Ao sair do Ceará-Mirim, em 1922, aos treze anos de idade, Nilo de Oliveira Pereira inicia também sua viagem de formação. A primeira parada do itinerário dessa viagem foi a capital do estado. A Natal das primeiras décadas do século XX apresentava características ainda de cidade pequena. Em 1900 tinha uma população de aproximadamente 16.000 habitantes. Na década de 1920, sobe para pouco mais de 30.000, um número ainda muito pequeno se compararmos a outras capitais 1. Não tinha o ritmo acelerado de grandes centros como Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Esse foi o momento em que a cidade buscava assumir de vez o posto de capital, implementando uma política de melhoramentos nas vias de acesso e no porto para se tornar o eixo econômico e comercial do estado, desbancando a cidade de Macaíba, que escoava o açúcar produzido na região 2. Aliada à preocupação de fortalecer a posição da capital, esse período também foi marcado por um forte desejo de progresso e modernização 3.
Os memorialistas se referem a essa Natal antiga como um lugar, “onde se conversava descuidadamente em cadeiras na calçada” 4. A essa mesma cidade chegavam a luz elétrica, o bonde, o primeiro plano urbanístico 5 que conferiria às ruas um traçado geométrico, tornando- as largas avenidas arborizadas e contempladas com jardins públicos; chegava também o implemento do teatro e dos cafés. Mais tarde, Nilo Pereira recordaria esse tempo da cidade referindo-se, particularmente, à chegada dos primeiros aviões como uma novidade que chegava com a década de 1920, o que não deixava de ser “uma violência à cidade romântica”
6. Essa Natal recebeu o adolescente do Ceará-Mirim que vinha com o propósito de fazer os
preparatórios, após o primeiro período de instrução na escola de Adele de Oliveira.
1 ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal: EDUFRN, 2008, p. 25.
2 Para compreender o processo que pretendia dar a Natal o status de capital do estado ver: ARRAIS, Raimundo. A cidade e
a técnica. In: FERREIRA, Angela Lúcia et al. Surge et ambula: a construção de uma cidade moderna, Natal, 1890-1930. Natal: EDUFRN, 2005.
3 O processo de modernização da cidade de Natal nas primeiras décadas do século XX é estudado por ARRAIS, Raimundo
et al. O corpo e alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930.
4 PEREIRA, Nilo. Página de saudade. Jornal do Commercio. Recife, ago. 1983. 5 Ver: ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930.
Nilo deixou a casa dos pais e seguiu sozinho para Natal, onde se estabeleceu em casa de sua irmã mais velha, Dalila, e do cunhado Francisco Sobral. Cursou os preparatórios e depois foi admitido na Escola Técnica de Comércio, dirigida, à época, pelos intelectuais católicos Alberto Roselli e Ulisses de Góis, que foram seus professores nesse estabelecimento de ensino, e foram, também, responsáveis por sua iniciação na carreira jornalística, pois faziam parte do corpo de editores do jornal católico Diário de Natal, no qual logo tomaria lugar.
Já em 1923, aos 14 anos de idade, ingressou na Congregação Mariana de São Luiz de Gonzaga, presidida por Ulisses de Góis. Em 1926, aos 17 anos, passou a colaborador do
Diário de Natal, jornal de propriedade do Centro de Imprensa Católica, dirigido por Antônio
Soares e presidido pelo bispo D. José Pereira Alves, por quem o jovem nutria um grande respeito, inclusive, pelo dom da oratória do prelado, como podemos evidenciar em depoimento da década de 1980 sobre as origens dessa admiração: “Conheci Dom José em Natal. Dele recebi as insignias de congregado mariano na catedral. Era o bispo da palavra e também da ação. Orador aplaudido nas igrejas. Vi-o falar muitas vezes. Na tribuna sagrada ou profana não lhe faltavam aplausos” 7.
