C) KORUMA TEDBRLERNN ÖN ARTLARI
II. HAKSIZ TUTUKLAMA NEDENYLE TAZMNAT
No primeiro ano de sua segunda administração estadual (1908), Alberto Maranhão deu início à expansão e à qualificação da educação do estado e a edificação de grupos escolares passou a ser uma das inovações desse governo marcado pelo interesse em fazer efetivar-se uma remodelação urbana, direcionada a partir de parâmetros característicos de uma cidade moderna. Mas verificamos que foi no ano que antecedera a posse de Alberto Maranhão para o seu segundo mandato à frente do executivo estadual que a situação da educação passou a ser vista como uma realidade negativa, que precisava ser revertida e direcionada aos anseios de uma sociedade que gradualmente vinha começando a edificar espaços que se tornariam representativos do progresso republicano na disposição física de uma cidade.
O primeiro importante passo nessa direção foi dado pelo governador Antônio José de Melo e Souza, no ano de 1907, quando, segundo Itamar de Souza, enfatizou publicamente em sua Mensagem Anual, lida perante o Congresso Legislativo, a real situação do arranjo que era a educação do Rio Grande do Norte:
Não é fácil encontrar na Capital, e muito menos no interior do Estado, indivíduos com a idoneidade precisa que, mediante os insignificantes vencimentos que se lhes atribuem, tomem o mínimo interesse por altíssima função de ensinar. E cumpre ver ainda que, além de mal pagos, porque até em algum município apenas se lhes concede a subvenção de 50$000 mensais paga pelo Tesouro em virtude da lei de 1900, essa insuficiente remuneração anda sempre atrasada e o professor, não tendo recursos materiais que lhe permitam utilizar descansadamente o pouco que sabe, vai negociar, vai fazer roçado ou, ainda, recorrer a expedientes que a necessidade sugere a quem não muito raramente atinge as fronteiras da mendicidade [...]. Há, no Estado, 46 cadeiras municipais, estando matriculados em todas 1.766 alunos e sendo a frequência média de 1.353.201
Essa Mensagem Anual revela muito além da preocupada posição do político Antônio José de Melo e Souza diante da educação estadual. Nela vemos incutido o lugar de
fala do governador enquanto intelectual que, sendo professor e jornalista, utilizou-se da fluente capacidade de escrever para demonstrar suas preocupações com a instrução pública, chamando a atenção para a calamitosa realidade dos educadores à época, ao falar dos “insignificantes vencimentos” do professor que, além de parcos, sempre pagos com atraso, forçava-lhes a buscar remuneração em outras atividades. O discurso traz à tona também a insuficiente quantidade de salas de aula – 46 cadeiras (unidades de salas escolares) municipais em todo o Estado –, conforme os dados de matrícula e frequência.
E assim posicionava-se Antônio de Souza, com o intuito de ir além da análise exposta sobre a situação educacional do estado e ao mesmo tempo não parecer refém do curtíssimo tempo que estaria à frente de sua primeira administração estadual. Para tentar amenizar a problemática, mandou edificar em Natal um grupo escolar paramentado com recursos arquitetônicos que se direcionavam para os interesses de modernização da capital. O Decreto nº 174, de 05 de março de 1908, que trata da criação de um grupo escolar no bairro da Ribeira, a ser denominado Augusto Severo, indiretamente elevou o governador Antônio José de Melo e Souza à posição de importante contribuinte para a educação estadual, por ter iniciado a expansão que fora colocada em prática pela administração de seu sucessor. Mas, por trás da valorosa contribuição, também enxergamos a posição que desempenhou como, fiel correligionário, ao repetir o constante hábito de denominar espacialidades com homenagens aos membros da organização familiar Albuquerque Maranhão.
Figura 11: Prédio onde funcionou o Grupo Escolar Augusto Severo,
localizado à Praça Augusto Severo – Ribeira / Natal-RN
De outra forma ainda lhes favoreceu o Grupo Escolar Augusto Severo, pois apesar de oficialmente fundado e tendo iniciada a sua construção no governo de Antônio de Souza, a sua inauguração ocorreu logo no início da segunda administração de Alberto Maranhão. Mas para o governador o fato de a importante instituição carregar o nome do seu irmão mais conhecido não era suficiente. Para celebrar adequadamente a memória de seu irmão Augusto Severo – tomado como exemplo de dedicação aos estudos científicos – era necessário tornar aquele espaço uma referência, um modelo para a educação daquela época no Rio Grande do Norte, e mais uma vez fazer (re)conhecida, junto ao povo, por meio da representação construída com base na atuação de um de seus entes, a atuação de sua organização familiar.
