Como notado até aqui, a Internet, assim como as TIC de uma maneira mais geral, modificam o cenário de comunicação e cultura e potencializam mediações até então não experimentadas pela humanidade. Não se trata de uma exaltação exacerbada, mas a constatação de que há um impacto observável nas práticas visualizadas a partir da interação com os novos media. Um dos pensadores da atualidade que tem se dedicado a estudos sobre as mediações neste novo espaço é Jésus Martín-Barbero. Ao falar sobre as TIC na América Latina, onde se concentram seus estudos, Martín-Barbero (2001, p. 264) ressalta como as novas tecnologias assumiram um papel de protagonistas no cenário da comunicação neste bloco geográfico. Existe então, segundo o autor, uma nova etapa no processo de aceleração da modernidade “do qual nenhum país pode estar ausente sob pena de morte econômica e
cultural”. Neste sentido, a informatização não é uma questão de opção, nem mesmo do velho dilema ressaltado por Martín-Barbero (2001, p. 265) entre dizer sim ou não às tecnologias. “O surgimento de tais tecnologias na América Latina se inscreve, em todo caso, num velho processo de esquizofrenia entre modernização e possibilidades reais de apropriação social e cultural daquilo que nos moderniza”.
Ao traçar um quadro sobre os problemas culturais surgidos a partir das novas tecnologias, o autor apresenta duas perspectivas: por um lado uma crise advinda pelo modo como as tecnologias operam e produzem uma “ficção de identidade”; por outro as tecnologias contribuem para uma simulação levada ao extremo, conceito que Martín-Barbero retoma de Baudrillard para demonstrar como “essas tecnologias tornam visível um resto não simulável, não digerível, que a partir da alteridade cultural resiste à homogeneização generalizada.” (MARTÍN-BARBERO, 2001, p. 265).
Também sobre as tecnologias, Martín-Barbero (2001, p. p. 266) afirma que elas produzem um questionamento sobre as identidades culturais que opera sobre diferentes registros, que precisam ser distinguidos. Segundo ele, elas não devem ser vistas como ferramentas transparentes, pois não se deixam usar de qualquer modo. As tecnologias são “em última análise a materialização da racionalidade de uma certa cultura e de um 'modelo global de organização do poder'. (MARTÍN-BARBERO, 2001, p. 268). Neste sentido, “a pesquisa sobre as novas tecnologias de comunicação tem um capítulo central no estudo de seus efeitos sobre a cultura.” (MARTÍN-BARBEIRO, 2001, p. 267).
Esta análise sobre a cultura a partir dos desdobramentos das novas tecnologias na América Latina de Martín-Barbero permite o entendimento das mediações culturais e comunicacionais a partir de uma nova perspectiva interativa de forma que constata-se a possibilidade de um novo modelo de comunicação, algo contrário, por exemplo, aos modelos de perspectiva matemática mais difundidos dentre as teorias de informação e comunicação. Dentre estes, destacam-se os trabalhos de Shannon e Weaver (1963), Jakobson (1991) e Lasswell (1948). Todos eles possuem modelos baseados no princípio do código e numa produção e a compreensão de mensagem que depende exclusivamente de sua codificação e decodificação, ou seja, estão centrados nas figuras do emissor e do receptor.
Esta concepção, assim como a de teóricos também conhecidos por suas propostas de teorias para a comunicação, como Wright, Westley e MacLean e Gerbner, porém, demonstra- se frágil diante dos processos comunicacionais estabelecidos na sociedade do século XXI, onde é praticamente impossível conceber uma comunicação que não esteja repleta de
subjetividades e onde as terminologias “emissores” e “receptores” são cada vez mais substituídas por “usuários”, “interagentes”, “interatores”, dentre outros.
A crítica a uma comunicação onde prevaleça a imagem de um sujeito passivo e que não favoreça relações dialógicas não é recente, havendo já trabalhos que abordam aspectos desta problemática por meio de temas como a Comunicação de Massa, Cultura de Massa e Indústria Cultural (ADORNO, 1975). Temas colocados em evidência por escolas que escreveram a história das Teorias da Comunicação de Massa, como a sociológica norte- americana, a psicológica behaviorista, a de Frankfurt e a dos adeptos de MacLuhan.
No entanto, a Internet é, como nos lembra Castells (2004, p. 16) “um meio de comunicação que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos para muitos em tempo escolhido e a uma escala global”, algo que se converteu, segundo o autor, num dos valores gerais da Internet, defendido pelos seus utilizadores como estando ligado à liberdade de expressão (CASTELLS, 2004, p. 76). Assim, na visão do sociólogo, a Internet é um meio de comunicação e a rede constitui a infraestrutura material de uma forma organizativa concreta, comparados, respectivamente, às tabernas e às fabricas de antes (CASTELLS, 2004, p. 169). Com isto é proporcionado um canal de comunicação horizontal, “não controlado e relativamente econômico, de um para um e de um para muitos” (CASTELLS, 2004, p. 189).