Vemos no enunciado do já velho escritor e cronista conceituado da cidade do Recife, um pouco de sua avaliação sobre o papel da Igreja, especificamente, da igreja católica na ordem social, quando ele atribui sua devoção por D. Pereira Alves ao fato do homem da igreja (que ocupou, inclusive, uma cadeira na Academia Pernambucana de Letras) saber conjugar “palavra e ação”. Esse é um dos sentimentos que traduz a trajetória de Nilo em sua relação com a igreja. Para esses homens cristãos, ouvir a palavra de Deus nas missas de domingo não era suficiente. Os periódicos católicos disseminados no início do século XX eram modelos desse modo de pensar. Levar a palavra de ordem cristã aos fiéis era a missão deles, e o jornal e a revista eram o lugar nos quais se travavam os combates contra as iniqüidades profanas que tentavam abalar as estruturas da sociedade daquela época.
É muito provável que o adolescente que demonstrava certa inclinação para as letras e para a militância católica tenha sido levado à redação do jornal pelas mãos de Ulysses de Góis. Havia uma relação de admiração mútua entre o presidente da Congregação Mariana
dos Moços e o seu discípulo intelectual e também espiritual. A doutrinação católica mariana
de Ulysses, a influência do bispo D.Pereira Alves, a convivência com o laicato católico nos
primeiros anos da juventude e do jornalismo, ofereceram a Nilo Pereira o direcionamento e o apoio necessários na primeira fase de sua formação. Inclusive apoio financeiro, pois Ulysses de Góis fundou também a Caixa Rural e Operária de Natal, um fundo monetário que oferecia auxílio financeiro a jovens estudantes, operários e aos flagelados da seca. No livro Os outros, publicado, postumamente, em 1996, Nilo declara-se um devedor daquele homem: “Quantos jovens [...] ele amparou e beneficiou, permitindo que estudassem e se integrassem no meio social pela realização dos seus estudos e dos seus ideais” 8. Logo em seguida, ele afirma:
Eu fui um desses jovens. A ele devo não somente a influência pessoal que teve na minha formação religiosa, mas também a ajuda financeira que a Caixa [Rural] me propiciou quando, no Rio de Janeiro, cursando o primeiro ano da Faculdade de Direito, me vi em dificuldades para enfrentar essa nova situação 9.
A gratidão para com o antigo professor e doutrinador é perfeitamente traduzida no artigo escrito no ano de 1985, no qual ele aparece como um guia, um apoio espiritual e emocional para o jovem Nilo e exemplo para a juventude católica. Vejamos: “Ulysses Celestino de Goes. Um nome altamente representativo de sua geração. Um bem feitor de quantos precisaram dele e nele encontraram o guia, o timoneiro, o mestre, o mariano que nunca desmentiu a sua vocação e o seu apostolado” 10. No programa Memória Viva, gravado em 1983, produzido pela TV Universitária do Rio Grande do Norte, no qual fez uma retrospectiva da vida passada em Natal entre os anos de 1922 e 1930, na companhia de Américo de Oliveira Costa, Otto de Brito Guerra e Veríssimo de Melo, Nilo relatou que, aos quinze anos de idade, um ano depois de entrar para a Congregação Mariana, recebeu de Ulysses de Góis um exemplar da Imitação de Cristo, livro do século XV atribuído ao padre alemão Tomás de Kempis, uma espécie de tratado da moral cristã que prega a busca por uma vida pautada no exemplo de cristo. Para ele, nascido e criado sob os preceitos do catolicismo, esse deve ter sido um manual de ensinamentos voltados não somente para a vida espiritual, mas que o incitou a levar os ensinamentos da doutrina para a vida prática. O exemplar que lhe foi ofertado trazia a seguinte inscrição: “A Nilo Pereira, o modelo dos moços” 11.
Ulysses de Góis via em Nilo Pereira o modelo do jovem cristão que ele procurava arregimentar na Congregação Mariana em defesa da moral cristã. Em 1928, a pequena
8 PEREIRA, Nilo. Os outros. Pernambuco. 1996. 9 Idem.
10 PEREIRA, Nilo. Notas Avulsas. Jornal do Commercio. Recife, abr. 1985.
11 Trecho extraído do programa Memória Viva, produzido pela TV Universitária da Universidade Federal do Rio Grande
instituição religiosa foi ampliada com a fundação da Congregação Mariana de Moços de Natal, referenciada no Diário de Natal. Nilo, que fazia parte da Congregação Vicentina em Ceará-Mirim, logo entrou para a Congregação Mariana, onde foi treinado e burilado na doutrina inspirada em Jackson de Figueiredo, intelectual católico que fundou a revista A Ordem, em 1921, e o Centro Dom Vital, em 1922; órgãos que seriam “a primeira expressão laica da reação católica contra os ideais socialistas e liberais que iriam se acentuar no período pós-Primeira Guerra Mundial” 12.
