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A. GELECEKLERĐNĐ KEŞFEN HABER VERDĐĞĐ SÛFÎLER

3. HAKKINDA HĐÇ BĐLGĐ BULUNAMAYANLAR

Considerando a mercadoria como o elemento básico de acumulação de riqueza no modo de produção capitalista (MARX, 2011a), já afirmamos logo de início a importância do transporte de mercadorias para o capitalista, principalmente quanto ao “tempo de trabalho socialmente necessário” (MARX, 2011a) para a comercialização das mercadorias e expansão do capitalismo. A eficiência neste setor implica em maior lucro para o capitalista.

No Brasil, onde ainda hoje o transporte é feito preponderantemente por rodovias, temos esta atividade como estrutural na economia e seu desenvolvimento reflete no desenvolvimento de outras áreas (agricultura, comércio etc.). Em estudo sobre a importância do setor de transportes de carga e a relação com a exportação da soja brasileira, Vasconcelos (2008, p. 142) afirma que

o desenvolvimento da agricultura é determinado pelo comportamento econômico dos agricultores e pelo ambiente econômico onde atuam diversos agentes. Este ambiente envolve componentes de natureza físico-climáticos, sócio-culturais e institucionais, entre os quais a infra-estrutura de transportes é um fator estratégico fundamental.

É um mercado importante que em seu exercício tem algumas complexidades que devem ser esclarecidas na nossa análise. Primeira: compreensão do processo produtivo no setor; segunda: a origem da exploração da atividade; e, terceira, que está diretamente relacionada com a segunda: quais os atores envolvidos na atividade.

A fim de compreender a relação capital/trabalho no setor de transporte, é preciso considerar, a partir da ótica marxiana, que a exploração da mais-valia está ligada ao trabalho, e não ao produto do trabalho. O transporte de cargas é um ramo industrial que “serve” a outros ramos industriais (produtores de mercadoria). Se insere na fase de circulação, que dentro da estrutura do capitalismo é vital. Explica Araújo (2008, p. 9) sobre o setor:

Assim, existem ramos industriais autônomos que o resultado do processo de trabalho não é nenhum produto, mercadoria, e dentre estes o transporte tem grande importância econômica. Sua indústria vende a própria mudança de lugar e esse efeito útil se dá na hora do processo de transporte, que é o processo de produção da indústria de transporte. De forma alguma seu valor de uso pode ser consumido depois, somente durante o próprio processo de trabalho; mas seu valor de troca é determinado como qualquer outra mercadoria, [...].

Diz Marx (1976, p. 55) sobre o setor de transportes:

Há, entretanto, ramos industriais autônomos em que o resultado do processo de produção não é nenhum produto, nenhuma mercadoria. Entre êles, o único setor importante, do ponto de vista econômico, é o setor de transportes e comunicações que abrange tanto o

transporte de mercadorias e pessoas, quanto a transmissão de notícias, serviço postal etc.

O transporte faz produção e consumo coincidirem em um mesmo momento. “O efeito útil produzido está inseparavelmente ligado ao processo de transporte, isto é, ao processo de produção da indústria de transporte.” (MARX, 1976, p. 56).

Mas por haver esta peculiaridade no setor de transporte não o afasta do caráter social do capitalismo, que é criar relações de dependência entre capital e trabalho. Neste processo, o capitalista continua produzindo os assalariados, emprestando parte do produto, seja como salário ou como frete, encobrindo nesta transação monetária a real dependência.

Afirma Marx (1976, p. 56) que

o valor-de-troca desse efeito útil é determinado, como o de qualquer outra mercadoria, pelo valor dos elementos de produção (fôrça de trabalho e meios de produção) consumidos para obtê-lo mais a mais- valia gerada pelo trabalho excedente dos trabalhadores empregados na indústria de transporte.

É importante entender que a produção e a circulação fazem parte do processo de produção capitalista, como etapas em que o capital vai se transformando. Dentro do modo social de dominação capitalista a transformação do dinheiro em mercadoria (D – M) é uma etapa do processo cíclico do capital, que se conclui com a transformação oposta de mercadoria em dinheiro (M – D). Neste processo cíclico estão compreendidas a “unidade de circulação e produção, abrange ambas.” (MARX, 1976, p. 60). Na circulação, o capital industrial ora funciona como capital-dinheiro, ora como capital-mercadoria82. (MARX, 1976). Explica Marx (1976, p. 54) que

o ciclo do capital só decorre normalmente, quando suas diferentes fases se sucedem de maneira contínua. Se o capital não se move na primeira fase D – M, o capital-dinheiro se congelará em tesouro; se isso ocorre na fase de produção, os meios de produção não serão empregados e a fôrça de trabalho ficará desocupada; se, na fase final M’ – D’, as mercadorias invendáveis acumuladas obstruirão o fluxo da circulação.

