Eu acho que, ainda mais quando você... por exemplo, pra mim, não é que eu não quisesse casar. E não é que eu não tivesse tido, tive e talvez tenha vivido amores muito mais... amei muito e também acho que fui muito amada. Não tem nada haver uma coisa com a outra.
Lori
Três concepções a respeito da vida conjugal permeiam a história de Lori. Na primeira, observamos que Lori compartilha de valores precipitados pelo ideal de amor romântico. Deste ideal, adota uma razão para permanecer solteira e para manter a mesmice de um
romance eterno. Esta relação que não nomeia lhe confere uma denominação. A “Lori eternamente apaixonada” é esta personagem-mito que, embora tenha se relacionado com outros homens, tenha descoberto outras formas de se relacionar amorosamente além do casamento, ainda porta um caráter idealizado, platônico, que subsiste da confiança que demonstra ter no amor romântico.
Segundo Lori, é solteira por uma questão de incompatibilidade, ou seja, com quem quis se casar, não deu certo. Todavia, conta que este rapaz que amou foi seu parceiro por dezoito anos e quando deixou de ser, Lori se compromete com as recordações deste grande amor. Além desse compromisso, Lori zela pela sua independência, de fazer o que tem vontade, de ir e vir pra onde e quando quiser. Lori é fiel a sua liberdade e não se aventura a perdê-la por um caso de amor.
Encontramos uma segunda percepção, ilustrada no referencial de vida conjugal trazida por seus pais. O sentido de casamento como aliança é, ainda, muito presente na geração do início do século XX. Entretanto, o sentido exposto na noção “mulher que continua trabalhando fora é porque está solteira”, ganha um reforço: “se continuar solteira, tem que trabalhar”. Enquanto vivia no interior e era jovem, seus pais incentivavam-na para se casar, até porque havia encontrado “um bom partido”, ou seja, um rapaz com uma boa situação financeira. O fato de ter se tornado arrimo de família fez com que seus pais cessassem a cobrança para que viesse a casar, depositando em Lori a confiança de que podiam continuar dependentes dela, afetiva e financeiramente.
Dentre elementos arcaicos e novos, Lori descobre que há outras possibilidades de se conjugar. Vislumbra que relações não dependem do contrato e não precisam implicar, necessariamente, renúncias pessoais. Pelo contrário, os sujeitos da relação podem encontrar no parceiro apoio para novas metamorfoses de suas identidades e para realizar, até mesmo, projetos de vida pessoais.
Lori identifica que o padrão de casamento sofrera mudanças, mas sua fala mantém um
caráter conservador quando se refere às noções que circunspectam papéis de gênero: “em
parte a mulher antigamente ela tinha aquela... aquele sossego que ela não precisava trabalhar né. Então o homem é que ia trazer, que tinha que resolver tudo”. Aparentemente,
Lori parece conferir, com essas frases, um sentido expiatório ao trabalho feminino, como que se a mulher tivesse de pagar um preço pela sua liberdade. Todavia, ancora sua acepção na questão da “responsabilidade do si mesmo”, o que advém de uma proposta de vida autônoma
e de indícios de individualidade. A partir disso, Lori diz instruir suas sobrinhas para que se atentem às carreiras, pois observa que as noções que sustentam o casamento atualmente não são as mesmas que as de tempos anteriores. A escolha de Lori por determinado projeto de vida já é expressão de que a noção de casamento como “emprego de marido” pode ser descartado como único referencial de vida para as mulheres.
O contexto histórico a que Lori se reporta indica um cenário marcado pela referência de que vida conjugal e vida profissional são esferas que se dispõem claramente em oposição. Ainda assim, novas possibilidades podem ser vislumbradas e o relacionamento que Lori manteve por dezoito anos confirma isso.
A história de Neli nos oferece, também, exemplos de relações que corroboram os elementos valorativos que predominava em determinado cenário cultural. Quando Neli disse “não” para uma proposta de casamento que professava uma história igual a da sua mãe, ou seja, lhe propunha resignar-se ao lar e a família, transformou a condição de solteira em uma opção que lhe aparecia como única alternativa para seguir seu projeto de vida profissional.
