De acordo com Costa Júnior (2005, p. 174), o termo enfrentamento constitui a tradução para o português da palavra coping, “[...] um conceito genérico que descreve como um indivíduo lida com determinado contexto situacional”. Segundo esse autor, a utilização do conceito “[...] não se restringe a repertórios de comportamentos frente a situações ameaçadoras. O termo também é adotado para designar respostas relacionadas a situações que envolvem contingência ambiental reforçadora ou vantajosa para o indivíduo” (p. 174). Encontramos também esse conceito sendo utilizado para descrever o processo pelo qual indivíduos utilizam para lidar com demandas internas ou externas que são avaliadas como sobrecarregando ou excedendo os recursos do indivíduo (LÁZARUS; FOLKMAN, 1984 apud GIMENEZ, 1997).
Neste trabalho, utilizaremos o termo enfrentamento relacionado às estratégias utilizadas pela criança para lidar com as situações, estressantes ou não, decorrentes do processo de adoecimento e hospitalização. De acordo com Last, Stam e Nieuwenhuizem (2007), crianças usam diferentes estratégias de enfrentamento parta lidar com estressores relacionados à doença e ao tratamento. Costa Júnior (2005) verificou que as estratégias mais utilizadas por crianças com câncer submetidas a procedimentos médicos invasivos foram a distração, a busca de apoio emocional, a busca de informação, e a esquiva e dirigir a atenção para aspectos positivos. Verificou também que, de acordo com cada situação, existem estratégias que são mais eficazes.
No âmbito hospitalar, muitos recursos têm sido utilizados para ajudar a criança a recuperar seu equilíbrio, minimizar o impacto psicológico gerado pela doença e hospitalização e favorecer a adoção de estratégias de enfrentamento eficazes. Na literatura, podemos encontrar relatos de diversas experiências de intervenção junto a crianças hospitalizadas, com variados recursos, tais como o brinquedo, as atividades de artes e música, de contar estórias e de informática (FALEIROS; SADALA; ROCHA, 2001; KUMAMOTO et al., 2004; SOUZA; CAMARGO; BULGACOV, 2003; FROTA et al., 2007; OLIVEIRA; DIAS; ROAZI, 2003; FAVERO et al., 2007; RIBEIRO; SABATÉS; RIBEIRO, 2001; AZEVEDO; SANTOS, 2004; WEIGELT; KRUG, 2004; WILKSTRÖM, 2005; ROLLINS, 2005; MORENO et al., 2003; SHIMITZ; PICCOLI; VIEIRA, 2003; SILVA; LEITE, 2004; VALLADARES, 2003; JUNQUEIRA, 2003; VIEIRA et al., 2004; CERIBELLI, 2007; MORAES, 2007).
O estudo realizado por Motta e Enumo (2004) mostrou que o brincar pode ser um recurso adequado para a adaptação da criança hospitalizada, permitindo personalizar a intervenção. As referidas autoras verificaram que todas as crianças relataram que gostariam de brincar no hospital, mas não houve diferenças significativas nas escolhas entre as categorias de brincadeiras, o que significa que o que importa para a criança é poder brincar.
Valladares (2004, p. 114) constatou haver um benefício terapêutico na utilização da arteterapia com crianças em situação de pré-operatório. A autora salienta que“[...] o pintar, o desenhar, o dramatizar, o modelar e o construir implicaram num processo de organização do real e de sua criação, sendo ao mesmo tempo, tanto estruturante, quanto comunicante”.
Vieira et al. (2004) desenvolveram uma proposta de atividades lúdicas e pedagógicas para crianças e adolescentes hospitalizados, tendo como uma das atividades realizadas a introdução da ferramenta da informática, por meio da qual a criança interage com outras via
Internet e realiza atividades recreativas, por meio de softwares de jogos variados. Estas atividades possibilitaram
o brincar criativo e espontâneo; fortalecer o vínculo entre crianças e acompanhantes e facilitar o relacionamento destes com a equipe de saúde; lidar com limites físicos emocionais referentes ao adoecimento, tratamento e internação; estimular uma reorganização da imagem corporal, desencadeada pela doença e pela dor; promover uma integração das crianças internadas e de seus acompanhantes; experimentar-se na situação de grupo, lidando com regras e limites; direcionar a atenção da criança e dos familiares para outras áreas de sua existência, além do adoecimento, facilitando a recuperação; manter a lucidez mental através de jogos, desenvolver a atenção e a coordenação motora; trabalhar em situações de agressividade e destrutividade; favorecer o contato com a realidade hospitalar; dar continuidade ao contato da criança com seus familiares com a realidade sócio-cultural em que estão inseridos (VIEIRA et al., 2004,p. 4).
O estudo realizado por Moreno et al. (2003) mostrou benefícios da leitura mediada sobre o bem-estar de crianças hospitalizadas e seus familiares, aliviando tensões e ansiedades e proporcionando momentos de entretenimentos, favorecendo a evolução clínica.
