• Sonuç bulunamadı

7.4. Sonuçlar, Değerlendirmeler ve Öneriler

7.4.2. Öneriler

Elemento marcante dos romances de Lins é a presença de personagens leitores e pelo menos um personagem que escreve280. Nem sempre, porém, Lins caracteriza como positivas tais experiências. É o caso do primeiro romance, O

visitante281, em que os protagonistas são um professor e uma professora: ele não

gosta de ler e escreve poemas medíocres; ela escreve um diário, e lê (mas confessa entender muito pouco) uma velha bíblia com registro de família, à qual faltam gênesis e apocalipse. O enredo é bastante simples, há pouca ação, poucos personagens. Praticamente não há contraste direto representado, mas apenas referido; os conflitos são predominantemente subjetivos, psicológicos e morais:

280 Em três dos quatro romances temos escritores e/ou leitores como protagonistas.

281 LINS, O. O visitante. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1955. Na verdade o romance

O visitante originalmente era um dos contos de Os Gestos, mas, segundo Lins, “para espanto do autor, avultou-se e se definiu como romance.”

“romance de cunho intimista”, definiu-o Adonias Filho282, em um artigo em que ressalta a evidente influência machadiana sobre a escrita de Lins. A personagem principal é Celina, professora de uma cidadezinha do interior de Pernambuco (mesmo não nomeada, será a Vitória de Santo Antão, cidade natal do autor), profundamente ligada à religião e devotada a seu trabalho. Tendo já passado da “idade de casar” – segundo o senso comum à época e lugar -, a moça tem como grandes baluartes a dignidade, a honra, a virgindade, a devoção, a obediência às leis dos homens e de Deus. Mas isso não impedirá que acabe sendo seduzida por Artur, professor muito mais maduro e, aparentemente, sem nenhum atrativo especial. Aliás, o professor Artur apresenta-se tão medíocre que o único sentimento que desperta na moça é piedade. Mas é aí, na construção de tal personagem, que começa a revelar-se a sutileza do autor: Artur é personagem absolutamente ambíguo; magistralmente bem construído, mascara sob uma aparência medíocre uma malícia maquiavélica. Usa a piedade de Celina como uma via de acesso ao coração (e daí ao corpo) da moça.

Para Celina, desde a morte dos pais a solidão é condição absoluta; antes sublimada na dedicação ao magistério e à igreja, é escancarada pela presença e sobretudo pelo discurso do professor Artur, que lhe desperta a piedade, dele e de si mesma - o que será o motivo de sua perdição. Um discurso que viola (violenta) seu

silêncio283. A busca de consolação leva-a a entregar-se a uma paixão que ao cabo

de poucos meses a deixará ainda mais solitária do que jamais fora. Grávida e abandonada, decide abortar. Mas o aborto, que para ela será uma morte interna (“eu também morri”284), mais do que uma solução em nome da moral pregada pela sociedade, será um sacrifício de todas as suas crenças precedentes. Na cena final vislumbra a possibilidade de redenção, entrega a Deus e ressurreição simbólica. Nesse momento, a história da família, contida na bíblia sem começo e sem fim, mistura-se com sua própria história e com a de Cristo, e Celina é a nova personagem da paixão, que vivenciou a pureza, a tentação, a paixão, a morte, e

282 AGUIAR FILHO, A. Jornal de Letras. Recife: nov. 1955.

283 Sobre a importância do silêncio no discurso ou contra o discurso no texto de O visitante, cf.

MEDEIROS, A. C. “Religiosidade e ritualismo no romance O visitante, de Osman Lins”, in FERREIRA, E. (Org.). Vitral ao sol: ensaios sobre a obra de Osman Lins, op. cit. Sobre o silêncio como linguagem na obra osmaniana, cf. também SIMONS, M. As falas do silêncio em O fiel e a pedra, de Osman Lins. São Paulo: Humanitas, 2003.

