A Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC) é um programa de incentivo mundial, idealizado em 1990, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com a finalidade de promover, proteger e apoiar a prática do aleitamento materno e prevenir o desmame precoce, ao assumir o compromisso de tornar os “dez passos para o sucesso do aleitamento materno”, que constituem um elenco de medidas que visam informar sobre os benefícios da amamentação e o manejo correto do aleitamento materno, uma realidade em seus hospitais. No Brasil, a implantação da IHAC se deu em 1992, sendo o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP) de Recife/PE o primeiro hospital credenciado. No município de Fortaleza/CE a primeira instituição habilitada
foi a Maternidade Escola Assis Chateaubriand em 1993 (OMS, 1989; LAMOUNIER, 1998; WHO, 2009).
O aleitamento materno na primeira hora de vida corresponde ao passo 4 da IHAC, devendo ser implementado como prática de atenção neonatal na rotina hospitalar em todos os países (WHO, 2009). Do total de crianças investigadas na presente tese 76,2% mamaram na primeira hora de vida. Esse percentual é maior do que aquele encontrado em amostra de crianças menores de 1 ano investigadas na II Pesquisa de Prevalência de Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal (PPAM) de 2009, tanto em relação ao valor nacional (67,7%) quanto ao da Região Nordeste (66,9%) e o de Fortaleza (67,6%). Essas diferenças podem ser explicadas, pelo menos parcialmente, em função da presente pesquisa refletir situação mais recente dessa prática nas maternidades brasileiras de maneira. Uma limitação, neste sentido, foi o fato de não ter se buscado identificar se o hospital no qual as crianças do presente estudo nasceram adotavam a IHAC.
O fato das crianças não serem amamentadas na primeira hora de vida após o parto elevou de maneira estatisticamente significante, após ajuste de variáveis, em 1,95 e 2,28 vezes as chances para problema de sono segundo os critérios dos escores e do avaliador, respectivamente. Este resultado sinaliza melhorias no comportamento do sono das crianças na faixa etária de 12 a 18 meses relacionadas a implementação da prática de atenção neonatal de colocar o bebê para mamar na primeira hora de vida. Este fato pode ser devido ao fato de que mães que amamentam na primeira hora de vida do bebê têm um vínculo muito forte com o filho e criam estratégias para lidar com o sono do bebê de forma mais satisfatória.
Estudo realizado na Turquia junto a 182 mães de crianças na faixa etária de 24 a 48 meses atendidas nos ambulatórios de pediatria da Faculdade de Medicina aponta que a duração do aleitamento materno não se correlacionou com o início da amamentação (se em até 1 hora, de 3-12, de 12-24, >24) e evidencia correlação estatisticamente significativa (r=0.53, p<0,001) entre a partilha do quarto para dormir à noite entre a mãe e a criança e a duração do aleitamento materno. As crianças cujas mães não trabalhavam fora de casa (p=0,003), bem como aquelas cujos pais deram suporte durante a amamentação (p<0,001) apresentaram duração média de aleitamento materno mais elevada, sendo as diferenças estatisticamente significantes (SENCAN; TEKIN; TATLI, 2013).
Estudo longitudinal realizado nos Estados Unidos com o objetivo de quantificar a influência da partilha da cama na duração do aleitamento materno aponta que o fato da mãe deitar e dormir com seu filho na mesma cama ou outras superfícies de dormir para o sono
tempo de amamentação. A duração da amamentação também foi maior entre as mulheres com melhor grau de instrução, brancas, que tinham amamentado anteriormente e planejado a amamentação e não tinham voltado a trabalhar no primeiro ano pós-parto (HUANG et al., 2013).
O passo 6 da IHAC preconiza não oferecer a recém-nascidos bebida ou alimento que não seja o leite materno, a não ser que haja indicação médica, e põe como critério global que pelo menos 75% dos bebês nascidos a termo durante o último ano sejam exclusivamente amamentados ou exclusivamente alimentados com leite extraído do seio, do parto à alta do hospital (UNICEF, 2008). Na presente investigação o aleitamento materno exclusivo (AME) foi praticado por 81,5% das mãe na ocasião da alta hospitalar, sendo considerado satisfatório segundo o critério estabelecido pelo Ministério da Saúde.
No tocante ao AME até o sexto mês de vida, conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (WHO, 2001) os valores revelados pela pesquisa (39,4%) apresentam-se elevados se comparados a probabilidade de AME aos 180 dias da PPAM que fica em torno de 10% para o conjunto das regiões brasileiras.
A amamentação sob livre demanda, constitui o passo 8 da IHAC. No presente estudo, 73,2% das mães relataram alimentar seus bebês com a frequência e duração que eles desejassem ou algo similar, sendo esta prevalência inferior a esperada que é de 80% (UNICEF, 2008). A amamentação sob livre demanda é fundamental ao passo que eleva a produção do leite, contribuindo para o sucesso da amamentação (FIGUEREDO; MATTAR, ABRAÃO, 2012). Vale salientar, neste contexto, que 10,6% da amostra do presente estudo apresentou o leite insuficiente como o motivo para o desmame.
