• Sonuç bulunamadı

O grupo americano possui características bem específicas, principalmente, por trazer muito da influência do seu fundador, ou seja, de certos elementos ou rituais que ele considerava importante e que são utilizados até hoje. O que se destaca, porém, é que prevalece uma cultura que procura influenciar o trabalhador a se envolver com as regras e valores da empresa, Pagès et al (1987) nos explica isso, fazendo uma associação da cultura como uma espécie de religião em que há uma necessidade das pessoas se envolverem de

“corpo e alma” com a organização, atribuindo para si seus valores e se adequando à sua

filosofia. Dessa forma, o indivíduo internaliza esses valores e acaba levando até mesmo para sua vida pessoal. Pode-se destacar, por exemplo, um dos depoimentos do ex gerente (G2), quando o mesmo argumenta que de tanto ser cobrado pela empresa para estar tudo impecável e limpo, principalmente quando ocorriam as visitas e as auditorias, acabou tendo isso como uma obsessão para sua própria casa, em que tudo teria que está sempre limpo.

Outra característica deste grupo é a de ter um estilo de gestão bastante racional, fundamentada sobre regras e procedimentos que permitem um controle maior sobre os trabalhadores, inclusive sobre os gerentes, o que limita as arbitrariedades e personalismos. Por outro lado, a gestão é bastante fundamentada nos resultados. A internalização de valores da cultura corporativa da empresa pode ser percebida na seguinte fala:

[...] o grande problema é esse aí, você vê não o [...nome da empresa...]. É diferente das outras empresas de comércio? não, mas, assim, a grande diferença do [...nome da empresa...] que eu vou dizer, assim, eu tenho colegas que trabalham no grupo [...concorrente...] e a grande diferença do [...nome da empresa...] é que nos outros grupos as pessoas sabem o que está acontecendo com elas, entendeu? As pessoas sabem que estão sendo exploradas e no [...nome da empresa...] você não tem essa percepção não, é algo [...]. No [...nome da empresa...] eles fazem mesmo lavagem cerebral, é tudo lindo. B2G2.148 (ex gerente)

Este depoimento nos leva a refletir sobre o tema da “captura” da subjetividade dos

trabalhadores, que será explanado mais adiante. A empresa possui uma cultura que é capaz de fazer com que o trabalhador se envolva com seus princípios e valores, regras e políticas, a ponto de não perceber que está tendo seu pensamento e comportamento manipulados para realizar exatamente o que a organização determina e, em muitos casos, sem fazer os devidos questionamentos, conforme o que foi abordado por Alves (2011) no referencial teórico.

Porém, é preciso lembrar que essa “captura” não acontece de forma pacífica, existem, sim, as

contestações, porém, ocorrem isoladas, não produzindo o efeito necessário, assunto que será explanado mais adiante.

Pelo depoimento da gerente (G6), a gestão do grupo americano é mais atenciosa com o trabalhador, porque possui políticas de reconhecimento e oportunidades de melhoria profissional. Ademais, ela dá oportunidade para que o trabalhador possa dar suas sugestões para resolução dos problemas, contribuindo, assim, para o aumento da produtividade, isso faz parte da própria estratégia da empresa de propagar a sua cultura, pois segundo Fischer e Fleury (1989) permitir a participação do trabalhador é uma forma de superar a resistência e dar oportunidade para que as pessoas possam contribuir através de suas sugestões. Para tanto, a empresa faz com que o trabalhador entenda que o sucesso da empresa depende do desempenho dele, conforme os relatos abaixo:

Assim, a mudança maior que teve foi a questão da valorização do associado. Hoje se fala muito do respeito ao indivíduo e no, princípio [...grupo brasileiro...], a gente não tinha isso, não tinha esse tipo de respeito. Era, o cara entrou, tinha que trabalhar mesmo, num tinha horário, num tinha o respeito, e hoje o que a gente percebe é o respeito que a companhia tem, e as companhias, ela respeita muito a questão do ser humano, tudo acontece a partir do ser humano, não é o número. Quando a gente tem um bom ambiente de trabalho a gente chega nos números. É claro que você chega

nos números também com um péssimo ambiente de trabalho, mas não se sustenta. (gerente geral de loja).