82 O capital industrial também assume a forma de capital produtivo, no estágio da produção; no que

abrangem – as formas do capital – todo o ramo de produção explorado no modo capitalista. (MARX, 1976, 53).

É como estão relacionados os que atuam neste processo produtivo – a distribuição de mercadorias – que podemos entender a subordinação (ou sujeição) ao capital; e isso se dá esteja a atividade de trabalho relacionada à etapa de produção ou à etapa de circulação de mercadorias.

Segundo Araújo (2009, p. 2 e 3),

no atual desenvolvimento das forças produtivas é trabalho toda atividade que o homem engendra para reproduzir-se materialmente, podendo ou não transformar a natureza diretamente e que o processo de trabalho pode obter como resultado coisas que se acumulam ou coisas que são consumidas durante a própria realização da coisa. Essa afirmação tem dois objetivos: primeiro, e mais complexo, é afirmar que nas formações sociais capitalistas a produção da mais-valia é uma relação social que não está ligada ao produto do trabalho e sim ao trabalho realizado pelo trabalhador que vende a força de trabalho e não pago pelo capitalista; segundo, é mostrar que a atividade de transporte é realizada por um processo de trabalho e que inserida na produção capitalista permite a existência da exploração e subordinação baseada na relação capital/trabalho. Portanto, apenas aparentemente é uma prestação de serviço, tal como propõe a lei brasileira a cerca dos transportes.

Outras questões são importantes para entender o processo produtivo, entre elas o modo como esta atividade se originou no Brasil.

O desenvolvimento da indústria do transporte está vinculado politicamente ao planejamento de Juscelino Kubistchek (na década de 1950) de crescimento através do setor automobilístico, em razão de investidores externos, o que fomentou a construção de infraestrutura. (ARAÚJO, 2008). Através do Plano de Metas houve forte crescimento nas áreas de energia e transporte, com a finalidade de fomentar o processo de industrialização. (VASCONCELOS, 2008). Afirma Vasconcelos (2008, p. 144):

Como forma de atrair capital externo foram claramente priorizadas a pavimentação e construção de rodovias, para que assim houvesse demanda interna e incentivasse o desenvolvimento da indústria automobilística no Brasil. Segundo Lafer (2002), como resultado dessa prioridade, o crescimento anual médio de transportes rodoviários no período de 1956-61 foi de 9,5%, enquanto os outros tiveram um crescimento de apenas 4,7%.

Houve opção pelo investimento no transporte rodoviário, inclusive em detrimento do ferroviário. (VASCONCELOS, 2008, p. 144).

Apesar de haver investimentos – em razão do interesse político à época – não houve preocupação em organizar o exercício da atividade. Desenvolveu-se de forma livre (sem exigências para entrada e saída do mercado) e desorganizada (sem controle do exercício).

A Lei 6.813 de 10/07/8083 previa apenas que “a exploração do transporte rodoviário de cargas é privativa de transportadores autônomos brasileiros, ou a estes equiparados por lei ou convenção, e de pessoas jurídicas [...]” (negritei - art. 1º). As pessoas jurídicas são empresas de transportes (ETC) ou cooperativas (CTC). Nenhuma exigência formal foi estabelecida. Esta “desorganização”, segundo Araújo (2008), foi um atrativo para fazer concorrência ao transporte ferroviário, que dependia de concessões e outras formalidades. Por não ter maiores exigências, “podia operar essa modalidade de transporte quem tivesse o mínimo de capital necessário para prestar o serviço: um caminhão, no caso do transportador autônomo [...].” (ARAÚJO, 2008, p. 8).

