A interiorização das experiências pessoais na relação entre os consultores e seus colaboradores assenta-se em ações cotidianas, influenciadas pelas experiências coletivas, que são tipificadas ou normalizadas pela objetividade da Companhia, transformando-se em modelos de ação que retornam a eles como conhecimento padrão. Continuadamente, essas ações, ou os modelos de ação, são socializados na medida em que são demandadas novas ações pelo cotidiano.
Consideramos, assim, a ressignificação das concepções associadas à ação do consultor. Essa ressignificação decorre, entre outros fatores, pelo interesse em outras áreas de conhecimento por causa das multidimensões que caracterizam suas atividades. O interesse na busca de outras dimensões de conhecimento auxilia, mediante o processo de autoformação como facilitadores da formação, a compreender e a articular melhor a subjetividade e a objetividade na formação.
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Sobre esse tipo de autoformação, ver Capítulo 4, tópico 4.3.
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Nessa direção, o consultor Gauss, falando sobre as várias práticas formativas que desenvolve no cotidiano, nos revela: “[...] nos papéis que desempenho como instrutor interno, tutor, formador na prática, o envolvimento com outras áreas do conhecimento aumenta meu interesse em ensinar coisas às pessoas”. Intuímos, então, que na medida em que os consultores passam a dividir o foco da atenção entre os problemas que resolvem e os conhecimentos que geram, passam a perceber a interdependência que existe nessa dupla lógica.
Destacamos, neste tópico, aspectos relacionados a esta dupla lógica: objetividade e subjetividade no processo que visa resolver problemas e converte conhecimento. Pois, consideramos que não podemos refletir sobre esse processo sem levar em conta que nele encontram-se várias formas de interdependência, as quais destacamos: entre a Petrobras e o ambiente externo, entre a Unidade de Negócios em que atuam e as demais Unidades da Empresa, entre os consultores e os seus parceiros e colaboradores, entre os motivos objetivos e subjetivos de cada um, entre os interesses individuais, grupais e organizacionais, entre a formação e a ação, entre a experiência e a realização profissional.
Há uma interdependência básica e ela “determina como os ‘objetos’ agem sobre os ‘sujeitos’, como os ‘sujeitos’ agem sobre os ‘objetos’, a natureza não-humana sobre os seres humanos, os seres humanos sobre a natureza não-humana” (ELIAS, 1998, p. 170). O conhecimento de qualquer indivíduo depende do fundo de conhecimento disponível em algum recorte da sociedade, cujas características estruturais decorrem de uma evolução no tempo (ELIAS, 1998).
Assim, o avanço da perfomance profissional desses consultores constitui-se como resultado de um longo envolvimento em experiências de interdependência, influenciando em um pensar e um agir diferentes. Entendemos que a conversão e a reconversão do conhecimento que ocorre nas práticas cotidianas desses consultores, junto aos seus colaboradores, é consequência de um processo de interdependência entre eles: deles com outros grupos internos e externos e com a sociedade.
Desconsiderar, na autoformação e nas práticas desses consultores, os elementos que emergem da interdependência entre o local e o global, centrando-se nas demandas mais próximas, representa um comportamento caracterizado como “envolvimento” da forma, como concebe Elias (1998). A sociedade está sempre em mudança estrutural, o que significa um equilíbrio continuamente tenso entre suas partes, e que o indivíduo está inscrito em uma
cadeia de interdependência que o liga a outros homens e que limita o que lhe é possível decidir ou fazer.
De acordo com Norbert Elias, as implicações sociais oscilam entre o “envolvimento” ou “alienação”, que leva as pessoas a se enredarem nos fatos, passando a atuar neles, comprometidas pelos conflitos a que ficam submetidas. É na “alienação” ou “distanciação” que as pessoas se afastaram, tanto das opiniões padronizadas quanto da coerção emocional dos fatos e, dentro deles, utilizar suas potencialidades, principalmente as advindas do conhecimento, para transpor as situações dilemáticas.
Desse modo, para compreender melhor as questões da atualidade, entendidas no tópico como o duplo direcionamento: resolver problemas e converter conhecimento, e a implicação na formação desses consultores e de seus colaboradores, é necessário, por um lado, um afastamento da situação em pensamento, para depois, lentamente, a elas regressarem, e, dessa forma, compreendê-las melhor. Já, por outro, é fundamental termos clara a tensão decorrente do processo de resolução de problemas e conversão do conhecimento. Para Elias, quem se centra apenas nas questões do momento, sem distanciar o olhar para além delas, é praticamente cego. E, é enfático ao declarar:
só os insanos podem permanecer totalmente desmobilizados diante do que se passa em seu redor […] a existência real da vida ordenada em grupo depende do inter- relacionamento dos impulsos de pensamento e de ação das pessoas em ambas as direções: as que envolvem e as que alienam, mantendo-se regularmente em xeque (ELIAS, 1998, p. 107).
O termo “alienação”, ou “distanciação”, é representado pelo afastamento necessário ao indivíduo para que possa ter uma visão mais ampla da realidade que o cerca, permitindo-o encontrar soluções mais adequadas e rápidas. Por outro lado, o “envolvimento”, ou “engajamento”, levado ao seu extremo lança os indivíduos em uma aproximação excessiva que impossibilita a ação lúcida devido à dificuldade de ter uma percepção real dos fatos, o que impede um aprofundamento sobre os eventos, bloqueando a descoberta de soluções mais adequadas aos problemas (ELIAS 1998).
Manter um padrão de condicionamento e uma adaptação à estrutura e às situações do contexto em que os consultores atuam é uma limitação que pode contribuir negativamente para a formação deles e de seus colaboradores, como também para os resultados da Companhia. Supomos que a adoção de uma prática reflexiva e sistematizada por esses
consultores, sobre as simultâneas experiências de interdependências que vivenciam, beneficiaria a sua formação e a de seus colaboradores.
Esses consultores têm uma prática integrada na Sociedade do Conhecimento, que é determinada pela força da interdependência do contexto em que estão situados com outros mais distanciados. Em consequência disso, vivenciam cotidianamente experiências dilemáticas entre, de um lado, o “engajamento”, ao integrarem de forma intensa em suas práticas os elementos da cultura, particularmente, a formação técnica como valor organizacional. E do outro, a “distanciação”, representada pelo “afastamento”, por exemplo, dos aspectos relacionais, comunicacionais e sociais. Essas experiências dilemáticas demandam habilidades para estabelecer o equilíbrio entre esses polos, para dar melhor direcionamento aos elementos potencializadores da resolução de problemas e a conversão do conhecimento.
Tal fato integra a nossa argumentação por uma formação reflexiva (para eles) que possibilite as condições para mediação, no sentido de aproximá-los à superação desses dilemas.
A nosso ver, a consultoria caracteriza-se, também, como uma função nuclear, devido a incorporar em seu bojo várias implicações sociais que integram os conceitos de “engajamento”, “distanciação” e “interdependência” e por estar inserida em uma cultura organizacional que tem como um dos valores para sua prática a formação circular em torno da resolução de problemas, conforme tencionamos evidenciar na Figura 15.