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1. NECDET EKİCİ’NİN HAYATI, ÖYKÜLERİ VE ÖYKÜCÜLÜĞÜ

2.1. ÇÖZÜLME

As defasagens e o atraso histórico escolar, associados à dicotomia entre as desigualdades socioeconômicas dos jovens, intensificam-se de forma evidente no ensino superior. A desigualdade e o afunilamento do acesso a este nível educacional são mais excludentes e retratam a contradição da escola pública, de acordo com os restritos números de ingressantes ao ensino superior público.

Segundo os dados da PNAD 2007, apresentados na tabela 1 a seguir, apenas 14,5% da população jovem (18 a 29 anos) acessaram o ensino superior, porque frequentavam (2,8%) ou já o haviam concluído (11,7%).

Tabela 1 – Situação educacional dos jovens (%), por faixa etária (2007)

85 Segundo Corbucci (2004), as diretrizes políticas, ao longo década de 1990, estiveram marcadas pelas contradições entre discursos e ações. Os dispêndios do MEC com a educação superior, em especial aqueles destinados à manutenção da rede federal, foram sistematicamente contingenciados. Ampliaram-se os gastos com inativos e pensionistas, consequentemente, reduzindo-se a parcela destinada ao pagamento de pessoal ativo e aos investimentos em infraestrutura. ―Ao se estrangular a capacidade de expansão das Instituições Federais de Ensino Superior – IFES, também se abriu caminho para o crescimento do setor privado‖ (Corbucci, 2004, p.681).

Numa nova conjunção política, em 9 de janeiro de 2001, o presidente da República sancionou a Lei N.º 10.172, instituindo o Plano Nacional da Educação – PNE, com duração de dez anos. No que se refere à educação superior, a primeira e mais importante meta do PNE foi: ―Prover, até o final da década, a oferta de educação superior para, pelo menos, 30% da faixa etária de 18 a 24 anos‖ (PNE, 2001).

De fato, nos anos seguintes, houve uma reforma do ensino superior brasileiro, dentre importantes ações, temos: Lei N.º 10.861, de 2004, que cria o Sistema de Avaliação da Educação Superior – SINAES59; lei N.º 11.096, de 2005, que institui o Programa Universidade para Todos – PROUNI e o decreto N.° 6.096 de 2007 que institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI.

O PROUNI, apresentado como política pública para o enfrentamento da exclusão do ensino superior, tem como finalidade a concessão de bolsas de estudo integrais e parciais em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, em

59 O Sinaes é formado pelas avaliações – das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes,

sob os aspectos: do ensino, da pesquisa, da extensão, da responsabilidade social, do desempenho dos alunos, da gestão da instituição, do corpo docente, das instalações, dentre outros. Seus instrumentos complementares são: autoavaliação, avaliação externa, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – Enade (que tem o objetivo de aferir o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências), avaliação dos cursos de graduação e instrumentos de informação (censo e cadastro). Os resultados das avaliações visam traçar um panorama da qualidade da educação superior no país. Os processos avaliativos são coordenados e supervisionados pela Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior – Conaes (INEP, 2011).

86 instituições privadas de educação superior. Seu público-alvo são estudantes egressos do ensino médio da rede pública ou da rede particular na condição de bolsistas integrais, com renda per capita familiar máxima de três salários mínimos, os candidatos são selecionados pelas notas obtidas no Enem60 (MEC, 2011).

O REUNI apresenta medidas que buscam retomar o crescimento das universidades federais, com o aumento do número de vagas, a ampliação de cursos noturnos, promoção de inovações pedagógicas e combate à evasão, entre outras. Em relação ao número de Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), em 2003 existiam 45 unidades, em 2007, ano de implementação do REUNI, eram 53 Instituições de Ensino Superior (IES) e em 2010, o número foi de 59 IES (MEC, 2011).

Figueiredo (2010) aponta que foi importante a expansão das vagas oferecidas pelas IFES, contudo, estão longe ainda de atingir as promessas do governo Lula. Uma vez que a expectativa, em 2012, é chegar a um milhão de matrículas, ou seja, atingir 4% de jovens (18 a 24 anos) e as metas projetadas previam 30% desses jovens no ensino superior, assim teríamos 12% na esfera pública e 6% nas IFES. Além disso, o REUNI, como um programa, encerra-se em 2012, o que pode significar uma possível descontinuidade da proposta.

