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Desde a publicação de Il sentiero dei nidi di ragno a literatura de Calvino suscitou fortes reações. Nos anos cinquenta, praticamente toda a crítica calviniana norteia-se a partir das posições de Pavese e de Vittorini, ou seja, desenvolve o tema

217 Mas já desde 1956 Luciano Anceschi havia reunido em torno de um projeto editorial (a revista Il

Verri) um grupo de escritores, artistas e críticos “não-alinhados” com nenhuma escola ou movimento

específicos, que depois serão a base do Gruppo 63. Cf. ECO, U. Il Gruppo 63, quarant’anni dopo

(2003), em: http://www.umbertoeco.it/CV/Il%20Gruppo%2063,%20quarant'annin%20dopo.pdf.

218 Cf., sobre a apregoada total abertura do Gruppo 63, o artigo de ECO, U.

Il Gruppo 63, quarant’anni

dopo, op. cit. Sobre o “Gruppo 63”, criação, evolução e textos, cf. BALLESTRINI, N. e GIULIANI, A.

Gruppo 63 – l’antologia. Milano: Edizioni Testo & Immagini, 2002; cf. também BARILLI, R. e GUGLIELMI, A. Gruppo 63. Critica e teoria. Milano: Feltrinelli, 1976.

da oscilação entre o real e o fantástico, reputando tal oscilação ora como fator positivo, ora como negativo. A partir do final dos anos cinquenta e durante a década de sessenta, com a difusão das ciências humanas, das ciências sociais, do estruturalismo, da psicanálise, da antropologia cultural, das vanguardas estéticas e filosóficas, já não se pode mais falar de grandes linhas da crítica, mas de inúmeras ramificações: crítica sociológica, crítica estilística, crítica formalista, semiótico- estruturalista, psicanalítica, fenomenológica, simbólica, hermenêutica, crítica da recepção, entre outras “orientações” jamais definitivas220.

No caso especifico da obra de Calvino entre os anos cinquenta e a metade dos anos sessenta poderíamos, mas somente por razões operativas, ler a crítica (referimo-nos à crítica italiana) basicamente subdividindo-a em duas grandes linhas: uma primeira, mais “conservadora”, destacada da política, em geral constituída por críticos de formação “rondesca”221, ou, ainda sob a forte influência do pensamento de Benedetto Croce, idealista ou eclética, que, mesmo considerando as razões da política ou do “operar histórico”, não sobrepunham a ideologia à estética; e uma segunda linha que poderíamos definir “ideológica”, ou marxista-gramsciana, por motivos histórico-ideológicos bem conhecidos não admitia uma cisão entre estética e política, entre produção artística e participação social; para esta segunda linha, a figura central é a do “intelectual orgânico”, cujo compromisso deveria ser o da “participação total” no debate social, assumindo suas responsabilidades, bem como

220 Para uma visão geral das linhas da crítica literária italiana do séc. XX, cf. VIOLA, I. Critica letteraria

del novecento. Milano: Mursia, 1969; PAUTASSO, S. Le frontiere della critica. Milano: Rizzoli,1972;

BRANDI, C. Teoria generale della critica. Torino: Einaudi, 1974; CATALANO, G. Teoria della critica

contemporanea. Dalla stilistica allo strutturalismo. Napoli: Guida, 1974; PUPPO, M. La critica letteraria del Novecento. Roma: Studium, 1978; CORTI, M. e SEGRE, C. I metodi attuali della critica in Italia.

Torino: ERI, 1978; GENTILI, S. La critica letteraria del Novecento (1900-1960). Firenze: Le Lettere, 1996; CASADEI, A. La critica letteraria del Novecento. Bologna: Il Mulino, 2001; BENUSSI, C. e ZACCARIA, G. Per studiare la letteratura italiana. Milano: Mondadori, 2002, especialmente os capítulos 4, “Dal testo alla critica”, 5, “La critica e i suoi metodi”, e 6, “Dalla critica alla storia”.

