flávio Rabelo. Financiamento e Organização do Tráfico de Escravos Para Pernambuco no Século XIX. Disponível em: <http://www.anpec.org.br/revista/aprovados/Escravos.pdf>. Acesso em: 15/05/2014. O resultado do levantamento foi colocado neste artigo. Eles se basearam nos dados The trans-Atlantic Slave Trade Database, atualizado pela última vez em 2007, que tem o apoio da Universidade de Harvard.
todo), a média de entrada de escravos foi a mais alta. Para os autores deste levantamento isso sugere que a economia pernambucana estaria aquecida no período.95
Assim o Setecentos, no que se refere ao tráfico de escravos se caracterizaria como uma fase de transição ou intermediária, entre a baixa e a alta. Entretanto, olhando para os números percebe-se que a situação do século XVIII se aproximava mais da baixa do século XVII do que da alta do XIX, isto é, apesar da leve recuperação, a economia da Capitania de Pernambuco permanecia em crise. Pernambuco perdia escravos para o Rio de Janeiro no século XVIII, como se pode perceber em queixas de Câmaras municipais de Pernambuco, desta vez na 2ª metade do século, como veremos a diante,96 e esta realidade apresentou reflexos econômicos sobre as irmandades negras daquele período, pois como veremos no próximo capítulo, o número elevado de irmãos alistados em uma irmandade significava mais rendas para ela, assim, como a diminuição de membros, era um fator de empobrecimento da mesma.