finalmente a ressurreição285. Não é um final feliz, mas melancólico beirando o trágico, pois Celina, embora veja uma débil luz no fim do túnel, tem consciência de que o resto de sua vida não será a luz, mas o túnel-sociedade, com todas as suas hipocrisias, maldades, invejas, intolerâncias, preconceitos – tudo devido à ignorância, à falta de cultura, monstro infernal contra o qual lutou Osman Lins durante toda a sua vida. A crítica às instituições e aos comportamentos, à ignorância e ao preconceito, à hipocrisia da sociedade laica e religiosa, ao falso moralismo, ao machismo, aos modelos “inculturais” seguidos cegamente, sem reflexão crítica; tudo isso, que de certa maneira modula o tom já a esse primeiro romance, será uma constante nos textos tanto ficcionais quanto ensaísticos do autor, e atingirão um grau de elaboração e profundidade excepcionais em seu último romance concluído e publicado, A rainha dos cárceres da Grécia286 – em que novamente temos um leitor- escritor como protagonista. Mas os temas explícitos em O visitante, tais como a solidão e a autocomiseração, a tensão entre fé e desejo, subjetividade e compromisso, consciência e liberdade, enfim, os conflitos do indivíduo consigo mesmo, embora permaneçam latentes, não serão mais temas narrados, mas tornar- se-ão temas de fundo. A partir do segundo livro, Os gestos, alguns desses temas serão tratados de uma maneira menos intimista: a análise psicológica cede lugar uma versão mais sociológica. A partir do segundo romance, O fiel e a pedra, os conflitos serão do indivíduo diante do outro, e o confronto se dá no espaço social: o drama é muito mais político (em sentido amplo) do que psicológico.

Quando publica Os gestos (1957), Osman Lins confirma-se como um dos bons escritores brasileiros da década de 50. O livro recebe prêmios (“Prêmio Monteiro Lobato” e “Prêmio da Prefeitura de São Paulo”), é bem recebido pelo público e pela crítica. Mas é um livro que se destaca (como já havia sucedido a O

visitante) pela qualidade e não pela novidade, nada havendo nos contos de

realmente inovador. No Prefácio à segunda edição (intitulado “O outro gesto”), Lins declara qual fora seu projeto para esse livro:

“quando escrevi os contos aqui reunidos, todos alusivos ao tema da impotência (ante os elementos, ante os olhos de um morto, ante a linguagem etc), minha ambição centrava-se em dois itens: a) lograr uma frase tão límpida quanto possível; b) não

285 Cf. ANDRADE, A. L, op. cit., bem como MEDEIROS, A. C., op. cit.

alheio à voz de Aristóteles, fundir num instante único, privilegiado, os fios de cada breve composição, como se todo o passado ali se adensasse.”287

Todos os contos desenvolvem-se em torno de um ritual ou um momento de passagem, uma essência captada pela sensibilidade aguçada em um breve momento, e já desvanecida. A angústia da impotência de exprimir tal essência (“As palavras - todos sabem - são mortalmente vazias para exprimir certas coisas”288) contrasta com (mas é a mola propulsora de) uma busca de exatidão. O espírito que une os contos - a incomunicabilidade ligada à insensibilidade em relação ao outro – justifica o título: muito daquilo que não pode ser dito concentra-se num gesto, ou numa linguagem gestual – ou mesmo na imobilidade, que é o silêncio do gesto. O que – e como e por que - exprimir “ante os olhos de um morto”?

Os treze contos de Os Gestos são bastante convencionais na forma, praticamente sem traços das inovações conceituais ou gráficas que veremos a partir de Nove, novena. Notável porém como um emblema embrionário do futuro paradigma estético é o conto “Vitral”; e, do ponto de vista que nos interessa, “O Perseguido ou Conto Enigmático” é uma antecipação do futuro uso de títulos duplos, que permitem leituras – ou seja, perseguições ou combinações – diferentes.

No começo dos anos 60 Osman Lins verá publicado O fiel e a pedra, seu terceiro livro, segundo romance. O Fiel e a Pedra é, como declara o autor, “uma plataforma de chegada e de saída”289; encerra aquela que Ana Luiza Andrade analisa como “fase da procura” (citando classificação do próprio Lins290); da procura de domínio das formas tradicionais, dos meios de expressão, da técnica narrativa: procura de um estilo. Uma “plataforma de saída” porque propõe já alguns processos composicionais e artifícios estruturais insólitos, principal dos quais a sobreposição das aventuras de Bernardo Vieira Cedro a uma estrutura mítica subjacente: a

Eneida, do poeta latino Virgílio. Em Marinheiro de primeira viagem, no fragmento

intitulado “Confissão”, o próprio autor define seu romance como:

“essa tentativa de transposição, para o Nordeste de 1936, da Eneida. Não propriamente uma transposição, uma vez que muitos dos personagens e fatos

