Para Nilo Pereira, “A terra se desenha à distância como uma paisagem encantada. O Ceará-Mirim [...] tem esse feitiço: de longe é o exílio, de perto, é a reconquista. Daí o desejo de voltar, que é uma luta contra o desterro, o reencontro no tempo e no espaço sentimentais, na dimensão maior que é o amor” 163. A literatura memorialística produzida por ele, sintetizada em Imagens do Cearim-Mirim, é uma volta a esse mundo encantado, ao mundo interior que guarda os anos da infância, da formação do indivíduo. O autor parece narrar, através das impressões que esboça sobre a cidade, o resumo de todos os reencontros que teve com o vale do Ceará-Mirim, desde que de lá saiu para morar na capital, em 1922, e posteriormente em Recife, de onde escreve o livro. O processo de construção do livro reforça a tese de que o Ceará-Mirim que aparece emsuas páginas é uma imagem que se formou, cada traço, em cada um dos reencontros com o Vale ao longo das décadas que antecedem sua publicação. O livro de 1969 pode ser mesmo considerado o grande reencontro do cearamirinense com o lugar de origem, já que reúne cada um desses momentos da vida do escritor, configurando-se no ponto de chegada da busca por aquilo que passou, da busca pelo menino deixado pelas ruas do Ceará-Mirim.
As viagens ao Ceará-Mirim – o reencontro com a terra da infância – são descritas como uma volta interior, como uma fuga à pressa do tempo, que deixa sem
161 Idem.
162 Idem, p. 23.
razão e sem lugar circunstâncias e cenários importantes da vida do indivíduo. Essa grande volta ao passado é acompanhada de perto pelas impressões que a paisagem natural deixou no “viandante do passado”. São as imagens do Vale, dos rios e do canavial que animam, com maior vigor, as lembranças do memorialista que caracteriza as suas viagens de volta ao vale “como um deslumbramento interior” 164. E nos convida a seguir viagem junto com ele, pois não custará descer pelos cenários da infância, “ouvir a voz do canavial tangido por um sôpro de poesia; [...] contemplar um doce crepúsculo; ouvir no silêncio da noite uma flauta encantada” 165. Voltar ao Ceará-Mirim, terra que guarda ainda o mistério da tradição, o romantismo dos tempos passados, é sempre uma volta no tempo, um momento de encantamento, uma busca por aquilo que se perdeu: “reviver, que não é apenas recordar, mas viver de novo. Como se de novo fôssemos meninos. E tudo voltasse por um feitiço de algum deus oculto e adormecido, que de repente acorda para fazer do homem adulto quase uma criança em busca do seu destino”
166.
Imagens do Ceará-Mirim é itinerário sentimental, livro do coração, levando
Nilo Pereira pelos caminhos da infância, é o caminho de volta do exilado. Ele afirma que voltar é ter uma visão, um alumbramento, algo que nos leva de volta para o mundo interior, o mundo das origens, onde estamos protegidos: “Um devaneio, uma volta sensorial ao passado só possível de descrever através da liberdade e profundidade da literatura, da poesia” 167. Voltar é reencontrar-se: “Toda vez que volto ao Ceará-Mirim, sinto a alma de novo restituída à terra. Cada pedaço de chão é sagrado. [...] paisagem que o menino procura de volta” 168.
O exílio, segundo Maria José de Queiroz, produz uma literatura específica, marcada por aquilo que ela vai chamar de males da ausência, “Vinculados à idéia de perda e desarraigamento” 169, traduzindo-se quase sempre no sentimento de saudade. A sensação de exílio, na verdade, “baseia-se na existência do amor pela terra natal e nos laços que nos ligam a ela”, portanto, “o que é verdade para todo exílio não é a perda da pátria e do amor à pátria, mas que a perda é inerente à própria existência de ambos” 170.
164 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 12. 165 Idem, p. 12-13.
166 Idem, p. 13. 167 Idem, p. 17. 168 Idem, p. 19.
169 QUEIROZ, Maria José de. Os males da ausência ou a literatura de exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998, p. 20. 170 SAID, Eduard. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios, p.39.
O ato de deixar o lugar onde estão enterradas suas raízes desperta no indivíduo o reconhecimento de suas ligações com o torrão natal.