Schimitz, Piccoli e Viera (2003) constataram que a utilização do brinquedo terapêutico foi fundamental durante a realização da visita pré-operatória de enfermagem, pois, por meio deste, as crianças puderam expressar seus sentimentos quanto ao procedimento cirúrgico, estabelecer um vínculo com a equipe de saúde e obter conhecimento sobre o procedimento.
Costa Júnior, Coutinho e Ferreira (2006) investigaram os efeitos de um programa de recreação planejada, em sala de espera hospitalar, sobre o repertório de comportamento de crianças e adolescentes em tratamento de câncer, e constataram que esta possibilitou uma ampliação do repertório de comportamentos colaborativos e de interação social, bem como uma melhor adaptação das condições adversas impostas pelo ambiente hospitalar e eventos do tratamento.
Podemos perceber que muitas são as experiências positivas relacionadas ao uso de recursos lúdicos com crianças hospitalizadas. O brincar pode ser oportunidade de aprendizagem ou uma forma natural de expressão, pois, por meio da brincadeira, a criança retrata, de forma simbólica, o que não consegue expressar verbalmente, podendo ser esta uma importante estratégia para que possa enfrentar as condições desfavoráveis da hospitalização, tendo assim não apenas valor lúdico, mas também terapêutico.
Do ponto de vista da criança, o interesse e o uso da brincadeira devem-se principalmente ao efeito imediato que têm ao se divertir e se entreter. E a criança faz uso dele quando e porque o hospital fornece recursos para tanto. Ao brincar no hospital, a criança altera o ambiente em que se encontra, aproximando-o de sua realidade cotidiana, o que pode ter um efeito bastante positivo em relação à sua hospitalização. Com isso a própria atividade recreativa, livre e desinteressada, tem um efeito terapêutico, quando se considera terapêutico tudo que auxilie na promoção do bem-estar da criança (MOTTA; ENUMO, 2004, p. 25-26).
Last, Stam e Nieuwenhuizem (2007) avaliaram a eficácia da intervenção em um grupo psico-educacional, baseado na terapia cognitivo-comportamental. O programa era desenvolvido em seis sessões, com crianças com diferentes doenças crônicas e constataram que este apresentou um impacto positivo com melhoras nas competências sociais, na busca de informação, no relaxamento e no pensamento positivo. Plante, Lobato e Engel (2001) realizaram uma revisão de literatura sobre a intervenção em grupo para crianças com doenças crônicas e constataram que estes têm por objetivo aumentar o conhecimento da doença, melhorar a adaptação e minimizar os sintomas físicos.
Considerando os efeitos negativos que a doença e a hospitalização podem provocar no desenvolvimento da criança, acreditamos que um atendimento integral deve utilizar recursos que possam levar a criança a desenvolver estratégias de enfrentamento mais eficazes, para que esta possa lidar, de forma menos sofrida, com as diversas situações durante a internação hospitalar. Partindo do pressuposto que a informação prepara o paciente e sua família para lidarem com o processo de adoecer e de hospitalização, manuais de saúde têm sido usados como instrumentos informativos a respeito de doenças, tratamentos e situações típicas de hospitalização.
Os manuais de saúde são, em geral, elaborados por profissionais de saúde, com orientações técnicas relacionadas a áreas específicas, tais como medicina, enfermagem, psicologia, nutrição, odontologia e serviço social. Conforme Zannon, Coutinho e Dias (1992), além da função informativa, os manuais devem cumprir a função “educativa”, auxiliando os processos de intervenção clínica sobre o comportamento de adesão ao tratamento e sobre os modos de enfrentamento.
Em pediatria, podemos encontrar diversos manuais que abordam questões relacionadas à prevenção, a diagnóstico e a tratamento de várias doenças, tais como diabetes, febre reumática, câncer, hemofilia, doença de Gaucher, entre outras. Os modelos destes manuais são bastante variados, alguns têm caráter essencialmente informativo, outros em forma de livro ilustrado para colorir ou de estória, em que o personagem apresenta a doença.
Em oncologia pediátrica, muitos manuais têm destacado questões psicossociais. Os manuais têm solicitado a participação das crianças em atividades lúdicas que facilitam a expressão dos sentimentos e a promoção à adesão ao tratamento. Dentre estes, podem-se destacar os manuais publicados por Pedrosa: “Tornando o câncer menos doloroso” (1997); “Entendendo e participando do tratamento do câncer infantil” (volume 1, 1998; volume 2, 2000; volume 3, 2000), que oferecem informações sobre o tratamento, mas contêm atividades que permitem a criança expressar seus sentimentos.
Dessa maneira, acreditamos que manuais de saúde podem ser um importante recurso de intervenções com crianças doentes e hospitalizadas. Eles podem servir como um instrumento que estimule a criança a buscar informações sobre a doença e situações hospitalares, facilitar a expressão de sentimentos e favorecer a adoção de estratégias de enfrentamento mais eficazes. Muitos recursos podem ser utilizados para fornecer um cuidado integral e humanizado à criança hospitalizada. Cabe aos profissionais de saúde a adoção de algum desses recursos em sua prática, a fim de minimizar os efeitos traumáticos da hospitalização.