Dentre todos os outros fatores que influenciaram no desmame precoce das crianças do presente estudo, aqueles mais citados foram os fatores maternos (trabalho, doença, problema na mama, opção/escolha) com 26,1% dos casos, seguidos da rejeição pelo bebê (17,9%). Panorama semelhante é evidenciado em revisão integrativa da literatura, que ao estudar dez artigos, datados de 2005 a 2010, que compartilhavam o tema posto, aponta o trabalho materno como fator mais citado entre os autores, seguidos do uso de mamadeira e chupeta, recusa do bebê e problemas mamários (RODRIGUES; GOMES, 2014).
De acordo com a PPAM (2009), em 2008, para o município de Fortaleza a prevalência estimada de crianças em aleitamento materno aos 365 dias foi de 44,5%. Na ocasião da coleta dos dados (2014-2015) desta investigação, 32,5% das crianças investigadas na faixa etária de 12 a 18 meses eram aleitadas ao peito. Vale considerar que 63,7% da amostra de crianças tinha 15 meses ou mais.
A mediana de aleitamento materno total (AMT) foi de oito meses mostrando-se inferior tanto à evidenciada, no âmbito nacional, na Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher PNDS (2006) (9,1 meses) quanto à que posteriormente foi verificada na PPAMpara o conjunto das capitais brasileiras (11,2 meses), para a Região Nordeste (11,4 meses) e para Fortaleza (10,9 meses). Tal fato ressalta a necessidade das mães serem continuamente apoiadas após a alta hospitalar pelos profissionais que atuam na Estratégia Saúde da Família ou no Programa de Agentes Comunitários de Saúde (VASCONCELOS; LIRA; LIMA, 2006). Estudos nacionais (TAMASIA; VENÂNCIO; SALDIVA, 2015; RAMOS et al., 2010; DEMÉTRIO; PINTO; ASSIS, 2012) e internacional (SILVA et al., 2014) indicaram medianas de AMT superiores a 365 dias. Outras pesquisas realizadas na Paraíba (OLIVEIRA et al., 2013), Pernambuco (VASCONCELOS; LIRA; LIMA, 2006; OLIVEIRA et al., 2013; CAMINHA et al., 2010), Piauí(RAMOS et al., 2008), Minas Gerais (CHAVES; LAMOUNIER; CESAR, 2007; FREITAS et al., 2012)e São Paulo (BERNARDI; JORDÃO; BARROS, 2009) relataram medianas menos elevadas variando entre 112 (VASCONCELOS; LIRA; LIMA, 2006) e 237 (CHAVES; LAMOUNIER; CESAR, 2007) dias. A diversidade observada na duração da prática de aleitamento materno sugere a importância do incentivo a realização dos diagnósticos situacionais locais no sentido de subsidiar o planejamento de intervenções apropriadas.
No que diz respeito a situação de aleitamento materno das crianças estudadas considerando a frequência ou não a creche na ocasião da entrevista a maior parte das crianças aleitadas ao peito eram de creche pública (44,2%). Também foi neste grupo de crianças que se constatou tempo médio de aleitamento materno total mais elevado (10,15 meses). A maior oferta de leite materno à crianças de frequentadoras de creches públicas neste estudo pode-se dever ao fato destas crianças pertecerem a famílias de rendas mais baixas, o que favorece a oferta do leite materno como meio de poupar rendimentos (ARAÚJO et al., 2004; ROCHA et al., 2010).
As crianças frequentadoras de creches privadas, por sua vez, apresentaram as menores médias de aleitamento materno (7,80 meses), e na ocasião da coleta dos dados apenas 20% das crianças de creches privadas estavam em aleitamento materno. Este panorama sugere a necessidade de apoio e incentivo ao aleitamento materno especialmente nesta modalidade de creche uma vez que as mesmas exercem importante papel na formação dos hábitos alimentares das crianças pequenas e constituem lugares apropriados para incentivar a manutenção do aleitamento materno e difundir mensagens de educação nutricional e
Em São Paulo, estudo transversal realizado com 255 crianças, com faixa etária entre cinco e 29 meses, ao descrever os erros alimentares presentes na introdução da alimentação complementar e na oferta de leite não materno em crianças frequentadoras de creches públicas evidencia introdução do leite não materno em 40% das crianças até três meses e em 78% até seis meses (GOLIN et al., 2011). Achados semelhantes ocorreram em estudo de Barbosa et al. (2009) ao estudar 56 crianças de nove a 18 meses de idade matriculadas em cinco creches de São Paulo ao apontar a ferquencia a creche pública como fator de risco para tempo insuficiente de desmame (OR 3,20; IC95% 0,77-14,29).