Nilo Pereira traduz o seu percurso pelas memórias da infância e da cidade do Ceará-Mirim como “um voltar sem nunca ter ido” 171. Assim, ele vai construindo sobre a cidade uma visão do exilado: “Ninguém se desprende jamais do seu chão sagrado, dum canto de paisagem, que a distância transforma num poema secreto” 172, quem deixou o Ceará-Mirim sentir-se-á sempre como se tivesse “perdido o paraíso”. Para curar-se, o remédio, o antídoto, é voltar à terra, “ao paraíso que está sempre de portas abertas, pois trata-se de um exílio voluntário” e não de uma expulsão: “podemos perder o paraíso sem cometer o pecado original” 173. A coluna Notas Avulsas, do Jornal do
Commercio, do dia 06 de março de 1986, traz como tema o exílio voluntário de Nilo
Pereira. Ele se autodenominava um exilado mesmo não tendo sofrido nenhuma sanção em relação à sua permanência no paraíso que se perdeu junto com os anos de inocência da infância: “Sou um alto-exilado. Exilei-me por mim mesmo. Não preciso de anistia. Sou anistiado ‘ex-ofício’. Tanto assim que entro e saio quando quero e entendo” 174.
Com isso, tenta mostrar que, na verdade, nunca esteve distante do Ceará- Mirim, pois jamais cortou os laços emocionais que ligavam o indivíduo ao lugar de origem, por isso ele traduz o retorno às terras da infância como “um voltar sem nunca ter ido” 175. Ao mesmo tempo, identificamos na escrita do cearamirinense a saudade, a ausência, sentimentos predominantes na literatura de exílio. Sentimos pulsar em sua escrita uma tristeza que “jamais pode ser superada”, como se descrevesse a “perda de algo deixado para trás para sempre” 176, a infância, o convívio familiar nas terras margeadas pelo vale. Na tentativa de convencer o leitor da sua condição de exilado, ele insiste: “tu bem sabes: nasci no vale do Ceará-Mirim. [...] Fiz os meus preparatórios em Natal e vim para o Recife [...] Aqui fiquei” 177.
Para Nilo, o Ceará-Mirim é o “chão sagrado, dum canto de paisagem, que a distância transforma num poema secreto” 178. Ao confessar que a distância do objeto de
171 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 20. 172 Idem, p. 119.
173 Idem.
174 PEREIRA, Nilo. Exilado. Avulsas. Jornnal do Commercio, mar 1985. 175 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 20.
176 SAID, Eduard. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios, p.46. 177 PEREIRA, Nilo. Exilado. Avulsas. Jornnal do Commercio, mar 1985. 178 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 119.
desejo torna-o ainda mais desejado e singular, o autor demonstra ter consciência de que as lembranças da sua infância no Ceará-Mirim, relatadas no livro, são sensivelmente afetadas pelo fato de ter deixado o Vale ainda adolescente. Ele adverte: somente “O sentimento poético é que, verdadeiramente, pode traduzir o exílio de que venho falando. Um exílio que não deve ser tomado como figura literária, mas como um estado d’alma, uma sensação, uma atmosfera interior” 179.
Voltar era buscar a si mesmo, pois: “Um homem é sempre a vida que passou”
180. O mundo que o exilado tanto buscava foi o que ele havia construído dentro de si,
durante a sua vida. O verde mais intenso e exuberante do Vale era aquele formulado pela sensibilidade do pintor dessas imagens, pois “Existe uma profunda abstração pessoal de espírito e conceito que transforma [...] fatos terrenos numa experiência emocional e espiritual transcendente” 181. E ainda: “É nossa percepção transformadora que estabelece a diferença entre matéria bruta e paisagem” 182.
Sendo assim, o Vale procurado por Nilo Pereira foi se construindo dentro dele, no seu modo de perceber o mundo, sendo impossível encontrá-lo em outro lugar que não fosse dentro de si mesmo. Em Imagens do Ceará-Mirim, ele conclui o seu périplo, sua viagem de volta ao mundo, voltando sempre às origens, mesmo tendo passado por tantos mundos diferentes, pois “Viajar sem voltar seria um drama”. Para ele, “A maior dimensão humana é a saudade” 183, e “a primeira cidade do mundo é o Ceará-Mirim”. Dizemos então que Imagens do Ceará-Mirim é livro composto por impressões dessa viagem interior que ele julga fazer quando volta à sua cidade, compondo então um grande painel das imagens que foram sendo construídas a cada retorno do memorialista à sua terra natal. O livro nada mais é do que os vestígios dessas viagens. Na verdade, a grande viagem que o autor realizou em busca das verdades que talvez já não estivessem nas terras do Vale, mas dentro dele. Voltar era uma maneira de reencontrar as origens, as primeiras impressões, que se perderam com o primeiro distanciamento da terra.
Desde que saiu do Ceará-Mirim, em princípios dos anos 1920, Nilo Pereira assumiu o papel de poeta e pintor do Vale, tendo repetido durante décadas a “travessia”
179 Idem, p. 120.
180 Idem.
181 SCHAMA, Simon. Paisagem e memória, p. 18. 182 Idem, p. 17.
entre o Capibaribe e o Água Azul. Essa viagem pela escrita vai muito além de Imagens
do Ceará-Mirim e permite que o homem que escreveu essas memórias apareça em meio
a tantas páginas de viagem.