Rodrigues (2007) faz uma avaliação crítica sobre os interesses conflituosos no que tange às finalidades e à organização da educação superior no Brasil e afirma que eles estiveram marcados pela burguesia industrial, representada pela Confederação Nacional da Indústria, por um lado, e pela nova burguesia de serviços educacionais, representada pelo Fórum Nacional de Livre-Iniciativa na Educação, por outro. Sua análise indica que as atuais transformações desse nível de ensino são, em grande

60 O ProUni oferece, em contrapartida, a isenção de tributos àquelas instituições de ensino privadas que

aderem ao Programa. Ele possui ações conjuntas de incentivo à permanência dos estudantes nas instituições, como a Bolsa Permanência, os convênios de estágio e o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES), que possibilita ao bolsista parcial financiar o custo de suas mensalidades (não coberta pela bolsa do programa). Além disso, o programa estabelece, obrigatoriamente, que parte das bolsas deverá ser direcionada a ações afirmativas aos portadores de deficiência e aos negros e indígenas (MEC, PROUNI, 2011).

87 parte, determinadas pelos interesses do capital em converter a educação superior em uma mercadoria.

Sguissardi (2006) nomeia essas transformações de ―reformas pontuais‖ da educação superior e aponta também a relação (implicada há bastante tempo nos processos decisórios brasileiros) dos organismos internacionais do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Organização Mundial do Comércio, fundadas no diagnóstico neo ou ultraliberal da economia e do Estado.

Segundo Hayek (1984) e Friedman (1983)61, principais economistas neoliberais, o objetivo do governo deve ser limitado, sua principal função é proteger a liberdade preservando a lei e a ordem, reforçar os contratos privados, promover mercados competitivos. Friedman (1983) é bastante claro quanto ao papel do Estado em relação à educação. Prega incontestavelmente que as escolas deveriam ser privadas, o Estado só deveria prover uma formação mínima para as crianças e de um tipo específico, afinal é da família a principal responsabilidade pela formação, portanto, é ela quem deve arcar pelos estudos de seus filhos. A distinção entre educação e instrução deixa evidente essa lógica.

é importante distinguir entre "instrução" e "educação". Nem toda a instrução está relacionada com educação, e nem toda educação, com a instrução. O tema de interesse adequado é a educação. As atividades do governo estão em grande parte limitadas à instrução (Friedman, 1983, p. 83).

O papel do Estado seria regulamentar padrões mínimos de qualidade da instrução e das condições mínimas sanitárias. O setor privado que deve gerir e oferecer todo sistema educacional baseado na lógica de mercado e competição que lhe é intrínseca. Para Friedman (1984) a intervenção governamental na educação pode ser

61 Economista da escola de Chicago, defensor intransigente do monetarismo e da liberdade plena do

mercado. Friedman e Hayek combatiam as políticas de Estado do New Deal de Franklin Delano Roosevelt, consideradas intervencionistas e pró-sindicatos e representativa do welfare state nos EUA. O terceiro expoente do neoliberalismo foi o filosofo da ciência Karl Popper. Segundo Anderson (1995), os pressupostos de Milton Friedman influenciaram fortemente as mudanças neoliberais dos países latino- americanos, tendo Chile como expoente.

88 interpretada de dois modos, cujo pressuposto será base das formulações e propostas na área.

O primeiro diz respeito aos "efeitos laterais", isto é, circunstâncias sob as quais a ação de um indivíduo impõe custos significativos a outros indivíduos pelos quais não é possível forçar uma compensação, ou produz ganhos substanciais pelos quais também não é possível forçar uma compensação - circunstâncias estas que tornam a troca voluntária impossível. O segundo é o interesse paternalista pelas crianças e por outros indivíduos irresponsáveis (Friedman, 1983, p. 83).

A forte influência neoliberal resultou num sistema universitário composto por universidades neoprofissionais (ou essencialmente de ensino), heterônomas (dependentes cada vez mais de agenda externa), competitivas (no caso das públicas, que necessitam, a cada dia, buscar mais recursos da iniciativa privada para complemento das verbas do fundo público, além de implantarem gerenciamento empresarial e instituírem fundações privadas de apoio institucional) (Sguissardi, 2006).

Como herança, a prevalência da oferta do ensino superior no Brasil está concentrada no setor privado. A grande expansão do ensino superior atual conservou o investimento e o crescimento da rede privada.

Segundo o último Censo da Educação Superior (2010), o total de matrículas das Instituições de Ensino Superior – IES do setor privado foi de 4.430.157, o que equivale a 74,4% do total, enquanto as IES públicas tiveram 1.523.864 matrículas, ou seja, 25,6%.

Com a oferta de um número de vagas sempre crescente, a iniciativa privada possibilitou o ingresso aos bancos escolares superiores de um expressivo contingente de candidatos que, tradicionalmente, eram eliminados pelos concorridos vestibulares. Esse novo personagem da academia é, geralmente, oriundo das classes populares e sua presença é detectada, de modo especial, na tesouraria das instituições, como inadimplente, ou nos setores de atendimento ao estudante, como candidato a alguma forma de bolsa de estudo ou de crédito educativo. As fichas socioeconômicas do Enade e, principalmente, o atestado de hipossuficiência apresentado pelos alunos que pleiteiam o Programa Universidade para Todos (ProUni) demonstram cabalmente que há, nos bancos escolares superiores, gente sem condições econômicas para aderir à educação superior privada (Ristoff e Sevegnani, 2006, p. 26).