Assim, em meio à política vigente de criação de grupos escolares, o Grupo Escolar Augusto Severo foi elevado à categoria de grupo modelo, pelo do Decreto nº 198, de 10 de maio de 1909, “para servir de tipo ao ensino publico elementar em todo o estado”. Aquele que era considerado o gênio da família Albuquerque Maranhão fora mais uma vez reconhecido, agora dando seu nome à instituição escolar adotada como padrão para toda uma realidade estadual, satisfazendo à vontade do governador.
O citado Decreto, que elevou o primeiro grupo escolar de Natal à condição de modelo a ser seguido pelas demais instituições recém ou futuramente criadas, trazia em seu Artigo 1º importantes elementos que envolvem questões relativas à espacialidade, tanto no tocante à localização daquele grupo escolar, quanto ao indicativo de criação de outros grupos escolares nos demais municípios do estado:
Art. 1º - O Grupo Escholar ‘Augusto Severo’ que funcciona no bairro baixo [Ribeira] da capital, á praça do mesmo nome [Augusto Severo], será a eschola modelo para servir de typo ao ensino publico elementar em todo o Estado, devendo os regimentos internos dos diversos grupos e escholas já inaugurados e a inauguraram-se n’este e em outros municípios, modelar-se
pelo regulamento e regimento interno do ‘Augusto Severo’.202
Localizado na Ribeira, defronte para a Praça Augusto Severo, o Grupo Escolar homônimo indica a intenção do governador de ocupar alguns dos diversos e significativos espaços do estado por intermédio do peculiar processo de nomeação por ele praticado. Nesse ínterim, cabe ressaltar que as iniciativas em torno da expansão educacional do estado, por via da construção de grupos escolares, estavam previstas por legislação específica, cuja vigência fora iniciada em 1907, no governo de Antônio de Souza, com a Lei 249, de 22 de novembro –
202
RIO GRANDE DO NORTE. Governo do Estado. Decreto n. 198, de 10/05/1909. Declara que o GRUPO ESCOLAR “AUGUSTO SEVERO” será a Escola Modelo para servir de typo ao ensino público elementar em todo o Estado. Atos legislativos e decretos do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, 1909.
que autorizava o governo a reformar a Instrução Pública do estado. Essa mesma intenção seria mais uma vez formalizada naquele ano de 1909 na Lei nº 284, de 30 de novembro, que determinava a efetivação de tal reforma na Instrução Pública do Rio Grande do Norte, objetivando inclusive criar novos grupos escolares, além dos que já haviam sido criados por iniciativa do Decreto nº 178, de 29 de abril de 1908 – que ao mesmo tempo restabelecia a Diretoria da Instrução Pública, criava a Escola Normal para a formação de professores, além de grupos escolares e escolas mistas.
E assim, em decorrência dessas leis que trataram da educação estadual, sancionadas entre 1907 e 1909, foi que Natal passou a contar com uma instituição educacional moderna – tanto em parâmetros físicos quanto pedagógicos – que, além disso, trazia um nome de referência. Para Ana Moreira, as propostas física e pedagógica do Grupo Escolar Augusto
Severo estavam em sintonia com o projeto de cidade modernizada, almejado pelas autoridades
que seriam responsáveis pela execução das obras tão desejadas e que iriam concretizar o ideal republicano de progresso nos novos e nos remodelados espaços de Natal:
Era necessário destacar que a cidade moderna também dispunha de uma escola moderna. Sua construção integrou o programa de obras de embelezamento, melhoramento e saneamento da cidade e configurou um projeto estético de modernidade do bairro da Ribeira, na primeira década do século XX, através de um processo de remodelação, com contínuas intervenções públicas, visando à construção de uma cidade modernizada, higienizada e bela.203
O Grupo Escolar Augusto Severo foi construído como parte do programa urbano- cultural de edificações modernas da cidade do Natal. Com o objetivo de integrá-lo ao cenário de remodelação e expansão da capital do Estado, nas primeiras décadas do século XX. O estilo eclético da arquitetura do prédio, marcado por elementos do Art Nouveau, evidenciando o uso de materiais nobres e técnicas importadas da Europa, fora assinado também pelo arquiteto mineiro Herculano Ramos, responsável por outras obras no governo de Alberto Maranhão – anteriormente citadas neste trabalho.
