A conversão do conhecimento, tipo internalização, ocorre quando há incorporação do conhecimento explícito no conhecimento tácito48 (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Esse modo de conversão do conhecimento é evidenciado no discurso do consultor Caio, ao afirmar: “[…] é muito bom ver que um profissional que ajudei está autoconfiante, seguro, andando com as próprias pernas”.
O consultor Vivo escolheu como prática para a reflexão: visita virtual à bacia potiguar. Durante a sessão reflexiva, ele nos traz alguns depoimentos, conforme pode ser evidenciado no Quadro 17. O consultor nos indica algumas dimensões formativas encravadas nessa prática e o modo de conversão predominante.
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Quadro 17
A sessão reflexiva e a internalização do conhecimento
EXTRATO DA SESSÃO COM O SENTIDO DA INTERNALIZAÇÃO Consultor Vivo
Tendo como objetivo na prática escolhida para a reflexão o conhecimento da bacia potiguar, o consultor Vivo definiu como atividade uma visita virtual à bacia potiguar. Para isso, escolheu como ambiente a sala de visualização projetada com recursos de imagens e som que possibilitam uma visita tridimensional. Comentando sobre o que fez na prática, relata: “[...] passei o conhecimento organizacional do que é a nossa atividade de geodésia, geografia e geologia, numa abordagem visual”.
Refletindo sobre o modo de conversão predominante na prática:
“[...] percebo essa experiência como uma viagem do geral para o particular, para compreender os fenômenos presentes nos processos que geraram conhecimento”. “[...] há uma internalização mental devido à visualização tridimensional de informações [...] as pessoas passam a pensar a Companhia de forma mais ampliada”. “[...] o vocal, auditivo e visual juntos têm um efeito direto na internalização do conhecimento”. “É possível um acompanhamento do poço em tempo real”. “[...] as pessoas vivem uma experiência que marca muito. […] deixa um forte registro na mente delas”.
Esplanando sobre o significado dessa prática para ele, descreve:
“[...] sinto que contribuo para que as pessoas passem a pensar a Companhia de forma mais ampliada a partir de uma imagem internalizada”. “[...] percebo que consigo abordar os assuntos bem informais, não criando distância com as pessoas”.
O consultor Vivo, refletindo sobre as causas de atuação nessa prática, reporta-se às suas experiências que integram uma visão global e regionalizada da Companhia. “[...] a facilidade para manuseio de softwers para o manejo dos equipamentos que propiciam a visualização, transmitindo o conhecimento de uma forma mais interessante e facilitando a internalização, devido à forte experiência com as imagens”.
Explicando sobre as mudanças que faria nessa prática para torná-la melhor: “[...] ver as coisas tridimencionais é um salto muito grande”. “[...] procuraria envolver mais pessoas de dentro e de fora da Companhia para essa experiência de visita à baciapotiguar”.
Fazendo um comentário no final da sessão reflexiva esse consultor observa:
“[...] essa experiência refletida deixa claro para mim que a autoavaliação sobre essa minha prática me ajuda a ter um senso crítico sobre o que faço”.
A visualização como elemento predominante no tipo de prática escolhida para reflexão pelo consultor Vivo constitui-se como facilitadora da internalização do conhecimento. Para Nonaka e Takeuchi (1997, p. 77 ), “quando são internalizadas nas bases do conhecimento tácito dos indivíduos sob a forma de modelos mentais ou know-how técnico compartilhado, as experiências através da socialização, externalização e combinação tornam-se ativos valiosos”.
A internalização no conhecimento também é evidenciada na interpretação de sentidos em um dos discursos do consultor Caio, durante a entrevista, quando ressalta a autonomia dos colaboradores observando o “caminhar deles com as próprias pernas, seguros e
autoconfiantes”. O consultor percebe nos seus colaboradores sinais claros de autonomia devido à internalização do conhecimento sendo demonstrada pela melhoria na sua capacidade de agir no contexto da prática, tendo a sua formação incrementada mediante a mudança de comportamento diante de situações reais do trabalhado (DAVENPORT; PRUSAK, 1998).