Neli chega a considerar que pode ter “sacrificado” sua vida conjugal em prol de um projeto de vida profissional, o que não significa que não tenha vivido experiências afetivo- sexuais significativas. A questão da escolha aparece muitas vezes em sua narrativa e, de certa forma, são a partir delas que podemos conhecer Neli. Sua visão de mundo, seus valores, seus desejos e projetos. Conjectura-se, no mais, que ser solteira parece ter permitido à Elli o exercício da autonomia, ao que concerne uma cidadania sexual, e o desenvolvimento de sua individualidade. De acordo com suas próprias palavras: “Nunca deixei de viver aquilo que eu
sentia, mas as relações que eu tive foram aquelas que eu tinha certeza que eu deveria ter, com aquelas pessoas que eu deveria ter, e nunca gostei muito de ficar contando pra todo mundo o que é que eu tinha.”
Já a história de Elli se destaca ao expressar uma contradição. Sigamos em reflexão: A contraposição entre vida conjugal e vida profissional já não se sustenta mais por padrões e valores tradicionais. Pois, desde a década de 1960, acompanhamos transformações relacionadas às condutas sexuais e formas de conjugalidade. Mesmo que estas transformações não tenham um caráter revolucionário, já é explícito que outras formas são possíveis e, muitas delas, já realizadas na contemporaneidade.
Fica evidente, pela própria narrativa de Elli, que o fato de ter se casado não interferiu em seu projeto identitário, e que veio a se separar, segundo ela, por questões de ordem afetivo-sexual.
A “nova Elli solteira” é incitada pelos anti-exemplos das mulheres de sua família, que arroga serem “projetos de vida propositados por renúncias”. Ela também se despe de idealismos conjugais, como as referências amorosas que faziam com que a “antiga Elli solteira” acreditasse em “um mundo perfeito”. Desta forma, “Elli que se projeta no futuro” exaure seu projeto conjugal de utopias. Elli desconfia da possibilidade de uma relação conjugal. Desacredita da possibilidade de uma relação de parceria entre dois sujeitos autônomos possa acontecer. Receia que não encontre um homem “à sua altura e ao seu ritmo”. Suspeita que um futuro pai para seus supostos filhos não venha a provê-los de suas necessidades.
Com o decorrer das gerações, conjecturamos que a saliente percepção de Lori, de que um modo diferente de se conjugar possa ser imaginado, possa estar se esvaindo. Deste modo, pensar em uma crise de sentidos neste âmbito não nos dirige ao “esgarçamento” das relações afetivas. Mas, tal qual propõe Habermas (1983), é o fim de apenas uma utopia. E, como assinala Weeks (2000, p. 74), “nós ainda não sabemos o que por em seu lugar”. Voltando às considerações de Habermas (1983), uma emancipação nunca é antecipável, o que nos leva a concluir que o potencial de realização de uma vida a dois só pode se dar no ato de cada sujeito autônomo fazer-se em relação à outro sujeito autônomo. Relação conjugal é processo e assim se faz em construção, contudo, requer uma ação comunicativa para que seus procedimentos sejam consensuais, o que atende uma noção ampla de justiça, tal como Fraser (2007) a conceitua. Se estamos falando em sujeitos autônomos, nos aproximamos da noção de Habermas (1983) sobre o desenvolvimento da consciência moral e de uma proposta de sujeitos pós-convencionais, que implica, por exemplo, uma interpretação universalizada dos carecimentos. Podemos depreender daí, que, assegurada na relação a dois esta competência interativa, projetos de vida independentes e propostas identitárias pessoais poderiam, ao contrário do que se pensa, vir a angariar força e apoio dentro de uma vida conjugal. Já que utopias emancipatórias só se realizam em processos intersubjetivos e por meio do reconhecimento.