I- EHL İ KİTABA YÖNELTTİĞİ ELEŞTİRİLER
2- Hıristiyanlık
A leitura realizada da obra de Ariès (1981) aponta que o conceito de infância passa por três grandes mudanças fundamentais na história:
1) Até final séc. XIII a criança é vista como um pequeno adulto, ou seja, a infância é negada, pois “[...] não existem crianças caracterizadas por uma expressão particular, e sim homens de tamanho reduzido.”. Para as pessoas desta época “[...] a infância era um período de transição, logo ultrapassado, e cuja lembrança também era logo perdida.”, assim, a criança aprendia pela prática junto aos adultos e considerava-se normal que elas vivessem a partir dos sete anos de idade com outra família que não era a sua, para aprenderem um ofício e serem educadas; nesta ocasião a escola era reservada aos clérigos (ARIÈS, 1981, p. 51-52).
2) Em um segundo momento (séc. XIII ao séc. XVIII), a criança passa a ser institucionalizada, a partir daí tem-se o surgimento dos colégios ou escolas com a preocupação de moralizar a infância e “[...] corresponde à consciência [...] que distingue essencialmente a criança do adulto” (Ibid., p. 156). O autor explica que “[...] o estabelecimento definitivo de uma regra de disciplina completou a evolução que conduziu da escola medieval [...] ao colégio moderno, instituição complexa, não apenas de ensino, mas de vigilância.” (Ibid., p. 170).
3) Em um terceiro momento (último quarto do séc. XIX até o séc. XXI), a criança passa a ser vista como sujeito social, com Direitos.
Neste terceiro momento, iniciado com o desenvolvimento social, principalmente após a Revolução Francesa de 178927, houve exigências em promover a escola como necessidade
27 Mondaini (2006, p. 21-30) explica que, principalmente na França, por meio das várias e sangrentas
revoluções burguesas o poder absoluto da monarquia foi destronado e seja por meio de uma Monarquia Constitucional ou de uma República começa a haver uma maior desconcentração do poder do Estado e o pacto social, de acordo com a teoria de Locke e, que mais tarde seria aprimorada por Rousseau, por meio do contrato social, estabelece poderes que deveriam ser separados e equilibrados entre si, são eles: o poder legislativo, com a competência de fazer as leis; o executivo, com a competência para garantir a execução das leis ordenadas e o poder judiciário, ao qual compete sobre as decisões das controvérsias que podem existir em relação à lei; esta teoria se configurou como base de nosso sistema republicano. Este cenário forma o período caracterizado como pré-revolução Francesa, que juntamente com a Revolução Industrial, abriram espaços para as profundas mudanças políticas determinadas pela Revolução Francesa de 1789, considerada como marco para a afirmação de Direitos pelo seu caráter universal, porque seus ideais foram além das fronteiras da França, chegando até mesmo em países distantes como a Índia, a Ásia Menor e a América Latina. No Brasil, esta influência pode ser observada “Na conspiração Baiana de 1798, verificou-se que as ideias revolucionárias
primordial. Com o aumento da força produtiva sob a influência da Revolução Industrial, a escola, lentamente, foi incluindo setores marginalizados da sociedade, mesmo quando as políticas educacionais foram para reforçar o poder das classes abastadas, compondo o espectro de práticas sociais para a manutenção do status quo, neste sentido, “[...] Toda a complexidade da vida foi modificada pelas diferenças do tratamento escolar da criança burguesa e da criança do povo.” (ARIÈS, 1981, p. 194).
Na família, modificações começam a ocorrer e as mulheres já participam do trabalho nos campos ou nas vilas operárias e enfrentam as fragilidades da vida trazidas por este novo tempo. Agora, separa-se melhor a vida profissional da vida privada28, determinando um lugar apropriado para cada qual, ou seja, o local de trabalho para muitas pessoas deixa de ser a própria casa e passa a ser as fábricas; constata-se a preocupação dos pais em investir na educação dos filhos para mantê-los em um mesmo nível que outras crianças de igual condição (Id., p. 197 et seq.).
Mondaini (2006) ressalta que em 1789 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão proclamada pela burguesia e considerada como primeiro elemento constitucional do novo regime político republicano, garante as liberdades individuais, ou seja, os direitos civis. A partir desta declaração há o reconhecimento do indivíduo como sujeito de direitos sob o ponto de vista jurídico e político e atinge seu ápice na expressão “todos são iguais perante a lei”, porém está lançado aí o mal de raiz de um sistema político, que ao mesmo tempo, desenvolve legislações que expressam tratar todos de modo igualitário, mantêm os lucros de um sistema capitalista desigual e os privilégios de uma minoria, isto explica em parte, o surgimento das contradições das políticas públicas, as quais permanecem até os dias atuais.
Com o advento e a progressiva instauração do sistema capitalista liberal, conquistaram-se vários direitos até então negados, mas as desigualdades sociais que geravam miséria para uns e abundância para outros continuavam a existir.
