2.2 Üretim Maliyetleri
2.2.2 Hammadde ve Malzeme Maliyetleri
Se a criação de uma Imagem do sertão perpassa pelas figuras supra analisadas, é justamente na cena do suposto assassinato de Ismael que elas se congregam na consolidação da leitura alegórica da aridez, a começar pela areia e pelo riacho seco, constantemente mencionados, que adquirirem status de figura própria, sobretudo porque o riacho é o verdadeiro “palco de tragédias” (BRITO, 2009, p.135) galileiano. Todavia, como dissemos, essas figuras se relacionam com as duas metonímicas e metáforas do sertão árido e violento para Adonias: o sol e as pedras. No clímax do romance, quando Adonias ataca passionalmente Ismael no leito do riacho seco, acreditando tê-lo matado, ele utiliza como arma justamente uma pedra, ao mesmo tempo em que o sol ofusca sua visão:
Afastei-me pelo leito seco do riacho, no rumo da casa do avô. Mal dei alguns passos, Ismael gritou:/ - Adonias, não se faça de santo! Ninguém presta na família. Pergunte a Davi o que ele sabe de sua mãe Ester! Por que ela foi embora daqui?/ Ismael pronunciou o nome de minha mãe sem lavar a boca suja. Mexia em suspeitas sem provas. O sol a prumo na cabeça cegou meus olhos. Procurei com que matá-lo, e só achei uma pedra (BRITO, 2009, p.141).
Sem utilizar nenhum adjetivo, a Imagem descreve um sol extremamente potente, impiedoso, por meio da construção metonímica na qual seu vigor é percebido por meio de sua consequência, a cegueira, um paralelismo temático e estrutural que retoma a Imagem inaugural do sertão. Essa metonímia é desdobrada em associações implicativas: quando o sol está a prumo, a sua angulação atinge o auge de sua incisão e, consequentemente, a sua máxima luminosidade, o que justifica a “cegueira” causada no protagonista. Aqui, percebemos o espaço por uma justaposição das sensações do protagonista e das próprias memórias sensoriais do leitor, que atualiza a imagem construída com base no seu repertório empírico.
Exatamente por simular o dinamismo da percepção da realidade, esse é outro exemplo em que a Imagem poética sintética oferece máximo de significação em um mínimo de espaço. Esse dinamismo é conseguido, sobretudo, pela construção sintática seca, na qual não há conectivos entre vocábulos, ordenados sintaticamente de maneira a simular um movimento descendente, começando com o sol a prumo, a partir do qual os demais vocábulos são elencados de acordo com a sua altura, até chegar aos olhos do protagonista. Ou seja, a Imagem simula a incidência solar que atinge subitamente o protagonista, por meio da construção frástica, em que faltam conectivos e desenvolvimentos, de maneira que o repentino arrebatamento sensorial causado pela luminosidade é recriado sensivelmente no corpo do texto.
157 Por outro lado, como a visão é comumente tida como o sentido mais racional, o torpor e a cegueira causados pela luz excessiva remetem à loucura, à falta de visão metafórica, conforme já abordamos. Isso faz com que a racionalidade de Adonias seja obliterada pela situação em que ele se encontra, pelas palavras de Ismael e pelo sertão, determinador de comportamentos irascíveis, segundo a visão do narrador-protagonista. A construção dessa Imagem é potencializada quando retomamos novamente os preceitos de Bataille explanados por Schøllhammer:
O sol é para o ser humano a imagem de tudo o que existe de mais elevado, continua Bataille no ensaio 'Sol Apodrecido' (1994, pp.55-59), de 1930; a imagem do sol é a figura poética da 'clareza matemática e da elevação espiritual'. Não obstante, nenhum ser humano suporta contemplar o sol até atingir plenamente a clareza do conceito. A tentativa de ver o sol diretamente exige um grau de loucura, uma transgressão dos limites extremos dos sentidos do corpo, cujo resultado, apesar do sacrifício e da dor, é apenas um resto de escuridão que permanece quando a luz se apaga. […] Dessa maneira, a metáfora solar é invertida: com a perda de soberania do intelecto, desloca-se do seu antigo estatuto de expressão elevada da verdade espiritual para o impulso sensual mais baixo. Isto é, o acefálico, ligado ao sacrifício ritual […] (SCHØLLHAMMER, 2007, p.87).
