A primeira etapa de um estudo sobre contaminação aquática por pesticidas deve contemplar a realização de um levantamento sobre o uso de pesticidas na região de estudo, as características ambientais e as propriedades físico-químicas dos princípios ativos usados que permitam selecionar os pesticidas que apresentam potencial para contaminar os ambientes aquáticos.
A Tabela 6 reúne as propriedades físico-químicas, categoria de uso, classes químicas e os índices GUS, LIX e classificação segundo GOSS dos pesticidas utilizados nas lavouras de algodão. A classificação dos pesticidas de acordo com o potencial de contaminação de águas subterrâneas e superficiais depende da interpretação de suas propriedades físico-químicas. Apesar da lacuna existente na literatura (falta de dados das propriedades físico-químicas: meia-vida e Koc) foi possível calcular os índices de GUS e LIX para a maioria dos pesticidas, sendo que alguns desses valores são encontrados na literatura.
Os valores de GUS, LIX e os critérios de GOSS servem como ferramentas auxiliares para seleção de pesticidas a serem priorizados nas atividades de monitoramento ambiental, permitindo a identificação do provável compartimento em que o pesticida deve ser monitorado.
Deve-se ressaltar, entretanto, que a ocorrência de pesticidas em águas subterrâneas e superficiais não pode ser explicada somente pelo comportamento do pesticida no ambiente. Outros parâmetros precisam ser considerados, tais como: condições de manejo, dose aplicada, índice pluviométrico, características do solo e temperatura.
Segundo os índices de GUS e LIX, dentre os pesticidas utilizados nas áreas monitoradas, os que apresentam maior potencial de contaminação de águas subterrâneas são: 2,4 D, azoxistrobina, carbendazim, diurom, metamidofós, metolacloro, metomil, monocrotofós, tiametoxam, aldicarbe, atrazina, imidacloprido, carbofurano e cianazina.
Apesar de não ser classificado como contaminante, de acordo com os critérios mencionados acima, o acetamiprido apresenta alta solubilidade em água, baixo coeficiente de sorção à matéria orgânica e tempo de meia-vida pequeno no solo; assim, quando o solo apresenta alta permeabilidade e, se houver ocorrência de chuvas intensas logo após a aplicação do produto, o mesmo pode ser rapidamente lixiviado e contaminar águas subterrâneas.
De acordo com os critérios de GOSS, os pesticidas que apresentam maior potencial de contaminação de águas superficiais são classificados em dois grupos: os que podem ser transportados dissolvidos em água e os que são transportados associados ao sedimento em suspensão.
As informações disponibilizadas na Tabela 6 demonstram que grande número de pesticidas, entre os aplicados na região, apresenta potencial de ser transportado dissolvido em água: azoxistrobina, atrazina, carbendazim, carbofurano, cianazina, diurom, glifosato, imidacloprido, metolacloro, metomil, tiram e triazofós.
Dentre aqueles com alto potencial de transporte associado ao sedimento destacam-se: teflubenzurom, lufenurom, clorfluazurom e o tiofanato metílico por apresentarem elevado Koc.
Os pesticidas selecionados para serem analisados pertencem às diferentes classes químicas: benzimidazol, carbamatos, estrobilurinas, neonicotinóides e derivados de
uréia. As estruturas químicas dos compostos selecionados estão apresentadas nas Figuras 10 a 14.
(a) (b)
Figura 10 - Estruturas químicas dos benzimidazóis: (a) carbendazim, (b) tiofanato metílico.
(a) (b) (c)
Figura 11 - Estruturas químicas dos carbamatos: (a) aldicarbe, (b) carbofurano e (c) metomil.
Figura 12 - Estrutura química da estrobilurina: azoxistrobina.
( a) ( b)
( c) ( d)
Figura 13 - Estruturas químicas dos neonicotinóides: (a) acetamiprido, (b) imidacloprido, (c) tiacloprido e (d) tiametoxam.
(a) (b) (c)
(d) (e) (f)
Figura 14 - Estruturas químicas dos derivados da uréia: (a) clorfluazurom, (b) diurom, (c) diafentiurom, (d) lufenurom, (e) teflubenzurom e (f) triflumurom.