As relações com a intelectualidade católica em Natal foram abrindo portas a Nilo Pereira. Aos dezessete anos, ele já era um dos redatores do Diário de Natal, fato relatado por ele na década de 1980, referindo-se ao momento em que conheceu o amigo Paulo de Viveiros, que também exercia o ofício de jornalista nas primeiras décadas do século XX, em Natal:
Foi por ocasião da chegada dos primeiros aviões, em Natal, que conheci Paulo Viveiros. Ele era, então, reporter do ‘Jornal do Commercio’, do Recife, e nessa condição estava fazendo a cobertura do raide de Ribeiro de Barros. Como redator (parece-me que era essa a minha categoria, apesar dos meus dezessete anos de idade) do antigo ‘Diário de Natal’, cumpria-me igual missão 13.
Foi no Diário de Natal, órgão da diocese, que, em 1926, ele iniciou sua carreira jornalística, tendo permanecido como repórter e posteriormente como um dos redatores daquela folha, até 1930. As suas primeiras coberturas jornalísticas foram sobre a chegada dos aviões a Natal, no ano de 1928. A cidade se agitava com a passagem dos aviões que cruzavam os céus e aportavam no leito do Potengi. Nos relatos posteriores de Nilo Pereira sobre o fato, o início de sua carreira jornalística aparece sempre associado a esse evento: “Tenho falado sempre de minha iniciação ao jornalismo em Natal, foi à época dos primeiros aviões. Grande movimentação na cidade. O melhor ponto de observação era a igreja do Rosário. Para os lados da fortaleza dos Reis Magos surgiam os hidro-aviões” 14.
A chegada de um dos primeiros aviadores foi noticiada por ele, evento do qual também fez parte D. José Pereira Alves, que recebeu o português Sarmento de Beires com discurso eloqüente, o qual seria lembrado, mais tarde, com entusiasmo pelo cronista: “Lembro-me da magnifica oração por ele proferida em Natal, quando da chegada do aviador português Sarmento de Beires. Grande multidão ali estava para festejar os argonautas do
12 RODRIGUES, Cândido Moreira. A ordem: uma revista de intelectuais católicos (1934-1945). Belo Horizonte:
Autêntica/Fapesp, 2005, p. 15.
13 PEREIRA, Nilo. PAULO de Viveiros. A Republica. Natal, fev. 1980.
espaço e ouvir D. José Pereira Alves” 15. O escritor reúne e destaca dois elementos marcantes de sua juventude em Natal e do início de sua carreira jornalística: o grande fascínio que foi a aviação nos anos vinte em Natal e a palavra de D. José, fenômenos de grande impacto na sua vida e também na realidade da pequena capital provinciana, naqueles idos de 1928.
Outros aviadores como Ítalo Balbo, Jean Mermoz e Saint-Exupéry foram entrevistados pelo jovem repórter, sobre o que encontramos depoimento, em sua coluna Notas
Avulsas, no Jornal do Commercio, nos anos de 1974 e 1985. Sobre Ítalo Balbo, o aviador
representante do fascismo, temos o seguinte relato: “Duma feita, iniciado no jornalismo, entrevistei Ítalo Balbo e ainda hoje possuo o cartão com o seu autógrafo. [...] Natal vivia, então, sob o domínio da grande aventura, que o poeta Jorge Fernandes transformou em poemas modernistas” 16. No mesmo jornal, no ano de 1985, encontramos relato sobre um outro aviador entrevistado em Natal. Do mesmo modo, Nilo inicia sua narrativa: “Duma feita, fui ouvir Jean Mermoz. Homem alegre, expansivo, simpaticão. Se a memória – que sempre me ajuda – não me trái dessa vez, ele estava em uma casinhola em Parnamirim, que começava a surgir para a História do mundo” 17.