Dois fatores negativos desta “liberdade desorganizada” são destacados por Araújo (2008). O primeiro foi a fragmentação de uma classe, pois mesmo na dependência do capital pelos autônomos, estes não eram caracterizados como trabalhadores e não se organizaram politicamente e sindicalmente com (nem como) os empregados das empresas de transporte de carga. Esta fragmentação traz tratamentos jurídicos diferenciados a trabalhadores que atuam na mesma atividade. Outro fator negativo foi o fato da inserção na exploração da atividade ter sido efetivada de “forma contraditória”. (ARAÚJO, 2008). Como prestadores de serviços, tinham a aparência de autônomos, no entanto dependiam (e dependem ainda hoje) do capital - representado pelas empresas que monopolizam o setor -, pertencendo “à categoria trabalho” (ARAÚJO, 2008) e não à categoria capital. Estão classificados como detentores dos meios de produção, não sendo subordinados formalmente a uma empresa (como os motoristas empregados), mas são subordinados ao capital. Explica Araújo (2008, p. 11):

Estão submetidos ao capital por uma relação de subordinação e dominação, sendo explorados primeiro porque parte dos custos de transporte que caberia ao capitalista que produz mercadorias esse trabalhador assume, já que ele deve arcar com os custos de

manutenção do caminhão, com as despesas da viagem (combustível, seguros, comida, estadia quando necessário, entre outros) e se responsabilizar ainda pelos danos durante o transporte da carga. Segundo, porque estão inseridos no ciclo global do capital e colaboram fundamentalmente para autovalorização do capital.

Atualmente regulamentam a atividade a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT)84 e a Lei 11.442 de 05/01/2007 que estabelece:

Art. 2o A atividade econômica de que trata o art. 1o desta Lei é de

natureza comercial, exercida por pessoa física ou jurídica em regime de livre concorrência, e depende de prévia inscrição do interessado em sua exploração no Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas - RNTR-C da Agência Nacional de Transportes Terrestres - ANTT, nas seguintes categorias:

I - Transportador Autônomo de Cargas - TAC, pessoa física que tenha no transporte rodoviário de cargas a sua atividade profissional; II - Empresa de Transporte Rodoviário de Cargas - ETC, pessoa jurídica constituída por qualquer forma prevista em lei que tenha no transporte rodoviário de cargas a sua atividade principal. (negritei)

Atualmente há a exigência do registro na ANTT, mas que não trouxe alteração no desenho já exposto da relação de produção no setor. Com a lei e resoluções da ANTT houve uma facilitação da fiscalização pelo Executivo, regulamentação do frete e exigência de requisitos para atuar na atividade. Quanto a este último ponto, a imposição de requisitos – previstos na Resolução da ANTT nº 3056/09 - para efetivar o registro, fez o número de transportadores autônomos (nos cadastros da ANTT) reduzir de 1.078.368 em 2011 para 583.865 em 2012. Segundo a ANTT muitos registros se tornaram incompatíveis ou pertencem a quem não exerce mais a atividade85.

Alguns dos requisitos para o exercício da atividade estão estabelecidos no artigo 4º da Res. nº 3056/09 da ANTT, que diz:

Art. 4º Para inscrição e manutenção do cadastro no RNTRC o transportador deve atender aos seguintes requisitos, de acordo com as categorias:

I - Transportador Autônomo de Cargas - TAC: a) possuir Cadastro de Pessoas Físicas - CPF ativo;

84 Foi criada em 2001 com o objetivo de regulamentar a atividade. Fonte: www.antt.gov.br. Acesso

em maio de 2012.

b) possuir documento oficial de identidade;

c) ter sido aprovado em curso específico ou ter ao menos três anos de experiência na atividade;

d) estar em dia com sua contribuição sindical;

e) ser proprietário, co-proprietário ou arrendatário de, no mínimo, um veículo ou uma combinação de veículos de tração e de cargas com Capacidade de Carga Útil - CCU, igual ou superior a quinhentos quilos, registrados em seu nome no órgão de trânsito como de categoria “aluguel”, na forma regulamentada pelo Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN.

Além destes requisitos há novo rito nas relações entre as partes envolvidas no transporte. As questões se complicaram na prática para o autônomo, segundo Neori Tigrão (Presidente da Federação paranaense de caminhoneiros autônomos), porque o procedimento para contratar autônomos foi burocratizado, através de exigências que não foram estabelecidas para as empresas com mais de três veículos. Houve forte mobilização da categoria dos motoristas quanto às resoluções da ANTT entre os meses de julho e agosto de 2012. Os autônomos começaram a perder contratos para embarcar mercadorias, porque os embarcadores preferiam a facilidade com as pequenas empresas. Este problema foi confirmado pelo Superintendente da ANTT (Noburu Ofugi), que afirmou intenção da ANTT de corrigir esta situação.86

As exigências da ANTT no setor prejudicam o exercício da atividade de quem já está inserido em situação de desvantagem técnica e econômica.