221 Chama-se crítica de formação “rondesca”, ou simplesmente “crítica rondesca” ao conjunto de

críticos fundadores e demais futuros colaboradores da revista literária romana La Ronda, fundada em 1919 (durou até 1923). Essencialmente anti-experimental e antivanguardista, além de pregar a total liberdade da arte em relação à política, os três principais fundamentos da crítica rondesca eram os seguintes: a) olhar voltado ao passado, culto aos clássicos; b) mesmo aceitando de bom grado a inovação formal, manter a busca da perfeição linguística e estilística, da elegância; c) fidelidade à tradição e abertura às literatura estrangeiras (europeias), segundo seu mote: “adequar-se aos tempos, sem perder o sentimento de pátria”. Cf., por exemplo, a síntese do “rondista” RAVEGNANI, G. “La Ronda”, in Almanacco letterario Bompiani, 1960, p. 59-60; cf. também a antologia de um dos principais “rondistas”, CECCHI, E. Antologia della “Ronda”. Firenze: Cassieri, 1955; e ainda SCRIVANO, R. “La Ronda e la cultura del XX secolo”. Rassegna Lucchese, n. 15, 1955; e SAPEGNO, N. “La prosa d’arte”, in Disegno storico della letteratura italiana. Firenze: La Nuova Italia, 1949.

todos os riscos das próprias opiniões222. Emanuele Zinato cita, como exemplo dessas duas linhas ou visões críticas do imediato pós-guerra, a recepção de dois romances calvinianos da década de cinquenta, por parte de um crítico conservador (Emilio Cecchi, um dos fundadores da revista La Ronda) e um crítico marxista (Carlo Salinari):

“Exemplares (...) os juízos de Emilio Cecchi e de Carlo Salinari. O primeiro, em 1952, exaltou no Visconte dimezzato os ‘tons fantástico-grotescos’ em detrimento da carga social e política do Sentiero; o segundo, em 1958, ao contrário, saudou com entusiasmo, na Speculazione edilizia, a adesão de Calvino ao realismo e o abandono da indulgente inspiração fabulosa.”223

Ainda nos anos cinquenta, particularmente relevantes são as visadas críticas de dois intelectuais alinhados com o chamado marxismo crítico: Franco Fortini e Cesare Cases. Na contracorrente da crítica marxista ortodoxa, que havia tachado os romances de Calvino de “fantasia mecânica”224, Fortini – que futuramente será um dos mais contundentes críticos do “desengajamento” de Calvino – elogia a escolha de um ponto de vista original, não esquemático, que rompe com qualquer perspectiva ideológica pré-concebida. Cesare Cases, por sua vez, descobre em Calvino o anseio do distanciamento crítico para poder observar o indivíduo em desarmonia com a sociedade, e estabelece um dos pontos de referência para toda a crítica calviniana posterior, exprimindo-o na conhecida fórmula do “pathos da distância”225.

Outro crítico, ainda muito jovem nos anos cinquenta, mas que se tornaria um dos maiores nomes da crítica italiana do século XX, o marxista Alberto Asor Rosa,

222

O modelo do “intelectual orgânico” é o próprio Gramsci, vítima da repressão fascista. No pós- guerra, especialmente nos anos sessenta e setenta, o polêmico Pier Paolo Pasolini é considerado por muitos o último verdadeiro intelectual orgânico.

223 ZINATO, E. Conoscere i romanzi di Calvino. Milano: Rusconi, 1997. Salinari continuará a criticar a

“evasão” de Calvino dos problemas contemporâneos, como confirma a crítica ao Cavaliere

inesistente: “Calvino, hoje, saberia dizer muito bem – talvez melhor do que qualquer outro – o que

quisesse; mas infelizmente tem muito pouco a dizer. A sua fantasia se refugia na fábula por preguiça, porque esta é a chave com a qual lhe é mais fácil abrir a porta da literatura; mas o seu engajamento moral e ideal, aquela busca do homem total que o caracterizavam no início, vai aos poucos perdendo a força. Ele mesmo, em um ponto de seu romance, se pergunta: ‘De que me valem estas páginas descontentes?’. De nada, temo. A menos que ele retome a estrada, mal começada e bastante difícil, da Speculazione edilizia”. Cf. SALINARI, C. Preludio e fine del realismo in Italia. Napoli: Morano,

1967, p. 345.