Segundo o depoimento do jornalista, o autor de Terra dos homens e de O pequeno
príncipe também esteve em Natal, na companhia de Jean Mermoz. Ao entrevistar Mermoz,
Nilo Pereira acreditou ter tido um encontro inesperado com um aviador que, mais tarde, julgou ser Antoine Saint-Exupéry, piloto da Compagnie Générale Aéropostale, depois transformada em Air France. Um homem de caráter tão taciturno que quase lhe passara despercebido: “Junto dele, um outro aviador, meio macambúzio, ensimesmado, quem seria?”. Mermoz lhe teria fornecido o nome desse aviador, Saint-Exupéry, que soou indiferente aos ouvidos do jovem repórter tão fascinado pelas proezas do falante Mermoz. Segundo Nilo, o contato foi marcado pela indiferença: “Nem ele me ligou nem eu a ele. Eu não sabia com quem estava falando. Não era famoso ainda o grande escritor” 18. À sombra da passagem dos anos, o aperto de mão e as poucas palavras de cortesia trocadas com Saint-Exupéry ganharam a seguinte conotação: “Foi uma das glórias da minha vida” 19.
Em relação ao encontro com Saint-Exupéry ou com quem quer que tenha sido aquele piloto que o impressionou, considerando-se a polêmica atual em torno da passagem ou não de
15 PEREIRA, Nilo. Notas Avulsas. Jornal do Commercio. Recife, jan. 1985.
16 PEREIRA, Nilo. HISTÓRIA da aviação. Diário de Pernambuco. Recife, out. 1974.
17 PEREIRA, Nilo. CONHECI Saint-Exupéry em Natal. Jornal do Commercio. Recife, abr. 1985. 18 Idem.
Saint-Exupéry por Natal, Nilo faz ainda uma observação que parece ter o objetivo de anunciar que naquele único encontro ele pôde visualizar no escritor aquilo que não se conhecia ainda, atribuindo, de certa maneira, a obra filosófica e poética que ele compôs, posteriormente, ao espírito absorto que ele apanhara no perfil que construiu do aviador/escritor nos anos 1980, mas que ele julga ter apreendido lá, no referido encontro. Vejamos: “A impressão que ele me deixou foi a de um homem [...] perdido num sonho que eu não sabia ainda que era de pequeno príncipe” 20.
Não sabemos se foi realmente essa a impressão que o encontro com Saint-Exupéry lhe inspirou nos anos 1920. É bem mais provável que o tenha avaliado naquele momento como um homem de poucas palavras e gestos pouco corteses e até desinteressantes. A leitura posterior da obra do francês fez com que ele justificasse aquilo que observou com pouca simpatia como um indício do espírito filosófico do poeta. Ou seja, as suas lembranças vêm carregadas de fortes pinceladas do conhecimento do homem culto e já muito maduro, o que nos faz pensar nas estratégias sutis que caracterizam a maneira de lembrar, ou o processo de formulação da memória. As memórias que chegam até nossas mãos passaram por vários níveis de interferência até chegarem à forma escrita ou narrada. Ao discutir os mecanismos de construção da memória, Eclea Bosi, apoiada na teoria da memória trabalho de Halbwachs, nos diz que “lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado” 21. Dessa forma, devemos entender a memória não como o passado conservado em sua inteireza e autonomia, como Bergson acreditava, pois “memória não é sonho, é trabalho”. Ou seja:
A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos [...] porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista 22.