Nesse trecho, percebemos que o contato com a força primitiva do sol causa a mencionada “perda de soberania”, suscitando comportamentos irracionais, passionais, sensuais e sacrificiais. Isso porque o narrador-protagonista mais uma vez está sob efeito do arrebatamento greimasiano, no qual o sujeito depara-se com forças inesperadas que o dominam e o extasiam, fazendo com que a comunicação com o mundo se dê predominantemente de maneira sensorial e não inteligível. Logo, há uma abordagem sensível, na qual as qualidades do sol são apreendidas em sua imediatez, sob domínio da primeiridade perciana, ou seja, sem a mediação simbólico-convencional da terceiridade. Isso acarreta uma abordagem não lógica- racional e linear, visto que o narrador-protagonista está sob domínio de suas sensações, respondendo instintivamente, e não racionalmente, os estímulos sensoriais da primeiridade, e, tal qual um inseto, busca a conjunção com a luminosidade fascinante e aniquilante.
Logo, a luz é alegoria da perda completa de racionalidade, haja vista o contexto de sua ocorrência, em que se aborda a reação de Adonias ante a confissão de Ismael, que acabara de admitir que mantinha relações sexuais com a madrasta, resultando em um comportamento impulsivo e irracional por parte do protagonista, que mantém com este uma relação platônica91.
91 Os sentimentos platônicos de Adonias pelo primo ficam evidentes na cena da discussão, quando o narrador
158 O narrador-protagonista é então arrebatado pelos sentimentos desencadeados pela revelação e pelo sol, elementos que o levam ao limite de sua sensorialidade, anulando o seu tão estimado auto-controle racional e culminando na investida passional contra o primo. Assim, a cegueira literal, causada pelo súbito ofuscamento que arrebata visualmente (e sensorialmente) o narrador-protagonista figurativiza o também repentino arrebatamento emocional – e irracional – causado pela revelação inesperada de Ismael, oferecendo uma dupla leitura.
Após o suposto assassinato, já na casa de um dos tios, a mesma metáfora de cegueira intelectual será retomada: “Ofuscado pelo sol brilhante de fora, imerso no tom escuro das salas, fiquei cego e nada vi” (BRITO, 2009, p.147). O paralelismo entre essa cena e a do ataque contra Ismael é evidente, dado que ambas exploraram estésica e metaforicamente a figura do sol, ainda que nessa citação, a leitura alegórica seja menos marcada. De qualquer maneira, vemos que a exploração sensorial da potência do sol implica na obliteração da racionalidade civilizada. Ademais, nessa cena temos novamente vocábulos que aludem direta ou indiretamente à cegueira e ao arrebatamento sensorial, caso do verbo ofuscar que reforça a assumida cegueira do protagonista.
À leitura alegórica influenciada por Baitalle, em que o tema abstrato da perda de controle e de individualidade é figurativizado por meio da intensidade solar, acrescenta-se outra, a qual relaciona intrinsicamente as ações humanas, em especial a violência, ao espaço. Essa segunda leitura, que instaura a alegoria máxima de Galileia, só é possível devido às relações sintagmáticas mantidas entre a citação e seu contexto, de modo que a aridez humana não é apenas construída por meio da figura de sol implacável, mas pela sua junção com as figuras da pedra e do leito de riacho seco, as quais, conforme vimos, são metonímias e metáforas do sertão-árido, constituindo as suas figuras máximas.
No excerto em questão, essas figuras funcionam literalmente como arma letal e cena do crime, respectivamente. Logo, o ato máximo de violência acontecido no presente da narração, a tentativa de homicídio perpetrada por Adonias, é concretizada por meio do item que mais caracteriza o espaço sertanejo e árido, a pedra, “matéria-prima do sertão” (BRITO, 2009, p.7), de tal maneira que é o próprio espaço árido, ou a sua aridez inerente, que são agentes ativos do assassinato. Doravante o suposto assassinato de Ismael, a pedra passa a ser associada à inelutável aridez humana, na medida em que associa o sertão, do qual é sinédoque, à violência humana, da qual é metonímia, ligando diretamente os dois tipos de aridez expostos no romance.
