Para construir nosso corpus, coletamos denúncias no Arquivo Público do Estado do Ceará (APEC). Entre os documentos fotografados, temos exemplares que foram datilografados e outros que foram manuscritos. Ambas as formas resguardam a estrutura formal do documento, no entanto, a má conservação física do papel dificulta a pesquisa por este material sofrer os danos corrosivos da tinta e pelas ações do tempo, como é o caso das figuras que selecionamos abaixo. Na primeira, observamos a ação
das traças que causam furos no papel e compromete a leitura do documento; na segunda figura, vemos um furo causado pela ação de um agente corrosivo que interfere na integridade informacional do texto:
Figura 19 - Documento que sofreu a ação de insetos.
Figura 20 - Documento que sofreu a ação de agentes corrosivos.
Fonte: APEC
Em relação a esta categoria de análise – forma, voltamos nossa atenção para o suporte material do gênero, para a sua configuração grafoespacial, pois, como lembra Debray (1995, p. 101), “a escolha de um caractere, o formato, a paginação, o espaçamento entre as palavras, a qualidade do papel utilizado têm também efeitos de sentido, visual e tátil, e essas formas gráficas antecipam o estatuto social do que é apresentado para ser lido”. Esses “arranjos formais” são, pois, “constitutivos da própria mensagem” (grifos do autor). Focalizamos, então, os recursos gráficos que entram na
constituição do gênero denúncia e como estes se apresentam sobre o suporte.
O primeiro aspecto grafoespacial que se destaca, nos exemplares dos dois séculos, é a disposição do vocativo. O destinatário do texto (“Illmo. Sr. Dr. Juiz Municipal da 2a Vara”, por exemplo) é apresentado, invariavelmente, centralizado e na parte superior da folha (como se fosse um título). Abaixo do vocativo, vem disposta uma espécie de petição para que se proceda o passo seguinte à apresentação da denúncia; em seguida, dispõe-se o que chamamos de apresentação da denúncia e qualificação do acusado, que vem antes da síntese da ação acusatória (uma espécie de
lide de uma notícia). Essa qualificação, normalmente apresenta-se com recuo de margem; não encontramos essa disposição em todo o corpus analisado, mas em parte. Esse recuo parece-nos cumprir a função de orientar a atenção do leitor para o teor da acusação a ser apresentada. Abaixo, exibimos uma fotografia que demonstra como essas disposições de que falamos se configuram no documento original:
Figura 21 - Denúncia de crimes sexuais
Fonte: APEC
Em algumas denúncias, o recuo de margem é menor, como no exemplo que apresentamos abaixo, no entanto, a função desse recuo é o mesma do anterior, ou seja, apresentar a denúncia e qualificar o agente delituoso:
Disposição do vocativo Indicação para o próximo passo pós - denúncia. Apresentaç ão da denúncia e qualificaçã o do(s) acusado(s).
Figura 22 - Denúncia de contravenção do jogo do bicho
Fonte: APEC
Há ainda outra parte do texto que se apresenta com recuo, quando o autor aponta os motivos pelos quais se espera que a lei penal seja aplicada ao presumido autor do delito. Este recuo, diferentemente do primeiro, possivelmente funcione como um direcionamento argumentativo. O recurso gráfico sinalizaria para o destinatário os dispositivos legais que foram transgredidos. O recuo anterior somado a este dá a tônica da peça acusatória e exerce função discursiva, uma vez que servem para balizar o comportamento que é esperado daquele que julgará a ação delituosa. A seguir, uma fotografia em que podemos observar o recuo de margem que exprimiria a transgressão do réu e, assim, chamaria a atenção para que fosse punido:
Recuo de margem para qualificar o acusado e iniciar a síntese da ação criminal
Figura 23 - Denúncia de contravenção do jogo do bicho
Fonte: APEC
Abaixo, outro exemplo de como o recuo de margem utilizado com a finalidade de chamar a atenção na argumentação discursiva do promotor que apresenta a denúncia ao juiz e, assim, dirige-se ao seu interlocutor para que este proceda para a formação da culpa do acusado por meio da inquirição das testemunhas arroladas pela promotoria:
Figura 24 - Denúncia de crime de ferimentos
Fonte: APEC
Outro recurso gráfico, também variável em todas as peças analisadas, incide sobre a indicação das testemunhas. O termo “testemunhas” ora aparece grafado com letras maiúsculas ora com letras minúsculas e o nome de cada uma aparece em posição de destaque, isto é, com recuo de margem seguido de numeração. Em outras peças foi encontrado, além do termo “testemunhas”, o termo “informante” e/ou “numerária”, e quando não se colocava antes em destaque, se colocava logo baixo dos nomes das testemunhas. Como podemos observar a seguir:
Para a Vossa Senhoria que autoada | esta, proceda-se aos mais | termos para a formação | da culpa, inquerindo-se | as testemunhas abaixo | arroladas, as quaes devem | ser notificadas para | depôr em dia e hora | que forem designados, | com sciencia do indi-|ciado e desta Promo-|toria.
