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O PCB, apesar da sua histórica disciplina interna, sempre foi marcado por circunstâncias conjunturais que levaram a organização ao cisma. Após o debate sobre o golpe e as razões da derrota, uma nova pauta se apresentava nesse horizonte histórico de divisões.

[...] o PCB passou por dilacerantes divisões ao longo de toda a sua história, mantendo em geral um padrão ‘tríplice’: dissidências ‘à esquerda’ e ‘à direita’, debeladas por um setor majoritário de direção dito ‘centrista’, que busca sua legitimação assumindo uma posição equilibrada entre uma e outra vertente. As bases para as divergências da virada dos anos 1970 para os anos 1980 parecem estar dadas desde de muito antes [...] (SILVA, 2005, p. 44).

O paulatino roteiro dessa nova dilaceração se iniciou com os debates para a realização do VI Congresso, após o golpe de 1964, e tinha como um dos pontos centrais a disputa pelo comando do PCB, a partir da sua direção.

Para além da disputa pelo aparelho, esse ciclo de divisão se orientou pelo contraponto com o cabedal teórico-político, a partir do qual se estabelecia uma ou outra interpretação do que ocorria no Brasil. No entanto, um fator pode ter sido importante para desvelar esse processo: a diáspora do partido no exílio.

[...] O exílio permitiu a muitos ter maior contato com os diferentes caminhos propostos no movimento socialista. [...] as experiências de vida diversas pelas quais os pecebistas passaram naquele período (o secretário-geral Luiz Carlos Prestes sempre isolado por questões de segurança e exilado em 1971; o restante da direção exilada em 1975; militantes espalhados por diversos países; a maioria permanecendo no Brasil sem contato direto com o exterior) guardariam relação com as divisões posteriores do partido (SILVA, 2005, p. 44).

Uma das primeiras questões, levantadas a partir do debate do VI Congresso, foi sobre a longevidade ou não da ditadura no poder. Prestes examinou que o período seria duradouro, no entanto, o grupo majoritário no CC comandado por Giocondo Dias tinha como certo a brevidade do período. Parece ser uma questão menor, contudo, tratava-se de uma perspectiva de onde deveria partir a política do partido para enfrentar a ditadura burgo-militar. Todavia, a consolidação dessa postura no CC, e de toda a política derivada dessa maioria, ocorreu através do processo de isolamento do Secretário Geral do partido no Brasil e, depois, no exterior. “Com a ausência de Prestes, Dias assume, de fato, a secretaria-geral do PCB, procurando imprimir seu estilo de trabalho ao Secretariado, à Comissão Executiva e ao Comitê Central” (FALCÃO, 1993, p. 293). É importante registrar que o desterro de Prestes, contra sua vontade, para o exterior, foi uma decisão articulada por Giocondo Dias na reunião do CC do começo de 1971 alegando preocupações com a segurança do líder do partido e em virtude de um suposto plano das forças da repressão para matá-lo.

Prestes reagiu energicamente, argumentando que não havia nenhuma razão fundamentada para essa medida, pois nada tinha a ver com seqüestros, assaltos ou com a guerrilha urbana. Não acreditava, portanto, que seu assassinato estivesse nos planos da polícia. Chegou até a sugerir que se tratava de um falso pretexto para afastá-lo da Comissão Executiva (FALCÃO, 1993, p. 288).

Uma nova inflexão ocorreu nas formulações do Secretário-Geral ao analisar o cenário político brasileiro ponderou sobre a possibilidade da luta armada. Em 1972, do exílio, Prestes escreve um artigo sobre A luta revolucionária dos comunistas brasileiros, publicado no jornal a Voz Operária, número 87. “A ditadura, como diz a Resolução Política do VI Congresso do nosso partido, poderá impor ao povo o caminho da insurreição armada ou da

formas de luta” (PRESTES, 1972, p. 2). Embora expressa pelo Secretário Geral essa opinião tinha pouca repercussão dentro do partido e quase nenhuma no comando dirigente do PCB.