era o seu amante, primo?/ - Vá se foder, Ismael! Você traiu minha confiança. Eu e avô fomos os únicos a defendê-
159 Consequentemente, a leitura alegórica que associa a aridez do espaço aos personagens é maximizada nesse trecho, vinculando definitivamente as categorias humanas e espaciais e reafirmando a alegoria que, além de propiciar uma leitura literal, em que a pedra é meramente arma de um assassinato, oferece uma leitura figurada a qual enfatiza a violência do episódio. Mais do que isso, o sertão, ao “motivar” e ser agente “ativo” do assassinato, reforça a inexorabilidade da violência humana, na medida em que o homem é fadado a esta, compelido por forças externas e incontroláveis.
Neste trecho, clímax do romance, Ismael e Adonias tentam finalmente se entender, em um vislumbre de solidariedade que poderia se contrapor à violência onipresente na família. No entanto, o indício de fraternidade não apenas não perdura, como é brutalmente interrompido pelo ataque que vitimiza Ismael. Sendo cenário de outro assassinato famoso nas histórias da família, o de Donana, o espaço dessa ação é o verdadeiro “palco de tragédias” ao qual se refere tio Salomão (BRITO, 2009, p.135). Sendo assim, vemos que a figura do devastado riacho seco como cenário dessas violências oferece uma leitura alegórica que associa a falta de água e sua consequente sequidão à falta de vida e à violência humana ali desenvolvida, como se as consequências das relações humanas fossem tão áridas quanto a sequidão do riacho e tão assoladoras quanto a falta de água que resulta em morte. A intersecção entre o texto figurado e o literal se dá, portanto, e por meio dos semas da hostilidade e da inospitalidade, comum a ambos. O riacho seco, mais do que um cenário inativo, é “palco de tragédias”, portanto, espaço
dedicado a tais atos.
Enquanto em outras citações as figuras da aridez ofereciam uma leitura alegórica para o tema abstrato da violência humana, nas quais o espaço refletia os receios de Adonias em relação à família, ou figurativizava as violências desta, nesse trecho específico, o árido, representado pela tríade máxima da aridez, o sol, a falta de água e a pedra, determina a ação humana, tornando concreta a crença inicial de Adonias que atribui a secura familiar ao espaço. Ou seja, o espaço nesse trecho “motiva” a violência e fornece tanto a arma quanto o local para o assassinato, criando uma área de contato indivisível entre atos humanos e sertão-árido, cujo resultado é a alegoria.
Essa hipótese é mais evidente na análise da invasão do campo de presença de Adonias pelo fulgor solar, cuja intensidade subitamente percebida é alegoria da sua explosão intempestiva, sobretudo porque o seu ímpeto destrutivo não é só proporcional e equivalente à potência solar, mas causada por esta. Em outras palavras, o intensivo ímpeto destruidor de Adonias é, portanto, figurativizado e motivado pelos intensos raios solares, de modo que
160 existem duas leituras alegóricas que se comunicam além da interpretação literal.
A Imagem do sol é um “conector metafórico” cuja zona de intersecção é máxima pois propõe várias leituras alegóricas, que se constroem por meio de metáforas e metonímias: em primeiro lugar, figurativiza, junto com outras figuras, o tema abstrato da violência humana, a segunda leitura propõe uma alegoria que associa a cegueira causada pela luminosidade intensiva à crise de irracionalidade que domina o protagonista. Já em terceiro lugar, o súbito impulso assassino de Adonias é alegorizado pela inopina potência do sol e, em quarto e último lugar, como derivação das associações anteriores, temos a alegoria do sacrifício ritualístico de Ismael.