Uma vez estabelecido o modelo a seguir, Alberto Maranhão foi dando continuidade à política de expansão da rede de ensino primário do Rio Grande do Norte, construindo novos grupos escolares e perpetuando o hábito de nomeá-los sempre em homenagens aos membros de sua família. Depois de inaugurado o Grupo Escolar Augusto Severo, em 1908 na capital, agora seria a vez de um espaço urbano do interior do estado
203 MOREIRA, Ana Zélia Maria. Um espaço pioneiro de modernidade educacional: Grupo Escolar “Augusto
prestar homenagem a outro membro de sua organização familiar, fato este que demonstra o interesse de Alberto Maranhão em também expandir pelo estado as referências à sua parentela.
Através do Decreto estadual nº 224, de 08 de julho de 1910, o governador criou o Grupo Escolar Fabrício Maranhão na Villa de Pedro Velho, compreendendo duas escolas elementares, cada uma destinada a acolher estudantes de um gênero. Analisando esse documento-fonte, nos deparamos com um encontro entre três irmãos ocorrido na política, nos espaços e na história do Rio Grande do Norte: o irmão governador e responsável pelo decreto (Alberto) prestou homenagem ao irmão que estava no cargo de presidente do Congresso Estadual naquele momento (Fabrício), dando o nome deste a um grupo escolar localizado na localidade que imortalizou o nome do irmão e mentor (Pedro Velho), já falecido e também homenageado pelo mesmo governador.
Em algumas palavras de Denise Monteiro, verificamos essa abrangência política, econômica e espacial da organização familiar Albuquerque Maranhão em torno de parte da zona litorânea e Agreste do estado, através das referências à pessoa de Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão, que não seria apenas visto como um irmão do governador e de Pedro Velho, mas, sobretudo, empreendedor no ramo da produção do açúcar e político com dupla atuação na capital e no interior do estado:
Vasta era a rede de poder dessa oligarquia, que se estendia da Intendência de Natal à representação do Rio Grande do Norte no Senado Federal. Dentre os inúmeros cargos públicos que ela monopolizou encontravam-se, por exemplo, a presidência da Assembléia Legislativa do Estado – então chamada Congresso Estadual – que esteve nas mãos de Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão, irmão de Pedro Velho, durante 16 anos (1897 a 1913). Mas Fabrício foi, também, durante 20 anos (1893-1913), o presidente da Intendência de Canguaretama, onde era senhor de engenho.204
Pensar Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão, como político e proprietário de engenho, abre-nos a possibilidade de entender parte do poder monopolizado por sua família à frente da estrutura governamental do Rio Grande do Norte. Apesar de não ter ocupado o cargo de governador e não ser tão questionado pela atuação quanto foram e são seus irmãos Pedro Velho e Alberto Maranhão, Fabrício Maranhão foi o membro da organização familiar que se reelegeu por mais tempo para os mesmos cargos de Presidente do Congresso Legislativo e Presidente da Intendência de Canguaretama, onde ficavam seus
redutos político e econômico açucareiro, sendo ocupante dos cargos citados por 16 e 20 anos respectivamente.
Fabrício Maranhão deixou os importantes cargos públicos que acumulou no ano de 1913, coincidindo com o ano de término do segundo mandato de governador de Alberto Maranhão, momento em que, paulatinamente, os Albuquerque Maranhão começaram a desocupar aqueles cargos do executivo estadual dos quais pareciam ter domínio perpétuo, no entanto, lembrados pela intenção do governador para serem eternizados nas denominações dos grupos escolares.
Contudo, não foram apenas Augusto Severo e Fabrício Maranhão que tiveram seus nomes tomados em importância para serem lembrados na memória e nas fachadas das instituições de ensino idealizadas pelo governo do irmão Alberto. Como se não fosse suficiente já existir uma vila, uma praça, um monumento e algumas ruas no Rio Grande do Norte com o topônimo Pedro Velho, um último reconhecimento feito ao seu irmão e mentor foi concretizado com a criação do Grupo Escolar Pedro Velho.
O Decreto estadual nº 286, de 10 de julho de 1913, atendia a uma representação dirigida pelo presidente da Intendência do município de Canguaretama ao governador. Assim, no artigo 1º do citado decreto, verificamos a criação, a denominação e a caracterização do Grupo Escolar Pedro Velho naquela cidade. Um detalhe importante que vale ser ressaltado, tendo em vista que seria bastante natural um intendente requerer ao governador a criação de uma instituição de ensino na cidade em que administra, é que à época o presidente da Intendência de Canguaretama era o senhor Fabrício Maranhão já havia vinte anos. E assim, a exemplo do que ocorrera na Vila Pedro Velho com a criação do Grupo Escolar Fabrício
Maranhão, agora observamos uma inversão nos nomes do espaço urbano e do grupo escolar e
mais uma vez encontraram-se na memória espacial os irmãos Pedro Velho, Fabrício e Alberto Maranhão.