Toda essa discussão sobre as TIC e o seu impacto nas relações e interrelações mantidas entre sujeitos e máquinas induzem a pensar na configuração de uma nova matriz de sentido, um novo lugar privilegiado para compreensão do contemporâneo. Assim como já apontado acima, há uma nova perspectiva cultural, entendida a partir das práticas sociais contemporâneas, algo tão expressivo que permite pensar numa cultura própria das redes. Ao tratar desta perspectiva, Castells (2004, p. 52) afirma que “a Internet é, antes de tudo, uma criação cultural”. Segundo ele, “os sistemas tecnológicos produzem-se socialmente e a produção social é determinada pela cultural. A Internet não constitui uma exceção a esta regra. A cultura dos produtores de Internet deu forma a este meio (CASTELLS, 2004, p. 55). Ora, em existindo uma Cultura da Internet, ela é, segundo o autor, a cultura de seus criadores, algo que Castells (2004, p. 55) caracteriza em quatro extratos sobrepostos: a cultura tecnomeritocrática, a cultura hacker, a cultura comunitária virtual e a cultura empreendedora.
Ao falar sobre a cultura hacker, por exemplo, o autor chama a atenção para sua configuração como uma cultura de convergência entre humanos e máquinas, num processo de interação sem restrições. Uma cultura, segundo Castells (2004, p. 71), de “criatividade tecnológica baseada na liberdade, na cooperação, na reciprocidade e na informalidade”.
Segundo ele, “... enquanto a cultura hacker proporcionou os fundamentos tecnológicos da Internet, a cultura comunitária configurou as suas formas, processos e usos sociais. (CASTELLS, 2004, p. 74).
A cultura da Internet é uma cultura construída sobre a crença tecnocrática no progresso humano através da tecnologia, praticada por comunidades de
hackers que prosperam num ambiente de criatividade tecnológica livre e
aberta, assente em redes virtuais, dedicadas a reinventar a sociedade, e materializada por empreendedores capitalistas na maneira como a nova economia opera. (CASTELLS, 2004. p. 83)
Os impactos das TIC sobre a cultura e as suas formas de expressão culturais são tão prementes que surge, neste contexto, o conceito de Cibercultura, algo que, segundo Lévy (1999, p. 17), surge da interconexão mundial dos computadores como um novo meio de comunicação. Segundo ele, o conceito está relacionado “não somente à infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo”. Esse processo ocorre de tal forma que há uma mutação da relação com o saber. Ao recorrer às tecnologias intelectuais – apresentado acima – Lévy (1999, p. 157) afirma que no ciberespaço elas “amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas”. O ciberespaço, segundo o autor, dá um corpo virtual à consciência coletiva, criando como se fosse um imenso hipertexto a partir de todas as subjetividades. “É aí, portanto, nesse lugar sem distâncias físicas, que terá lugar a competição entre as empresas planetárias e, cada vez mais, entre as empresas locais. O nervo do comércio se torna o tráfego da atenção no ciberespaço” (Lévy, 2004, p. 177).
Os estudos sobre Cibercultura são destacados por Silver (2000) em trabalho que distingue três gerações de estudo para este tema. Ao falar sobre isto, Passarelli (2007), destaca que a primeira fase é marcada por uma descrição jornalística a respeito do tema, enquanto a segunda tem um teor acadêmico que lhe caracteriza como uma fase de estudos sobre cibercultura; e a terceira geração, por sua vez, tem um viés mais crítico em torno do tema.
O ciberespaço converteu-se numa ágora eletrónica global onde a diversidade do descontentamento humano explode numa cacofonia de pronúncias. (CASTELLS, 2004, p. 168)
Ao tratar de questões de ciberespaço, Wertheim (2001) apresenta uma perspectiva interessante sobre as questões impostas pela Cibercultura e a trajetória que a humanidade tem presenciado na configuração de suas ideias sobre o espaço até chegar à Internet. Neste sentido, ela busca uma compreensão do domínio digital – e do devaneio contemporâneo em torno dele – como uma tentativa de construir um substituto tecnológico para o espaço cristão do Céu, numa perspectiva religiosa da Cibercultura.
Mas a obra de Wertheim não trata do ciberespaço numa abordagem exclusiva. Ela o aborda num contexto de uma história cultural do espaço em geral. Neste sentido, para concluir sobre essa perspectiva religiosa da construção do espaço digital no Ocidente, recorre às contínuas transformações que a ideia de espaço sofreu ao longo da história, da Idade Média até a era digital, sendo o ciberespaço, “a mais recente iteração desse conceito multifacetado.” (WERTHEIM, 2001, p. 22). Esse entendimento é importante porque, segundo a autora, a história do espaço “torna-se também uma investigação de nossas concepções cambiantes de humanidade.” (WERTHEIM, 2001, p. 27).
Nessa perspectiva religiosa do ciberespaço, naturalmente cabe um entendimento de profetismo da tecnologia, algo como uma “promessa de comunidade utópica”, nas palavras de Wertheim (2001, p. 207), que ressalta essa perspectiva a partir do colapso social e familiar generalizado do mundo ocidental, onde prevalecem pessoas em processo de isolamento, solidão e alienação. Mas independente do que as pessoas façam na Web, o ciberespaço também é uma rede de relações em vários sentidos diferentes, onde até mesmo a linguagem assume um poder material substancial. Segundo Wertheim (2001, p. 221), “um caso paradigmático do poder de 'fabricação do mundo' da linguagem”. Assim como todos os espaços num sentido mais profundo, também o “ciberespaço é comunalmente produzido.”