224 Cf. ZINATO, E. Conoscere i romanzi di Calvino, op. cit., p. 23.

225 A fórmula do “pathos da distância”, como se sabe, é nietzschiana (NIETZSCHE, F. Al di là del

bene e del male. Milano: Adelphi, 1976, p. 112.); CASES, C. “Calvino e il ‘pathos della distanza’”, in

Patrie lettere. Torino: Einaudi, 1958 (depois republicato também in CORTI, M. e SEGRE, C. I metodi attuali della critica in Italia. Torino: ERI, 1970, p. 53-58).

também critica pesadamente os primeiros romances de Calvino, acusando de modo especial o Sentiero de populismo, de ser “um repertório de lugares comuns provenientes de Vittorini, de Pavese, da cultura americana, da publicística comunista”226, e ainda de ser um exemplo típico da mitologia progressista de toda a literatura neorrealista centrada no tema da guerra partigiana227.

Já nos anos sessenta, a crítica ligada às neovanguardas (especialmente ao “Gruppo 63”) é quase unânime em atacar o “classicismo” da racionalidade calviniana, as intenções pedagógicas e o mal disfarçado moralismo de sua narrativa. Renato Barilli, crítico neovanguardista, membro do “Gruppo 63”, vê “a experiência de Calvino (...) próxima à mediocridade predominante na nossa narrativa”228, principalmente porque Calvino continua, segundo Barilli (neste caso criticando Le

cosmicomiche), a “contrapor à crise das ideologias uma resistência, julgada ‘ultrapassada’ e ‘moralista’”229.

A partir do final dos anos sessenta, tendo a essa altura Calvino se tornado um dos principais autores italianos do século XX, na Itália e no exterior, há um número enorme e sempre crescente de artigos e ensaios sobre todas as suas narrativas, sob todos os prismas acima mencionados e outros mais. Atualmente é praticamente impossível passar em revista toda a crítica sobre a obra de Calvino, que já chega a constituir biblioteca em si, perfazendo milhares de títulos, em dezenas de línguas diferentes – nem é o objeto deste estudo uma revisão detalhada da crítica. Sinteticamente podemos aduzir que apesar dos inúmeros juízos negativos sobre a obra calviniana dos anos quarenta e cinquenta, o saldo revela-se extremamente positivo para o jovem escritor, não somente porque o julgamento favorável da crítica ultrapassa em muito o desfavorável, mas também pela grande aceitação das narrativas junto ao público italiano e estrangeiro de todas as classes e níveis230.

226 ASOR ROSA, A., apud ZINATO, E. Conoscere i romanzi di Calvino, op. cit., p. 24. Asor Rosa

continuará por muitos anos a se ocupar da obra de Calvino, e seu juízo irá se tornando progressivamente positivo até chegar ao elogio declarado (definindo-o o maior escritor italiano da segunda metade do século XX) em muitos artigos e ensaios; cf., por exemplo, ASOR ROSA, A. Stile

Calvino. Cinque studi. Torino: Einaudi, 2001.

227 Cf. ZINATO, E. Conoscere i romanzi di Calvino, op. cit. 228 Idem, p. 24.

229 Idem, ibidem; a citação entre aspas simples é de BARILLI, apud ZINATO, E., op. cit.

230 Para um aprofundamento sobre a crítica da obra calviniana dos anos quarenta e cinquenta, cf.

BARONI, G. Italo Calvino. Introduzione e guida allo studio dell’opera calviniana. Storia e antologia

Benzer Belgeler