As dificuldades encontradas pelo PCB nos anos 1970 foram de várias ordens: orgânicas, políticas, questões oriundas da ação da repressão e os impasses produzidos pela desconexão entre realidade concreta e formulações. Tudo isso se avolumava no sentido de um ajuste de contas que iria influenciar a pauta do debate quando ele iniciasse na instância superior do partido. No exílio, o tempo político para analisar o Brasil e discutir as formulações era imensamente maior, mesmo com as prementes necessidades de respostas que a conjuntura interna do país demandassem. Sobressaíam, no longo roteiro de discussão do PCB no exílio, as preocupações sobre como ocorreu o esmagamento do partido pelo aparelho repressivo da ditadura. Mas também o interesse em entender o porquê dessa ação do governo.
O PCB, a partir do início dos anos 1970, vai se transformando paulatinamente em um partido exilado. A principal liderança do partido, o Secretário-Geral, começava a ter muitas dificuldades para desenvolver qualquer ação de direção e se mostrava preocupado com a situação de sua família. Mesmo não sofrendo uma perseguição maior, Prestes considerou importante enviar sua família para o exterior no ano de 1970. No ano seguinte, em março de 1971, diante dos impasses que norteavam a direção do partido e do perigo que representava a repressão e as possibilidades de prisão, Luiz Carlos Prestes partiu para o exílio em Moscou na URSS.
Prestes e sua família começaram a deixar o país em 1970. Médici tinha assumido o poder e as pressões aumentavam. Para a família de Prestes, a situação era particularmente difícil: desde 64 vivia em Vila Mariana, na mesma casa onde foram encontradas as famosas cadernetas, sem sofrer qualquer incômodo por parte dos órgãos de segurança. No princípio dos anos 70, o quadro começou a se inverter. Prestes não aparecia mais em casa, mas a polícia começava a rondar as proximidades, na expectativa de surpreendê-lo ou seguir algum mensageiro (MORAES & VIANA, 1982, p. 194).
seu desterro em Moscou em 1971. Nesse período começa o questionamento da política do partido a partir do estoque político e categorial que influenciava os dirigentes que, de forma dispersa, se estabeleciam pela Europa. Todavia, os dirigentes que ficaram no Brasil, mesmo diante da assoberbada situação, despertavam para pontos que consideravam contraditórios na política do partido e nas manifestações discursivas do Secretário-Geral.
Prestes, ao se estabelecer no exílio, despertou para uma situação inusitada: era um Secretário-Geral isolado da direção do partido pela ação da maioria dirigente.
Eu conheço a história do movimento comunista desde 1932 e não conheço nenhum caso de isolamento do secretário-geral diante do Comitê Central. O secretário-geral deve ser o porta-voz do CC, mas comigo aconteceu justamente o contrário: eu estou isolado do CC desde 68, quando propus uma interpretação verdadeiramente revolucionária da parte da resolução do VI Congresso que trata do poder. Partia do princípio de que o comunista deve lutar por um poder revolucionário. Dizer isso não é golpismo, nem esquerdismo (PRESTES, Apud, MORAES & VIANA, 1982, p. 193).
Todos na estrutura da direção do partido consideravam de suma importância desenvolver o debate dos temas que estavam sussurrando na vida partidária. No entanto, o discurso oficial dava conta apenas da necessidade de aperfeiçoar a linha política para enfrentar a ditadura burgo-militar; reestruturar o partido e prosseguir na luta pelo eixo central da orientação comunista: a luta pelo socialismo.
No entanto, no aparato de direção surgiram outras questões que vão caracterizar e nortear o debate. Por um lado, essa discussão foi pautada pelo entendimento de que o Brasil era um país capitalista em consolidação, portanto, cresciam e se desenvolviam as forças produtivas, afirmava-se uma densa superestrutura, com as classes sociais e seus extratos em perfeito funcionamento dentro do contraditório jogo social, o que resultou numa formulação de que o caráter da revolução brasileira era de natureza democrática. Essa revolução democrática respondia às demandas da etapa em curso e sua condução deveria ser exercida pela classe operária na perspectiva do socialismo. Essa era a compreensão daqueles que analisavam o Brasil no grupo que atuava em torno de Prestes e que tinha uma pequena ramificação dentro do Brasil e na Europa, embora fosse pequeno, dentro do Comitê
Central. Um fator contribuiu para essa formulação no grupo prestista: o curso que muitos deles tomaram sobre o livro O capital de Karl Marx em Moscou, ministrado pelo professor Anastacio Mansilla e sua equipe no Instituto de Ciências Sociais55. Para a professora Marly Vianna (2013) esse curso possibilitou a construção do entendimento sobre quais eram as características centrais do capitalismo no Brasil.