A internalização, como decorrente de um processo de transferência do conhecimento, pode acontecer em diversos formatos, como parcerias, relações de apresentação ou de aprendizado, mas, em qualquer situação, um tipo de relação de trabalho é essencial (DAVENPORT; PRUSAK, 1998). Compatível com essa afirmação, encontramos um discurso do consultor Pitágoras sobre uma de suas experiências formativas: “[…] tive uma ótima experiência com uma turma formada por novos engenheiros […] uma turma competente e boa […] desenvolvemos e implantamos exercícios na prática no decorrer do curso para que eles pudessem assimilar o máximo possível”.
Esse tipo de estratégia envolvendo uma intervenção direta na realidade de trabalho dos formandos constitui-se como uma oportunidade para a internalização do conhecimento, sendo facilitada pela existência de uma linguagem comum entre os participantes, devido a terem a mesma formação. Essa conjuntura é considerada por Davenport e Prusak (1998) como favorável à conversão do conhecimento, na medida em que possibilita o compartilhamento de formação com experiências cognitivas comuns, facilitando a internalização.
Sendo considerada como resultante de experiências de aprendizagem na prática, a
internalização constitui-se como espaço apropriado para o encontro dos saberes teóricos com
os saberes práticos nas experiências cotidianas que se desenvolvem entre os consultores internos e seus colaboradores. Percebemos que as práticas dão margem para uma diversidade de experiências reflexivas: “conhecer-na-ação”, “refletir-na-ação”, e “refletir-sobre-a-ação”.
Esse fato reforça a nossa argumentação quanto à formação dos consultores, integrando a reflexividade, no intuito de possibilitar um pensar e um agir reflexivo e sistematizado em torno de suas práticas, construindo uma relação com características mais substantivas e ampliando o olhar para as questões hoje imperceptíveis. Com isso, poderiam desenvolver uma “capacidade de utilizar o pensamento como atribuidor de sentido” (ALARCÃO, 1996a, p. 175), tão pertinente à prática da formação.
A internalização, conforme referimo-nos, constitui-se como essencial à autonomia das pessoas, para que possam tomar decisões diante das situações cotidianas do trabalho. Essa questão é evidenciada no discurso do consultor Alberto, ao comunicar uma de suas
experiências como formador: “[…] passo o meu conhecimento no dia-a-dia tirando dúvida das pessoas diante da resolução de problemas […] alguns se tornam independentes e começam a atuar sozinhos depois de absorverem o conhecimento”.
O saber e o nível de autonomia representam dois elementos que estabelecem uma forte influência para a internalização do conhecimento. É, também, fundamental para uma relação mais viabilizadora entre esses elementos, a forma como se conduz essa relação. A interpretação dos sentidos desse discurso reforça o valor já evidenciado de maiores níveis de autonomia como resultado da aprendizagem na prática. Mostra, também, o sentido da prática como espaço para construção do saber.
Parece-nos, assim, que a reflexividade também se configura como estratégia adequada à formação desses consultores, no sentido de poderem contemplar as inúmeras possibilidades de internalização do conhecimento, ao desenvolverem, juntamente com os seus colaboradores, uma capacidade para a interação com o conhecimento de forma autônoma, flexível e criativa. Esse tipo de formação sugere ser a que melhor se compatibilizaria com a complexidade e com as incertezas tão presentes no coditiano do trabalho deles, exigindo novos saberes, inspiradores de novas ações (ALARCÃO, 2005).
Por essa razão, entendemos que o deslocamento de uma formação centrada no paradigma da racionalidade técnica para um outro mais ampliado, que integrasse também as dimensões estratégica, tática e relacional mencionadas anteriormente, em torno da conversão do conhecimento tácito em explícito, traria benefícios para a formação desses consultores, para a de seus colaboradores e para os resultados da Companhia.
No seu duplo papel de conduzir a resolução de problemas e, simultaneamente, a sua formação e a dos colaboradores, o consultor é solicitado, muitas vezes, a demonstrar determinadas competências em situações particulares, envolvendo o “agir para aprender“ diante de um evento, tendo em decorrência um novo aprendizado a ser apropriado em uma próxima ação.