Para os pesticidas tiacloprido, triflumurom e diafentiurom não foram encontrados dados suficientes de suas propriedades físico-químicas na literatura consultada, o que impossibilitou classificá-los como contaminantes ou não do ambiente aquático. Contudo, foram incluídos na lista de pesticidas selecionados por apresentarem a mesma classe química de outros pesticidas estudados (derivados de uréia e neonicotinóide), sendo que, o triflumurom e o diafentiurom são aplicados com freqüência nas áreas monitoradas.
Apesar de apresentarem alto risco de contaminação, alguns pesticidas, por exemplo, 2,4-D, não foram selecionados para serem analisados porque as diferentes classes químicas dos pesticidas utilizados na cultura do algodão impossibilitam a execução de um único método de análise, pois para a extração de compostos de diferentes polaridades seriam necessárias mais de uma etapa de extração (AMARANTE JR. et al., 2003).
Tabela 6 – Propriedades físico-químicas, categoria de uso, classe química, índices de GUS, LIX e GOSS dos pesticidas utilizados na cultura do algodão.
Índices GOSS Pesticidas Cat. de uso Classe Química Sol. água
(mg L-1) DT(dias) 50 solo (mL/g) Koc (mm Hg) PV DT50 (dias) hidrólise
GUS LIX Dissolvido
em água Associado sedimento
2,4 D herbicida Ác. Fenoxi carboxilico
8,0 x 105 10 20 0,0 7 2,70 0,25 médio baixo
acefato inseticida Organofosforado 8,2 x 105 3 5000 1,5 x 10-9 - 1,06 0,00 médio baixo
acetamiprido* inseticida Neonicotinóide 4,2 x 103 2 20 < 7,6 x 10-9 - 0,81 0,00 médio baixo
alfa cipermetrina inseticida Pirtróide 4,0 x 10 -3 30 100000 1,4 x 10-9 2 (pH 9) - 1,47 0,00 baixo alto
azoxistrobina* fungicida Estrobilurinas 6,0 56 200 8,4 x 10-13 - 2,97 0,08 alto médio
beta ciflutrina inseticida Piretróide 2,0 x 10 -3 30 100000 1,6 x 10-8 - - 1,47 0,00 baixo alto
carbendazim* fungicida Benzimidazol 8,0 120 400 4,9 x 10-10 - 2,91 0,10 alto médio
carbosulfano inseticida Carbamato 3,0 x 10 -1 3 5200 - 289 (pH 6.2) 0,14 0,00 baixo médio
clorpirifós inseticida Organofosforado 4,0 x 10 -1 30 6070 1,7 x 10-5 29 (pH 7) 0,32 0,00 baixo médio
diafentiurom* inseticida Uréia 6,0 x 10 -2 - - - - - - - -
diurom* herbicida Uréia 4,2 x 101 90 480 6,9 x 10-8 - 2,58 0,02 alto médio
endosulfam inseticida Organoclorado 3,2 x 10 -1 50 12400 1,7 x 10-7 - - 0,15 0,00 médio alto
fenitrotiona inseticida Organofosforado 3,0 x 101 4 2000 1,0 x 10-6 87 (pH 7) - 0,50 0,00 médio médio
glifosato herbicida Glicina 9,0 x 105 47 24000 0,0 - - 0,64 0,00 alto alto
lufenurom* inseticida Uréia 6,0 x 10 -2 20 3300 - - 0,62 0,00 baixo médio
metamidofós inseticida Organofosforado 1,0 x 106 6 5 8,0 x 10-4 28 (pH 7) 2,57 0,56 médio baixo
metolacloro herbicida Acetanilida 5,3 x 102 90 200 3,1 x 10-5 > 200 (pH 6) 3,32 0,21 alto médio
metomil* inseticida Carbamato 5,8 x 104 30 72 5,0 x 10-5 35 (pH 9) 3,16 0,19 alto baixo
Monocrotofós inseticida Organofosforado 1,0 x 106 30 1 7,0 x 10-5 66 (pH 7) 5,91 0,98 médio baixo
Paraquate herbicida Bipiridílio 6,2 x 105 1000 1000000 0 30 - 6,00 0,00 baixo alto
parationa metílica
inseticida Organofosforado 5,5 x 101 10 240 8,9 x 10-6 1 – 10 0,20 0,00 médio médio
Tabela 6 – Propriedades físico-químicas, categoria de uso, classe química, índices de GUS, LIX e GOSS dos pesticidas utilizados na cultura do algodão (Cont.).