Por outro lado, uma das partes que alimentavam a polêmica a respeito das formulações que pautaram o debate do PCB no exílio, ou seja, do debate sobre o Brasil no núcleo dirigente, começava a se consolidar em um grupo em torno de Giocondo Dias. Em torno do Cabo Vermelho, que participou do levante da cidade de Natal em 1935, e que ainda se encontrava no Brasil, colocaram-se figuras que se encontravam no exílio, a exemplo de Armênio Guedes, Zuleica Alambert, alguns intelectuais, Givaldo Siqueira e o centro pragmático do Comitê Central56. Esse centro pragmático seguia o grupo de Giocondo Dias e era pautado especificamente pelas resoluções do V Congresso e pelas formulações da Declaração de Março, embora não tivesse maior contribuição ao debate. Essa maioria, que se articulava em torno de Giocondo Dias, considerava que o caráter da revolução brasileira era nacional- democrática, portanto, deveria incorporar a chamada “burguesia nacional” como aliado dessa estratégia nas frentes de luta contra a ditadura que governava o Brasil. No entanto, um registro se faz importante para esse processo de entendimento das formulações do PCB no exílio: a nova postura política de Prestes. O Secretário-Geral havia começado a levantar polêmicas ao discutir qual seria o eixo central dos encaminhamentos sobre a interpretação do Brasil. Consolidava-se uma movimentação de Prestes no sentido de romper com as orientações da Declaração de Março e do V Congresso. Essa posição mostrava uma inflexão política e teórica de Prestes porque, em grande medida, ele havia sido um dos principais articuladores dessas formulações e tinha lutado, internamente, para manter essas duas
55 O Instituto de Ciências Sociais era também conhecido como a Escola de marxismo-leninismo onde comunistas de várias partes do mundo estudavam.
56 Agrupamento de menor intervenção intelectual que se colocava de forma oportunista na política interna, objetivando manter as posições que detinha na estrutura partidária e alguns pequenos privilégios. Esse centro pragmático é
políticas como eixo central da orientação para o partido, mesmo depois da derrota que o PCB sofreu em 1964 e da consolidação da ditadura burgo-militar.
Essa inflexão política que Prestes realizou em meados da década de setenta, mais especificamente em torno do ano de 1973, teve impacto na estrutura do PCB. Prestes, a partir de uma rotina de estudo,
[...] constatou a existência na economia brasileira de um tripé constituído pelo Estado, pelos monopólios nacionais e pelos monopólios estrangeiros. O entrelaçamento desses três elementos seria de tal ordem que se poderia postular a presença no Brasil de um Capitalismo Monopolista de Estado (CME) dependente, uma vez que o capital estrangeiro era o dominante no referido tripé. [...] Na realidade, conforme diversos trabalhos de pesquisa realizados no Brasil e no exterior puderam revelar, a dominação imperialista e o latifúndio não constituíram empecilho ao desenvolvimento capitalista do país, marcado, contudo, pela dependência do imperialismo e pela ausência de uma reforma agrária de caráter burguês (PRESTES, A., 2012, p. 191).
O curioso desse processo é que, até período muito próximo dessa inflexão, Prestes havia apoiado todas as políticas do partido.
Pouco depois, o coletivo que vivia no exílio, trabalhando enquanto direção, iniciou um debate que teria como produto formulações, resoluções e encaminhamentos políticos para as diversas frentes de massas do partido no Brasil. No entanto, apesar dos danos causados pela repressão ao PCB, o partido costurava o enfrentamento da ditadura através de articulações pelo alto com setores da frente oposicionista que resistiam ao regime burgo-militar de 1964, na cena institucional.
2.2 As resoluções políticas e os encaminhamentos para as frentes de