Comparato (2008, p. 136-153) explica que transpostos os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” da Revolução Francesa, na prática, com a consolidação da francesas já haviam conquistado os oficiais e artesãos mais humildes. O alfaiate pardo João de Deus, um dos insurgentes executados [...] pretendia que “todos (os brasileiros) se fizessem Franceses, para viverem em igualdade e abundancia” [...].” (COMPARATO, 2008, p. 135). Neste momento, de acordo com Mondaini (2006, p. 23) a figura do indivíduo que só tem deveres começa a ser substituída pela figura do sujeito com direitos, que se desenvolveu inicialmente em torno de países como a Inglaterra e os Estados Unidos (por meio do Bill of Rights, ou Carta de Direitos) e a França no decorrer do século XVII e XIX.
28 Pra melhor aprofundar-se neste assunto ver o capítulo 2 – As esferas públicas e privada de:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo, posfácio de Celso Lafer. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005, p. 31-83.
civilização burguesa, os direitos dos cidadãos passaram a servir de meios para proteção dos direitos, mas a vida política tornou-se apenas instrumento de conservação da sociedade sob a dominação da classe proprietária e, sobretudo, houve a impregnação do princípio liberal de que o êxito depende da progressiva conquista do indivíduo por meio do seu esforço e trabalho.
Carvalho et al (2004, p. 62) expõe que após a conquista dos direitos individuais, ou seja, os direitos civis e políticos, aclamados com o Liberalismo no século XVIII, houve vantagens à liberdade do indivíduo contra os abusos de um Estado opressor. Este processo de discussão e conquista de direitos culminou com a forte influência socialista no século XIX e XX, a qual diz respeito à esfera dos direitos sociais, econômicos e culturais e ao direito à igualdade, os quais são de natureza progressiva, uma vez que, o propósito é o de alcançar tais direitos por meio do Estado e de suas políticas públicas. É na esfera dos direitos sociais que se expressa o Direito à Educação.
Neste contexto, a história das instituições infantis conforme esclarece Campos (BRASIL, 1988, p. 13) vai delineando-se no cenário internacional29: no final do século XVIII na França, já eram criadas as primeiras garderies para abrigar as crianças durante o período de trabalho das mães, é neste país que se tem o registro da creche30 mais antiga (1770) criada com a intenção de guardar os bebês, para que suas mães pudessem trabalhar em longa jornada de trabalho nas fábricas.
Explica ainda que, na Itália, em Turim, em 1827, foram fundados os Asili Infantili, semelhantes às garderies; na Bélgica, no mesmo ano, surgiram as écoles gardiennes; nos Estados Unidos, assim como no Brasil, o atendimento às crianças em idade pré-escolar torna- se uma preocupação crescente e em meados do séc. XIX, a primeira day nursery de que se tem notícia foi aberta em Nova York, para atender os (as) filhos (as) dos (as) trabalhadores (as) pobres.
Segundo Merisse (1997, p. 29) tanto no Brasil como na Europa, as instituições infantis surgem como “instituições asilares” dependentes da caridade da população, com características próprias que vão delineando ao longo do tempo outro tipo de instituição: a escolar.
29 Muitas dessas instituições vão sendo criadas, em tempos de guerra, cuja situação acabava por
obrigar as mulheres a assumirem por longos períodos a chefia da família, enquanto o homem partia para a guerra, e em tempos de paz, abrigando os (as) filhos (as) das operárias nas fábricas.
30 Palavra de origem francesa que significa ”manjedoura”. No Brasil interessante observar o seu
significado no dicionário Brasileiro Globo (1992) que corresponde ao seguinte: “Asilo diurno, onde se albergam crianças pobres cujas mães estão no trabalho.”. Isto nos mostra uma concepção preconceituosa, que se tem sobre a creche, uma das modalidades da EI na atualidade.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) a indignação causada pelos horrores da guerra, assinalou um dos momentos mais intensos na defesa de direitos. Este cenário foi palco para o início da afirmação de várias declarações de direitos que foram processando-se durante todo o século XX, das quais se lembrará pela importância de suas proposições, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e a Declaração Universal dos Direitos da Criança e do Adolescente de 195931, esta última que traz em seu preâmbulo uma preocupação mundial com os maus-tratos acometidos contra a infância.
Em seguida, o ocidente capitalista, principalmente nos países da América Latina, teve a necessidade de se auto-reformar concedendo direitos e garantias aos trabalhadores (as) com o intuito de evitarem-se revoluções, contudo, sob o clima de Guerra fria as nações capitalistas tentam conviver com as tensões do próprio sistema sob a forma de Welfare State ou Estado de bem-estar social (MONDAINI, 2006, p. 126-128).
Importante ressaltar, como explica Comparato (2008), que os direitos que se tem na atualidade não foram delineados como blocos divisíveis e estanques, eles evoluem e aperfeiçoam-se de modo organicamente articulados com os movimentos que se processam no interior da realidade social.
Desta primeira aproximação da construção do que pode ser chamado hoje de direitos sociais (Ibid., p. 13), ressalta os processos de sua afirmação, tanto no plano “jurídico-legal” como no campo “cultural-ideal”. No plano “jurídico-legal” tem na expressão “todos são iguais perante a lei” o seu ápice e é uma condição necessária para eliminação das inúmeras formas de degradação da condição humana; este parâmetro está presente em quase todas as Constituições dos países de perspectivas democráticas e na Constituição brasileira aparece desde a primeira Constituição Republicana de 1890 (em seu art. 72, § 2º) conforme esclarece Alencar e Rangel (1986, p. 78) até a atual CF de 1988.
