METODOLOJĠ VE GÖSTERGEBĠLĠMSEL ÇÖZÜMLEME 3.1 Metodoloj
3.3. Göstergebilimsel Çözümleme 1 Hatırla Sevgili Dizis
3.3.1.4. Hatırla Sevgili Dizisinin Göstergebilim Yönteminden Yararlanılarak Ġncelenmes
Como já apontamos, as propostas do multiculturalismo crítico, mencionadas acima, politizam a identidade cultural dos diferentes povos ao embasarem a conquista de sociedades mais igualitárias no reconhecimento e na valorização de tais identidades. As várias políticas de inclusão social com base no respeito à diferença, como, por exemplo, as “políticas de cotas”, visam, de forma geral, favorecer grupos marginalizados por preconceitos de ordem cultural, relacionados, por exemplo, com a raça, o sexo, a religião, entre outros atributos.
A importância exercida por tais propostas de afirmação identitária, na contemporaneidade, intensifica-se no contexto histórico marcado pela globalização. Propomos, neste item, apontar alguns entrelaçamentos entre a defesa dos valores locais, que caracterizam tais movimentos, e as influências econômicas, políticas e culturais globais. Mais particularmente, consideraremos a possível tendência à homogeneização cultural sugerida por tal contexto.
Convém iniciarmos nossa abordagem com a definição de globalização oferecida por Boaventura de Souza Santos (2003: 433):
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Várias destas iniciativas são impulsionadas pela sociedade civil organizada, como, por exemplo, o Place Matters, desenvolvido em Nova York a partir de 1998 (CASTRIOTA, 2004). Este projeto, promovido por duas Ongs, mobilizou a comunidade de bairros populares como Queens e o Brooklyn em prol do resgate cultural e da promoção ambiental. Tal mobilização repercutiu em investimentos do setor público nos locais e numa maior abertura à participação da sociedade civil.
a globalização é o processo pelo qual determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de considerar como sendo local outra condição social ou entidade rival.
Esta definição do autor nos interessa por problematizar o senso comum sobre esse processo, que o compreende como acesso universal a bens e serviços.
Boaventura aponta que haveria uma tendência de globalização hegemônica (ou
neo-liberal), a qual seria caracterizada pelo que o autor define como localismos globalizados e como globalismos localizados. A primeira expressão consiste na
exportação, para o contexto de outras culturas, de um modo de vida particular, que se tornaria uma referência global. Já a segunda denominação refere-se à outra ponta deste processo: à importação deste modo de vida hegemônico pelas diversas comunidades locais.
A esta lógica da globalização hegemônica, criticada por sua negligência ao pluralismo cultural, opõe-se a noção de cosmopolitismo, empregada pelo autor para nomear formas alternativas de contato intercultural. Estas propostas sugerem a convivência de um conjunto vasto e heterogêneo de iniciativas políticas, econômicas e culturais que partilham a luta contra a exclusão social em articulações transnacionais. Poderíamos citar, como exemplos, inúmeras ONGs que vêm desenvolvendo, internacionalmente, trabalhos em prol do respeito aos direitos humanos, ou, ainda, organismos que se engajam em lutas em defesa do meio-ambiente em todo o planeta.
Uma outra definição de globalização que, assim como a de Boaventura, explicita as distintas formas de expressão da mesma, é vislumbrada pelo filósofo e antropólogo Nestor García Canclini (2003). Ao abordar este tema, o autor se refere à noção de
globalizações tangenciais. Em sua perspectiva, o termo tangencial problematiza a
crença, bastante expressa no senso comum, de que a globalização pressupõe a manifestação de um processo global totalizante e uniforme, que interconecta os diferentes povos do mundo. Segundo o autor, o que se verifica, de fato, é a ocorrência de vários processos transnacionais em curso atualmente, os quais alcançam, de formas diferentes, porções distintas do globo. Neste quadro, percebe-se, por exemplo, que ao lado de processos que representam os interesses de grandes corporações financeiras, há outros que operam em lógicas diversas.
A análise das repercussões que os processos de globalização vêm gerando nas comunidades locais ocupa uma posição central na obra de Canclini. O autor se questiona sobre como a cultura local, e as diversas identidades, reagem a essa abertura à diferença estimulada pelo contexto político e econômico atual. Haveria realmente um processo de homogeneização cultural em curso?
Nota-se que tal questão, analisada pela ótica de Canclini, apresenta-se formulada a partir de duas perspectivas distintas: uma delas remete-nos à lógica própria aos processos de globalização hegemônica, identificada aos interesses das grandes corporações. Será, conforme questiona o autor, que tal lógica conduziria necessariamente à homogeneização? A outra remete-nos a noções como “identidade cultural”, “autenticidade”, “tradição” e “comunidade”, e questiona como as mesmas orientam nossa interpretação sobre os possíveis efeitos nocivos da globalização.
Com relação à primeira forma de abordagem do assunto, busca-se identificar propensões à homogeneização cultural manifestas na globalização hegemônica. Nesta linha, a posição de Canclini (2003) é taxativa: ao considerar essa lógica, o autor descarta a tendência homogeneizadora. Ele afirma que, se de um lado notamos uma certa unificação dos mercados, com a submissão das peculiaridades políticas e culturais aos mesmos, por outro, a distribuição desigual de bens e de serviços, inerente a esta linha de globalização, já consiste num viés de diferenciação entre os Estados104. Ao considerarmos, ainda, a atuação de globalizações tangenciais, explicita-se o caráter inviável de uma totalização da tendência hegemônica. Segundo o autor, em tal contexto, o que se verifica são processos de reformulação, e não de anulação, das diferenças culturais.