No caso do intelectual, o exercício de ordenar e dar sentido às lembranças é um pouco mais refinado. Quantos habitam o Nilo que escreveu sobre Mermoz e Saint-Exupéry na década de 1980? Toda a narrativa do ocorrido está no passado, é fato, já que estamos tratando de memórias, do relato de recordações de uma época e de acontecimentos vividos. Mas quem
20 PEREIRA, Nilo. Paulo de Viveiros. A República. Natal, fev. 1980.
21 BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 9 ed. São Paulo: Ed. Schwarcz, 2001, p. 55. 22 Idem.
recorda é o homem do tempo no qual se escreve. O tempo dessa narrativa, então, é o diálogo entre o passado e o presente desse homem, do qual fazem parte o rapaz de dezesseis que iniciava a vida jornalística em Natal, o leitor que conheceu a obra de Saint-Exupéry, nas décadas de 1940 ou 1950; o septuagenário que escreveu o artigo-memória. Alba Olmi nos lembra que a utilização de memórias como matéria de escritura possibilita ao sujeito que lembra reinventar o sentido de suas lembranças, ou seja, “entre memória e texto escrito há uma enorme ruptura” 23.
Em seus estudos sobre escritos autobiográficos, Olmi nos apresenta a autobiografia de Doris Lessing – Twoof my autobiography, de 1957 – como exemplo do poder recriador da escrita sobre a memória. Isso porque o processo de escritura é sempre posterior aos fatos narrados. Para Lessing, a construção de um texto autobiográfico tem a seguinte dinâmica:“é como enxergar a vida de modo diferente em diferentes fases; é como escalar uma montanha enquanto a paisagem vai mudando a cada curva da trilha” 24. Para ela, no ato de escrever sobre a própria vida, “Dizer a verdade, ou não, e como dosá-la, é problema menor do que a mudança de perspectiva, porque enxergamos a vida de modo diferente em diferentes fases” 25. Sendo assim, há vários fatores que interferem na composição da lembrança de Nilo Pereira, ou na recomposição do fato – o encontro no ano de 1928. Quem fala mais alto nesse diálogo de tempos, homens e lugares? Não é possível medir a força de cada um desses fatores, mas é possível perceber o seu entrelaçamento na narrativa formulada. O homem já velho recorda as venturas do jovem jornalista que foi e junto com o intelectual talhado em muitos conceitos e visões de mundo ordena e dá sentido ao acontecimento lembrado, um processo muito dependente do presente do escritor-memorialista. O encontro com o jovem aviador, futuro escritor, só se refaz na memória do autor porque algo que fazia parte do seu presente levou sua atenção para essa passagem de sua vida. O que nos faz lembrar ainda que no processo de composição da memória “O que está em jogo [...] não é somente a compreensão do passado, mas, sobretudo, a interpretação do presente” 26.
A imprensa católica foi o berço intelectual do cearamirinense. É certo que a espiritualidade cristã o levou para junto de nomes como Ulysses de Góis, Alberto Roselli e Dom Pereira Alves, que o iniciaram no jornalismo no momento em que empreendiam uma
23 OLMI, Alba. Memória e memórias: dimensões e perspectivas da literatura memorialista, p. 37. 24 Idem.
25 Idem, p. 38. 26 Idem, p.36.
verdadeira cruzada em terras potiguares, defendendo os bons costumes, a moral e os preceitos pregados na doutrina cristã – a boa imprensa. Mas suas relações em Natal não se restringiram ao círculo da intelectualidade católica. Na capital norte-rio-grandense, também aconteceu a primeira aproximação com Luiz da Câmara Cascudo.
Na década de 1980, rendendo homenagens ao velho amigo morto, ele faria o seguinte relato: “Vi muitas vezes a sua lâmpada acesa no seu gabinete de estudo, à avenida Junqueira Aires. Era a luz do saber na tranqüilidade de uma cidade romântica” 27, e ainda: “Foi nessa época, quando eu tinha dezesseis anos de idade, que o conheci e fui seu aluno: era o mestre incomparável, amigo e companheiro dos estudantes” 28. Começa a se revelar aqui mais um
indício das suas primeiras influências. Em 1984, ele descreve a primeira vez em que viu Cascudo: “eu notei que aquele rapaz [...] era realmente o alvo de todas as atenções, todos olhavam para ele” 29.
Percebemos que, mesmo na maturidade, quando já ocupava um lugar de destaque na intelectualidade norte-rio-grandense e também pernambucana, Nilo se referia a Cascudo sempre com a admiração do aluno que reverencia o mestre, uma entidade intelectual que já na sua juventude despertava os olhares e as atenções de todos, o que podemos explicar não