[...] o [...nome da empresa...] ele deixa você participar dos resultados dela né, se ela cobra pelo resultado, você tem que ser ciente né, de quais são suas metas e de como é que está. O diretor de loja, ele tem a responsabilidade de tá comunicando pra os seus funcionários. Então, assim, é uma política muito transparente, de resultados, então assim não só os associados participam, mas os promotores também participam [...] a responsabilidade não fica com ele, né, a responsabilidade é de todos. Assim, a loja anda bem, se o resultado da loja anda bem, então é porque é uma contribuição não só do gestor que tá em cima, né, acho que a massa é que tem a participação maior. B2G6.44 (gerente)

Na verdade, essas políticas têm o intuito de fazer com que o trabalhador seja mais participativo e mais responsável pelo alcance dos resultados e das metas da empresa, que espera contar com um trabalhador mais engajado e comprometido. Outro aspecto a considerar no depoimento da gerente (G6) é que esta se mostra apaixonada pela empresa e considera sua cultura diferenciada das outras empresas que trabalhou, em termos de valorização do trabalhador. Isto faz com que praticamente não “veja” as contradições existentes entre o discurso e a prática da empresa, conforme será abordado mais a frente.

Em relação ao acesso às informações, o grupo americano é marcado por uma gestão mais aberta, inclusive para receber sugestões dos trabalhadores. De acordo com os relatos sobre as gestões anteriores, os resultados eram escondidos, ou seja, não eram transmitidas algumas informações aos trabalhadores. No grupo americano, conforme os depoimentos abaixo, tanto gerentes quanto os subordinados têm acesso às informações:

[...] assim, a abertura de informações, a gente tem acesso ao sistema, tem todo acesso ao sistema, a gente tem uma senha individual e tem acesso a tudo da empresa, a todas as informações da empresa, desde o tempo que foi fundada a empresa, como começou a empresa. B2S3.20

[...] tem tudo lá... todo o associado, desde o associado da base até a liderança. Se você chegar pra uma pessoa que trabalha na limpeza, ele tem acesso à venda da loja, pode olhar quanto é que tá vendendo hoje. Então, tem informação hoje que é aberta, né. O portal do associado, ele chega lá, entra no sistema lá e vê oportunidade de recrutamento interno pra algumas áreas, se tiver dentro do perfil lá que tá procurando, ele chega pra liderança conversa, eu quero me inscrever nesse aqui, aí, a liderança liberando, ele participa tranquilo do processo. É uma empresa muito boa de trabalhar [...] B2G3.217 (gerente)

O problema em relação a esses depoimentos é que a empresa, apesar de ser aberta quanto às informações, como maneira de fazer com que o trabalhador e o gerente possam ter as informações necessárias para atingirem suas metas, tais informações podem ser, no entanto, manipuladas, ou a empresa pode não passar todas as informações, conforme muitos depoimentos deixam a entender. Esse é, certamente, mais um viés da “captura” da

subjetividade do trabalhador à medida que ele acredita estar recebendo todas as informações da empresa. Por outro lado, como ficará claro na análise das políticas de gestão, saber das informações e números da empresa não implica em autonomia sobre as decisões. O caso das limitações da contratação já referido é emblemático.

Outro meio utilizado pela empresa para transmitir as informações é através das reuniões de piso. Além dessas reuniões, a mesma realiza, em nível nacional e mundial, outras ações de maneira a propagar os elementos da sua cultura. Uma delas é o Processo Grass Roots, que é uma sequência de reuniões que buscam conhecer a opinião dos trabalhadores sobre as ações realizadas na empresa e em que ela precisa melhorar, sendo, portanto, uma ferramenta importante para orientar ações de melhoria a partir do ponto de vista dos trabalhadores. Neste sentido, a cultura do grupo americano se mostra mais aberta e propensa a receber sugestões dos trabalhadores, porém esta abertura acontece porque a empresa quer que o trabalhador tenha conhecimento das informações para poder atingir as metas e resultados, para que o trabalhador se empenhe mais para aumentar e melhorar seu desempenho, mas, isto tem um custo elevado para os trabalhadores, como será visto mais adiante.

Benzer Belgeler