Ainda nessa linha, outra explicação que desacredita a tendência à homogeneização aponta o interesse que a globalização hegemônica manifesta por uma diferenciação cultural “controlada” dos mercados (HALL, 2003). Nesse caso, a diversidade local é explorada como forma de especialização do mercado e de criação de novos nichos de consumo. Convém ressaltarmos que, ao ser requisitada em tal perspectiva, a tão celebrada “diferença cultural” torna-se conivente com os interesses das grandes corporações. É nesse sentido que autores como Boaventura criticam a postura do assim chamado managed multiculturalism, no qual o discurso pró diferença, na linha do politicamente correto, estaria a cargo de interesses mercadológicos105.
A segunda forma de abordagem conferida à seguinte questão: “- haveria realmente um processo de homogeneização cultural em curso?” - problematiza os pressupostos
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Propomos questionar esta interpretação. O cerne do problema da “homogeneização” não se limita à constatação de uma semelhança “de fato” entre as culturas. O que está em jogo, e que deve ser considerado em sua sutileza, é um deslocamento das referências culturais tradicionais, capaz de deslegitimar as peculiaridades de uma determinada expressão social no cenário local e mesmo no contexto internacional mais amplo.
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Seguindo a lógica argumentativa da citação anterior, acreditamos que esta “diferenciação controlada dos mercados”, ao atuar sobre os bens culturais, já indica uma tendência à homogeneização. Neste sentido, o conceito de “banalização secundária” do patrimônio, desenvolvido por Choay (2001), ilustra bem este fenômeno. Retornaremos a ele no item 3.4 da dissertação.
sobre os quais apoiaríamos nossa interpretação a respeito desse processo. Em outras palavras, ela questiona as concepções de “identidade”, de “tradição” e de “comunidade” que alimentariam nossa percepção desse suposto processo de homogeneização das culturas e o nosso receio em relação ao mesmo. Esta linha interessa-nos mais de perto nesta dissertação por problematizar noções que também são centrais para as políticas de preservação patrimonial.
O posicionamento de Nestor Canclini (1997), a respeito das mesmas, é bem interessante. O autor nos aconselha a evitar conceber a identidade cultural como uma entidade fechada e coerente. Ele defende, assim, que ela não seja tratada como compartimentalização de culturas isoladas, numa concepção idealizada de comunidade106. É no contato com o outro que as culturas se exporiam em suas particularidades e diferenças e tomariam consciência das mesmas.
Nesse sentido, a sua concepção de tradição é bem interessante. Segundo o autor, esta deveria ser compreendida não como um conjunto estabilizado de práticas sociais, mas como um instrumento de mediação no contato intercultural. Nesse sentido, a tradição atuaria como um mecanismo de seleção, e mesmo de invenção, reelaborado continuamente para legitimar os contextos locais frente à interferência externa. A tradição oferece, assim, um instrumental para que cada cultura específica possa reagir e se adaptar à mudança e aos estímulos estrangeiros. É nessa perspectiva que Canclini formula a seguinte questão: “Será a abertura – crítica ou brincalhona – rumo à modernidade, e não a simples auto-afirmação, o que os arraiga [aos diferentes povos] melhor às tradições?”107.
Nota-se, assim, que Canclini desconfia da existência de um processo de homogeneização cultural como uma consequência necessária da globalização. Ele nos convida a refletir mais sobre reformulações e redimensionamentos de identidades, em lugar de investigarmos o desaparecimento de culturas supostamente autênticas, íntegras. Seu posicionamento, porém, nos coloca as seguintes questões: haveria algum limite para esse processo de reconfiguração de identidades? Como identificar
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A respeito deste assunto, são interessantes as suas análises relativas às interferências culturais em territórios situados na fronteira entre os Estados Unidos e o México. CANCLINI (1997)
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CANCLINI, 2003:234. Ainda no âmbito da problematização da idéia de tradição, no contexto das sociedades globais, é interessante a perspectiva de ORTIZ (2003). O autor, no texto “Legitimidade e Estilos de Vida”, estende a noção de tradição à relação que a sociedade de massas mantém com a produção da indústria cultural:
“Poucas vezes nos ocorre pensar o tradicional como um conjunto de instituições e valores, oriundos de uma história recente, e que se impõem a nós como uma tradição, um modo de ser. Tradição enquanto norma, embora mediatizada pela velocidade das trocas e pela mobilidade das pessoas.”(ORTIZ, 2003: 195).
um aniquiliamento cultural? E, ainda, com base em noções tão fluidas de identidade, como formular políticas de preservação patrimonial?
Nesta dissertação não pretendemos nos deter em questões como estas, demasiadamente complexas. Acreditamos, porém, que as mesmas são extremamente pertinentes ao debate contemporâneo sobre o patrimônio, particularmente àquele voltado à salvaguarda dos bens imateriais. Isso porque estas propostas se dedicam à promoção e à proteção de práticas culturais “vivas” e, conseqüentemente, em processo contínuo de transformação. Abordaremos questões relativas à preservação dos bens intangíveis no terceiro capítulo dessa dissertação.