Índices GOSS
Pesticidas Cat. de uso Classe Química Sol. água
(mg L-1) DT(dias) 50 solo (mL/g) Koc (mm Hg) PV DT50 (dias) hidrólise
GUS LIX Dissolvido
em água Associado sedimento
zeta cipermetrina inseticida Piretróide 4,0 x 10 -3 30 100000 1,4 x 10-9 2 (pH 9) - 1,47 0,00 baixo alto
aldicarbe* inseticida Carbamato 6,0 x 103 30 30 3,0 x 10-5 10 3,73 0,50 médio baixo
atrazina herbicida Triazina 33 60 100 2,9 x 10-7 105 - 200 3,56 0,31 alto médio
clorfluazurom* herbicida Uréia 1,0 x 10 -2 42 7500 - - 0,20 0,00 médio alto
imidacloprido* inseticida Neonicotinóide 5,1 x 102 47,8 248 6,84 x 10-12 31 (pH 5) 3,66 0,40 alto médio
tiacloprido* inseticida Neonicotinóide 185 21 - - - -
tiofanato metílico*
inseticida Benzimidazol 3,5 10 1830 1,0 x 10-7 - 1,49 0,00 médio alto
triflumurom* fungicida Uréia 2,5 x 10 -2 46 - - - - - - -
carbofurano* inseticida Carbamato 3,5 x 102 50 22 6,0 x 10-6 4830 (pH 6) 4,52 0,74 alto médio
Benfuracarbe inseticida Carbamato - - - -
Carboxina fungicida Anilida 1,7 x 102 3 260 1,87 x 10-7 7 - - médio baixo
carfentrazona etílica
herbicida Ariltriazolinonas 22 5 - 1,2 x 10-7 8,6 (pH 7) - - - -
Cianazina herbicida Triazina 1,71 x102 98 190 1,50 x 10-9 - 3,43 0,50 alto médio
Deltametrina inseticida Piretróide 2,0 x 10-3 14 < 23 1,50 x 10-11 2,5 (pH 9) - baixo médio
Esfenvalerato inseticida Piretróide < 0,3 90 5300 5,03 x 10-7 21 0,54 0,00 médio alto
fenoxaprope-P- etílico
herbicida Ac. Fenoxi
carboxílico
- - - - - - -
acetato de fentina fungicida Acetato de estanho 28 - - 1,33 x 10-6 - - - - - hidróxido de fentina fungicida Hidróxido de estanho - - - - - - -
Flumioxazina herbicida Ftalimida 1,8 x 105 14,7 - - - - - - -
Tabela 6 – Propriedades físico-químicas, categoria de uso, classe química, índices de GUS, LIX e GOSS dos pesticidas utilizados na cultura do algodão (Cont.).
Índices GOSS
Pesticidas Cat. de uso Classe Química Sol. água
(mg L-1) DT(dias) 50 solo (mL/g) Koc (mm Hg) PV DT50 (dias) hidrólise
GUS LIX Dissolvido
em água Associado sedimento
Flumioxazina herbicida Ftalimida 1,8 x 105 14,7 - - - - - - -
glufosinato-sal de amônio
reg.crescimento Anilina substituída
1,37 x106 7 100 0 - 1,69 0,00 médio baixo
Tiram fungicida Carbamato 30 15 670 1,0 x 10-5 - 1,38 0,00 alto baixo
quizalofope-P- tefulírico
herbicida Arilfenoxi propionato
0,4 60 510 8,25 x 10-11 - 2,30 0,01 médio alto
Tebuconazole fungicida Triazol - - - -
Profenofós inseticida Organofosforado 28 8 2000 9,0 x 10-7 - 0,63 0,00 médio médio
teflubenzurom* inseticida Uréia 1,9 x 10 -2 84 1240 - - 1,74 0,00 médio alto
tiametoxam* inseticida Neonicotinóide 4,1 x 103 28 10 - - 4,43 0,78 médio baixo
Triazofós inseticida Organofosforado 4,0 x 101 - 318 - - - - alto médio
Tebuconazole Fungicida Triazol - - - -
quizalofope-P- tefulírico herbicida Arilfenoxi propionato 0,4 60 510 8,25 x 10-11 - 2,30 0,01 médio alto glufosinato-sal de amônio reg.crescimento Anilina substituída 1,37 x106 7 100 0 - 1,69 0,00 médio baixo
Tiram fungicida Carbamato 30 15 670 1,0 x 10-5 - 1,38 0,00 alto baixo