Figura 25 - Denúncia contra crime de homicídios
Fonte: APEC
Na figura a seguir, percebemos como o recuo era feito de forma a destacar as testemunhas dos informantes:
Figura 26 - Denúncia contra crime de contravenções
Fonte: APEC TESTEMUNHAS INFORMANTES ROL DE TESTEMUNHAS: NUMERÁRIAS INFORMANTE
Em relação ao tamanho de cada denúncia, a extensão do texto é praticamente a mesma em todos os exemplares analisados do século XX, em média 2 (duas) laudas. Dependendo do crime, podiam aparecer peças de até 5 laudas, como é o caso dos crimes sexuais e de homicídios que trazem maior detalhamento do fato narrado. Percebemos que, em denúncias produzidas posteriormente ao período do século XX, mais precisamente nos anos a partir de 2001, o número de laudas aumentou, isto é, ultrapassou as duas laudas que encontrávamos antes. Mostra-se a seguir a forma como são apresentadas as denúncias arquivadas no Arquivo Público do Estado do Ceará:
Figura 27 - Fotos de denúncia de 1914 arquivada no APEC.
As denúncias coletadas no site do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), todas referentes ao século XXI, estão digitalizadas, mas preservamos na edição, a configuração do texto como se apresenta no layout do site como mostramos na figura seguinte:
Figura 28 - Denúncia de infanticídio de 2010.
Fonte: Site do MPCE
Identificação da denúncia e órgão expedidor: Denúncia - Pai desnaturado mata filho de 6 meses de idade GABINETE DA PROMOTORIA PÚBLICA COMARCA DE FORTALEZA ESTADO DO CEARÁ MINISTÉRIO PÚBLICO PROMOTORIA DE JUSTIÇA DO QUINTO TRIBUNAL DO JÚRI Vocativo: EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA 5ª VARA DO JÚRI DA COMARCA DE FORTALEZA, ESTADO DO CEARÁ.
Petição inicial feita pelo Promotor de Justiça e Qualificação do acusado. Síntese da narrativa da prática delituosa
Figura 29 - Denúncia de infanticídio de 2010.
Fonte: Site do MPCE
Continuação do texto-síntese da narrativa do fato criminoso Breve descrição do Modus Operandi do denunciado. Qualificação do fato delituoso com base nos dispositivos da lei.
Figura 30- Denúncia de infanticídio de 2010.
Fonte: Site do MPCE
Continuação da qualificação do fato criminoso com base na lei vigente.
Figura 31 - Denúncia de infanticídio de 2010.
Fonte: Site do MPCE
Em virtude do suporte material em que as denúncias acima foram abrigadas e, posteriormente, coletadas por nós, identificamos algumas diferenças quanto à disposição das informações na tela do computador como descritas nas imagens, no
Encerramento da denúncia com a exigência punitiva para o acusado de cometer o crime. Local e data da denúncia Assinatura do produtor da denúncia seguida do cargo ocupado. Rol de testemunhas a serem ouvidas pelo juiz. Identificação do tribunal e do promotor responsável pela denúncia.
entanto notamos que a prática social do gênero continua sendo a mesma daqueles abrigados no APEC.
É possível perceber vestígios de mudanças e de permanência quanto à forma, pois são previsíveis devido ao avanço tecnológico pelo qual as sociedades perpassam no decorrer dos anos. Assim como quando os documentos manuscritos passaram a ser datilografados com o surgimento da máquina de datilografar, o mesmo ocorreu com o advento do computador, pois os documentos passaram a ser digitados. Logo, vemos, no percurso dessa tradição discursiva, que o texto da denúncia passou a oferecer, de um século ao outro, maiores detalhamentos acerca do fato delituoso cometido.
Na próxima subseção, mostramos como ocorreu a reelaboração do gênero denúncia com base na análise aqui proposta.