Porém, para não parecer que todos os grupos escolares construídos na segunda gestão de Alberto Maranhão à frente do executivo estadual haviam sido denominados conforme o interesse principal de promover a sua organização familiar, retomemos o interesse que fora tão associado à pessoa daquele governador pela criação e nomeação de instituições educacionais.
As iniciativas que se somam à gama de homenagens familiares efetivadas por Alberto Maranhão, revelam a existência de outros referenciais nominativos, que rememoravam personalidades importantes e acontecimentos no cenário local. As denominações que fugiam à regra do principal interesse dele se concretizaram na criação de
vários grupos escolares: 30 de Setembro na Cidade de Mossoró (Nov./1908); Senador Guerra na Cidade de Caicó; Thomaz de Araújo na Cidade de Acari; Antônio Carlos na Vila de Caraúbas; Almino Afonso na Cidade de Martins; Coronel Mariz na Vila de Serra Negra;
Barão de Mipibu na Cidade de São José – sendo estes do ano de 1909; Moreira Brandão na
Vila de Goianinha; Antônio de Azevedo na Cidade de Jardim; Nísia Floresta na Vila de Papari; Joaquim Correia na Vila de Pau dos Ferros – criados no ano de 1910; Jacumaúma na Vila de Arez; Tenente Coronel José Correia na Cidade de Assu; Auta de Souza na Cidade de Macaíba; Capitão Mor Galvão na Vila de Currais Novos; Ferreira Pinto na Cidade de Apodi;
José Rufino na Vila de Angicos – criados no ano de 1911; Coronel Fernandes na Vila de Luiz
Gomes; Dr. Otaviano na Vila de São Gonçalo; Felipe Camarão na Cidade de Ceará-Mirim;
Frei Miguelinho na Cidade de Natal – sendo estes últimos do ano de 1912.
Ao observar o conjunto nominativo que se fez necessário em decorrência da criação dos grupos escolares, nos deparamos com o enquadramento desses nomes no referencial historio-sociotoponímico, segundo o método taxionômico proposto por Dick. Esse referencial, além de contar com nomes de personalidades de destaque nacional, como Nísia Floresta e Frei Miguelinho, e denominações com a lembrança de indivíduos de expressão histórica local, como Felipe Camarão, Tomaz de Araújo e outros patronos nos demais grupos escolares, também abre espaço a acontecimentos importantes, como por exemplo, o dia 30 de setembro, data em que é celebrada, em Mossoró, a libertação dos escravos – ocorrida naquela cidade no ano de 1884.
De 1908 a 1913, foram ao todo vinte e quatro grupos escolares pensados e criados para responder ao jogo de interesses dos Albuquerque Maranhão. Jogo esse que também se ramificava pelos redutos eleitorais de seus correligionários políticos, objetivando responder a uma rede de interesses da família que buscava agradar as lideranças locais, através, por exemplo, da denominação de uma importante edificação para fins educacionais, que em algumas situações homenageava o próprio líder da política local, fosse ele coronel, tenente, capitão, intendente etc. Naquele contexto, o que importava era que a engrenagem maior precisava dar respostas às peças que lhe sustentavam, de acordo com o modelo de política praticado na Primeira fase da República.Para Spinelli, a habilidade como eram costuradas as alianças explica em parte o caminho para manter o domínio do poder:
[...] No plano estadual, as alianças entre os grandes coronéis (chefias municipais e/ou zonais) garantiam a hegemonia da facção dominante. A habilidade dos políticos oligárquicos em soldar as alianças frente à infinidade de querelas pessoais e familiares – além dos interesses
econômicos conflitantes que caracterizavam a vida política interiorana – seria a condição para manter o domínio da máquina político-administrativa estadual [...].205
Nesse sentido, seria no mínimo ingênuo pensar que o intuito do governador Alberto Maranhão, ao criar grupos escolares, limitava-se ao valoroso objetivo de ampliar os espaços para promover a educação num estado no qual estes ainda eram muito escassos. Os interesses que também estavam incutidos nas denominações dos espaços escolares visavam fortalecer na memória do povo o(s) nome(s) de sua organização familiar e ao mesmo tempo continuar mantendo as alianças que contribuíam para sua sustentação política. Assim, conforme descaradamente aumentavam os topônimos valorativos referentes aos parentes e aliados de Alberto Maranhão, também cresciam as críticas dos oposicionistas que tentavam principalmente através da imprensa escrita chamar a atenção do público letrado.