Ter o registro cancelado não significa, na maioria dos casos, que o autônomo não trabalhe mais. Como ficarão os que estão aquém das imposições? O Estado simplesmente desabilitou os trabalhadores que já laboravam em uma situação de submissão às grandes transportadoras. Naturalmente, como têm que trabalhar para sobreviver, os que estão sem registro irão continuar na atividade, mas se submetendo a condições ainda mais precárias de trabalho.

Vemos neste quadro de atuações, uma distribuição de competências na regulação de atividades. O Legislativo participa com aprovação de leis, mas o Executivo continua exercendo o controle. Neste caso, de forma descentralizada, através de uma agência reguladora, que é um tipo de autarquia especial com poder

86 Informações retiradas do vídeo da entrevista no programa Globo News Alexandre Garcia, que foi

ao ar no dia 01/08/2012, com os participantes Neori Tigrão e Noburu Ofugi. Disponível em: www.g1.globo.com/globo-news/alexandre-garcia/videos. Acesso em 02/09/2012.

normativo. A descentralização do poder gera confusão quanto ao responsável por atos administrativos e mitiga o ataque frontal ao Estado (administração direta – União, Estados e municípios). Gramsci (2011b) atribui o sucesso das classes e grupos, também com base na capacidade de criação de seus intelectuais orgânicos. Mesmo que as agências reguladoras, segundo legislação, guardem autonomia em relação à Administração Pública direta, há probabilidade de reprodução do ideário ideológico-político do grupo fundamental, e não o contrário.

Na Lei 11.442/07 também houve divisão do transportador autônomo (TAC) em duas categorias jurídicas: independente e agregado, que são caracterizados pela lei da seguinte forma (art. 4º, §1º e §2º):

Art. 4o [...]

§ 1o Denomina-se TAC-agregado aquele que coloca veículo de sua

propriedade ou de sua posse, a ser dirigido por ele próprio ou por preposto seu, a serviço do contratante, com exclusividade, mediante remuneração certa.

§ 2o Denomina-se TAC-independente aquele que presta os serviços

de transporte de carga de que trata esta Lei em caráter eventual e sem exclusividade, mediante frete ajustado a cada viagem. (negritei)

Esta inovação legislativa será analisada no item, capítulo seguinte, sobre legislação estatal a fim de problematizar o efeito da alteração legal e a clara tentativa de, através de um novo instituto jurídico, mascarar a realidade. Em uma relação contratual que a obrigação de uma parte é prestar serviço exclusivo e a outra retribui mediante remuneração, conforme descrito no parágrafo 1º, há forte aproximação com uma relação de emprego e não uma relação de autonomia.

Resumindo, a atividade de transporte de carga compreende, de forma preponderante, as empresas de transporte (responsáveis pelos seus empregados celetistas) e os transportadores autônomos (independentes e agregados). Esta mistura de tipos de vínculo no exercício da mesma atividade e o modo como o trabalho é exercido qualificam esta categoria de trabalhadores dentro do que se chama de “zona grise”, onde só a análise profunda e cuidadosa da realidade pode esclarecer qual é o real vínculo existente. Segundo Barros (2009, p. 318), é uma

zona fronteiriça habitada por trabalhadores que tanto poderão ser enquadrados como empregados quanto como autônomos, fora da órbita do Direito do Trabalho. A jurisprudência tem sustentado que a

questão deverá ser resolvida em face das circunstâncias específicas de cada caso concreto.

Destacamos que, nestes casos, a subordinação, elemento típico da relação de emprego, “é insuscetível de especificação antecipada passível de ser utilizada para qualquer relação de trabalho.” (BARROS, 2009, p. 317 e 318).

Passaremos a relatar outros estudos sobre a realidade dos motoristas, a fim de aprofundar entendimento sobre a categoria de forma ampla (Brasil).

3.2 Particularidades sobre os motoristas de transporte de carga no Brasil

Benzer Belgeler