Essa última alegoria não é figurativizada necessariamente pelo sol, mas pela conjunção das três alegorias precedentes, isto é, a irracionalidade causada pelo arrebatamento solar e sua pronta manifestação violenta, pois o assassinato motivado pelo sol pode ser associado aos rituais pagãos de sacrifício em nome da divindade solar, a qual, na literatura cristã é associada a Deus. Por consequência, Ismael é assassinado como uma oferenda em nome desse Deus-Sol- Árido, como se sua morte fosse uma oferta à própria violência, uma semi-entidade na família em questão:
Mas não é apenas aqui na Galileia que esses crimes acontecem. Não é apenas na Galileia, não é apenas na Galileia, não é apenas na Galileia. Aonde minhas pernas me levarem, tropeçando sobre lajedos, afundando em areia, em qualquer metrópole ou vila, no deserto mais longe, eu sei que ocorrem massacres e carnificinas. Me vem de novo o filósofo romeno. Porra! A cabeça não para! Não é apenas aqui, na Galileia, nesse limitado espaço de terra, que as pessoas se odeiam. Em qualquer lugar do planeta as pessoas se odeiam,
mas nem sempre estão à altura de seu ódio. Nós, da família, nos elevamos acima da mediocridade que nos cerca, e nosso ódio aflora em busca da tragédia. Por isso matei Ismael. Está mais do que claro, e mais do que
justificado. Matei-o em busca de um instante de poesia, para que ele não se perdesse em movimentos repetidos e desconexos. Salvei-o de se tornar feio. Eu sei reproduzir a beleza sem me perder em gestos falsos e Davi conhece as entranhas da música. Ismael alcançou um instante de grandeza que nunca mais se repetirá. É isso. Tudo é tão lógico, mas não consigo parar de chorar. Ismael, eu nunca vou esquecer a beleza do seu rosto espantado, olhando para mim.
Sua vida turbulenta justificou-se pela majestade do sacrifício, pela imobilidade com que aguardou o martírio, debaixo da árvore. Você seria
incapaz de repetir o instante absoluto, por mais pedras que eu arremessasse. Gostaria de ler seus pensamentos, mas não posso acessar a memória de um morto. Ismael, melhor que eu o tenha matado agora, antes de entrarmos numa
ordem de ferocidade que se tornou monótona. Não sei o que virá em seguida
à sua morte, mas reconheça que tive coragem de tomar a dianteira. Eu, o mais imbecil de todos nós./ Me perdoe, primo querido; estou chorando. Depois de viver em outras sociedades, de reconhecer o esforço que elas fizeram para se diferenciar do que nós somos, voltamos à barbárie e praticamos os mesmos atos de sempre. Por quê? Me responda! Estou desorientado, e só consigo me
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você afirmou que sou duro. O que esperava que brotasse desse chão? Foi para matá-lo que você me carregou nos braços, quando furei o pé? Ismael, acabe com essa brincadeira de se fingir de morto! Levante, vamos rir disso tudo, do mesmo jeito que choramos na noite passada. Vou retornar ao ponto em que o deixei caído. O ferimento em sua testa é uma pequena marca que nem se percebe. Fui eu que o feri, ou foi você que me feriu?/ Não tenho coragem de confessar o que você adivinhou. Nem a você morto eu falo. Não me peça. Que se dane, Ismael! Você recebeu o que sempre pediu, o que merecia. Reúno os tios e digo a eles que você está morto. Que caiu de uma árvore e fraturou o crânio. Se quiser me tornar respeitado, digo a verdade. Matei e pronto. Você insultou minha mãe e ainda confessou a nojeira com Davi. O verdadeiro culpado pelo sangue de seu irmão finalmente dormirá tranquilo. Entraremos
em outra ordem por um tempo, até que algum de nós enlouqueça novamente. Mas você já está morto, o avô também estará morto, e nada dessa ordem fará parte de suas preocupações. Agradeça eu tê-lo poupado de novos confrontos, de uma vida sob ameaças. E horrível viver com a faca encostada no peito. Beije-me, Ismael, você não recusa ninguém. Beije-me do jeito que beijaram seu irmão Davi, antes que o sangrassem como um cordeiro de Páscoa. Um cordeirinho tenro. A nossa família de canibais em torno da mesa de banquete, sofregamente roendo ossinhos, mastigando cartilagens, chupando tutano de tíbias, e fíbulas, e fêmures, e cúbitos./ Se não parar de pensar, enlouqueço de
vez. Preciso rever Davi, exaltar sua santidade, acender uma vela para ele, como fazem todos da família. Davi, o príncipe, o que entrou em Jerusalém embriagado, dançando despido à frente de um cortejo de homens. Eu o vinguei, eu juro, eu o vinguei. Não foi pelo insulto ao sagrado nome de minha mãe que matei Ismael. Não foi. Sou lógico demais para me deixar levar por
impulsos. Matei pela mesma razão por que acontecem terremotos. De vez em quando é necessária uma sacudidela, o que nossos instintos aproveitam. Depois, tudo volta a ser como antes. Tudo igual. A paisagem conhecida, a casa
do avô ao centro, as casas dos tios Natan, Josafá e Salomão em volta, e a sombria Casa-Grande do Umbuzeiro, minha provável sepultura (BRITO, 2009, p.143-144 – grifos nossos).