89 Essa é outra evidência, já que importante parte do financiamento da rede privada de ensino superior é investimento público. Segundo o último Censo da Educação Superior (MEC, 2010), três em cada dez alunos do ensino superior privado têm algum tipo de bolsa ou benefício que os isenta do pagamento da mensalidade. Entre o total de 1,2 milhão de bolsistas, 82% recebem benefícios reembolsáveis – que deverão ser pagos depois que o estudante concluir a graduação – e 17%, não reembolsáveis, como as bolsas oferecidas pelo PROUNI.

Embora o financiamento estudantil dado pelo FIES62 esteja destinado aos alunos de baixa renda, ele de fato não atinge essa população, por não suprir a demanda, como também pelos altos índices de inadimplência (Corbucci, 2004).

O FIES deixa de ser uma alternativa viável aos alunos de baixa renda, face à defasagem entre a taxa de juros do empréstimo e a taxa de crescimento da renda do recém-formado, combinada ao aumento do desemprego na população com diploma de nível superior. Ademais, como os requisitos são mais rigorosos, a fim de evitar a inadimplência (a exigência de fiador e a possibilidade de financiamento de apenas 50% do valor da mensalidade), grande parte da população de baixa renda não é atingida por tal política pública (Carvalho, 2006, p. 993).

Para Carvalho (2006), a redação final do PROUNI refletiu o jogo político, no qual acomodou os interesses das IES privadas, principalmente pelas regras de composição de bolsas e pela isenção dos tributos federais. No caso das instituições lucrativas e sem fins lucrativos e não beneficentes, as regras são flexíveis e a adesão ao PROUNI é voluntária. Há concessão de bolsas integrais ou parciais (50% e 25%). Em 2005, essas instituições deveriam destinar uma bolsa integral para cada nove alunos pagantes, ou bolsas parciais até 10% da receita bruta. A partir de 2006, a relação de estudantes pagantes por bolsas concedidas foi ampliada e o comprometimento da receita bruta reduzido, já que uma bolsa integral é concedida para cada 10,7 alunos pagantes, o mesmo que conceder uma bolsa integral para cada

62 O Programa de Financiamento Estudantil – FIES, instituído em 1999, substituindo o Programa de

Crédito Educativo, transfere os recursos a fundo perdido às IES privadas e, após a conclusão, o concluinte deve retornar o financiamento dentro de taxas e períodos calculáveis a depender das variáveis (número e valor das mensalidades, renda per capita familiar do estudante, entre outros) (Brasil, FIES, 2011).

90 22 estudantes, com quantidades adicionais de bolsas parciais (50% e 25% de descontos nas mensalidades) até atingir 8,5% da receita bruta.

No caso das filantrópicas, a adesão ao programa e a concessão de bolsas integrais são obrigatórias. As demais modalidades de gratuidade (bolsas parciais e programas de assistência social) podem ser usadas para compor o total de 20% da receita bruta. Em relação à isenção de impostos, as instituições com fins lucrativos foram as mais beneficiadas, pois ficam isentas, a partir da adesão, de praticamente todos os tributos federais que recolhiam (exceto 20% do recolhimento patronal do Instituto Nacional do Seguro Social INSS, que já recolhiam) (Carvalho, 2006).

Nas universidades públicas, 10% dos ingressos de novos alunos registrados em 2009 ocorreram por meio de sistemas de reserva de vagas. Os dados apontam que 69% usam como critério de seleção o fato de o candidato ter ou não estudado em escola pública. Um quarto das reservas de vagas é preenchido a partir de critérios étnico/raciais (MEC, Censo da Educação Superior, 2010).

Dentre muitos debates em torno dessas ações afirmativas, uma crítica apontada refere-se ao critério do bolsista ser oriundo de escola pública, para IES privadas ou no programa de cotas para IES públicas porque se emprega uma correlação intrínseca entre estudantes de escolas públicas e baixa renda. Porém, segundo Corbucci (2004), ao deixar de considerar a renda familiar, corre-se o risco de favorecer estudantes, brancos ou não brancos, com perfil socioeconômico semelhante ao de parcela daqueles oriundos das escolas privadas. Se isso se confirma, compromete-se o objetivo de democratizar o acesso a estudantes social e economicamente desfavorecidos, contido no projeto de reserva de vagas nas IFES.

É importante ressaltar que a questão do acesso à educação superior permanece um grande desafio, embora tenhamos alcançado novas perspectivas. Considerando sua legitimidade social, as políticas educacionais adotadas caminham na direção de uma

91 democratização do ensino, mas ainda pautadas em modestas transformações, se considerarmos que a democratização em outros níveis de ensino não acompanhou os mesmos níveis de qualidade, perpetuando uma escolarização de excelência para poucos.

Benzer Belgeler