Prestes, no exílio, desenvolve uma intensa jornada de estudos sobre a realidade brasileira tendo em vista se contrapor ao reformismo contido nas resoluções políticas. Porém, com toda preocupação para respeitar as orientações tiradas pelo partido. Na sua jornada de trabalho ele estuda obras clássicas do marxismo e “[...] autores brasileiros contemporâneos, entre os quais os escritos do sociólogo Florestan Fernandes” (PRESTES, A., 2012, p. 190).

Reflexões a partir do debate feito por Prestes vai repercutir na construção de uma nova interpretação dobre a ditadura burgo-militar:

Em novembro de 1973, sob influência da derrota da experiência chilena e hegemonia dos partidários de Prestes, o PCB lança a

Resolução Política Por Uma Frente Patriótica contra o Fascismo,

defendendo a tese de que o regime evoluiu para uma ditadura militar fascista, cujos principais aspectos são: utilização das forças armadas como instrumento político-repressivo e suporte direto do regime; ampliação dos órgãos de segurança, que dominam o aparelho de Estado e a vida do país; aplicação do terror como principal método de governo; maior controle da vida sindical, atrelando os sindicatos ao Estado; política econômica baseada na intensificação da exploração da classe operária e exploração da nação, entre outras (SAMPAIO, 2003, p. 95).

Outras fontes informam sobre a dedicação do Secretário-Geral no estudo do tema fascismo. “Prestes, sem utilizar diretamente o conceito de Capitalismo Monopolista de Estado (CME), apoiava-se em suas características essenciais para explicar a implantação do fascismo no Brasil” (PRESTES, A., 2012, p. 193).

Em dezembro de 1975, o CC no exílio realizou a reunião de seu Pleno e lançou duas resoluções (política e organização). Os documentos continham uma forte presença das posições de Prestes, apesar de manter o discurso genérico das resoluções do VI Congresso. No texto político afirmava-se a necessidade central do partido “[...] organizar a ação da classe operária, que deve ser a força aglutinadora e condutora da frente antifascista e patriótica. Para a Resolução, a mobilização contra o ‘arrocho salarial’ é a principal forma

concreta da classe operária se integrar na luta contra a ditadura” (SAMPAIO, 2003, p. 98). O texto político em sua junção como de organização

Afirma que o partido não pode perder de vista o fato de que sua tarefa principal é conduzir a luta revolucionária até seu objetivo final: a tomada do poder pelo proletariado, de sua ditadura de classe e, conseqüentemente, do socialismo no Brasil. Termina constatando os erros e desvios do partido: a concepção errônea do papel da classe operária na revolução, a subestimação do partido, o não vê-lo como um partido operário por essência, e indispensável à realização da ligação de teoria do comunismo científico com o movimento espontâneo da classe operária. Estão aí, acima descritos os principais pontos e concepções de Prestes e seu grupo. [...] Ainda mais importante é perceber sua concepção da lógica do processo político – calcado na visão dimitroviana da luta contra o fascismo, qual seja: fascismo – unidade operária – frente popular – liberdades democráticas – socialismo (SAMPAIO, 2003, p. 98).

Talvez essa tenha sido a primeira vitória das posições do Secretário Geral nas formulações do partido em muitos anos. No entanto, é pertinente considerar que o CC que aprovou essas resoluções tinha sofrido modificações com as cooptações de Marly Vianna, Anita Prestes e Gregório Bezerra. Modificou-se também, nessa reunião, a composição da Comissão Executiva que passou a ser integrada por Prestes, José Salles, Armênio Guedes e Giocondo Dias (mesmo no Brasil). Nesse mesmo processo, o secretariado do partido foi composto por Prestes, Marly Vianna e Severino Teodoro de Melo.

As próximas resoluções até novembro de 1978, que já foram analisadas neste trabalho, foram modificadas de forma substancial a partir da nova correlação de forças no CC e da influência da “assessoria” do CC no exílio.

O debate surdo, pois interno à direção do partido e à assessoria teve, ainda, outros lances à esquerda a partir da carta de Prestes ao partido de agosto de 1977, e das Resoluções de novembro de 1978, mesmo que por um pequeno período. Todavia, o grupo à direita no espectro político do CC liderado por Giocondo Dias, contando com o apoio do centro pragmático que ficou conhecido como “Pântano” e com as formulações da assessoria, voltou a pautar as formulações do partido e continuou a dirigir as ações do PCB.

Benzer Belgeler