Nesse longo trecho, a ser retomado, percebe-se que a violência que perpassa a família é assumida por Adonias no momento imediatamente após o suposto assassinato de Ismael. Além disso, o vemos associado ao carneiro sacrificial da liturgia cristã, atualizando a alegoria da imolação ritual. Na verdade, ao colocar primeiramente tanto Ismael quanto Davi, vítimas da violência familiar, sob a denominação de cordeiros sacrificiais, todo o histórico de violência familiar ganha um novo status, como se esta fosse realmente ritual, simbólica e atemporal, e a aridez e suas figuras, seus elementos litúrgicos. Doravante, os atos violentos transfiguram-se em gestos ritualísticos, um culto à violência per se, de maneira que matar Ismael é um rito de passagem, de iniciação ao mundo familiar da Galileia, como fica claro quando o narrador- protagonista afirma que a assunção do assassinato lhe traria respeito92.Adonias, então, além de se inserir na família, incorpora a máscara de Caim, inicialmente atribuída a Davi e a Ismael93.
92 “Se quiser me tornar respeitado, digo a verdade. Matei e pronto” (BRITO, 2009, p.144).
162 Ou seja, há uma inversão de papéis que aumenta a crueldade da cena, afinal, inicialmente os papéis típicos de Abel e Caim eram atribuídos aos irmãos Ismael e Davi, cuja relação sempre fora problemática, de maneira que o crime desferido por Adonias contra o primo amado torna- se ainda mais dramático, justificando essa abordagem mística do assassinato.
Além disso, percebemos claramente que Adonias se coloca como mero joguete da fortuna, passível das ações do destino, sugerindo que o assassinato teria sido cometido contra a sua vontade, de tal maneira que o narrador-protagonista é associado às personagens mitológicas clássicas que, independentemente de seus desejos, sempre cumprem as profecias e os destinos a eles impostos, por mais que eles tentem se esquivar dos mesmos, como é o caso de Édipo94, exemplo máximo de imposição do destino e máscara constantemente associada a Adonias ao longo da narrativa.
Inclusive, logo no começo desse trecho, Adonias afirma que, ao contrário dos demais homens, a família assume a natureza violenta inerente à humanidade, buscando a tragédia. O gênero clássico, é mencionado não só por conta do final adverso ao qual seus heróis mitológicos são submetidos, mas à própria condição destes, condenados a executarem as suas próprias punições, a fim de espiar seus vícios inerentes, sem possibilidade de redenção ou mudança. Ou seja, são condenados a priori pela sua natureza e, independentemente das ações que executem, as profecias e o seu destino serão cumpridos, propiciando, para os espectadores, a catarse necessária.
E é justamente esse o ponto de vista de Adonias, segundo o qual ao extravasarem a agressividade, os membros da família abarcam os destinos lhe consignados previamente, de tal maneira que suas ações não são mais do que a execução honesta do papel que lhes fora destinado, em uma catarse às avessas. Isso fica claro quando o narrador afirma que a família tem a coragem de ultrapassar a mediocridade em busca da tragédia, mas também na repetição de uma suposta “ordem de ferocidade”, um ciclo de violência pré-destinada e cujos atores se revezam95. Como se percebe, segundo Adonias, a dinâmica da família se dá por meio da violência, da qual não existe escapatória possível.
O próprio narrador-protagonista se sente fadado a seguir os caminhos violentos já traçados pelos antepassados, como se a tentativa de homicídio de Ismael fosse um desenvolvimento natural das relações humanas, situação verificável quando Adonias afirma que