Mondaini (2006, p. 14) explica que no plano “cultural-ideal” relaciona-se ao fato de que alguns são sujeitos conscientes de seus direitos e outros completamente ignorantes em
31 A Declaração Universal dos Direitos da Criança e do Adolescente de 1959 foi reconhecida pelo
Brasil em 02/05/1961 e Instituída por meio do artigo 227 da CF de 1988, este foi base para redigir o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei 8099 de 1990, o que fortalece e serve como referência para a luta por creches e pré-escolas no Brasil do final da década de 1980 até dias atuais (BRASIL, 2010a, p. 510). O artigo Constitucional expressa: “Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” (BRASIL, 2010d, p. 80).
relação a eles, enquanto que o ideal seria que todos os (as) cidadãos (ãs) fossem cônscios de seus direitos e coletivamente organizados para defendê-lo.
Entretanto, formar esta cultura ideal, depende do modo como se programa as políticas públicas de um Estado, por isto a expansão nos países periféricos e emergentes, como o Brasil, de políticas de equidade, ou seja, a justiça no caso concreto, no intuito de focalizar aqueles indivíduos que estão em situações de miserabilidade ou estigmatizados pela sua condição social ou étnico-racial e de gênero, um exemplo disto, no Brasil, seria as cotas para afro-descendentes nas Universidades, as legislações de proteção à mulher (Lei Maria da Penha), à Infância (Estatuto da criança e do adolescente-ECA) e ao Idoso (Estatuto do Idoso), dentre outras legislações.
Porém, estas não são políticas de igualdade e muito menos conseguem resolver todos os problemas que se propõe resolver, essas políticas acabam tornando-se um conjunto de intenções legislativas formais, mas sem grande efetividade prática, apesar de estarem expressas nas legislações Constitucionais e Infraconstitucionais e serem respaldadas por normas dos tratados internacionais em que o Brasil é signatário, inclusive, tornando passível de punição internacional, por crime de responsabilidade, os países signatários que não as cumprem, mas essa adesão formal não garante que os países tratem como prioridade as Legislações que promulgam.
Desta forma, o que se percebe é que as políticas de igualdade social ou mesmo as políticas em busca de equidade social, em países em desenvolvimento, ficaram na esfera do dever ser, assim não configuram nem a equidade e muito menos a igualdade de fato e de direito, no entanto isto não minimiza o fato de sua importância, como uma finalidade ética voltada para o bem comum e prática para uma atuação mais firme na garantia destes direitos.
Isto se explica pelo fato de que os países capitalistas latino-americanos, por exemplo, apresentam vários elementos que os diferenciam dos países capitalistas desenvolvidos, devido às maiores taxas de pobreza, violência, analfabetismo, exploração do trabalho e desigualdades econômicas e sociais. Por isto, a existência do Estado de Bem-Estar Social - vivido por certo período nos países desenvolvidos - nos países pouco desenvolvidos devem ser classificados como “restrito ou incompleto” “[...] pelas limitações de seus programas e dos seus critérios de seletividade [...]” (LAURELL, 2002, p. 160), assim, toda a estrutura que constituem os pilares do Estado de Bem-Estar Social, nestes países, são frágeis, não são universalizados e são desfrutados apenas por determinados grupos.
Portanto, ressalta-se que o surgimento das instituições infantis no cenário mundial, pode ser pensado de acordo com as peculiaridades de cada país e abrange as raízes históricas
que os envolvem, uma vez que desvendar a sua origem, neste momento, não pressupõe um detido estudo do seu passado, ou mesmo uma reconstrução detalhada de sua trajetória histórica, pois o que se pretende aqui é apenas assinalar que os seus pilares encontram-se no solo da história e, de fato, não estão separados do contexto político, social e econômico nacional e internacional que caracterizam o seu surgimento em um contexto capitalista, urbano e industrial que vagarosamente ocupou o posto de uma sociedade rural, agrícola e feudal que, até então, mantinha os privilégios de uma classe, por isto, a estrutura das origens das instituições infantis expressam a vida das pessoas na sociedade, tanto no que concerne àqueles que lutam incansavelmente para assegurar a própria sobrevivência, como daqueles que buscam preservar e acumular um status social de privilégios e suas riquezas.
Como se observou nos autores supracitados, a sociedade moderna capitalista trouxe uma série de mudanças na estrutura social dos países que reestruturaram o conhecimento e com ele o conceito de infância, de política pública, de participação social, de democracia, de trabalho, de família, de classe social, de gênero; mudanças estas que ocorreram em todo o mundo e que resultaram, dentre outros, em muitas mulheres trabalhando fora de seus lares, enquanto os (as) seus filhos (as) precisam passar grande parte do tempo em instituições ou escolas.
Neste sentido, a seção seguinte explica um corpus de pesquisas que delineiam a trajetória das instituições infantis no Brasil.