287 LINS, O. Os Gestos. 2a edição. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 5. 288 Idem, p. 139.

289 LINS, O. Evangelho na taba, op. cit., p. 168.

290 Cf. LINS, O. Guerra sem testemunhas, op. cit., p. 59; e ANDRADE, A. L. Osman Lins: crítica e

apresentados têm origem na minha experiência. Mas a verdade é que o romance, já iniciado, foi replanejado tendo em vista o poema de Virgílio.”291

Além de vários nomes de personagens, há muitas cenas ou núcleos dramáticos que remetem ao clássico latino. Pelo paralelismo instaurado, Bernardo, um homem simples do sertão, é elevado à estatura de um Eneias pernambucano: recusando-se a se deixar dominar pelos poderosos – ou melhor, por um sistema injusto – acaba reunindo em torno de si a resistência. Esse é um dos eixos sobre o qual se estrutura o romance. O outro é o tema histórico-social do nordeste brasileiro. Partindo de uma situação vivida (a infância no interior de Pernambuco), Lins não economiza nos elementos autobiográficos disseminados no texto: seja no espaço natural (novamente Vitória de Santo Antão), seja no ambiente social, seja nos personagens: em Bernardo, seu tio Antônio Figueiredo; em Teresa, sua tia Laura; em Ascânio, aspectos do próprio autor; na violência da realidade ficcional, a incômoda verdade de um drama conhecido. O Fiel e a Pedra não deixa de ser, de certa maneira, um romance regionalista, pois retrata uma realidade social específica, com aquele colorido da própria terra que jamais se repete na experiência alhures. No entanto, Lins evita conscientemente repetir a fórmula que desgastou o romance regionalista dos anos 30, ou seja, o exagero do pitoresco, a folclorização da paisagem, dos tipos e da língua, a exploração do exótico dos mitos e lendas locais. Nesse sentido formal e calcificado do termo, a obra pouco tem de regionalista.

A “plataforma de chegada” a que se refere Osman Lins não significa somente a aquisição de uma maturidade técnica e estética, mas intelectual em sentido amplo. A consciência crítica das condições em que se vive no Brasil, e as razões profundas, tornam-se tema artístico. Lins evolui, com O fiel e a pedra, de uma ideia de arte engajada para uma de engajamento artístico: “É através da arte - e de nenhum outro meio - que um povo se renova”292. Sua arte, de denúncia mas não de panfletismo ideológico, põe à mostra a imensa pobreza material e cultural do povo; mas não somente do povo oprimido e pobre: num nordeste de estrutura quase feudal, também os ricos e opressores, os políticos e os industriais, todos vivem à margem da riqueza que a educação e a cultura podem proporcionar. Com seus livros, Osman Lins deseja, e acredita possível, contribuir, mesmo que minimamente, para a elevação do ser humano a uma posição acima da pobreza, acima da ignorância,

291 LINS, O. Marinheiro de primeira viagem, op. cit., p. 43. 292

acima do feudo. Os livros, diz Lins, (não qualquer livro, mas pelo menos “os de ficção”, “de poesia”, “de imaginação”), “parecem sempre servir à liberdade”, porque são “capazes de ampliar nossa visão das coisas”293. A aquisição de consciência pode libertar o indivíduo alienado, fragmentado, excluído. Sobre O fiel e a pedra Massaud Moisés, no prefácio à edição de 1974, diz:

“Romance de tensão dramática e metafísica, a primeira, ao nível da problemática social, encarnada por Bernardo e Teresa em luta com Nestor e os seus capangas; a segunda, ao nível cósmico, em que se joga a existência, não de um indivíduo encurralado pelo ódio e o medo, mas do gênero humano a debater-se com as forças indômitas que despertou ou pôs em movimento, - do ser humano em face da Natureza, dos semelhantes e, sobretudo, de si próprio, seu inimigo maior.”294

Além do processo de “apropriação” e reelaboração de elementos de um clássico, já é notável também no processo de escritura um forte sentido geométrico de composição - como já tivemos oportunidade de demonstrar295 - que evoluirá nas obras futuras. À parte os artigos, ensaios e textos teatrais, a próxima obra puramente ficcional de Lins será Nove, novena, de 1966. Mas antes disso, em 1963, Lins publica o Marinheiro de primeira viagem.

Benzer Belgeler