Essa habilidade, pontuada na prática do consultor é denomina por Schön (2000, p. 29) de “talento artístico”. Os consultores, ao demonstrarem esse tipo de talento em suas atividades cotidianas, reforçam seu status, diferenciando e ampliando as suas participações requisitadas que são guiadas pela evolução dos saberes teóricos, enriquecidos pelas crescentes participações. Os processos evolutivos conduzem à ampliação de sua formação mediante a
aquisição de um conjunto de saberes da consultoria, associado ao duplo papel de resolver
problemas e converter conhecimento.
Na função do consultor interno, o “talento artístico” torna-se providencial em determinadas situações que acontecem na dimensão interpessoal. Em momentos específicos, cuja qualidade da intervenção, pelo consultor, sua função é decisiva para facilitar uma etapa importante do processo de conversão do conhecimento, no momento em que é essencial tornar um conhecimento tácito em explícito, em um processo de “conhecer-na-ação” (SCHÖN, 2000), o qual só se torna possível mediante a intervenção do consultor, apropriando-se do seu “talento artístico”.
Ao atenderem as participações requisitadas no cotidiano, seja para resolver problemas, seja para facilitar a conversão do conhecimento, os consultores devem eleger como tarefa principal, segundo o entendimento de Block (2001) evocar uma exploração de polaridade, adiar as respostas rápidas e garantir que a complexidade das questões inerentes aos problemas seja reconhecida antes de se tomar qualquer decisão. Ainda de acordo com esse autor, “é no esforço de transcender os dois lados que se encontra a resolução” (BLOCK, 2001, p. 245).
Trata-se, portanto, de uma tarefa que requer um conjunto de habilidades facilitadoras da formação, nas quais o consultor deve estimular a “reflexão-na-ação”, encaminhando o pensamento reflexivo dos colaboradores para uma dimensão mais profunda na busca de respostas mais consistentes para orientar suas decisões em torno das mudanças. Encontramos na fala de Jim Lee um relato acerca de uma experiência relacionada às suas práticas e compatível com essa questão: “[...] a estratégia que adoto na tutoria é a de acompanhar o desempenho através da solução de problemas, provocando dúvidas e, em consequência, a reflexão sobre a busca de conhecimentos apropriados à resolução dos problemas”.
Tendo como referência a interpretação dos sentidos desse discurso, entendemos que as habilidades para conduzir as práticas desses consultores no sentido de facilitar a formação, é determinante para a qualidade do relacionamento estabelecido entre eles e seus colaboradores e fundamental para estimular a busca de conhecimentos associados à resolução de problemas. O desenvolviemento de tais habilidades não integra os progamas tardicionais de formação da Petrobras e, por essa razão, os consultores buscam por iniciativa própria, em um ritmo mais lento por força das circunstâncias, uma autoformação nesse sentido, implicando, por isso, prejuízos para as suas práticas.
profissionais passam a agir na projeção de cenários sociais, favorecendo a insights, a resolução de diferenças e a mudança. Esse tipo de perfomance reforçaria a consultoria como uma função nuclear, levando ao surgimento das ideias que poderiam orientar melhor a aprendizagem e a mudança, gerando novas bases de conhecimento.
A consultoria como função nuclear deve-se, também, ao caráter circular que apresenta na conversão do conhecimento. Assim, por exemplo, os consultores têm imbricado em suas práticas cotidianas um processo de autoformação nas práticas facilitadoras da aprendizagem49 em uma dinâmica com um formato do tipo “formação-autoformação-formação do outro- formação” e “aprender-fazer-ser-aprender”. Tal circularidade, associada a um direcionamento espiralado: “agir, aprender, formar, intervir, agir…” assume um caráter reforçamento da consultoria como função nuclear na conversão e (re)conversão do conhecimento.
Contudo, embora imbuídos nesse processo de autoformação constante, supomos que ficam à margem, vários elementos importantes que emergem da tensão entre as demandas locais do contexto no qual estão e as demandas globais aqui representadas pela Sociedade do Conhecimento, trazendo, naturalmente, implicações nos níveis da cultura organizacional: os artefatos, os valores casados e as certezas básicas fundamentais. 50